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Daddy - Único

Acordar cedo em pleno domingo não era uma coisa que Maru costumava fazer. Acordava cedo todos os dias da semana, de segunda a sábado, deixando o primeiro dia semana ser um dia de pleno descanso para o corpo e a alma. Entretanto o som do despertador ecoava pelo quarto, vibrando em alto e bom som naquele domingo para que a ruiva finalmente despertasse de seu sono, abrindo os olhos escarlate devagar antes de jogar o braço sobre o criado mudo e puxar o celular para si, arrastando o sinal do despertador para o lado e encerrar aquele som irritante de uma vez por todas.

Maru bocejou e jogou as pernas para fora da cama, forçando o tronco para cima para sentar-se na beirada e estralar o pescoço, levando cerca de um minuto para colocar-se em pé e caminhar na direção da janela, puxar as cortinas e deixar a luz solar adentrar o cômodo, fazendo-a semicerrar os olhos desacostumados com a claridade.

O dia estava lindo! O céu azul, livre das inconvenientes nuvens que sempre indicavam chuva em momentos inapropriados, além do frescor da brisa de Springbird que entrou assim que abriu a janela dupla, levando os fios vermelhos de Maru para trás. Um domingo promissor, com certeza, um dia perfeito para sair com seu pai e comemorar o dia do herói da sua vida!

O dia dos pais era a segunda data favorita de Maru, depois do Natal. Antes a data emparedava com o dia das mães, mas após o falecimento de Stacie Louvain tornou-se um dia de luto em sua vida, no qual não sentia vontade de fazer absolutamente nada ou mesmo sair e ver as pessoas com suas mães. O dia dos pais, entretanto, ainda era fortemente comemorado por Henry Louvain e sua filha, um dia em que a tradição familiar exigia que o dia inteiro fosse dedicado apenas um ao outro.

— Bom dia, Springbird! — exclamou animada para fora, deixando o sorriso vibrante tomar conta dos lábios e dentes. Nada lhe dava mais prazer do que saber que teria o pai para si um dia inteiro já que, sendo médico e dono do hospital, estava sempre trabalhando. Mas ele mesmo decidira que o dia dos pais deveria ser seu dia de folga para ficar com sua única filha, e era isso que tornava a data tão especial. Tê-lo por perto sempre a enchia de alegria.

Maru virou-se em direção à porta, descendo as escadas para encontrar o pai e dar-lhe feliz dia dos pais. Primeiro objetivo de sua lista de dia dos pais perfeito: tomar o café da manhã com ele.

Na cozinha encontrou-o na bancada, e Maru correu para abraçá-lo apertado, sentindo os braços do pai envolver-lhe com carinho e levantá-la alguns centímetros, fazendo-a rir. Adorava quando ele fazia isso e, mesmo que ao decorrer dos anos ele sempre a deixasse menos alta — quando criança ele a erguia e girava com ela nos braços —, era sempre bom gestos de carinhos vindos dele. Não era segredo para ninguém o apego que a ruiva tinha em seu pai.

— Bom dia, papai! — exclamou feliz, beijando o rosto dele.

— Bom dia, meu amor. Dormiu bem? — Henry Louvain perguntou. Havia algo diferente em seu tom de voz, mas Maru não se preocupou em perguntar o motivo. Talvez fosse cansaço.

Afastou-se para poder olhá-lo nos olhos ao desejar feliz dia dos pais, porém antes que dissesse algo notou uma coisa estranha. Alerta de dia dos pais frustrado: papai de jaleco, com a chave do carro nas mãos, aparentemente já alimentado e pronto para sair de casa. Maru arregalou os olhos e observou-o de cima a baixo, antes de soltar o ar em forma de risada, a expressão claramente dizendo que desejava que aquilo fosse uma brincadeira.

— Nossa, papi, trabalhar realmente está te deixando meio robotizado — brincou, ao dar a volta na bancada e apoiar as mãos no tampo de mármore, encarando-o com uma mescla de ceticismo e deboche. — Dia dos pais, lembra? Hoje você não vai trabalhar, vai vestir seu pijama de novo e deixa as chaves aqui em cima — disse, dando tapinhas sobre a bancada. — Espero que não tenha comido muito, porque ainda precisa tomar café da manhã comigo. Isso está na nossa lista, lembra?

