Vlastov's Coin
Vlastov's Coin
Chapter 123 min read

O Lembrete

—Então você arrumou uma substituta pra mim?-Clara perguntou. O Doutor olhou para ela, apenas para descobri-la de braços cruzados e uma expressão irritadiça, e um pouco acusadora. Isso o deixou confuso.

—O que? Não. Por que está perguntando isso?

—Bem, se não é uma substituta, você tem uma namorada secreta.

—Do que está falando?

—Quem é ela?-Apontou.

O Doutor se virou. Havia uma mulher atrás dele, os longos cabelos soltos, um vestido vermelho escuro e diversão em seu rosto.

—Adelaide. -Ele disse. -Como...?-Olhou para a porta, do outro lado da sala de controle, e para ela de novo. -Como foi que você entrou aqui?

—Pela porta é claro. Você devia mantê-la bem trancada.

—Mas... Há quanto tempo...

—Hum, não sei ao certo. Eu entrei, encontrei uma suíte grega e fiquei lá por um tempo. Difícil dizer o quanto.

—Você não pode estar falando sério.

—Eu pareço estar brincando?-Olhou para Clara. -Adelaide Vamipayeri.

—Clara Oswald. -A outra murmurou, um pouco chocada. -Então... Quem é você?

—Uma longa história.

De repente algo na TARDIS disparou, um alarme insistente que só cessou quando o Doutor abriu a mensagem na tela.

—Atenção!—A voz começou. -O governador está morto. Foi assassinado em sua casa há dois dias. Sua assassina está solta e deve se entregar imediatamente. Qualquer um que a veja deve relatar a informação. Essa, é a assassina. -O rosto de Adelaide apareceu na tela. -Adelaide Vamipayeri, vlastoviana. Altamente perigosa. Não é recomendado enfrentá-la. Atenção! O governador está morto....

O Doutor desligou a tela e se virou para Adelaide.

—Eu não fiz isso. -Ela avisou. -Eu sequer conheço esse homem. Não o matei. -Ele pegou um papel que saía de um compartimento pequeno ao seu lado.

—Aqui diz que ele teve a garganta cortada. Não é como você costuma fazer?

—Você não acredita em mim.

—Adelaide...

—Quer saber? Não importa... -Começou a ir para a porta.

—Adelaide!

—Não!-Parou, se virando. -Você acha que pode julgar alguém? Que me conhece? Você devia saber que lendas não nos definem. Não é mesmo, Doutor? Você explodiu seu planeta e nem por isso eu te acuso quando acontece algo em algum lugar. Você... -Apontou pra ele. -Você quer agir como se eu fosse sua boa ação, tentando mostrar misericórdia ao me salvar, ao tentar me ajudar, mas no fundo você nem acredita que posso ser salva. E sabe de uma coisa? Não preciso ser salva por você. -Abriu a porta.

—Aonde você vai?

—Provar que sou inocente. Por que eu sou. -Olhou pra ele antes de sair. -Não importa o que todos vocês achem.

Houve um longo silêncio depois que ela saiu. Clara não sabia o que dizer, e o Doutor parecia um pouco envergonhado. A explosão de Adelaide não o surpreendia (ela não voar no pescoço dele, sim).

De repente, ele correu para o papel que havia largado no console e leu tudo rapidamente, assumindo uma expressão chocada.

—O que foi que eu fiz?-Murmurou.

—Doutor, o que foi?-Clara perguntou, preocupada.

—O governador foi morto com um corte no pescoço, o que é comum para vlastovianos quando matam. Eles são... Basicamente vampiros. Eu já vi Adelaide descontrolada, ela vai direto para a jugular. -Clara estremeceu. -Havia muito sangue na cena do crime. O governador estava sozinho, então por que deixar o sangue ser desperdiçado? Ela teria o matado rápido se o achasse uma ameaça, mas além de humano, e, sem ofensas ao falecido, muito acima do peso, Adelaide não precisaria temê-lo, já que poderia parar em segundos qualquer tentativa de defesa ou ataque. Ela não o matou.

—Alguém acha que sim.

—Eu sei e isso não é bom. Não é nada bom. Nós temos que ir. -Correu para a porta.

—Aonde?

—Se eles pegarem Adelaide, considerando-a culpada, ela terá um só destino... A morte.

***

Ela estava muito, muito irritada.

