Desde que tinha nascido, Maria Luísa tinha feito o possível para cumprir as expectativas dos pais. Suas escolhas, decisões e ações tinham apenas um propósito: fortalecer a família e o prestígio que o nome dela carregava. Já estava acostumada a ser obediente, era mais fácil e confortável. Pra quê criar conflitos desnecessários se o resultado sempre seria o mesmo? Era isso o que pensava até a ridícula festa de aniversário que tinha sido organizada com o único motivo de conseguir um pretendente. Não havia sido divertido. Todos no salão de festa só enxergavam sua família e riqueza enquanto tentavam conquistar sua atenção. Ninguém queria conhecê-la. Ninguém queria saber o que lhe dava alegria ou o que a deixava aborrecida. Ninguém se importava, nem mesmo seus pais. A única coisa que tornava tudo aquilo tolerável, era a presença de sua melhor amiga, mas ela já tinha problemas grandes demais para conseguir ajudá-la de alguma forma. Tudo o que desejava era ir embora, mas não seria possível com o filho mais velho da família Caspari se gabando do quanto a família tinha ganhado na última safra. Enquanto o escutava, fazia questão de demonstrar o quanto aquela conversa estava sendo desagradavel, mas parecia não adiantar.
Foi nesse instante que o viu. Um completo desconhecido que parecia um tanto deslocado no meio de todos os convidados. Usava roupas simples, mas por baixo de tudo aquilo, tinha uma pessoa muito bonita. Claro que tinha que falar com ele! E foi até lá sem saber o que dizer. Quando se deu por conta, já estavam no jardim de inverno indo para sua casa. E pela primeira vez, falou o que realmente pensava. Organizou um jantar rápido para fazer com que se alimentasse e agradeceu no pensamento por Sabrina ter sido rápida o suficiente para tirá-lo dali. Ainda bem que não tinha presenciado a cena humilhante no andar inferior.
Levar aquele tapa foi como abrir os olhos pela primeira vez. Antes daquilo, nunca desobedeceu nenhuma ordem, nunca reclamou quando a tiraram da escola, nunca questionou o fato de ser exibida como um troféu nos jantares importantes e de nunca ter voz para dar sua verdadeira opinião. Era uma vida cansativa ter que atuar na maior parte do tempo até mesmo com o próprio pai. Se Ana Júlia não fosse sua amiga ou se não tivesse seu jardim secreto, Maria luísa sentia que já teria enlouquecido anos antes.
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