Dia difícil. Não que todo mundo nunca tivesse tido um dia cansativo e cheio de trabalho, mas queria muito sair. Muito, muito mesmo. E essa era sua intenção quando pegara as chaves do carro e dirigira-se à saída do apartamento, sem nem sequer dar qualquer tipo de satisfação para o namorado.
- Ei!
Bom, já era, ele notou.
- Ei, ei, ei!
Tão chato...
- O que foi, Miku?
- Tá indo pra onde?
- Eu vou sair.
- Isso eu sei! A minha pergunta foi pra onde.
Como uma coisa tão pequena conseguia ser tão chata? É... Fazia essa pergunta a si mesmo todos os dias, desde que começaram a morar juntos.
- Não sei, dar uma volta. Tô precisando.
- Dia cheio?
- Você nem sabe. Muito trabalho.
- Entendo...
O silêncio fez-se presente. E, então, o guitarrista achou que aquilo fosse quase que uma confirmação muda de que pudesse sair um pouco.
- Vai de carro?
Mas nunca estava certo. Não quando se tratava sobre o mais velho, até porque ele é alguém tão, tão imprevisível que... Incrivelmente, chega a ser totalmente previsível.
- Vou, vou sim.
- Colocou gasolina?
- Já tinha, não costumo usar dela tanto assim.
- Não prefere ir à pé? É melhor... Tem algum lugar específico em mente?
- Quero ir de carro, é melhor pra dar uma volta. E, não, não sei pra onde eu vou.
- Tá, pode ir!
Ah! Era realmente aquilo que queria ouvir. Podia sentir seu interior sorrindo e, rapidamente, abrira a porta de casa.
- Ei, ei, ei!
- O que foi, Miku?
- Me trás sorvete!
- Do quê?
- Sei lá, qualquer coisa. Morango?
- Tá, na volta eu trago.
- Eu quero agora.
- Por quê?
- Eu quero agora.
- Não dá!
- Mas me trás um sorvete agora! Você vai, compra, trás pra cá e fica tudo bem. Não é difícil, takuya!
Ele era tão lindo. Mas, definitivamente, conseguia ser pior que qualquer tipo de mulher. São nesses momentos que takuya percebe a paciência enorme que tinha com aquele rapaz.
- Não, melhor não...
- Aaaaah...
- Quando eu voltar, nós tomamos juntos.
- Mas você nem gosta de morango.
- Eu compro outro.
- Ah, mas aí fica caro.
- Não tem problema...
- Tá, tá. Deixa! Me traz um de chocolate. Nós dois gostamos.
- Certo. Tchau.
- Idiota! Espera!
- O que foi?
- Me trás um de morango, e compra outro pra você.
- Mas eu tava falando isso desde o começo! — bufou.
E a paciência, mesmo?
- Você tá sendo irônico?
- Não, Miku! Vou indo mesmo.
- Por que você precisa dar uma volta?
- Preciso espairecer... Estou realmente precisando.
- Ah, certo, então tudo bem.
- Já volto, tchau.
- Espera, me dá um beijo!
Deixou a porta aberta e caminhou em passos rápidos e largos até o pequeno, apenas pressionando os próprios lábios aos do mesmo de maneira rápida. E, assim, voltou para a saída do local, como se fosse realmente sair.
- Ei, espera.
- O que foi agora?!
- Ai, grosso! Vai. Pode ir!
- É o que eu tô tentando fazer há dez minutos!
- Que isso? Que tom é esse? Tá indo encontrar alguém?
Bom, ele fez uma pose muito engraçada. Sua cara de indignação e as mãos na cintura fizeram com que takuya quase risse da situação, mas optou por segurar sua risada. Caso contrário...
- Você tá dizendo que vou te trair?
- Sabe como é, né.
- Hein?
- Homens!
- Ei, tá generalizando ou tá falando de mim?
- Generalizando.
- Você é homem também!
- Dane-se.
- Tá, tá! Sabe que eu nunca te trairia. Agora vou mesmo!
- Espera!
- O que foi, cacete?!
- Leva o celular, seu estúpido!
- Nããããão!
E, bem, mais uma vez o silêncio reinou. Miku observou o namorado com certa angústia, diminuindo pouco mais os olhos.
- Desculpa a desconfiança, só estou com saudades.
Aquela cena havia lhe comovido... Ainda assim, gostava dele. Por mais problemático que fosse.
- Tudo bem... Desculpe por ser grosso.
- Certo... Olha, eu te amo.
- Também te amo. Posso ir?
- Espera! Posso mexer no seu celular?
- Pra quê?!
- O quê? Você tá me escondendo algo?!
- Ai! Que saco! Vai lá mexer.
- E aonde tá? Você tá escondendo ele de mim.
- Caralho, Miku, tá no lugar de sempre!
- Não seja grosso.
- Ei? Tá nervoso?
- Não!
- Tá, agora eu vou mesmo. Tchau.
- ESPERA!
Jogou os ombros e revirou os olhos, pousando estes sobre a figura masculina que estava lhe enchendo o saco aquela noite.
- Não quero mais sorvete.
- AH! — com raiva, fechou a porta e adentrou o apartamento novamente com passos fortes, jogando as chaves com estupidez no sofá. — Também num vou mais.
- Vai ficar?
- Vou.
- Ah! Vai ficar comigo?!
- Não! Agora eu vou dormir.
- Tá nervoso?
- CLARO, PORRA! VOCÊ SÓ ME ENCHEU O SACO!
- Estúpido! Por que não vai dar uma volta para espairecer?