Seus olhos se abriram lentamente, contemplando a turva visão à sua frente. Ela piscou, focalizando a imagem. Antes que percebesse, seu corpo ia em direção a brita e aos trilhos. Nem se quisesse, teria tempo de reagir e voltar à plataforma e ser abraçada pela segurança trazida pela linha amarela. E mais uma vez ela havia falhado. Se não fosse tão desastrada e idiota, teria conseguido salvar pelo menos a si mesma, e assim, não sucumbiria de forma tão estúpida. Sem dúvidas, este seria o último de seus erros. O décimo-terceiro, o qual ironicamente coincidia com o dia de hoje. “ 13 de março de 2022" Este é o dia em que minha existência será, enfim, drenada para sempre” — pensei, fechando os olhos pela última vez.
Esperei pelo impacto causado pelo aço, que deformaria minha pele, quebraria meus ossos e me arrastaria até o próximo destino. O sangue também jorraria pelo caminho, marcando minha passagem pelos trilhos. E no final, seria jogada numa vala, talvez cremada, enterrada. Na verdade, não importava tanto assim. Desde que minha consciência estivesse longe daqui, deste mundo, estaria tudo bem. Desde que eu encontrasse a mamãe lá.
Porém, nada ocorreu. De repente, algo me agarrou por trás, puxando a gola da blusa e me trazendo para a zona segura da plataforma. Mal tive tempo para processar o que acabara de acontecer, quando encostei minhas costas em uma pilastra próxima. Meu salvador deu a volta em torno de mim e pôs suas mãos, cobertas por finas luvas de veludo, delicadamente sobre meus ombros. Seus olhos banhados a ouro encararam-me preenchidos de preocupação, seus pêlos cor de lavanda roçavam nos meus, ainda eriçados pela adrenalina. Também arfava forte e intensamente, trazendo seu hálito quente, que se dissipou a cada expiração. “Você está bem?” — perguntou a elegante mulher que havia me tocado anteriormente. Acenei com a cabeça em resposta, pois não conseguia olhá-la diretamente. Após alguns minutos, meu trem chegou. Então, me virei em direção da senhora dos olhos áureos, curvei-me em agradecimento e adentrei a locomotiva. Olhando através do vidro da porta, lá estava ela acenando. Gesticulei de volta enquanto sua silhueta se borrava, desfocando-se juntamente com a paisagem ao embalo do trem.
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