The color red
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Chapter 128 min read

Capítulo 1 - A faculdade, o apartamento e o gato

Gaara subiu a escadaria correndo. Seus pequenos pés tropeçaram no último degrau, mas ele ignorou a dor no cotovelo esfolado e se atirou para dentro do quarto o mais rápido que pode.

A última porta do guarda-roupas antigo era seu esconderijo secreto. Além dele apenas Temari conhecia o lugar, por que era ela que ia busca-lo na hora do jantar quando ele se escondia e ninguém mais, nem sua mãe, conseguia encontra-lo.

Se enfiou no meio dos cabides e roupas, tateando até encontrar o ponto mais profundo dentro do móvel e lá ficou, tremendo dos pés à cabeça, sentindo o gosto horrível de sangue na boca devido a um corte especialmente feio em seu lábio. Sua cabeça latejava terrivelmente no ponto onde atingira o tampo da mesa ao cair na cozinha instantes atrás. A mistura de medo e angústia crescendo dentro do seu peito, onde o coração batia acelerado. Soluço e choro lutando contra o aperto de ferro em sua garganta.

Passos soaram no corredor.

—Não venha... – Sussurrou baixinho.

Lágrimas espessas irrompiam de seus olhos e rolavam por seu rosto marcado a tapas. Os passos ficaram mais audíveis, a porta do quarto foi aberta com um estrondo.

Tornou a murmurar as palavras como um mantra: “Não venha... por favor, não venha!”. Seu corpo inteiro tremia, como se estivesse correndo nu em uma nevasca, embora fizesse um dia bastante quente lá fora.

—Gaara! – Ouviu a voz grave, fria como gelo, chamar seu nome.

Se encolheu ainda mais contra o fundo do guarda-roupas, tentando fundir-se a madeira e desaparecer.

Os passos se aproximavam perigosamente de seu esconderijo. Cobriu a boca com as mãos, impedindo os soluços involuntários de escaparem e esquecendo-se momentaneamente de respirar. Seu coração saltava violentamente dentro do peito, em tamanha violência que pensou que fosse vomita-lo a qualquer instante.

—Quantas vezes eu vou ter que dizer... – O rugido de Rasa soou do outro lado da porta fina que os separava. – ...Que não adianta você tentar se esconder de mim?!

Então a porta foi escancarada e Gaara acordou abruptamente, batendo a cabeça contra o vidro da janela do trem. A senhora sentada na poltrona ao seu lado tirou os olhos do tricô para lhe oferecer um sorriso amarelo. —Estamos quase chegando. – Disse ela, alegre.

Sacudiu a cabeça tentando em vão afastar as imagens do pesadelo, mas seu coração ainda batia descompassado. Pousou as mãos tremulas no colo, fitando o esmalte preto descascado nas unhas, aos poucos conseguindo retornar à realidade, praticando o exercício mental de contar até mil de trás para frente. A lista de coisas que odiava era relativamente longa, mas os pesadelos com Rasa definitivamente ocupavam o topo.

Do lado de fora a paisagem era um vulto de verde e cinza correndo veloz. Não muito distante, na borda do horizonte logo a frente, os primeiros prédios da cidade Tokyo surgiram. Uma voz feminina soou pelo alto-falante: “Senhores passageiros, faltam quinze minutos até o desembarque na estação de Shibuya.”.

Gaara sentiu um estranho calafrio no estomago quando o trem penetrou nas profundezas do túnel cumprido e revelando a espalhafatosa arquitetura de Tokyo ao sair do outro lado. Os arranha céus desafiando as nuvens e refletindo o brilho do sol a pico. Centenas de pessoas atravessando as ruas, como uma pequena colônia de formigas. As arvores, pintando com um ínfimo verde as calçadas, pareciam miniaturas em uma grande maquete da metrópole.

Era realmente estranho estar de volta depois de tanto tempo.

Em poucos instantes o trem alcançou a estação. Ele foi arrastado por uma multidão apressada para fora da área do desembarque, alcançando o lado de fora aos empurrões. Procurou por entre as figuras transeuntes, entre os rostos sérios e vazios, diferentes expressões, num geral descontentes com o clima ou preço das passagens. Diferentes alturas, tons de pele, cabelos e roupas. Centenas de milhares de pessoas cujos rostos desapareciam de sua mente tão logo quando surgiam. Lá no fim da plataforma, olhando ansiosa para cada um desses rostos, reconheceu sua irmã mais velha.

