The last breath
The last breath
Chapter 111 min read

Quem eu era

Abri os meus olhos com dificuldade. A luz que passava por entre as cortinas entreabertas trazia uma sensação incomoda aos meus olhos que tentavam se acostumar aquela iluminação excessiva. Os esfreguei com força tentando afastar o sono que ainda me mantinha presa aquela cama. Ergui o meu tronco com dificuldade observando pela primeira vez o local onde eu estava.

Era um quarto amplo com alguns móveis antigos típicos de uma arquitetura rústica que em nada me parecia familiar, as paredes do quarto possuíam um tom verde claro e perturbador. Por algum motivo aquela cor me deixava inquieta. Encostado na parede próximo a uma porta havia um quadro contendo a pintura de uma mulher jovem e de longos cabelos castanhos, esboçando um longo sorriso em seus finos lábios, no canto do quadro estava escrito um nome.

Sigyn.

Aquele nome me pareceu familiar, diferentemente de tudo que estava naquele lugar. Voltei a encarar tudo com curiosidade e reparei que eu não fazia ideia de onde estava. Um arrepiou passou pelo meu corpo ao tentar imaginar como eu poderia ter ido parar ali, minha mente parecia vazia, não conseguia me lembrar de nada, apenas da voz da minha mãe pedindo para eu ter cuidado com alguma coisa que eu também não conseguia me lembrar. Passei as mãos pelos meus cabelos nervosamente tentando calcular a quantidade de Hidromel que eu deveria ter ingerido no dia anterior para não lembrar de absolutamente nada. Nem mesmo da pessoa que dormira comigo, constatei assustada notando o outro travesseiro disposto na cama de casal e os lençóis amassados indicando claramente que mais alguém esteve ali.

Arregalei os olhos e levantei da cama assustada me dirigindo apressadamente para a porta que havia visto antes, parei de andar bruscamente quando reparei em um elmo estranho em cima de uma cômoda. Involuntariamente peguei aquele elmo feito de um metal dourado, ele possuía dois chifres e me era familiar, embora tivesse a certeza de nunca tê-lo visto antes.

Passei alguns minutos apenas o observando até reparar no meu reflexo no metal brilhoso, me assustei com o que vi e deixei o objeto cair no chão fazendo um som agudo ecoar pelo cômodo silencioso, mas eu não dei importância a isso, estava presa aquele reflexo. Aquela não era eu.

Levei minhas mãos ao rosto tentando reconhecer minha verdadeira face, olhei sobre a cômoda e notei um pequeno espelho de mão, me apressei em pegá-lo e não pude evitar um grito de susto ao ver a minha face refletida nele, aquela era eu? Não podia ser. Como eu não reconhecia meu próprio rosto?

Olhei novamente para a pintura que estava na parede e fiquei perplexa ao notar que aquela era eu.

— Sigyn... — Murmurei aquele nome estranho, sem nem ao menos saber ao certo que aquele era o meu nome.

— Sigyn. — uma voz gélida repetiu a minha fala, me pegando de surpresa e fazendo com que o espelho que eu carregava em mãos se espatifasse no chão no momento que virei para trás e o vi pela primeira vez.

— Sigyn. — ele voltou a se manifestar — Esse é o seu nome.

— O quê? — foi tudo que consegui dizer.

— Esse é o seu nome. — ele repetiu sem esboçar reação alguma.

Fiquei alguns segundos estática observando aquele homem estranho que surgiu de repente. Ele estava sentado na cama, possuía uma pele alva, longos cabelos negros e tinha olhos verdes que pareciam feitos para hipnotizar. Me hipnotizar. Chacoalhei minha cabeça tentando afastar aqueles pensamentos.

— Como eu posso não saber o meu próprio nome? — perguntei assustada.

Ele deixou escapar um suspiro baixo.

— Você perdeu sua memória. — ele disse com simplicidade e eu o teria interrompido indignada com aquela simples resposta se as palavras que vieram a seguir não tivessem me deixado completamente sem chão — Você a perde todos os dias.

— Todos os dias? — repeti assustada, me escorando na parede.

— Sim.

Um silêncio perturbador se instaurou no local, meu cérebro ainda tentava processar aquelas palavras quando outra dúvida surgiu em minha mente.

— E quem é você? — perguntei de repente.

Ele sorriu. E eu senti calafrios.

— Eu sou o Loki. — respondeu com um sorriso — E você é a minha esposa.

