“Hannah...”
Ela estava linda, com um vestido vermelho que combinava com sua pele branca e a cascata negra que era seu cabelo – agora comprido. Ela dançava uma música aleatória, pulando e dançando, toda feliz como jamais a vira. Eu estava igual a um idiota olhando para ela. Espera... eu sou um idiota. Meu estado de espirito se elevou ao ver aquele sorriso tão raro, como gostaria de vê-la sorrindo mais vezes! Não precisava perder tempo, então corri até ela, chamando pelo seu nome alto, mas ela pareceu não ouvir e muito menos notar minha presença, mas continuei mergulhando entre algumas pessoas que se balançava no ritmo da música que tocava alto.
“HANNAH” gritei novamente, sem uma resposta da parte da garota.
Todos da festa sumiram subitamente, para mim pareceu algo tão normal que nem me assustei ou estremeci, apenas continuei andando. Não restava mais ninguém naquele espaço a não ser eu e Hannah Baker. Um cala frio percorreu pelo meu corpo e meu coração já estava bombeando mais rápido; enquanto meu cérebro processava algo coerente para dizer a garota meus pés se agilizavam em me aproximar da mesma. Finalmente os olhos de Hannah se dirigiram a mim, e assim permaneceu por alguns segundos, antes de, para meu desespero, a garota se transformar em uma lápide de mármore branco preso ao piso do chão.
- NÃÃÃÃÃÃÃÃO! — berrei, meu corpo se balançando em forma de protesto, até minha consciência retomar a mim.
Minha mãe estava agachada de fronte ao sofá em que, minutos antes, eu estava tendo mais um de meus costumeiros pesadelos com Hannah Baker, também conhecida como a garota que se suicidou há dois meses. Soltei um suspiro e olhei com meus olhos cansados e sem vida para minha mãe; ela estava tão acostumada comigo berrando ou falando em minhas noites de inquietação, e no entanto eu só tinha que agradecê-la por não fazer muitas perguntas. Quanto menos ela perguntasse, menos eu mentiria.
- Clay querido, estou preocupada com você, tem certeza que não precisa de comprimidos para dormir? — pergunta minha mãe, tão gentil e amável que me senti um besta por não contar tudo que aconteceu para ela. Sobre eu e Hannah. Sobre as fitas que recebi. Sobre todos os assuntos que, desde então, tem me deixado apavorado.
Obrigado, Hannah, você quis acabar com sua vida, mas acabou com a minha também ao enviar aquelas malditas fitas. Eu não queria ouvir todas aquelas palavras, eu não precisava ouvir.
- Mãe, eu estou bem. Só estou cansado, vou dormir — deposito um beijo na cabeça de minha mãe e me levanto cambaleando do sofá. Pelo oque me lembre eu estava assistindo um filme quando cochilei, e logo os pesadelos vieram a tona, porque o sofá realmente não é o lugar apropriado para sonhar com carneirinhos felizes.
Subi as escadarias correndo, até chegar ao meu quarto que ficava no segundo andar. Ao entrar pela porta eu a fechei atrás de mim, lacrando-a com a chave. Joguei-me na cama de modo que minha barriga recebia o meu peso, a mesma ficando na posição inversa, para baixo.
Quando eu recebi a caixa de sapato com as fitas que contava os trezes motivos por Hannah Baker ter se matado, eu juro que pensei que era uma brincadeira tosca, comecei a ouvir só para saber sobre o assunto, até que vi que aquelas fitas cassetes tratavam de um conteúdo sério, duro e dolorosamente verdadeiro. Em menos de vinte e quatro horas eu já havia escutado as sete fitas, e a partir daquela noite que eu comecei a me perder.
Por pelo menos duas semanas eu fiquei parado nos corredores da escola esperando a próxima vítima das fitas, queria ver como a pessoa ficaria, sua expressão, queria ver a dor em seus olhos, o pesar de seus passos, a vergonha estampada nítida. Principalmente a aqueles que fizeram mal a Hannah. Tony me ajudou muito durante essas semanas, ele havia ouvido as fitas, e com isso pareceu adquirir uma certa pena de mim a partir de então, — não que eu gostasse disso, eu odiava que sentisse pena de mim, mas com quem eu iria conversar sobre isso? Não tinha como! Só tinha ele com quem desabafar, e por isso o aceitava.
O sr. Porter recebeu o lance de fitas ontem, de acordo com Tony, e então o ciclo de Hannah está completo, sua última vontade fora feita. Agora estou louco pra saber a reação do sr. Porter. Claro que ele não iria adivinhar que quando Hannah Baker o visitou em sua saleta na escola era para ter a certeza de que iria acabar com a vida ou não. Bem, mas assim como eu, ele iria adquirir um pesar de culpa, um pesar de não se sentir suficientemente bom para mudar uma vida. Como eu me sentia agora, eu me sentia insuficientemente bom para poder mudar, nem que seja minimamente, uma vida. Fazer uma vida feliz, mudar o pensamento dessa vida. Céus! E a Skye? Peguei o celular do bolso e procurei um número na agenda.
- Oi — eu digo esperando alguma voz do outro lado da linha.
- Oi, quem fala? — a voz feminina hesitante e tímida respondeu.
- Quem fala? — retruquei.
- Você que ligou pra mim.
Sabia que qualquer pessoa se irritaria com isso, afinal, se eu liguei para seu número e devia no mínimo saber para quem eu liguei.
- Gostaria de falar com Skye, por favor.
- Ela não se encontra no momento — ela disse, mas, pelo amor de Deus, é claro que era a Skye que falava.
- Nem para mim? — digo, um sorriso bobo criando forma em meu rosto, assim a voz um pouco... diferente.
Consegui ouvir um “aah” do outro lado da linha; mesmo nunca tendo nos falado antes por telefone acho que Skye Miller conseguiu identificar minha voz.
- Clay Jensen, você é um idiota — ela disse, ouvi uma risada abafada ao final da frase.
- O.K. Então esse idiota irá te pegar 7:30 amanhã para irmos a escola.
- O.K.
Desligo o aparelho e o deixo a deriva na cama, pensando na minha situação com Skye. Eu estava salvando a vida dela. E além de tudo, estava tentando salvar a minha. Desde que Hannah se foi, senti a necessidade que eu tinha em ficar imaginando nós dois juntos, e agora essa necessidade não está sendo preenchida de forma adequada. Não é que eu esteja usando a Skye, não estou MESMO. Afinal, por mais que seja extremamente tímida e tenha tido uma infância sofrida, ela é amável e tem um jeito incrivelmente charmoso.
Ela conseguiria realizar a tarefa de escrever nas páginas em branco que Hannah não havia sequer começado a escrever.