Adelaide tinha sangue nas mãos. Ela não era inocente e já havia matado antes. Mas algo que não ia permitir era que a culpassem de algo que não tinha feito, e ela não tinha matado o governador. Sequer o conhecia!

Quando se vivia muito, como ela, acumulava-se muitas coisas. Inimizades, principalmente, mas ela não conseguia lembrar de qual delas poderia ter lhe culpado de assassinato. Qualquer um que conhecesse mesmo Adelaide poderia tentar acusá-la de algo que ela tinha sim feito.

Além disso, fazê-la ser presa, julgada e condenada por um crime qualquer parecia uma vingança muito impessoal. Os vlastovianos não tinham muita paciência para vinganças, preferindo matar seus desafetos. Adelaide não ia contra esse fato tradicional.

Avistou o grande prédio dourado que pertencia à polícia local. Parecia muito ostensivo para os homens da lei, e a vampira achou meio ridículo, mas o assunto era outro.

Passou pela porta, os olhos vasculhando e analisando o local. Havia muitos policiais andando de um lado para o outro, alguns civis, dois animais de estimação. Havia apenas uma saída, que estava à suas costas, e as janelas não abriam. Policiais com armas longas estavam numa área do segundo ar, bem atentos.

De repente, a gritaria começou.

—Para o chão!-Um policial gritou. Vários outros correram para cercá-la, e não havia nenhum deles que não apontava uma arma para ela.

—Eu...

—Para o chão! Agora!-Ela respirou fundo, tentando não ficar irritada. Podia muito bem derrubar todos aqueles imbecis com facilidade... Mas pareciam se multiplicar cada vez mais.

Os civis foram empurrados para a saída, fazendo-os cruzar com o Doutor e Clara que estavam entrando.

—Adelaide!-Ela se virou para olhar, então flashes a cegaram.

—O que estão fazendo?-Clara perguntou.

—Vlastovianos tem os sentidos muito aguçados. Luz forte e flashes podem cegá-los temporariamente. Estão tentando contê-la... Parem com isso!-Ele tentou avançar, mas alguns policiais estavam fazendo uma barreira, impedindo a passagem.

Desnorteada pelas luzes, Adelaide fechou os olhos. Ainda podia sentir os flashes, mas contanto que não olhasse diretamente para eles, podia se recuperar depressa.

Mas os policiais tinham se preparado e logo um som alto e agudo estava soando pela delegacia, atacando apenas a audição de Adelaide, atordoando-a e a fazendo gritar, cobrindo os ouvidos.

—Eles não podem fazer isso!-O Doutor gritou. -Eles não... Vocês precisam parar!-Tentou passar pela barreira, mas foi empurrado com violência.

—Aumentem!-Um dos policiais mandou, observando do segundo andar.

O som foi se tornando mais alto e mais insuportável. Os ouvidos de Adelaide sangravam e ela não parava de gritar.

Quando o volume atingiu a máxima potência, a vampira desabou no chão, inconsciente. Foi a deixa para vários policiais irem para cima dela, prendendo seus pulsos e colocando uma corrente em seu pescoço. Em segundos eles já estavam tirando Adelaide dali, sumindo com ela por uma porta.

—O que vão fazer com ela?-Clara perguntou, chocada com o desenrolar da situação. O Doutor parecia furioso, e também um pouco assustado.

—Se a trataram assim na frente de todos... Eu não quero imaginar o que farão sem ninguém olhando.

Fora dali, num andar abaixo do chão, policiais prendiam Adelaide suspensa pelos pulsos e pelo pescoço. Ela estava começando a recobrar a consciência quando um dos homens se aproximou. Se conseguisse ler naquele momento, caso seus olhos não ardessem como o inferno, ela teria visto o nome Klaus Armani no colete dele.

—Se fala muito sobre sua inteligência, senhorita Vamipayeri. -Tirou um canivete do bolso. -Sobre como sua espécie tem um raciocínio rápido, muito mais rápido do que o cérebro humano pode processar. Não foi o que eu vi aqui hoje. -Se aproximou um pouco mais. -Você foi muito estúpida em aparecer na nossa porta, Adelaide. E a única coisa que conseguiu, foi acelerar a sua morte. -Fez dois longos cortes nos pulsos dela e sorriu. -Muito obrigado por facilitar nosso trabalho. -Começou a se afastar. -Deixem ela sangrar e reabram os cortes se necessário. Ela precisa perder sangue para enfraquecer. -Parou na porta. -Mais tarde lidamos com a aberração de novo.

