Era incrível ganhar dez reais de meu avô todo final do mês ,ele ficava contente de ver em meus olhos ,a alegria que era impossível de conter .Eu estava juntando a meses esses dinheiros para construir uma oficina para mim.Naquela época dez reais era muito pra mim, dez reais era um conforto pra meus bolsos, dava pra comprar um charuto de madeira falso, só pra imitar o barulho que o charuto do meu vô fazia, como vocês podem ver desde pequeno eu já sonhava em seguir os caminhos de meu avô, ele sempre foi meuherói.
Sempre era perfeito de observar quando ele repousava na rede antes do anoitecer, colocava seu óculos antigo na ponta do nariz e se punha a viajar entre as criatividades dos livros de cowboy , essa era uma das poucas vezes que deixava seu charuto de lado.
Um dia fiquei repleto de medo de ter pesadelo, atormentado , levantei-me cedo da cama e fui a procura dos braços fracos e aconchegantes do avô, fui até seu quarto ,mas só encontrei lençóis revirados pela cama,ouvi um barulho vindo da oficina falida dele, aquela que anos atrás ele batalhou para conseguir, quando cheguei lá a porta estava aberta e fiquei o observando em silêncio, ele estava de costas para mim e a sua concentração estava focada num relógio antigo, eu não sabia ver hora ainda, e isso não era uma das minhas primeiras prioridades da minha lista, mas naquele momento eu senti uma vontade enorme de saber ver hora.
Entrei na oficina, meu vô se virou, sorriu e logo indagou ;
--- quer me ajudar ?
Em resposta ,gesticulei a cabeça e segui as instruções que ele me passava.
Depois de muitas marteladas, o relógio estava consertado ,então pedi a ele que me ensinasse a ver a hora.
Acabamos ficando na oficina até a hora do almoço, confesso que o tempo ainda não foi o suficiente para aprender a ver as horas, o que eu já sabia era que as horas tinham muita ligação com a tabuada do número cinco.
Alguns dias depois meu avô ficou doente, eu não sabia se era por causa do charuto ou era por causa da mania que ele tinha de andar descalça pelo piso frio, só sei que ele foi se afastando de mim, bruscamente eu senti que ele podia partir , e eu tinha razão, algumas semanas depois ele morreu.
Agora já se passaram seis longos anos, e dois fatos são corretos: sou adolescente e ainda sinto uma falta grande do meu avô, minha família nunca entendeu o porqueeu recuso a saber olhar a hora até hoje, é óbvio que eu ainda tenho esperança de que meu avô volte para me ensinar, e também que ele volte pra trabalhar comigo na minha oficina que está ficando quase pronta, investi todo meu dinheiro e todos meus sonhos, hoje o relógio que meu avô e eu consertamos está na parede da minha oficina e com certeza nas lembranças do meu avô.

