Tiago
— Vamos fazer o numeral oito. Quem aqui sabe qual é? — Tiago estava sentado no chão ao lado dos seus alunos, meninos e meninas entre 6 à 9 anos, que estavam sentados em pequenas cadeiras ao redor da mesa redonda. Ouviu as crianças gritarem que sabia, uns levantaram as mãos, outros ficaram em pé, apenas 3 não esboçaram uma reação de alegria por saber. — Ana!
— Oi, tio. — a menina roia as unhas envergonhada.
— Vem aqui, vamos fazer uma brincadeira. — a menina se levantou e foi até ele. — Ô criançada, quando um amiguinho ou amiguinha não sabe fazer alguma coisa o que a gente faz? — perguntou.
— ENSINA!!! — gritaram os alunos.
— Tio, eu posso pegar as tintas? — o pequeno Mateus perguntou e Tiago confirmou.
— Hum… quem aqui quer ser o quadro pra nossa amiga Ana aprender a fazer o número 8? — perguntou olhando pras crianças, onde recebeu ainda mais gritaria. Todos queriam participar. — Olha aí, Aninha… Muitos quadros pra você pintar. Mas, quem mais aqui não sabe fazer o número oito e quer aprender? — os outros dois levantaram as mãos contagiado pela alegria dos coleguinhas. — João e Pedro também serão os pintores. Vamos fazer uma filha pra não ficar tanta bagunça. — disse rindo, os meninos lhe obedeceram. — Ah, quem vai querer ser o primeiro a ensinar?
— Tio! Tio!! Eu posso ser o primeiro? — Mateus estava com a caixa de tintas nas mãos, se mostrava ansioso.
— Claro que pode! — pegou a caixa e pediu pra Ana escolher qual cor ela queria primeiro, depois deixou-a no chão próximo dele. O primeiro a ser pintado seria o Lucas. — Aninha, primeiro o Mateus vai pegar na sua mão pra te ensinar, ok? Mateus, tem que ser devagar, não esqueça. — os meninos balançaram a cabeça concordando. Então Aninha passou o dedo na tinta amarela e Mateus pegou em sua mão levando até o rosto de Lucas, onde bem devagar fez o numeral oito em um lado da bochecha dele, ela pediu outra cor e Mateus fez o mesmo com ela no outro lado da bochecha. — Quer fazer sozinha agora, princesa? — perguntou colocando o cabelo dela pra trás, ela tentou levar a outra mão que não estava suja de tinta a boca para roer, mas Tiago segurou a mão dela entre as suas. — Não precisa ter vergonha, ninguém aqui vai rir de você, tá bem? — ela balançou a cabeça, mas disse que queria Mateus a ajudasse mais uma vez e o menino o fez. Por fim, ela tentou só e conseguiu fazer o número oito, meio torto, mas toda turma a parabenizou gritando e pulando.
— Obrigada, tio Tiago! — ela agradeceu abraçando ele e o beijando na bochecha. Ele sorriu para ela e voltou a ajudar os outros.
Eram essas pequenas coisas que o fazia continuar a ensinar, ele não conseguia mais se ver em outro local a não ser ali, ainda mais em algo que era completamente dele. Pra ele não existia recompensa maior do que ver nos rostos das crianças um sorriso feliz por ter conseguido fazer algo que antes eles tinham tanta dificuldade.
— Clara, vou almoçar. Volto antes que a turma da tarde chegue, ok? — Clara era uma das voluntárias que ia lá duas vezes na semana ler histórias infantis para as crianças. Também ajudava às vezes na recepção. — Você quer que eu traga algo pra você comer?
— Ih, Tiago… não precisa! Trouxe comida hoje, mas valeu.
Se fosse qualquer dia ele comeria em qualquer lugar próximo dali, mas hoje sua irmã estava pela Paulista assistindo filme e o chamou para almoçar com ela, como o IBE (Ilha do Bem Ensinar) não ficava tão longe dali resolveu ir a pé, fazia muito tempo que não andava por lá e seria bom ver se continuava tudo do mesmo jeito. Se o Masp continuava incrível, os pequenos parques e se ainda existiam músicos tocando nas calçadas. E sim, tudo estava como ele lembrava, o que era bom, pois assim não se perderia. Sempre imaginou São Paulo como uma cidade enorme, com muita gente circulando de um lado para o outro, muita diversidade de cultura e de costumes, mas não esperava que em meio a tanta gente fosse voltar a vê-la.
No começo Tiago sentiu um certo choque, afinal foram anos sem se encontrarem, após darem o ponto final em Ilhabela não haviam voltado a se ver e todos esses anos longe também não sabia nada da vida dela. Após o choque inicial, sentiu seu corpo se aquecer como antes, mesmo com o passar dos anos ele parecia reconhecer a presença dela mesmo que estivesse ainda um pouco distante dele, se aproximou dela e olhou bem o seu rosto, não acreditando que ela estava com a mesma aparência de que quando a conheceu e vê-la assim, com uma áurea tão bem, parecendo estar em paz, o deixou bem e feliz. Sorriu para ela, pois foi inevitável não sorrir e ela lhe sorriu de volta, era como se falassem que estava tudo ok, sem mágoas — mesmo sabendo que ainda existia algumas lá no fundo-, mas ali estavam invadidos por sentimentos bons um pelo outro.
Foi um encontro tão inesperado que nem havia reparado que estava voltando para o mesmo lugar de onde veio. Tiago lutou contra o desejo que corria por suas veias de voltar até ela e procurar saber como ela estava, sentia necessidade de conversar com ela, de voltar pra perto dela, mas desistiu. Só parou e a observou voltando na mesma direção que veio, olhando sempre para trás com um sorriso que lhe aqueceu o coração.
Era estranho se sentir assim, havia tantas coisas entre eles do passado ainda e apesar de conhecer Isabela, não conhecia a pessoa que ela é agora. Gostaria, mas não sabia se era o certo. Ou se era o momento. Entretanto achou incrível o quanto eles continuavam a se comunicar com o olhar. De surpresos, para curiosos, alegres e saudades, uma avalanche de sentimentos ditos sem uma palavra, eles não precisam de nada disso. Nunca precisaram.
Saiu de seus devaneios quando ouviu seu telefone tocar, era sua irmã perguntando onde ele estava, perguntou se ela poderia vir ao encontro dele, estava desnorteado demais para sair em sua procura.
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