— Esposa? — repeti alarmada — Mas como... Eu... Eu não...

— Não lembra de mim. — ele completou minha fala — Como eu disse você perdeu a sua memória. — justificou se levantando da cama e se aproximando perigosamente de mim.

Me senti acuada contra a parede quando ele encostou sua mão em meu rosto, em um afago carinhoso que em nada condizia com o tom gélido dele ao explicar a minha falta de memória.

Me perguntava se tudo aquilo era verdade, algo me dizia que eu não deveria confiar nele, não tive tempo de entender aquela impressão, pois logo senti o peso de seu corpo pressionando o meu, enquanto o toque frio de seus lábios pressionavam os meus.

Uma parte de mim apreciou completamente aquela aproximação e me dizia para confiar completamente nele, outra parte mais coerente gritava para que eu fugisse daquele estranho enquanto eu ainda podia.

Eu queria fugir, mas ele me mantinha ali presa ao seu corpo.

— Descanse um pouco. — ele sussurrou quando separou seus lábios dos meus — O café da manhã está servido na sala, mais tarde conversaremos. — ele concluiu antes de se afastar de mim.

— Espere! — gritei — Onde você vai?

— Tenho uns assuntos para resolver. — ele disse evasivamente.

— Você sempre me diz isso. — respondi automaticamente, como se aquela frase viesse a minha mente de repente e fosse a mais pura verdade. A verdade que eu não lembrava.

Ele apenas sorriu.

Um sorriso que eu reparei apreciar muito.

Não pude contemplá-lo por muito tempo, pois logo ele sumiu da mesma forma repentina como surgiu.

Soltei um longo suspiro ainda tentando compreender se tudo aquilo era real, sai do quarto e não foi difícil achar no fim do corredor o local onde ele disse que estaria o meu café da manhã. Sentei na mesa roboticamente observando tudo ao meu redor, nada me era familiar. Aquele homem só podia estar mentindo, afinal mentir era a especialidade dele, me vi refletindo como se realmente o conhecesse, como poderia saber que ele era um mentiroso?

Me perdi naqueles pensamentos e as horas se passaram, estava angustiada por ficar ali sozinha, talvez aquele homem fosse algum louco que me mantinha presa, será que eu poderia sair daquele lugar?

— Claro que pode! — ele respondeu quando apareceu na sala.

— O quê? — foi tudo que consegui balbuciar olhando naqueles olhos gélidos.

— Você pode sair se quiser.

— Você consegue ler a minha mente? — perguntei chocada.

— Não, mas você me faz essa pergunta com muita frequência. — a simplicidade dele me assustava.

Então era verdade, eu perdia as minhas memorias todos os dias? Se era verdade, como ele conseguia aguentar aquilo?

— Veja isso. — ele colocou uma caixa sobre a mesa — Essa caixa possui alguns objetos seus.

Olhei para ele com relutância e abri a caixa lentamente, com medo do que encontraria por lá, encontrei uma espada e alguns objetos de magia que eu não sabia para o que serviam. Aquilo não poderia ser meu, o que ele queria me lembrar com aquilo?

— Todos os dias você faz isso? — perguntei com curiosidade, será que ele me amava?

— Não. — ele respondeu com simplicidade, e por algum motivo aquilo me entristeceu, gostaria que ele me dissesse que fazia quilo todos os dias, um pensamento tolo, ele não parecia ser o tipo de homem que faria isso.

— Às vezes, apenas quando você acorda sem reconhecer a si mesma. — ele completou

— Compreendo. — menti.

Fiquei observando aquele homem por um tempo, aquele homem estranho que me enfeitiçava de alguma forma, o tal Loki.

— É... Loki... Você é mesmo meu marido? — perguntei de repente.

— Sim. — ele respondeu sem olhar nos meus olhos, ele não parecia ser do tipo que falava muito.

— E você me ama? — perguntei sem poder me conter.

Ele me olhou com curiosidade e ergueu uma de suas sobrancelhas. Por algum motivo ansiei muito por aquela resposta, embora eu não soubesse o porquê, eu nem ao menos sabia quem ele era, se eu poderia confiar nele, mas ao mesmo tempo sentia que a minha mente pertencia a ele.

Ele sorriu, e nada respondeu. Senti como se tivesse levado um tapa, confesso que gostaria de ter ouvido ele falar que me amava. O silêncio voltou a me assustar.

