“Eu sou Dexter e não estou muito certo do que sou. Eu só sei que existe algo sombrio em mim”. Dexter Morgan, personagem principal do seriado “Dexter”.
Sentei-me na confortável poltrona e apoiei meu queixo sobre as mãos que mantinham minha bengala firme no chão. Meu psiquiatra suavemente sorriu com o canto do lábio. Eis alguém digno de minhas palavras, eis alguém com intelecto para entender-me.
- Preciso falar e só tu me entendes. – Não havia expressão em meu rosto.
- Fale. – Também não havia expressão no rosto dele.
- Há algum tempo eu busco por um diagnóstico, busco por um nome ou uma combinação de nomes que me defina. Aliás, a verdade é que desde sempre busco isso. Desde sempre tentei me diagnosticar.
- Conseguiu sua resposta, Alex? – Meu psiquiatra parecia esconder certo otimismo e certo medo de uma possível resposta que mostrasse algo que não correspondesse a suas expectativas.
- Não. E sim. Quer saber quem eu sou, Barreto?
- Claro.
- A grande verdade é que não sou um diagnóstico, não sou um nome. Eu sou um psicopata. Eu sou um esquizofrênico. Eu sou um narcisista. Eu sou tudo isso e sou nada disso.
- A grande verdade é que eu posso afagar seu cão, eu posso matar sua mãe, eu posso violentar sua esposa, eu posso parar o trânsito para ajudar seu avô a atravessar a rua. A grande verdade é que eu posso e a grande verdade é que eu quero.
- Olha só, tem uma moça muito linda onde minha esposa trabalha, que tal trocar tudo isso por um endereço? – Ele perguntou, fingindo uma cara de desespero.
Nós dois rimos.
- Então, Alex, isso basta pra você?
- Não, não basta. Continuarei minha busca. Mas, sei que sou a semente da flor de certo lago, sei que sou a sombra que tira vidas, sei que sou o interno de um manicômio. Sei que sou um lorde inglês e sei que sou um bárbaro. Sei que sou um demônio e um monstro. Sei que sou uma pedra e um bambu. Sei que sou a água e a pedra.
- De tudo isso, Barreto, o que mais sei é que não sou humano.
Barreto levantou-se, foi até uma pequena mesa e me olhou por cima do ombro.
- Quer chá, Alex? – Sorriu, sinceramente.