Ela usava um vestido verde que combina com o tom de seus olhos e o penteado de sempre mantendo os cabelos claros e rebeldes presos no topo da cabeça. Ao seu lado estava Shikamaru, calçado em chinelos de dedo e aguardando paciente, com uma singela nota de preguiça estampada em seu rosto entediado. Quando o viu, de longe, Temari acenou e correu em sua direção para encontra-lo.

—Gaara! – Ela exclamou, antes de envolve-lo em um abraço de urso.

Ela ainda tinha o mesmo cheiro de erva doce e lavanda, e o abraçava com a mesma força que usava para arranca-lo do guarda roupas velho de sua mãe.

—Tudo bem Tema, você já pode me soltar. – Disse sentindo-se grato quando ela aliviou o aperto em seu pescoço.

—Você demorou tanto! — Disse ela.

—O trem atrasou por causa da chuva. — Respondeu Gaara.

—Yo! – Cumprimentou Shikamaru – Já estava começando a achar que você tinha desistido.

—E aguentar um sermão da Tema.

O namorado da irmã sorriu, recebendo um tapa na cabeça.

—O que importa é que você chegou! – Disse Temari, sorrindo de orelha a orelha.

Ela agarrou os dois pelos braços e começou a caminhar para fora da estação.

— Eu não vejo a hora de chegarmos em casa! Shikamaru me ajudou a pintar o seu quarto, não é grandes coisas, mas eu acho que você vai adorar. Meu apartamento fica bem pertinho da universidade e a vista para o parque é maravilhosa. — Dizia ela, enquanto atravessavam os sinais abertos.

—Com “não é grandes coisas” ela quer dizer que é do tamanho de uma toca de rato. – Sussurrou Shikamaru, recebendo outro cascudo como castigo.

Gaara achou engraçado que os dois ainda se dessem tão bem, mesmo depois de todo aquele tempo.

Descobriu sobre eles a dois anos, quando ele e Temari começaram a namorar oficialmente. No entanto, pensou que, como o moreno era três anos mais novo, o relacionamento não duraria muito. No início Temari reclamava o tempo todo da preguiça e complacência do moreno, esse era o tema de praticamente todas as poucas conversas que tinham por telefone, agora parecia radiante como nunca. Shikamaru continuava o mesmo, arrastando os chinelos ao andar e girando os olhos de maneira enfadonha cada vez que ela reclamava de alguma coisa, além de ter ganhado algum peso desde a última vez que o vira.

Atravessaram uma avenida especialmente movimentada e depois de caminhar por alguns minutos chegaram a um complexo de apartamentos numa rua cumprida, repleto de prédios altos e antigos de um lado e do outro. O de Temari tinha a faixada cinzenta e desbotada, como se fizesse uma década desde a última vez que fora reformado, e a entrada era pequena e antiga. As calcadas estavam cheias de folhas que, arrastadas pela chuva, se acumulavam nas valetas lavadas. Apesar disso o lugar possuía uma aura de tranquilidade e sossego incomuns para uma cidade tão grande.

O porteiro os cumprimentou com um sorriso e Temari se adiantou em apresenta-lo, atrapalhando desnecessariamente seus cabelos. Gaara se curvou para retribuir o cumprimento, mas o velho homem gesticulou dizendo que era desnecessário.

No prédio não havia elevador, somente uma escadaria infinita, pela qual Shikamaru se arrastou sem animo algum.

—Eu escalo esse lugar três vezes por dia, Tema. Precisamos nós mudar logo! – Choramingou ele, quando chegaram no quinto andar.

—Não seja frouxo, Shikamaru! – Devolveu Temari, alcançando as chaves do apartamento dentro da bolsa.

Gaara não se surpreendeu depois de passar pela porta da frente do e constatar que a irmã continuava perfeccionista com a arrumação e alinhamento dos móveis. Tudo estava impecavelmente limpo. O chão e as janelas brilhavam, os livros estavam separados por cor na estante e não havia se quer um objeto da decoração minimalista que estivesse fora do lugar.