***

—Doutor, quem é ela?-Clara perguntou, observando-o se mover agitado pela sala de controle. Se ajeitou no degrau da escada.

—Adelaide é... Bom... Nós não somos muito amigos.

—Eu reparei. Ela parecia... Irritada.

—Bem, essa é a Adelaide. Meio irritada, muito perigosa... E não é minha fã.

—Por quê?

—Tivemos nossos problemas. Não que eu tenha feito algo de propósito. A conheci muitos anos atrás, tipo mesmo, muitos e muitos anos. Foi no século 17. Adelaide tinha acabado de ser exilada na Terra. Costumava ser uma princesa de Vlastov, mas a família dela levou um golpe e perdeu o trono. Cada membro do clã Vamipayeri foi enviado para um planeta diferente e distante um do outro.

—Ela tem porte de princesa.

—É a coisa de vampiro, sabe, eles têm esse jeito mesmo. -Parou de andar. -Adelaide ficou muito irritada comigo quando a descobri se passando por uma órfã indefesa e quando foi desmascarada, eu tentei tirá-la da confusão e prometi que a levaria em segurança para qualquer lugar que escolhesse. Ela e... Ofélia.

—Quem é Ofélia?

—Era a amiga e criada da Adelaide. -Desviou o olhar. -Eu acredito que ela ainda me culpa por perdê-la. Nós nos esbarramos de vez em quando e ela nunca realmente tentou nada contra mim, mas estou longe de ser sua pessoa favorita.

—E você quer ajudá-la.

—Ter raiva de mim não significa que ela mereça ser deixada para trás. Inocente ou não, eu não posso deixá-la se ferir. Já aconteceu antes e... Acho que agora são proporções maiores.

—Eles querem matá-la.

—É. Mas eles não sabem de uma coisa.

—Do que?

—Eu!-De repente, ele parecia animado. -Se quiserem matar Adelaide Vamipayeri vão ter que passar por mim. E Clara Oswald, eu sou o melhor sistema de proteção que você poderia conhecer!

—Você tem um plano?-Ela se levantou, deixando a animação contagiá-la.

—Não, mas eu gosto de improvisar. -Ajeitou a gravata borboleta. -Por enquanto, é tudo o que temos.

***

Adelaide continuava inconsciente, enquanto rios de sangue escorriam lentamente de seus cortes. O logo cabelo cobria o rosto pálido e adormecido, ocultado os olhos que se reviraram nas pálpebras fechadas, denunciando que a vampira estava tendo pesadelos em sua mente adormecida de forma não natural.

Dois policiais estavam na entrada da sala, mas não pareciam atentos, e sim entediados.

—Essa que é a vampira perigosa?-Um deles, o mais alto, perguntou. -Não parece.

—Acho que ninguém parece perigoso quando está amarrado e perdendo sangue.

—Talvez você não tenha presenciado uma das dezenas de vezes em que o Mestre foi preso. Aquele homem é assustador e perigoso até dormindo. Essa aí?-Apontou para Adelaide com a cabeça. -É só uma mulher com uma reputação. Não me assusta nem um pouco.

—Dizem que ela rasga gargantas com os dentes.

—Meu amigo, quem não consegue isso? Todos temos dentes. -O mais jovem arregalou os olhos.

—Eu não faria isso.

—Nem eu. É por isso que ela está presa e nós não. -Em seu sono perturbado, Adelaide se mexeu.

—Por que ela não está em uma das celas, Malik?

—Não ouviu que ela matou um governador? Armani a quer aqui em baixo para tratamento especial.

—Que tipo de...

—Você faz perguntas demais. Não quer ser promovido, ter um salário melhor e sair da parte baixa da cidade? Questione menos e obedeça mais.

—Sim, senhor. -Ajeitou a postura.

O rádio de Malik emitiu o som de estática, ele o tirou do cinto, apertando o botão para falar.

—Oficial Malik na escuta.

—Oficial, preciso que passe no escritório do delegado agora mesmo. Problemas.

—Problemas? Espera, quem tá falando?

—É... A Vera. Sou a nova secretária do delegado. Por favor, venha imediatamente. Sem querer alarmá-lo, mas parece sério... Algo a ver com demissão...

—O que? Eu vou ser demitido?

—Como eu disse, é melhor vir imediatamente.

—Eu vou subir, garoto. -Guardou o rádio. -Você fica de olho na prisioneira... E não chega muito perto, só pra garantir.

