Desde o "incidente" no elevador, o Takahashi-san não me dirigira a palavra. Achei que era isso mesmo o que aconteceria, mas era difícil lidar com essa verdade.
A golden week estava se aproximando, todos estavam ocupadíssimos com seus compromissos, mas eu não conseguia me concentrar em nada.
– Você parece sempre mais sério quando usa seus óculos, Motosuwa-san.
– Ah... arigatou... — respondi meio surpreso.
Era a primeira vez que aquela mulher falava comigo. Ela era nova no setor? Quem era ela? Pouco me importei com aquilo, minha cabeça apenas pensava no dia em que eu tive o Takahashi-san em meus braços e agora ele estava mais distante do que nunca. Preferia que as coisas fossem como antes.
– Motosuwa-san, estava pensando que essa golden week será bem divertida, você não gostaria de...
– Gomen, mas quem é você?
A mulher sorriu despreocupada. Parecia ter alcançado seu objetivo:
– Ah, gomenasai, me chamo Nanami Tsukino, mas pode me chamar de Nana.
– Ureshii, Nana-san.
Eu estava realmente me sentindo estranho com aquela investida. Não que eu não fosse um homem bonito ou atraente, mas não achei que ela pudesse demonstrar algum interesse por mim, mesmo conhecendo os comentários dos colegas a meu respeito. Quis ser gentil com ela e tentar ao máximo cortar-lhes quaisquer esperanças que tivesse, mas ela parecia não estar nem um pouco incomodada com isso e continuava a dar em cima de mim.
– Sei que você não costuma fazer muita coisa durante feriados longos, então, que tal sairmos para tomar uma cerveja?
– Nana-san, gomen ne, mas eu realmente já tenho compromisso...
– Motosuwa-san, não subestime a minha inteligência, eu não aceitarei um não como resposta — disse interrompendo-me.
Confesso que a Nana-san era uma mulher extremamente bonita, mas não era por ela ser mulher que eu não gostaria dela... era simplesmente pelo fato de eu amar apenas o Takahashi-san. Eu não era um homem vazio, que odiasse mulheres, eu só não as amava. Nenhuma de minhas namoradas despertou um sentimento tão profundo quanto o que o Takahashi-san despertou em mim.
Era engraçado como a vida brincava conosco. Acabei aceitando, meio que forçado, o convite da Nana-san. Saímos para tomar uma cerveja e jogar conversa fora. Ela estava realmente bem vestida, eu imaginava que ela apareceria usando algo provocador, mas me enganei. Talvez eu a estivesse subestimando.
– Então, Motosuwa-san, espero que não esteja se sentindo constrangido...
– Não, não se preocupe, por incrível que pareça, eu estou me sentindo bastante à vontade com você.
E de fato eu estava à vontade diante dela. Obviamente ela não estava interessada sexualmente em mim e isso era um grande alívio.
– Sabe, você acha que eu sou uma pessoa capaz?
– Capaz? Como assim? — fui pego de surpresa, por que ela faria uma pergunta assim? Eu nem sabia que ela trabalhava junto comigo até o dia que ela falou comigo. — Ora, Nana-san, se você está ocupando o cargo que ocupa é porque você é capaz.
– Arigatou, Motosuwa-san... sinto sinceridade em você... isso até me deixa emocionada... você é muito kawaii.
– Kawaii?
Rimos muito nessa hora. A Nana-san não era uma má pessoa. E eu me sentia tão confortável em estar com uma mulher sem ser obrigado a partir o coração dela que por um instante esqueci o quanto o meu coração sofria por causa do Takahashi-san.
– Sabe, Motosuwa-san, me sinto muito bem com você. É embaraçoso demais sair com certos homens... a maioria deles pensa que a noite vai acabar em sexo.
– Por que diz isso? Você acha que eu não penso igual à maioria?
– Não, Motosuwa-san... desde que chegamos aqui você não tentou me embebedar e nem sequer reparou no tamanho dos meus seios... Arigatou... de verdade, é a primeira vez que me sinto uma mulher diante de um homem.