Shikamaru, parecendo muito familiarizado com a casa, retirou os sapatos rapidamente e desapareceu na direção do que imaginou ser a cozinha dizendo que estava faminto.

—Não vai entrar? – Perguntou Temari, vendo que ele ainda continuava parado na soleira efetuando sua analise.

—Eu só estava pensando... – Gaara apertou a alça da mochila com força enquanto analisava a expressão da irmã. — Tem certeza disso, Tema?

Temari piscou algumas vezes tentando entende-lo.

—Está mesmo me perguntando se tenho certeza se quero o meu irmão comigo? – Ela revirou os olhos – Pare de pensar bobagens, irmãozinho! E entre de uma vez, por que essa é a sua casa a partir de hoje.

Em seguida ela também desapareceu pelo corredor, deixando-o “a vontade” para se acomodar. Então arrancou os sapatos de uma vez e deu a volta no sofá, se deparando com uma enorme bola de pelos enroscada sobre as almofadas. Era um gato alaranjado muito grande e gordo, que espreguiçou e o encarou rancoroso com seus grandes olhos verdes, como se o acusasse de tê-lo acordado.

—Gaara, o seu quarto fica no fim do corredor a direita... – Temari reapareceu com os cabelos presos em um coque e o rosto sujo de farinha – Oh! Você já conheceu o Sr.Tibis? Quem é o neném da mamãe? – Perguntou ela ao gato e o pegou no colo como se fosse uma criança. – Vem! – Ela o chamou.

Gaara a seguiu pelo corredor enquanto o gato o encarava entediado pelo ombro da irmã.

O quarto era mesmo pequeno, assim como dissera shikamaru, tanto que mal havia espaço para a cama e o guarda-roupas de duas portas que Temari havia dado um jeito de enfiar ali. Mas era tenebrosamente aconchegante, como se ele tivesse vivido ali toda a sua vida. As paredes eram brancas e uma delas, a da direita ao lado da cama, fora pintada de laranja.

—Laranja é sua nova cor favorita? – Perguntou ele a Temari que aguardava ansiosa por sua opinião.

Ela deu uma risada envergonhada.

—A culpa é toda do Shikamaru! – Disse ela num tom divertido e alto o suficiente para que o moreno a escutasse da cozinha de onde ele protestou alguma coisa incompreensível. – Eu disse para ele: “Ver-me-lho”! Mas ele trouxe isso! – Ela apontou para a parede enquanto ria.

Gaara deu um passo para dentro do quarto.

A persiana negra estava baixada, fracionando a luz no cômodo. Ele a abriu e espiou o prédio vizinho, cujas janelas permaneciam fechadas.

Temari pigarreou, acariciando entre as orelhas do gato.

—Vou deixa-lo ajeitar suas coisas. Eu já guardei as roupas que você mandou primeiro, mas você deve querer arruma-las do seu jeito. – Ela cerrou a porta dando um último olhar curioso. — Estamos na cozinha, se precisar de alguma coisa...

—Tema... – Disse Gaara antes que ela saísse e então fitou a parede colorida – Laranja é bom.

Ela deu um enorme sorriso e desapareceu.

Quando se viu sozinho Gaara finalmente desabou sobre a cama e fechou os olhos. O Cheiro de tinta fresca e madeira ainda estava impregnado no ar, mas não o incomodava. Era cheiro de casa nova, de mudança. Sentiu-se por um instante, enquanto a maciez do edredom massageava seu rosto, em casa.

Fazia tanto tempo desde a última vez que se sentira verdadeiramente tal sensação que já nem se lembrava. Era como se houvesse feito uma viajem muito longa, da qual não sabia se iria retornar. E de fato havia mesmo embarcado em um trem para terras desconhecidas dentro de si. Temia não se adaptar, ou incomodar os outros. Não queria ser um estorvo, principalmente para a irmã que tanto já havia sofrido por sua causa.

Se se concentrasse conseguia ouvir as vozes animadas de Temari e Shikamaru, mas tentou prestar atenção apenas na quietude do quarto, no alaranjado da parede. Nunca gostara de cores berrantes, de tal já batava seu próprio cabelo, se destacando entre qualquer japonês comum. Diferenciando-o. Tão miseravelmente parecido com Rasa...

