“Isso é loucura.” Dizia meu melhor amigo Connor.

Ele já havia repetido essa frase várias vezes seguidas, com pequenas alterações para não parecer cansativo. Eu só sorria, admirando a camiseta de spandex vermelha que havíamos conseguido. Connor possuía em mãos uma idêntica, em azul. Ele se recusava a vesti-la, como se isso fosse deixa-lo doente.

“Ah, vai dizer que nunca ficou curioso para saber como essas coisas são?” Eu disse, ainda focado na minha imagem no espelho.

“Você parece um viadinho, nessa roupa apertada e colorida.” Ele parecia segurar o riso, mas eu nem dei bola. Ele que havia mexido nos sistemas do carro que partia para a iniciativa dos vingadores, de qualquer forma. Era tão culpa minha quanto dele.

“Se eu malhar um pouco vai ficar heroico.” Deixei escapar um pouco de frustração. “Mas já viemos até aqui, agora é até o fim.” Continuei. “A gente precisa tentar, ao menos pela experiência. Se não vai ser o maior “e se” da sua vida”.

“Eu sei mas... Nós não temos treinamento e nossos poderes são inúteis! Eu falo com a cafeteira e você é só um band-aid gigante. Devíamos tentar os X-men.” Ergui uma sobrancelha quando ele acabou de falar. Somos mutantes, OK. Fomos salvos por eles, OK. Isso não nos torna burros.

“Você está maluco? Aqueles caras andam com alvos na testa. Todo mundo quer matá-los por algum motivo. Eu não sou suicida.” Minha sobrancelha subiu um pouco demais quando ele começou a rir. Encarei-o, perplexo.

“Não é suicida? Você roubou de um caminhão dos Vingadores, lesado!” Ainda rindo, levantou-se da cadeira e foi pegar mais cereal.

“Ei, ei, ei! Você também está nessa. Quem usou tecnopatia no caminhão foi você. E tem uma camiseta azul aí, não tem? É para você. Ninguém vai perseguir ninguém por causa de duas camisetas. Tá tranquilo, fala sério cara.” Ele parecia divertido com minha resposta, como se já soubesse o que iria dizer. Peguei minha mochila e enfiei a camiseta vermelha dentro, no meio dos livros.

“Você vai mesmo tentar essa coisa de super-herói?” Era quase um apelo, mas eu não podia parar. Podia sentir na minha pele que algo importante iria acontecer. Só não sabia o quê.

“Eu não.” Disse-lhe, com um meio sorriso. “Nós vamos.”

Ele sorriu de volta, parecendo concordar. Eu sabia que ele queria aquilo tanto quanto eu. “Vamos para a escola, super-lesado.”

—

Desde que N'don o havia traído, a vida estava assim. A terra é e sempre foi um ambiente inóspito para os inumanos. O ar poluído fede e é cheio de doenças. Seria toda uma cultura estranha para Karlak se ele não houvesse planejado a fuga há muito tempo. N'don, que foi escolhido como membro da guarda real junto com ele, os colocou para dentro de uma nave para a terra na última viagem lua-terra da família real. O que o Karlak não esperava é que N'don o vendesse para gente humana muito bem disposta a pagar pela genética evoluída inumana.

Haviam fugido para sair do pesado sistema de castas do reino que vive no lado azul da lua. O então ingênuo inumano não queria ser um soldado, não desde que viu membros da guarda real assassinando pessoas pelo bem maior. Só que para os inumanos não abraçar o potencial genético e defender seu povo é pior que a morte, então Karlak foi visto como vergonhoso até fugir. E provavelmente o matariam se ligassem o suficiente.

O problema é que os inumanos não são os únicos que querem algo dele. Desde que fugiu dos humanos que lhe compraram o jovem têm fugido por esse mundo estranho, tendo como base só o que pôde estudar. Claro que seus poderes adquiridos pela terrigênese ajudam muito, mas os caçadores parecem estar cada vez mais perto.

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