Percebi então, que a Nana-san odiava os homens, porém ela não me odiava. Além disso, eu também percebera que ela me considerava um homem e não um "desviado"... Senti que nos simpatizamos e por mais estranho que parecesse, eu podia vê-la como uma amiga em potencial.
– Ok, fale-me de você, Motosuwa-san.
– Sobre mim?... etto... isso é meio complicado, não sou muito bom falando de mim, sou bem tímido...
– Ok, então não me fale de você... me fale de seus relacionamentos amorosos...
Cheguei a me engasgar com o sukiyaki que eu estava comendo. Tentei me recompor o mais rápido possível para não parecer ridículo, afinal, eu já namorara mulheres, não teria nada de mais em falar sobre isso.
– Etto... eu não tive muitas namoradas... mas posso dizer que o namoro mais duradouro foi com a Miu-chan. Éramos amigos de infância...
– E por que não deu certo?
– Eu não consegui fazê-la feliz...
– Entendo... talvez não seja a sua especialidade com as mulheres...
Caminhávamos para casa e as ruas estavam bem movimentadas em virtude do feriado. Nana-san era uma mulher deslumbrante, eu estava impressionado.
– Olha ali, aquele não é o Takahashi-san? Vamos lá falar com ele! — disse Nana-san puxando-me pelo braço, ela me arrastava em direção aonde seu dedo apontava.
Minhas pernas moviam-se mecanicamente, aquele era o Takahashi-san, mas eu não estava preparado para falar com ele e eu não podia explicar algo tão comprometedor para a Nanami.
Takahashi-san estava sozinho em um bar. Parecia absorto em pensamentos e profundamente infeliz. Tentei ignorar qualquer impressão que aquela cena pudesse motivar... Afinal, ele deixara bem claro que não poderíamos ter absolutamente nada. Eu tinha sido um lapso, um erro.
– Takahashi-san, genki desu ka? Lembra-se de mim, sou a Tsukino do setor de...
– Estou bem, arigatou... E você, Tsukino-san?
– Estou ótima!
Não conseguia encará-lo. Ele tampouco se esforçava em disfarçar aquela situação desagradável entre nós.
– Engraçado ver você por aqui, Takahashi-san. Pensei que você estaria se divertindo com a sua esposa.
– Nós brigamos, Tsukino-san.
Nanami fingiu não perceber o sarcasmo na resposta do Takahashi-san. Ela parecia até bem satisfeita em ouvir aquilo.
– Espero que vocês possam fazer as pazes logo. Sayounara, Takahashi-san.
Nanami se despediu do Takahashi-san e seguimos nosso caminho para casa. Estava preocupado com o Takahashi, afinal, onde estava o homem que eu amava? Nunca imaginei que aquele ser tão perfeito estivesse em um bar afogando as suas mágoas.
– Achei estranho o modo como o Takahashi te ignorou, Hideki-san... Ah, eu posso te chamar pelo primeiro nome, Motosuwa-san?
Eu estava tão dilacerado por dentro que mal ouvia as coisas ao meu redor. Nanami não era uma baka. Ela deveria saber desde o início que eu não me interesso por mulheres, então por que ela fazia isso? Eu estava perdendo minha consideração por ela...
– Hideki-san... acredite, não tenho nada contra você. Respeito-o muito. Saiba que o Takahashi-san não é uma pessoa feliz, não se sinta mal por ele ter te ignorando...
– Você pensa que eu sou algum baka! — gritei com ela enquanto meus olhos se enchiam de lágrimas... eu queria culpar alguém pela minha dor e eu não estava me importando se a magoaria com isso ou não.
Inesperadamente, Nanami me abraçou mais forte do que pôde. Seu cheiro era tão doce... me lembrava o perfume que a minha mãe usava... Eu estava sendo tão injusto com ela... E no final, nós dois sabíamos que tudo era tão óbvio que não precisava ser dito.