—Eu não vou. -Lewis prometeu, assentindo desesperadamente. Ele não se aproximaria da vampira nem se isso lhe desse uma promoção. Mortos não eram promovidos.

—Certo. Fica aí e... Faça o seu trabalho. -Saiu apressado para fora da sala.

Lewis respirou fundo, nada contente em ficar sozinho com uma prisioneira tão perigosa. E se as correntes não a segurassem? E se ela acordasse e voasse nele como um maldito Drácula? E se...

Parou, alerta, um barulho tinha soado logo ali. Girou no lugar, pronto para sacar a arma.

—Quem está aí?-Perguntou. Olhou para Adelaide, ela ainda parecia inconsciente. -Quem é?

—Olá, oficial. -Uma garota saudou, se aproximando. -Eu sou a Vera.

—Mas você não estava lá em cima...?

—Preciso que assine isso aqui pra mim. -Entregou uma caneta e uma prancheta com uns papéis. -É importante.

—Estou ganhando uma promoção?

—É. Isso. Parabéns, você está sendo promovido. Agora assine, sim? Precisa ser rápido ou... Bem, o delegado tem outros nomes em mente.

—Ah... Não, não, eu assino... -Clicou na ponta da caneta, então caiu desacordado.

—Acho que já era a promoção.

—Clara, aqui!-O Doutor, lembrou.

—Ah, é! Desculpa. -Correu, se aproximando de onde o Senhor do Tempo estava.

—Preciso que solte as correntes. Eu vou segurar Adelaide, ela parece completamente apagada.

—Está sangrando...

—Eu vi. -Entregou a chave de fenda sônica. -Rápido.

Clara mirou nos pulsos e pescoço de Adelaide, fazendo-a se soltar e cair contra o Doutor. A vampira sequer se mexeu, nem mesmo quando ele a pegou no colo.

—E agora?-Perguntou.

—Agora nós saímos pelos fundos. E rápido.

***

—Ela parece tão... Pálida. -Clara comentou, vendo o Doutor sentar Adelaide contra a parede.

—Ela é pálida... -Parou um momento, observando-a. -Tá bem... Ela está mais pálida do que o normal... -A escaneou com a chave de fenda sônica. -Perda de sangue, não excessiva, mas mais do que deveria.

—E o que fazemos?

—Repomos.

—Okay, onde conseguimos o sangue?-O Doutor olhou pra ela. -Que foi?

—Ela é uma vampira. Isso não te diz nada?

—Oh, certo... Mas... Onde... Não. Você não vai...?

—Vai ser rápido, e não é uma quantidade tão alarmante...

—Você esqueceu que ela não gosta de você? Quem garante que ela não vai voar no seu pescoço e não soltar mais? Ela pode te matar!

—Ela não vai me matar.

—Como pode ter certeza?

—Não tenho. Mas vlastovianos precisam de sangue mais do que outras espécies. É como se tivessem deixado um humano sem comida ou água.

—Isso não ajuda em nada. Se ela está tão desesperada por sangue, pode acabar secando você e eu duvido que vá regenerar se não tiver uma gota de sangue no corpo. -Ele não achou que era um bom momento para lembrá-la que não tinha mais regenerações.

Adelaide se mexeu devagar e abriu os olhos. Olhou do Doutor para Clara algumas vezes e em volta da TARDIS. Parecia não entender muito bem o que estava acontecendo. O raciocínio rápido tinha sido prejudicado pela falta de sangue.

—Nós resgatamos você. -O Doutor disse. -Está segura agora. Como se sente?

—Fraca. -Sussurrou.

—Lembra do que aconteceu?-O olhar dela ficou distante.

—Sim. Por que foi atrás de mim?

—Eu sei que você é inocente.

—Ah. Agora você sabe.

—Desculpe por não acreditar antes.

—Não importa. Eu já me acostumei.

—Você precisa de sangue. -Ela o encarou. -Então... Hã... -Limpou a garganta. -Eu...

—Não.

—O que?

—Eu não aceito. Não quero seu sangue. -O Doutor pareceu indignado.

—O que tem de errado com meu sangue?

—Ele é seu.

—Não seja infantil.

—Não estou sendo. Eu não quero seu sangue, então nem tente bancar o herói.

—Você precisa...

—Posso me virar. -Tentou ficar de pé, mas sem surpresa, não conseguiu.

