E hoje eu sou uma apanhadora de sonhos, não que meu futuro seja belo, ou mesmo que eu goste dele, mas nunca vou negar que esse dom é bom por que, afinal, me torna diferente de qualquer garota da minha idade.
Lembrei de quando tinha 14 anos, na festa de pijama da Yasmin.
Eu não queria que ninguém ali na festa dormisse – afinal, quem dorme em uma festa do pijama? – e eu tivesse que me desligar do mundo, de novo, contra minha vontade.
Por que eu simplesmente não posso sair da realidade e ir para o sonho de alguém quando eu estou entediada, quando estou na aula da Srta. Smith seria um ótimo momento já que, porra, aquela aula é um saco!
As meninas já estavam morrendo de sono e eu implorava a Deus para que elas não dormissem por que o que eu menos quero é entrar nos sonhos de alguém!
Algumas garotas passaram em direção ao banheiro, Marina – que vestia um pijama rosa, bem ridículo – foi em direção à escadaria gigante da mansão onde Yasmin – a organizadora da festa – morava. Tinha certeza que ela ia atrás do irmão de Yas – James – não que ele fosse um gato e tudo isso, talvez só um pouco, mas por Yasmin desconfiar de minha paixonite por ele ela faz questão de dar em cima dele o tempo todo, todo o tempo. Isso me deixa irritada às vezes (leia-se sempre).
E então algo pior do que alguém dormir na festa aconteceu: a porta do quarto de James foi aberta e – infelizmente – ele estava dormindo. A partir do momento em que a porta foi aberta eu fui puxada para o sonho dele e agora meu corpo estava sem controle enquanto eu me encontrava dentro da cabeça do garoto mais lindo do mundo.
E eu observei a linda paisagem que se instalava ao redor do telhado em que eu estava sentada; via milhares de estrelas no céu há anos luz de distância, via uma lua linda brilhando,mas não via James em lugar algum.
E então eu o vi, ele veio em minha direção e se sentou ao meu lado, meu corpo sofreu espasmos pelo simples fato de ter sua presença ali, comigo. Mas então o inacreditável aconteceu, ele virou para mim, afastou uma mexa de cabelo que cobria meu rosto e me beijou.
Espera, eu tenho duas dúvidas extremamente importantes; primeira: por que motivo ele beijou a Sam que assiste o sonho e não a que devia participar e segundo: esse sonho, afinal, é meu ou dele? Por que isso costuma acontecer apenas em meus sonhos.
E então a realidade voltou à tona, ele acordou e eu voltei para a sala onde todas as meninas agora olhavam de forma estranha para mim, ótimo, mais um lugar para falarem que eu sou louca.
Eu tentei me levantar, mas aquilo parecia cada vez mais inútil, minha visão embassada não ajudou muito – ou melhor, nada – e também, para completar, minhas mãos doíam demais para tentar me apoiar em algum lugar, mas então alguém apareceu e me ajudou a me levantar, me vi sendo retirada do chão e senti como se estivesse subindo a escadaria, mas minha visão ainda não havia voltado. Acho que eu ficarei cega logo, pensei prendendo algumas lágrimas, afinal Janie me disse que começou com a vista mais prejudicada a ponto de usar óculos aos 17 anos e eu já estou em um estágio muito mais avançado que esse aos 14.
E então eu sentei em uma cama macia e a pessoa colocou uma barra de cereais em minhas mãos.
- Coma – reconheci a voz como sendo James -, logo sua visão voltará.
E então ele se afastou, parei de sentir o calor de seu corpo próximo ao meu e eu mastiguei a barra de cereais e finalmente minha visão voltou ao – quase – normal. E vi James sentado em uma cadeira na escrivaninha com a cabeça enterrada nas mãos murmurando coisas desconexas.
- O que houve, James? – lhe perguntei preocupada – está se sentindo bem?
E ele me olhou, pude ver apreensão e preocupação em seus olhos.
- Não, Sam, não está tudo bem – ele parou de falar e após um momento continuou: — não era para você estar nesse estágio.
- Como assim “nesse estágio”? – perguntei extremamente confusa.
- Sua visão... ela está muito pior do que deveria.
- Como... Como você sabe sobre minha visão estar pior ou melhor do que deveria?
- Eu sei de tudo – assustada, esbugalhei meus olhos – eu sei sobre você ser apanhadora de sonhos, sei sobre tudo!
- M-mas como? – gaguejei.