Maru encarou-o, apertando os lábios e tensa, esperando que ele começasse a rir e dizer algo como “É mesmo, acabei me atrapalhando. Vou me trocar e descer para tomarmos café”. Mas o que ela viu foi Henry desviar o olhar para várias direções, abaixando ligeiramente a cabeça e coçando a nuca, até suspirar e ter coragem de encarar a filha.

— Maru, me desculpe — ele começou incerto. — Acordei com uma ligação do hospital. Um paciente que estava aparentemente estável piorou muito e precisa ser operado.

Maru arregalou os olhos, ficando boquiaberta e soltando o ar pela boca, indicando indignação.

— Mas não precisa ser você, certo? — perguntou, chocada. — Quero dizer, tem outros cirurgiões no hospital!

— Maru, é uma cirurgia de alto risco — ele respondeu. — Uma cirurgia que só eu ou o Anthony podemos realizar, e você sabe que ele e a Ju estão viajando. Eu preciso ir.

— Não é justo! — Maru sentiu as lágrimas queimarem em seus olhos, batendo o punho com força na bancada. — Você prometeu passar o dia comigo, todos os anos são assim! — frisou. — E agora em cima da hora você quer desmarcar tudo?

Henry Louvain suspirou, provavelmente buscando paciência para lidar com as crises mimadas da filha. Maru inflou as bochechas, como sempre fazia quanto estava irritada ou contrariada, e nesse momento estava as duas coisas.

— Maru, é de uma vida que estamos falando.

— Você já percebeu que sempre, sempre o trabalho é mais importante do que eu para você?! — acusou Maru, sentindo as lágrimas descerem pelo rosto.

— Querida, não é verdade — Henry suspirou, tentando manter-se calmo. Aproximou-se e colocou as mãos sobre os ombros dela, apertando carinhosamente, olhando no fundo dos olhos chorosos da filha. — Nada é mais importante pra mim do que você, e você sabe disso! Mas não posso deixar uma pessoa morrer, Maru, por mais que eu queira passar o dia com você a vida dessa pessoa estaria nas minhas costas. Você entende isso?

É claro que ela entendia, mas mesmo assim era revoltante. Ela passava meses planejando o dia dos pais, decidindo coisas a serem feitas durante o dia, lugares a serem visitados, a comida que comeriam e tudo mais. Tudo já estava planejado, e tudo seria acabado porque, por conta de uma única ligação, ele estava indo trabalhar e passaria o dia todo sozinha. Pensou em responder, mas mordeu a língua, ela sabia que não havia como rebater. Henry precisava atender ao chamado no hospital, mas mesmo assim... Por que justo no dia dos pais?

— Ok — soltou em voz fraca, empurrando as mãos do pai de seus ombros. — Tudo bem. Já entendi — fungou, mas seu tom de voz era seco.

— Maru...

— Já entendi, ok?! — soltou furiosa. — Você vai trabalhar e eu vou passar o resto do dia sozinha! Tudo bem, eu devo ter umas mil séries pra atualizar, pode ir! — praticamente gritou, apontando a porta com raiva.

— Você pode pedir ao Armin... — começou, mas Maru o cortou.

— O Armin é meu namorado, não meu pai! Hoje é dia dos pais, não dos namorados, eu queria ficar com você! — gritou em prantos, antes de virar-se e correr na direção das escadas, trancando-se no quarto.

Encostou as costas na porta e escorregou até sentar no chão, soluçando ao enterrar a cabeça entre os joelhos. No fundo ela sabia que não era justo com ele fazer aquilo, mas como poderia evitar? Maru estava frustrada e nunca fora do tipo que sabia conter seus sentimentos, fossem eles positivos ou negativos. Estava triste, chateada, frustrada, com raiva, e acabara falando coisas que não devia como fazia sempre. Seus surtos explosivos eram comuns, mas nunca agradáveis.

Ficou pelo menos dez minutos sentada encostada à porta, chorando e soluçando. Em nenhum momento seu pai veio atrás, mas deduziu que ele não tivera outra opção a não ser correr para o hospital já que era uma cirurgia de emergência. Mesmo assim estava chateada por ele não ter nem mesmo tentado falar com ela através da porta.

Precisava falar com alguém. Correu para a cama e se jogou, pegando o celular no criado mudo para procurar Juliet Louvain, sua prima e melhor amiga, nos contatos. Não demorou para encontrar o número e selecionar a discagem rápida, aguardando que a prima atendesse.