—Dessa vez não pode. -Olhou para Clara, que entendeu a deixa e saiu, mesmo relutante. -Entendo que não goste de mim, e que sabe cuidar de si mesma. Entendendo mesmo. Você é uma das pessoas mais fortes que eu conheci. Mas até mesmo as pessoas fortes precisam de uma ajudinha às vezes. Eu sei que é inocente e quero que prove isso. E o único jeito de você se inocentar é não morrendo aqui por falta de sangue. É ficando viva que vai mostrar à eles que você não tem culpa de nada. Você precisa de mim agora, e isso não te faz menos incrível e forte, Adelaide. -Ela o encarou de novo.

—Por favor, pare de falar. Eu não aguento um discurso agora.

—Eu vou parar se você parar de ser teimosa...

—Tá, tá. Que seja. Eu paro. -O puxou pela frente do casaco. -Mas se contar pra alguém que me doou sangue, -Mostrou as presas. -eu vou picá-lo em mínimos pedaços e queimá-los. -Ele engoliu seco.

—Como quiser. -Tentou sorrir. -E então... Isso vai doer?

***

Quando Clara voltou para a sala de controle, Adelaide estava usando outro vestido e parecia bem melhor. O sangue havia sumido e sua pele tinha um brilho de pessoa saudável. Enquanto isso, o Doutor parecia só um pouquinho cansado, e tinha um band-aid do Toy Story aparecendo sorrateiramente pelo colarinho do camisa. Era óbvio por que Adelaide tinha se recuperado depressa.

—Então, vamos ao que importa. -O Doutor disse, tentando soar como o Doutor de sempre. -Adel, você tem inimigos?

—Em primeiro lugar, não me chame de Adel. -Ela mandou. -E é lógico que tenho. Você sabe que pessoas como nós, que tem uma longa vida, colecionam desafetos.

—Colecionamos mais do que isso.

—Nem todos. -Desviou o olhar por alguns segundos.

—Quantos inimigos acha que tem?

—Quantas estrelas existem no Universo?-Ele tentou não parecer chocado.

—Sem chance de ser uma pequena e investigável lista, então.

—Chance nenhuma.

—Certo. Mas imagino que haja uma lista reduzida com os mais importantes ou perigosos...

—Talvez.

—Que tal começarmos por aí?

—Perca de tempo. Ninguém que me conhece pessoalmente teria o trabalho de forjar um assassinato para me culpar. Seria muito mais simples me culpar de algo que eu tenha feito, um crime que eu tenha mesmo cometido.

—E são muitos?-Clara perguntou.

—Quer mesmo saber?

—Acho que não.

—Se não é ninguém que a conhece pessoalmente... -O Doutor começou. -Quem? Quem faria isso?

—Se eu soubesse já teria ido matá-lo. -Adelaide disse. -Mas tem um jeito de descobrir. Acredito que a polícia foi paga para me capturar. Eles sabem que não sou culpada, pelo menos uma parte deles, alguém que está no comando, por exemplo. Só precisamos saber quem está comandando essa operação.

—Que tal Clara e eu irmos descobrir e você fica bem aqui, esperando?

—Acha que isso vai evitar que eu mate o infeliz?

—A esperança é a última que morre.

—Eu fui torturada e tratada como um animal. O responsável por isso vai pagar com a vida.

—Adelaide...

—Não. Nem tenta. Eu não vou mudar de ideia.

—Por que você é tão teimosa?-Bufou.

—Por que você é tão irritante?-Ele fez uma careta.

—Touché.

—Como vamos fazer isso?-Clara perguntou.

—Eu tenho um plano. -Adelaide afirmou. -Essa noite o Doutor ligará para a polícia e fará uma denúncia anônima dizendo que viu, do outro lado da cidade, uma mulher atacando alguém, e ela parece muito com a mulher que matou o governador. Isso fará os policiais montarem um grande grupo para ir me capturar. Quando eles saírem, eu entro discretamente e roubo as informações que precisamos.

—E então vai sozinha encontrar o homem que estamos procurando. -O Doutor completou. -Não gostei do seu plano.

—Não é discutível.

—Eu vou. -Clara disse, ganhando a atenção dos dois. -Vou lá e faço o que for preciso, depois volto imediatamente pra cá.

—De jeito nenhum. -O Doutor cortou. -É muito perigoso.

—Já fizemos muitas coisas e olha eu aqui. -Apontou para si mesma.