- Você sabia que eu tive uma irmã mais velha, Sam? – ele perguntou e eu apenas neguei com a cabeça – não falamos muito dela, mas ela adorava pegar coisas dos outros, até que pegou o caderno da mochila de uma garota na escola e leu tudo sobre apanhadoras de sonhos entrarem em sonhos sem querer, sobre a cegueira, sobre a perda de movimento das mãos... sobre tudo e, bom, ela me mostrou esse caderno. Inicialmente eu achei que era um livro que a garota estivesse escrevendo, mas então eu vi você, percebi como quando alguém dormia na aula você se desligava do mundo, literalmente, e como você às vezes tinha dificuldade para segurar o lápis quando voltada à realidade.
Engoli em seco, ele sabia de tudo, de cada pequeno detalhe... mas se ele sabe de tudo por que me deixou entrar no sonho dele hoje e... tudo isso?
- Se você sabe de tudo isso... por que me deixou entrar em seu sonho agora a pouco? – perguntei um pouco corada.
- Eu queria que você fosse – e ele se levantou e veio em minha direção – queria que você visse o que eu queria fazer com você.
E então se eu estava corada naquela hora imagine agora? Estava corada desde a raiz do meu cabelo!
- Vo-você queria me... – comecei a falar trêmula.
- Sim, Sam – ele sorriu – eu queria te beijar desde o dia que te conheci, jogando bola na aula de educação física.
E então ele veio em minha direção diminuindo cada vez mais o espaço que havia entre nós, eu pude sentir seu hálito quente de encontro ao meu e então o inesperado – ou talvez nem tão inesperado assim – aconteceu: a porta do quarto abriu em um tremendo estouro e de lá uma Marina puta da cara entrou quase me batendo.
Então ela virou para mim e gritou:
- O que você pensa que está fazendo com meu namorado no quarto dele a sós?
As palavras nela nem mesmo tiveram tempo de me fazer sentir dor antes de eu ser levada novamente até um sonho. James.
- Oi – ele sorriu — desculpe por te trazer aqui sabendo das conseqüências que isso te trará mais tarde, mas como a Marina idiota interrompeu, que tal continuarmos aqui?
Seu sorriso maroto me seduziu, mas então eu lembrei das duras palavras dela ao dizer “meu namorado”.
- Você e ela estão... namorando? – aquilo desceu queimando.
- A única garota que eu quero namorar aqui, Samantha, é você – e então ele veio em minha direção e me beijou, ficamos abraçados por algum tempo até que ele disse o que eu não queria escutar:
- É hora de acordar, Sam.
Eu não queria acordar, não queria voltar ao mundo real, ter que encarar a todos e se lá não fossemos namorados nem nada do tipo?
- Eu não quero voltar à realidade, James – disse tristonha.
- Você tem outro lugar para ir comigo quando você quiser – ele sorriu de forma doce a acolhedora me abraçando de lado – aqui é muito mais que um sonho é uma super-realidade.
E então suas palavras de trouxeram um tipo de conforto sem igual, era como se agora ir para os sonhos de alguém fosse um milhão de vezes melhor, principalmente se fosse o sonho dele.
- Mas antes de irmos – ele me segurou pelo braço – você não me respondeu.
- Não te respondi o que? – perguntei confusa.
- Você quer ser a minha namorada?
- Aqui ou no mundo real? – perguntei por fim.
- No mundo real, aqui, no céu, onde quer que estejamos, Samantha, eu quero estar ao teu lado, sempre!
- James, você sabe que logo eu não enxergarei mais... – disse com voz embargada de choro.
- Que eu saiba, dona Samantha, em sonhos você enxerga muito bem – assenti – então, se for para estar contigo, viveremos para sempre aqui, na nossa super-realidade.
E então eu não utilizei nenhuma palavra para dar a minha resposta apenas lhe beijei e voltamos à realidade.
- Samantha – Marina ainda gritava no quarto – você está me escutando? O que você estava fazendo com meu namorado a sós?
E então, assim que minha visão voltou completamente, olhei para James que sorriu de forma acolhedora e eu soube o que falar imediatamente:
- Bom, nem sabia que estava com seu namorado, então sinto dizer que com seu namorado eu não sei, mas como o meu estávamos tentando fazer isso – e me movimentei rapidamente em direção a ele, mas antes mesmo de eu beijá-lo ele o fez e foi muito melhor do que em sonhos por que mesmo a nossa super-realidade sendo perfeita, o que melhor do que o mundo real?
Ele se abaixou e sussurrou em meu ouvido:
- Foi só para mim ou beijar acordado é muito melhor do que dormindo?
E eu lhe respondi no mesmo tom:
- Não foi só para você, amor.
E agora, vinte anos depois, em meus trinta e quatro anos sinto dizer que sou cega, desde os trinta anos, não que isso tenha me impedido de viver com James o nosso casamento pois podíamos aproveitar um ao outro na realidade e eu podia vê-lo e novamente em seus sonhos. Nunca cansarei de nossa super-realidade.