— Atende o telefone... — resmungou, impaciente com a demora.

Finalmente a ligação foi atendida, revelando uma Ju animadíssima. Que inveja dela, pensou. Estava viajando com o pai e comemorando o dia dos pais, enquanto Maru estava chorando porque o seu estava trabalhando.

— Oi, Maru!

— Ju! — exclamou chorosa, rolando na cama e ficando de barriga para cima. — Você não vai acreditar no que o meu pai fez!

— Calma — disse Ju, dessa vez mudando seu tom para um mais preocupado. — O que aconteceu?

— Você sabe que o dia dos pais é importantíssimo pra mim! — começou, quase histérica. — Ele também sabe! E hoje ele foi pro hospital mesmo sabendo que esse dia ele precisa passar comigo!

Alguns segundos de silêncio do outro lado, como se Ju absorvesse a informação.

— Mas... Como assim? Já não estava tudo resolvido? — perguntou claramente indignada. Se havia alguém que entenderia Maru, esse alguém era sua prima. Datas comemorativas também eram importantes para Ju.

— Ele veio com o papo de que era emergência e toda aquela história de sempre — contou, revoltada. Juliet também era filha de médico, Anthony Louvain, o irmão gêmeo de Henry. Os dois lideravam, juntos, o hospital da família e eram provavelmente os melhores cirurgiões de Springbird. Modéstia à parte. — Ele sabe que esse dia é importante pra mim, não podiam chamar outro cirurgião? — completou, quase chorando de novo.

— Papai disse que eles estariam preparados pra isso, que merda... — Ju resmungou do outro lado,e Maru fungou assentindo como se ela pudesse ver. Seu pai também dissera que estava tudo sob controle, e, no entanto... — Maru, não chora, talvez ele possa sair mais cedo, alguém substitua ele, ai não sei... —A prima parecia desesperada do outro lado, como se o problema também fosse dela. — Não sei o que fazer, se estivéssemos por perto, talvez meu pai pudesse ir lá tentar resolver...

O lado egoísta de Maru também desejou que Anthony estivesse na cidade para resolver a situação, mas o lado compreensivo sabia que seria igualmente errado que o tio fizesse a cirurgia já que Ju também ficaria triste ao passar o dia dos pais sozinha. Não seria justo com ela assim como não era justo com Maru.

— Acho que ele só volta a noite. Meu dia dos pais vai ser um fiasco — lamentou, suspirando. — Como ele pode fazer isso comigo?

— Não posso dizer para esperar com paciência, pois me colocando no seu lugar, estaria basicamente do mesmo jeito... — Ju suspirou. — Existe algo que eu possa fazer?

— Acho que não — Maru suspirou. — Sei lá, me dá uma luz do que fazer pra não ser um completo desastre...

— Hm... — Ju pausou, pensativa. — Por que você não faz algo pra quando ele voltar? — sugeriu, aparentemente mais animada e tranquila. — Se ele está trabalhando, provavelmente chegará exausto, mimá-lo um pouco depois disso o deixará feliz!

Maru arregalou os olhos, percebendo como a ideia era genial. Ok, não seria perfeita como seus planos originais, mas serviriam para não ser um dia completamente desastroso.

— Isso... — começou, pensativa. — Que ótima ideia, Ju! Assim ele pode trabalhar e as mantemos a nossa tradição de certa forma! — exclamou animada, levantando-se da cama de imediato.

— Exatamente! — respondeu Ju, igualmente empolgada. — Faz o que ele mais gosta para o jantar, por exemplo, e tenho certeza que o tio Henry vai adorar passar esse tempo com você e você com ele!

— Isso é fantástico! — respondeu animadíssima, a tristeza já totalmente para trás. Os planos começavam a tomar forma em sua mente. — Bom, é claro que eu preferia que ele dedicasse o dia todo a mim, mas como não vai dar acho que essa é a melhor saída. Obrigada, Ju, você é a melhor prima e amiga da face da Terra! — falou toda carinhosa, querendo que Ju estivesse perto para abraçá-la.

