Tinha um homem parado exatamente pra onde meus olhos apontavam, e ele olhava pra mim. Era alto e seus cabelos escuros, trançados em uma única trança que caía sobre seu ombro. Era, com certeza, mais alto que eu. E tinha asas. Asas brancas e lustrosas, grandes o suficiente para sustentar o corpo de alguém. Quis falar. Quis perguntar se ele era um anjo, mas agora era como se a voz com a qual eu gargalhara tão alto nunca tivesse existido.
— Eu sei o que você quer. – Foi a primeira coisa que ele proferiu. Eu, sem entender. Ele levantou as asas e as bateu, e eu senti uma lufada de vento vindo em minha direção. Ergueu-se uns centímetros do chão. Falou mais alto. – Sei exatamente com o que sonha. – Continuou. As asas pesadas batiam de um modo ritmado e o mantinham no ar. Eu engoliria em seco se não fosse meu estado contínuo de estupefação. Meu corpo parecia ter sido colado naquela árvore. – Você sonha. E sonha muito, sonha alto. Mas... – a pausa dramática que ele fez foi o suficiente para me prender mais ainda em suas palavras, como se, por si só, não fosse enigmático o suficiente. Ele sabia como proferir cada sílaba de um jeito que me encantava. – Você não sonha com dinheiro ou bens, como outros seres humanos. – Ele afirmou, e estava correto. Como ele sabia de tudo isso, eu continuava me perguntando. Mas me deixei levar pela correnteza e foquei somente nele, direcionava meu olhar geralmente tão disperso, que não parava em um só ponto, apenas a ele. – Você sonha em voar. Percorrer os céus com passos tão suaves e rápidos que o próprio deus Hermes lhe invejaria. – O homem tirou as palavras da minha mente. Era esse tipo de pensamento que vivia passeando por minha cabeça, como um sonho de criança que se recusara a deixar a consciência.
Eu me recordei dos diversos sonhos que tivera, e eles pareciam nunca terem desaparecido mesmo eu tendo-os esquecido. Costumava correr sobre os céus, com os pés descalços, rindo-me alto. Pisava no manto de nuvens suavemente, e meus pés não caíam no vão quando a nuvem na qual eu corria ficava para trás. Eu erguia as asas gigantes que pareciam sempre estarem ali e as batia, e voava. Brincava comigo mesmo e rodopiava pelo céu, atravessando as nuvens que pareciam tanto pedações de algodão doce. E eu me lembrava bem, que era como se o som das minhas risadas ecoasse por toda aquela infinidade e preenchesse o céu.
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