White envy
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Chapter 14 min read

Único

Descalço, eu saí do banheiro.

O vapor ainda se dissipando ao passar pela porta.

Sinto-me exausto. Visto uma calça de moletom e deito-me na cama, sentindo meu corpo relaxar aos poucos e minha coluna retomando seu lugar contra o colchão duro. Passei boa parte do dia sentado, então sinto um desconforto nas costas, nada alarmante.

Além do cansaço físico, minha mente pede por silêncio e lentidão, mas como isso é quase impossível de se conseguir, contento-me com uma distração. Estico o braço até meus dedos alcançarem o livro sobre o criado mudo. Ajeito os óculos e retomo a leitura.

Geralmente eu não venço dez páginas. O disjuntor se desliga antes disso e eu apago. Perco o contato com a torre. Desmaio, porque é assim que eu tenho dormido ultimamente; desmaiado pela fatiga. Posso senti-la agora, como sinto Morpheus estendendo seu manto sobre minhas pálpebras, deixando-as pesadas demais, impossibilitando-me de manter os olhos abertos.

— Bruce.

Sobressalto. Há alguém me chamando, mas não reconheço quem seja. Ouço batidas na porta e, de novo, me chamam.

— Bruce, tens um minuto?

É Pepper.

Penso que franzi o cenho ao ver que já passava das onze no relógio digital sobre o criado mudo. Algo aconteceu. Algo que provavelmente pede por urgência, caso contrário, ela não viria pessoalmente me chamar.

— Estou indo – digo quando ouço novas batidas na porta.

Abro a porta e vejo Pepper de pantufas, um short de dormir e uma camisa de Tony. Nossos olhares se cruzam e ela sorri meio sem graça.

— Ah, você tava dormindo... eu queria só... desculpa te acordar – ela começa um tanto atrapalhada.

— Não. Tudo bem, eu ainda estava acordado – minto tirando os óculos e coçando a barba recente. – Do que precisa, Pepper?

Seus olhos já não estão mais nos meus. Ela parece me analisar por um breve segundo e seu rosto começa a ganhar cor. Um constrangimento repentino transparece em minhas feições. O caminho que ela fez com o olhar me deixou assim, embaralhado por um instante. Vejo uma camisa jogada sobre o braço do sofá e visto-a.

Pepper sorri brevemente e então me faz um convite:

— Eu preciso da sua ajuda, Bruce.

Tony estava madrugando. Ele têm trocado o dia pela noite quase sempre desde que sua casa em Malibu foi atacada pelo pseudo terrorista chamado Mandarim. Não lhe tiro a razão. Ele faz isso para proteger as pessoas que ama e agora teria mais uma pessoa para proteger.

Pepper falou dos enjôos e tudo o mais, mas pelo tempo que têm, há poucas maneiras eficazes de se ter uma resposta concreta. Ela queria, sobretudo, discrição. Por isso procurou-me. Fui até a farmácia e quando voltei havia um bolo no forno da cozinha. Aproveitei a deixa e fiz um chá para nós enquanto ela fizera três testes de gravidez de marcas diferentes, para não ter erro.

Bebo mais um gole de chá.

— O que me diz? – ela pergunta com um tom de ansiedade.

Deixo a caneca sobre a bancada e olho para Pepper sentada à minha frente. As mãos inquietas sobre a bancada, remexendo as sobras no prato com um garfo. A esta altura ela já tomou duas canecas da infusão de marcela e comera também meia fatia de bolo de chocolate.

— Tony vai surtar, talvez até desmaiar na hora – brinco com ela, ganhando um riso nervoso. Ponho minha mão sobre as suas e ela olha em meus olhos carinhosamente. – Mas vai dar tudo certo, Pepper.

Quase digo que Tony é um filha da puta sortudo, mas ao invés disso, falo que ele será um bom pai. Talvez comece a planejar uma armadura em pequena escala, mas vai ser um bom pai.

Ela não ri, mas pelo menos parece mais calma. Pepper levanta-se e contorna a bancada, ficando à minha frente. O banco em que estou sentado é alto, nossos rostos ficam no mesmo nível enquanto ela olha em meus olhos. Suas mãos tocam meu rosto quando ela me agradece e sorri.

— Boa noite, Bruce – ouço antes de ganhar um beijo na bochecha esquerda.

Sinto o sangue fluir pro meu rosto em seguida.

— Boa noite – respondo.

Fiquei ali por mais um tempo, até esvaziar minha caneca. Depois voltei para o meu quarto.

Um pequeno pensamento passa na minha cabeça quando me deito novamente. É melancólico, pois tenho a ciência de que nunca terei uma família. Mas, em grande parte, sinto-me feliz pelo meu amigo.

Tony é mesmo um filho da puta sortudo.

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