—Mulheres não devem ser subestimadas. -Adelaide declarou. -Acredito que consiga fazer isso... Mas não pode ir vestida assim. -Clara franziu a testa.

—Assim? Assim... Como?

—Como uma professora.

—Eu sou uma professora!

—Precisa de outro visual. Vamos até o guarda roupa. -O Doutor começou a segui-las, mas parou quando Adelaide virou e o encarou. -Você não foi convidado.

—É a minha nave. -Ele disse. Ela colocou as mãos na cintura, estreitando os olhos. -Sabe de uma coisa? Eu vou ficar sentado bem aqui esperando.

—Excelente escolha.

As duas seguiram para o guarda roupa em silêncio e Clara esperou enquanto Adelaide passava pelos cabides, tirando uma peça ou outra. Ela parecia muito focada nisso para alguém que queria cometer assassinato.

—Você pode ser uma viúva. -Ela disse de repente, entregando um vestido preto. -Caso alguém pergunte. Seja uma viúva escandalosa e bonitinha que precisa de ajuda.

—Bonitinha?

—Desculpe, você não faz o meu tipo. Vou pegar os sapatos e acessórios, mas você já pode ir se arrumando. Não podemos perder tempo. -Se voltou para as roupas. -Alguém quer minha cabeça separada do meu pescoço.

***

Quando Clara saiu, deixou uma levemente impaciente Adelaide, e um preocupado Doutor na TARDIS. Ele confiava na garota, mas tinha visto o que os policiais haviam feito com a vampira mais cedo, e isso não o tranquilizava. Adelaide era uma vlastoviana. Clara, não.

—Ela vai ficar bem. -Adelaide disse.

—Queria ter certeza. -Olhou para ela. -Quando encontrarmos o homem responsável pelo caso...

—E lá vamos nós.

—Adelaide, isso é sério.

—Sério? Você acha que não notei? Eu fui acorrentada como um bicho e torturada. E você quer que eu simplesmente deixe pra lá?

—Não. Mas não quero que pense que...

—Que o que?

—Matar o responsável não vai fazer você se sentir melhor.

—É isso o que você pensa, por que você é assim. Eu não sou.

—Não vou levar você até o homem que quer matar. Prometa. Prometa que não vai matá-lo.

—Eu não preciso da sua ajuda, posso encontrá-lo sozinha.

—Também pode ser capturada de novo e talvez não ter chance de escapar.

—A morte não me assusta, Doutor. -Ele abriu a boca para responder, mas no segundo seguinte Clara entrou na TARDIS como um furacão e se encostou nas portas, parecendo ter corrido quilômetros.

—Eu consegui!-Exclamou. -Tenho um nome e um endereço. -Acenou no ar com um pedaço de papel. -Eu sou incrível, não sou?

***

—É caro demais para o salário de um policial. -Adelaide declarou, dando alguns passos pela sala do apartamento.

—Não se ele for corrupto. -Clara murmurou. -O que estamos procurando exatamente?

—Qualquer coisa que... -Parou, o olhar preso numa foto. -Ele. É ele.

—O que foi?-O Doutor perguntou, preocupado.

—Eu conheço ele.

—Esse é o policial que estava dando as ordens hoje de manhã. -Clara apontou. -Lembra? Era ele.

—Não foi hoje que o conheci.

—Então onde...?

—Vamos às pistas. Não sabemos que horas ele vai voltar.

Se espalharam, revirando gavetas, estantes, e olhando até mesmo no meio de alguns livros, como em filmes. Mas não havia pistas ali.

No quarto, Adelaide abriu uma gaveta e congelou, totalmente alerta. Ali dentro, brilhando como os malditos olhos de uma cobra, uma única moeda vlastoviana, com o rosto do atual rei.

Agora tudo faria sentido.

Kiriarmos Gorenti, o ditador que destronou os Vamipayeri e tomou o trono de Vlastov, estava por trás de tudo aquilo. Ele tinha feito com que Adelaide fosse acusada de algo que lhe traria apenas a morte. Subornou um oficial humano, e esperou. Se fosse realmente inteligente, e Adelaide suspeitava que era, sabia que ela não morreria, mas sofreria e talvez penasse para provar sua inocência. Aquilo era um lembrete. Um lembrete de que o atual rei de seu planeta natal não havia esquecido dela, e de nenhum Vamipayeri. Por algum motivo ele deve ter se preocupado com sua segurança, temido perder seu trono, então decidiu lembrar aos destronados quem ele era.

