He Tian observa as costas de Mo Guan Shan, correndo os olhos pelos sutis músculos que se movem por baixo da camiseta branca do ruivo. O modo como a nuca de Guan Shan está descoberta e vulnerável, a pele pálida quase brilhando diante da iluminação forte do corredor que os leva até a porta do apartamento de He Tian.
O de cabelos negros desce o olhar lentamente, tentando apagar o formigamento de necessidade que se acende em seu cerne. Seus olhos — negros e insondáveis — se concentram no casaco manchado de vermelho que está preso firmemente no aperto do ruivo, como se soltá-lo desencadearia um desastre natural.
Eles pararam em frente a porta, Guan Shan virou-se parcialmente, falando sobre o que ele havia feito pelo apartamento enquanto tentava colocar, desajeitadamente, seu casaco na sacola de plástico onde ele havia guardado suas outras peças de roupas também manchadas com molho de tomate.
— Você pode me pagar pelo trabalho mais tarde.
He Tian parou, colocando suas mãos nos bolsos da calça numa tentativa de autocontrole. Ele sabia que o ruivo fazia todas aquelas coisas, na maioria das vezes, em troca de dinheiro, mas He Tian esperava que, daquela vez fosse diferente já que fora o próprio Mo que havia vindo até ele em um impulso de preocupação que o moreno só havia visto uma vez desde que haviam se conhecido.
He Tian interrompeu seus pensamentos ali, não querendo lembrar de Guan Shan sendo ingênuo e frágil diante da enganação e falta de caráter de She Li. Lembrar da luta com o grisalho também não era algo que He Tian gostava de lembrar.
— Você quer dinheiro? — Ele decidiu responder Mon Guan Shan com uma pergunta que era um território mais seguro que seus próprios pensamentos. — Mas eu não pedi para você limpar.
He Tian sorriu diante das sobrancelhas franzidas do ruivo e dos olhos ambarinos sempre tão expressivos quando se tratava de seu desgosto pelo moreno. Tian ignorou a pontada dolorosa em seu coração ao pensar que desgosto seria sempre tudo o que ele conseguiria fazer Mo sentir por ele.
Aquele era um território perigoso. Era um dos elefantes metafóricos que He Tian continuava a deixar enfeitar sua sala e ele não se importava muito com isso, ele tinha muito espaço naquele apartamento para todos os seus elefantes metafóricos. Mas, parecia que estar doente fazia He Tian mais vulnerável e uma presa fácil para ser pisada pelas patas de seus elefantes.
Ele odiava estar doente, mas a sensação de ter a completa atenção e preocupação de Mo Guan Shan voltada somente para si tornava a coisa toda um pouco mais tolerável.
— Não é problema meu.
He Tian quase bufou, achando a frase de Guan Shan muito irônica para aquele momento. De fato, o problema não era de Guan Shan, ele era o problema em si; deixando He Tian sempre confuso e impulsivo demais. Não que He Tian não fosse normalmente impulsivo, mas até mesmo em seus momentos de euforia ele estava completamente no controle de si mesmo e dos outros, mas com Guan Shan esse controle parecia quase evaporar, deixando He Tian sempre nas pontas dos pés quando se tratava de suas interações.
No início havia sido fácil manter o controle, Guan Shan era somente alguém um pouco mais interessante entre tantos outros estudantes, mas que era fácil de quebrar e torcer para a submissão que He Tian exigia — silenciosamente e de modo implícito — dos outros ao seu redor. Mas então, em algum momento as coisas mudaram e He Tian se via andando em uma corda bamba, sempre indeciso sobre pender para o lado em que ele mantinha o absoluto controle ou para o lado que ele se importava, genuinamente, com o Pequeno Mo e tudo que o envolvia.
Na maioria das vezes, esse lado — apagado pela figura distante e imponente de seu pai e pelas frias lições de seu irmão sobre o dever e os negócios da família — vencia, deixando He Tian para catar os cacos de suas paredes de ferro tão bem construídas, mas que se desmoronava sempre com a visão de fios ruivos e olhos ambarinos que queimavam com pura paixão.
— Dessa vez eu quero o dobro do pagamento. Também me pague pelas roupas. — He Tian não protestou, observando a luz do corredor de seu apartamento se mesclar com os fios curtos e ruivos de Guan Shan, criando um contraste bonito com a pele de seu pescoço ainda manchada com o molho de tomate.
Parecem chupões. He Tian pensou por um segundo fugaz, mas logo fechou os olhos, tentando apagar as imagens que sua mente estava tentando criar para iludir o adolescente.
— Tão mesquinho…?
He Tian ainda estava de olhos fechados, mas deixou um de seus sorrisos, que sempre irritava Guan Shan, se espalhar pelos lábios rachados numa tentativa de apagar a pequena lasca criada na máscara tão bem composta do moreno.
He Tian não havia de fato falado aquilo para Mo Guan Shan, mas para si próprio, já que as imagens pecaminosas ainda rolavam vividas por trás de suas pálpebras. Claro, o ruivo não era um bem material, He Tian não era tão sujo ao ponto de pensar que Mo era algo como somente um objeto, mas enquanto Guan Shan era sempre tão ligado ao pensamento de ganhar dinheiro, He Tian era ligado ao pensamento de ganhar algo mais do Pequeno Mo além das expressões rabugentas e lágrimas.
Ele não pensou muito quando deixou sua mão se enroscar na parte de trás de Guan Shan, virando o rosto do ruivo para a frente, tentando esconder de Mo seu coração que parecia estar nadando em seus olhos avermelhados de sono. He Tian também virou-se parcialmente, sem querer gravar a imagem permanente de seus dedos enroscados nos fios curtos e acobreados de Guan Shan ou da sensação de calor de sua palma contra a pele descoberta da nuca do ruivo.
— Vou pagar dez vezes o preço.
He Tian o larga, se virando totalmente e voltando a colocar sua mão no bolso, somente ouvindo o clique da porta confirmando a saída de Mo Guan Shan. Ele tenta manter sua máscara de indiferença, mesmo sabendo que já está sozinho naquele grande e parcialmente vazio apartamento.
Sua mão parece estar queimando com a sensação fantasma de fios acobreados e pele de porcelana — coberta de manchas vermelhas bonitas que queimam um desejo profundo e luxurioso no interior de He Tian — ao redor de sua palma.
He Tian não tem pesadelos naquela noite.