“Você nunca será alguém na vida, seu lixo imundo, imprestável! Olhe quanto você me custou!”

Seus pensamentos mergulharam em lembranças ruins, o coração acelerou. De repente estava com sede, as mãos tremulas.

—Gaara...

“Sempre dando trabalho...”

—Ei, Gaara...

Se sentou subitamente na cama, o rosto coberto de suor. Só então se deu conta de Shikamaru parado na porta aberta do quarto.

—Tudo bem? — Ele indagou.

—Sim. Tudo. — Mentiu, tentando disfarçar a súbita vontade de vomitar.

O moreno andou até a janela e espiou lá fora pela greta da cortina.

—O almoço está pronto. — Disse ele, depois de um tempo – Temari odeia quando deixo a comida esfriar. Nunca a faça esperar demais, vai por mim. E não se sinta envergonhado por depender dela também, seja lá para o que for.

—Tema já fez o bastante por mim, Shikamaru, eu não tenho direito algum de pedir mais.

—Você é o irmão mais novo dela, se alguém tem esse direito é você.

Os ombros dele subiram e desceram com a gravidade.

—Gaara e Shikamaru, vou esfregar a cara dos dois no prato se não vierem comer! — Gritou Temari da cozinha.

Shikamaru sorriu.

—O que eu disse?! — Falou o Nara.

Almoçaram no sofá, assistindo a uma serie policial de comedia, a favorita de Temari, pois a mesa da cozinha era pequena demais para os três. Com Sr. Tibis se esfregando em suas pernas e enchendo sua calça preta de pelos.

Mais tarde ela insistiu para que fossem passear no parque, e embora se sentisse cansado da viagem, não conseguiu recusar, condenando a si mesmo e Shikamaru a uma caminhada quilométrica, pela qual o moreno protestou a cada cinquenta passos. Quando chegaram, estava exausto. Felizmente não demorando a pegar no sono, após de tomar um banho quente, um sono agitado, mas pelo menos livre de mais pesadelos.

No outro dia, uma segunda feira que amanhecera quente e ensolarada, o despertador o acordou às sete da manhã para seu primeiro dia na faculdade de educação física. Temari já havia saído para trabalhar, deixando-lhe na mesa suco de laranja, torrada e ovos mexidos, seu café da manhã favorito.

—Bom dia, Sr. Tibis. — Disse para o gato, que veio cumprimenta-lo na porta do banheiro.

A estação do metrô ficava a apenas dez minutos do apartamento e o trem chegou na universidade muito mais cedo do que ele realmente precisava.

A Universidade de Konoha era exatamente como havia imaginado, ainda que muito maior, prédios modernos pintados em cores quente, amplos jardins e mais verde do que esperava. Era o sonho de qualquer estudante da escola pública, ou de qualquer um que almejasse ir à universidade. A maior parte dos estudantes vinha de famílias ricas, influentes, ou minimamente importantes, e apenas algumas bolsas, sua porta de entrada, eram oferecidas em exceção.

Nos estacionamentos haviam Mercedes, porches, lamborguines, conversíveis, futuristas, motos esportivas e clássicos que deveriam valer uma fortuna. Gaara se sentiu em um desfile de veículos de luxo. Não viu se quer um carro popular em toda a volta aos campos que dera no ônibus circular.

A faculdade de educação física era um complexo no centro de uma enorme lagoa. Havia uma pista de atletismo, onde uma porção de corredores com o uniforme azul e branco se aqueciam. Academias ao ar livre, bicicletários, quadras esparsas e até um campo de futebol. Sentiu as mãos suarem ao entrar no prédio principal, uma sensação de formigamento desde a sola de seus pés calçados em all star azul até o topo de sua cabeça. Cortesia de uma perversa conhecida como ansiedade.

Todas as pessoas eram alegres, bonitas demais e desconcertantemente bem vestidas, fazendo-o sentir-se insignificante dentro de suas calças pretas cheias de pelo de gato e sua camiseta do Alice Cooper.