— Você sabe a resposta. — ele cortou o silêncio que me machucava.

Como eu poderia saber a resposta se eu não me lembrava dele?

— O que aconteceu comigo? — perguntei, tentando afastar a dor que invadia meu peito, a dor da ausência.

— Você caiu. — foi tudo que ele disse.

— Cai? — repeti sem entender.

— Caiu de um abismo. — comentou com uma voz diferente, com emoção?

— Como?

— Quando fugia de uns inimigos meus. — ressaltou a palavra meus.

Aquilo parecia informação demais para a minha mente, quem ele era para ter inimigos assim?

Não perguntei mais nada, apenas esperei que ele desaparecesse novamente. Me levantei de onde estava e comecei a vagar pela casa como um fantasma, aquilo só poderia ser um pesadelo. Voltei para o mesmo corredor do quarto onde acordei de manhã e me vi correndo sem rumo para um quarto mais afastado.

Um quarto pequeno e completamente vazio como o meu coração. Tive vontade de chorar e não soube ao certo o por quê. Abracei meus próprios braços quando uma imagem de duas crianças correndo por aquele quarto invadiram a minha mente.

Me lembrava perfeitamente de dois meninos, duas pequenas crianças praticamente iguais, de cabelos negros. Eles estavam correndo e brincando com objetos que não estavam mais lá e sorrindo para mim, o mesmo sorriso de Loki.

Sai do quarto tentando entender quem eram aqueles meninos, corri para o lado de fora da casa, seguindo um caminho que eu não conhecia. Encontrei Loki observando alguma coisa no céu.

— Loki! — gritei indo em sua direção.

Ele me olhou com intensidade e antes que ele dissesse algo deixei que um pensamento estranho que vagava pela minha mente ganhasse forma.

— Onde estão os meus filhos? — gritei novamente, como se eu realmente soubesse que tinha filhos.

— Sigyn... — ele disse com uma expressão de dor.

— Por que não me contou sobre eles? — o interrompi.

— Sigyn...

— Eu quero os meus filhos! — gritei me agarrando as roupas dele.

Loki parecia chocado com a minha pergunta, e pela primeira vez ele parecia não saber o que me dizer.

A ideia de que ele fosse um louco que estava me mantendo presa ali voltou a me aterrorizar. O que ele havia feito com meus filhos?

— Narfi e Váli? — soltei aqueles nomes como se eles sempre estivessem na minha mente.

Loki acariciou minhas mãos e fitou meus olhos desesperados com intensidade.

— Sigyn, eles não estão mais aqui. — ele disse com uma voz fraca.

— Como assim eles não estão mais aqui? — gritei histérica, enquanto lágrimas invadiam os meus olhos.

— Ele se foram Sigyn, para sempre. — ele completou com uma voz triste.

Senti como se tivesse levado uma punhalada pelas costas, minhas pernas tremiam e se não fosse por Loki me segurar, tenho certeza que teria desabado no chão.

Aquilo não poderia ser verdade.

— Por que esta mentindo? — perguntei com uma voz chorosa — Me diga que está mentindo!

De repente eu tinha dois filhos, e agora eles estavam mortos.

— Eles eram só crianças... — murmurei.

— Eu não consegui protegê-los. — Loki soltou um longo suspiro — Restou apenas a vingança, mas agora que a alcancei, que o caos reina nos nove mundos... Ainda me sinto om ódio, com raiva... — confessou.

Me joguei contra os braços dele, em um abraço apertado, senti o medo e a dor. Queria acreditar que tudo aquilo era uma ilusão, mas eu sabia que tudo era real, tão real quanto a dor que me atormentava. Uma dor que fazia eu ansiar pelo sangue de quem quer que fosse que tivesse feito aquilo aos meus meninos.

Queria me perder naquela solidão, me perguntava se todos os dias eu me lembrava dos meus filhos, se todos os dias eu chorava e a quanto tempo eu estava daquele jeito, talvez me lembrasse de coisas piores, de outras pessoas, mas preferi não pensar naquilo.

Loki era tudo que me restava, mesmo que eu não o conhecesse como deveria. Eu sabia que confiava nele, embora algo me dissesse que eu não deveria. Tinha medo de que ele me deixasse também. Até quando ele aguentaria meu problema?

Amanhã eu já seria uma outra Sigyn, restaria esperar para que ele ficasse comigo até o meu último suspiro. Que ele me amasse, que me vingasse.

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