—Achou alguma coisa, Adelaide?-O Doutor perguntou. A vampira pegou a moeda, a escondendo rapidamente no vestido.

—Não. -Mentiu. -Ainda não.

—Gente!-Clara sussurrou com urgência. -Tem alguém entrando!

Os três se voltaram para a porta. A maçaneta mexeu, então alguém estava passando para dentro do apartamento. Klaus Armani.

Ele tentou sacar a arma quando viu os intrusos, mas Adelaide atravessou o apartamento como uma bala e agarrou o policial pela frente da roupa, empurrando-o na parede.

—Olá de novo. Que coincidência, você não acha? Nos encontramos à o que? Um mês? E agora você foi contratado para me incriminar.

—Não foi coincidência.

—Certamente não. Estou acostumada a ter caras que dormiram comigo tentando me matar, mas isso é diferente. Você recebeu ordens de alguém. Estava colhendo evidências, não estava? Naquela noite, você já sabia o que ia fazer.

—Você até que é um pouco esperta.

—Eu sou malignamente esperta. E você está praticamente morto.

—Adelaide, não. -O Doutor disse. Ela fechou os olhos por alguns segundos e respirou fundo.

—Está vendo aquele homem?-Sussurrou. -Olhe bem para o rosto dele e o memorize. Aquele homem é a única razão de você não estar morto agora. Mas se cruzar comigo de novo, não terá uma morte rápida, vou mostrar que não é o único que sabe torturar alguém. Entendeu?-Klaus assentiu. -Ótimo. -O soltou, se virando para o Doutor.

Ela parecia um pouco perdida, ele notou. Sabia que tinha dito algo para Klaus, mas não conseguiu ouvir o que era. Seja o que fosse, não importava, por que ela tinha decidido não matá-lo.

Infelizmente Klaus não tinha as mesmas intenções.

Uma estaca prateada foi tirada rapidamente de dentro do casaco dele e Adelaide foi acertada pelas costas. O impacto a empurrou para frente, mas ela se manteve de pé, sem gritar.

Enquanto Klaus tentava pegar a arma, alguém o acertou com uma arma de choque e ele caiu com tudo no chão.

—Achei no balcão da cozinha. -Clara disse, ainda apontando o taser na direção dele. -Eu não o matei, matei?

—Espero que não, por que eu vou matá-lo. -Adelaide disse, se apoiando numa estante. -Alguém tira essa estaca de mim.

—Não é uma boa ideia. -O Doutor disse. -Isso pode...

—Tira isso de mim!

—Adel...

—Ele errou o coração, e eu vou me curar. Agora tira.

—Você tem certeza?

—Tira logo!

O Doutor avançou, hesitante, mas agarrou a estaca com as duas mãos e puxou. O ferimento não era profundo, e começou a se curar logo em seguida.

Olhou para Adelaide. Ela não parecia bem, era como se mil coisas estivem passando em sua cabeça e ela estava assustada.

De repente, ela virou para Klaus e o chutou. O policial apenas gemeu e se mexeu no chão, incapaz de levantar. Em seguida, olhou para o Doutor. Ele tentou não recuar. Era como olhar para os olhos de uma tempestade.

—Está satisfeito?-Ela perguntou, então se virou e saiu do apartamento, sem olhar para trás.

***

—Não foi tão ruim. -Clara disse, sentando ao lado do Doutor no degrau da escada.

—Foi péssimo, mas podia ser pior. E ainda não provamos que Adelaide é inocente.

—Onde acha que ela está?

—Longe. Ela é esperta, e no fim parecia muito cansada. Não vai voltar. Mas não vou parar aqui, vou provar que ela é inocente.

—Podemos fazer isso?

—Espero sim. -Suspirou. -Espero que sim.

Longe dali, nas ruas escuras da cidade, Adelaide seguia em frente, mesmo exausta, mesmo sentido que ia desmanchar e se desfazer como se não fosse nada. Parou um momento, pegando a moeda de Vlastov.

—Eu entendi o recado. -Sussurrou. -Não se preocupe... Não vou para casa... O trono é todo seu.

Observou a moeda por mais um tempo, então a jogou no rio e continuou andando.

Comments & Reactions

Share your thoughts, attach collectible stamps, and react with the author and community.

You have reached the latest chapterReturn to story overview
Story Index