— Mas é como dizem, quem não tem gato, caça como um rato... Não, espera, acho que não é assim... — Ju falou, ficando em silêncio ao perceber que teria errado a frase. — Ah, esquece. Espero que dê tudo certo, Maru! Qualquer coisa pode ligar outra vez — riu. — Não foi nada demais, você teria pensado o mesmo depois! Diz ao tio Henry que mandei um abraço.

— Quem não tem cão caça com o gato, mas não importa — riu. — Melhor eu desligar agora é começar a preparar as coisas. Brigadão, Ju!! — desligou, só se dando conta em seguida que nem esperara a prima responder. Bom, depois ligaria novamente.

Agora era hora de botar as mãos na massa e preparar uma noite especial de dia dos pais!

~x~

OK, aquilo não saíra como o planejado.

Estava se perguntando como diabos conseguira queimar aquele bolo. Até mesmo o arroz, que parecia ser tão fácil de fazer, empapara de tal modo que mais parecia um mingau. Não precisava nem mesmo falar sobre a carne assada, ou melhor, torrada. Claro que Maru não entendia nada de cozinha, mas não imaginava que fosse assim tão difícil. Apenas a salada de batatas havia se salvado, de certa forma.

Sentou-se na cadeira, frustrada. Não dava tempo de consertar, seu pai já deveria estar chegando. O dia dos pais estava, de fato, fadado ao desastre e não poderia fazer nada a respeito. Dia perfeito, cancelado. Jantar perfeito? Totalmente estragado.

— Mas que droga! — reclamou, jogando a cabeça para trás.

Ouviu o barulho da porta e se endireitou na cadeira, ouvindo os passos. Seu pai chegara e tudo que era tinha era arroz empapado, carne torrada e bolo queimado. Que ótimo dia dos pais!

— Maru? — chamou. — Maru, você botou fogo na casa?

Ela revirou os olhos ao vê-lo entrar na cozinha. Henry observou o cômodo, vendo diversas louças sujas na pia, a comida que Maru tentara preparar e a frustração no rosto da filha.

— Não... — ela começou, tentando engolir o choro. — Eu... Só queria fazer alguma coisa especial.

E pronto, isso foi o suficiente para fazê-la desabar. Era frustrante ver que não conseguira fazer nada direito! O dia dos pais estava perdido, não tinha mais como consertar, o que ela tinha que fazer era tomar um banho, ver alguma série e dormir já que era o que lhe restara.

— Eu tentei fazer o jantar! Queria fazer alguma coisa especial mesmo que não passasse o dia com você! — soluçou. — E esse é o resultado! Eu não faço nada direito! — Enterrou a cabeça nas mãos apoiadas nos joelhos, frustrada.

Mas o que ela escutou foi o som de uma cadeira arrastando-se até o seu lado. Maru descobriu os olhos e olhou para o lado, vendo seu pai sentar-se e passar um dos braços por seus ombros, beijando o topo de sua cabeça.

— Eu fico feliz de ver que você tentou — ele disse divertido.

— Tentei e deu errado, do que adianta? — reclamou.

— Maru, olha pra mim — ele pediu, fazendo a filha encará-lo. — Não importa nada disso. Você não precisa fazer nada pra mim, você já me deu um presente há muito tempo!

— O quê? Que presente? — perguntou confusa. Henry sorriu e secou os olhos da garota.

— Quando você nasceu. Quando você andou pela primeira vez e correu na direção dos meus braços. Quando falou “papai” pela primeira vez... — narrou, contando nos dedos. — Foram vários. Meu maior presente é você, querida.

Maru riu, sentindo as lágrimas descerem. Dessa vez era felicidade.

— Que clichê, papai — brincou.

— Mas é verdade. Eu não preciso de mais nada se eu tenho você — garantiu, beijando sua testa. — Você é tudo pra mim, filha. Lembre-se disso.

Maru olhou para o pai, fungando e os olhos brilhando pelas lágrimas.

— Amo você, papai — abraçou-o. — Você é meu herói, sempre!

Henry riu, abraçando-a de volta. Beijou o topo de sua cabeça e ficaram um tempo assim, antes da barriga dele roncar.

— Droga, acho que não vamos poder comer isso — resmungou Maru.

— É... — ele suspirou. — Topa pedir uma pizza e ver Star Wars até de manhã?

Ela riu, negando.

— Pizza? Eu vou virar uma baleia!

— É dia dos pais, você me deve essa.

Ela suspirou rindo, fingindo falsa derrota.

— Feito.

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