Distress and Coma
Distress and Coma
Chapter 250 min read

Coma

:: CAPÍTULO 02 — Coma ::


{R
eita’s POV}

Acordei sentindo o leve cheiro de margaridas encher meu ar. Todas as manhãs que acordava desta forma me sentia a pessoa mais satisfeita do mundo.

Abri os olhos lentamente para notificar que o sol já havia nascido, então pisquei algumas vezes por causa de tal iluminação, logo me acostumando à mesma. Enxerguei um mar de madeixas loiras que exalavam aquele perfume tão inebriante. Seu dono permanecia deitado sobre meu peito nu, encolhido embaixo das cobertas, igualmente desprovido de roupas. Não sei bem o motivo, mas naquele momento, um ímpeto de abraçá-lo forte me acometeu. Assim o fiz, aproximando-o de mim.

– Bom dia... – Ouvi a voz dele falando fracamente. Apertei-o mais ainda contra meu corpo, o que o fez sorrir levemente. Aqueles dentinhos infantis eram um colírio.

– Bom dia... Koi. – Seu sorriso se intensificou enquanto ele se aninhava melhor em meus braços, enroscando nossas pernas.

– Você... ‘Tá bem? – Me perguntou, sem me olhar, ainda quietinho.

– Por que a pergunta? – Será que havia algo errado? Estou... Bem. Eu acho.

– Depois de uma noite de sexo selvagem você geralmente apalpa minha bunda na manhã seguinte. – E soltou um risinho baixo, logo prosseguindo. – Não que eu esteja reclamando, que fique claro. – Seus dedos longos começaram a traçar caminhos pelo meu abdômen, delicadamente. Não sei o que há comigo. Eu só queria tê-lo todo para mim ao mesmo tempo, usufruir de todos os mínimos prazeres que ele me oferecia. Só... Ficar junto.

Permaneci calado, e ao notar isso, ele se virou na cama, ficando agora completamente sobre meu corpo, me olhando bem de perto. Seus olhos me encantam. O olhar era meio opaco, e eu pude imaginar a textura de seus lábios cobrindo os meus, como de costume. Fantasia que não demorou pra se tornar realidade. Um simples selinho que me dizia tanto... Nesses três anos que vivo com Kouyou, aprendi a amar cada um desses singelos beijos.

Estava me fitando, próximo de dar-me mais um quando algum barulho estridente cortou o silêncio. Telefone. Fitei a mesa e... Cadê aquela joça? Não tem nada na mesa! Somente quando os risos safados do meu bailarino se fundiam com os toques polifônicos me lembrei onde o aparelho estava. Aliás, onde ele não estava. E porque não estava.

– Da próxima vez é melhor deixar a mesa fora do nosso caminho. – E o riso aumentou.

– A minha perna ainda ‘tá doendo da batida, seu... – Antes que eu pudesse continuar a frase, ele colocou as mãos na cabeça, tampando os ouvidos.

– Atende logo, Aki... Deve estar aí no chão... – Sentou-se em minha barriga para permitir o movimento de meus braços. Mesmo assim, o movimento era limitado.

Demorou um pouco até que eu achasse o telefone (tinha muita coisa no assoalho), e fitei seu visor. Nele, o nome “Takanori” se fazia presente. Joguei aquela coisa o mais longe que pude.

– Não vai...? – Questionou Shima, ainda na mesma posição de segundos atrás. A pressão que fazia com as mãos era notável.

– NÃO. – Falei alto para que ouvisse, falando pausadamente para que pudesse ler meus lábios. Um segundo depois, o som sumiu e eu fiz um sinal com a mão de que ele poderia abrir os ouvidos. Assim o fez, aproximando-se de mim.

Olhando-o melhor... Parecia abatido. Pálido. Cansado.

– Kou... Você ‘tá se sentindo bem?

– Um pouco mole... Mas preguiça não é nada grave nem novo. – E sorriu novamente, se jogando sobre mim.

Sorriu.

Ele sorriu.

Várias vezes naquela manhã.

Uma pergunta surgiu em minha mente. Ele... Estava feliz?

Fitei-o em meus braços novamente. Ele analisava o vazio, vendo algo que eu não enxergava. Opaco. Ainda sorria, mas... Acho que ainda não é isso.

– Kou...

– Hm? – Falou, ainda olhando “nada”.

– Você... Você é feliz?

– Sim. – A resposta veio rápida, curta, simples. Impensada. Infundada. Não. Ele não é.

– Não é verdade... – Comentei, o tom de voz meio longe.

– Por que não seria?

– Você... Nunca foi verdadeiramente feliz, né?

– Eu sou feliz. De verdade.

– Não diga isso, Kou... Não é verdade. – Insisti, e o silêncio se fundou. Depois de tanto falar, resolveu que iria pensar. Era algo que realmente merecia certo tempo pra ser respondido.

Ao notar que ele não falaria nada, resolvi ajudar com a continuação.

– Você está sempre sorrindo, mas... Eu sei que por dentro não é assim. – Sua mão apertou meu pulso inconscientemente. Parecia tenso. Acariciei seus cabelos levemente, o que o fez voltar seu olhar para mim, apoiando o queixo na saliência abaixo de meu pomo de adão.

– Eu gosto de você. – Respondeu simples. Não era essa a pergunta.

– Isso não faz de você uma pessoa feliz.

– O que deveria fazer, então? – Não tive resposta. Ele continuou. – Se eu sorrio, é porque estou feliz. Se sorrio é por você... Se respiro é por você. – A frase tinha uma profundidade maior do que de fora se nota. Não é mentira. Sem mim ele teria morrido naquele hospital podre.

– Você não precisa mentir pra mim. Eu sei que falta algo, Kou... Pode me dizer. Mesmo que eu não possa fazer muito... Pode dizer. – Eu sabia que provavelmente não poderia fazer nada... Mas esconder algo só o deixaria mais triste.

– Não há nada... Não há nada.

Se responder que essa
É a sua verdadeira face,
Então poderá se magoar.

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