Alcançou a sala da primeira aula, um anfiteatro no segundo andar, encontrando-a ainda vazia. Se acomodou numa das carteiras mais altas e aguardou até o restante da turma chegar, ouvindo a uma play list dos anos 80 nos fones. À medida que o restante dos alunos entrava na sala, tentou identificar alguém e se surpreendeu quando o professor, um homem alto, de cabelos grisalhos e usando o cachecol que cobria metade do rosto, passou pela porta, lançando-lhe imediatamente um olhar de reconhecimento.

Aquele era Kakashi, seu antigo professor durante o fundamental.

—Bom dia! – Disse Kakashi, num tom sério e grave, aguardando até que todos se acomodassem em seus devidos lugares para continuar a falar: — Meu nome é Hatake Kakashi, eu serei o professor de Introdução ao Planejamento e Treinamento esportivo de vocês e espero que...

Mas antes que ele pudesse chegar ao fim da frase, a porta foi escancarada e um garoto loiro passou por ela como um furacão. Um rapaz alto, vestido em moletom laranja e de olhos cor de safira tão belos quando o céu de um dia claro.

—Kakashi Sensei... – Gritou ele, ofegante – Desculpe pelo atraso!

Os olhos de Kakashi reviraram evidente decepção.

—Sente-se Naruto. – Disse ele, indicando uma carteira vazia a frente. O loiro sorriu radiante. – Como eu estava dizendo: Serei o professor de vocês a partir de hoje e espero...

E novamente o professor foi interrompido pelo arrastar irritante da cadeira de Naruto.

_Que possamos nos dar bem! — Conclui Kakashi, falando mais alto e após certificar-se com um olhar mortífero que o loiro havia terminado a luta para se acomodar em seu lugar.

O loiro, que havia sentado despojadamente, agora batalhava com o zíper da mochila. Gaara manteve os olhos nas costas dele enquanto Kakashi dava início a aula. A visão daquelas duas pessoas diante dos seus olhos causou-lhe um reboliço na barriga, como se houvesse acabado de passar por um quebra-molas num carro em alta velocidade.

Fora transportado para o passado de tal maneira que foi difícil se concentrar nas palavras do professor. Parte de si fazia cálculos mentais absurdos e se indagava como no mundo tamanha coincidência poderia ser possível, enquanto a outra parte permanecia abestalhada num princípio de curto circuito devido ao choque.

Foi assim que Gaara passou toda a sua primeira aula na faculdade, pela qual ele aguardara ansiosamente durante vários meses, com os olhos fixos nas costas de Naruto Uzumaki e sem ouvir uma palavra se quer do que havia dito Kakashi.

Depois de passar quase duas horas e meia numa aula completamente enfadonha de Biologia Geral, Gaara caminhava até o refeitório quando alguém parou abruptamente e bloqueou seu caminho. Havia uma ruga em sua testa quando encarou o estranho, mas...

—Gaara! – Gritou o moreno numa voz esganiçada, transbordando alegria.

Gaara fitou os cabelos negros cortados em formato arredondado, os olhos negros cintilantes e a musculatura esguia e definida embaixo de uma camisa verde berrante.

—Lee! – Exclamou, surpreso.

Sem demoras, Lee avançou os passos que os separava e o pegou de surpresa com um abraço esmagador, erguendo-o a centímetros do chão.

—Eu não acredito! É você mesmo! – Disse ele, largando-o para encara-lo, emocionado. – Eu pensei que você tivesse mudado de cidade. Não esperava encontra-lo aqui.

—Bom... eu me mudei... – Tentou explicar, a mão comprimindo um ponto dolorido na testa. — É uma longa história, Lee. — Disse, por fim.

—É claro que é! – Exclamou o moreno, empolgadíssimo – Quer dizer, já fazem anos! Quantos?

—Uns dez, eu acho.

—Você estava indo almoçar? Por que não vamos juntos? – Ele sugeriu – Podemos colocar o papo em dia e você pode me contar por onde andou todo esse tempo.

Gaara fitou o visor do celular. Tinha duas horas livres até a proxima aula. Lee, por sua vez, não esperou uma resposta. Passou o braço por cima do seu ombro e começou a caminhar na direção do refeitório, relembrando uma centena de histórias sobre Konoha, a escola onde estudaram juntos durante o ensino fundamental. E quando Gaara contou a ele que estava cursando Educação física, o moreno implodiu de felicidade, por que também era o curso dele, embora ele já estivesse no segundo período.

—Eu não acredito! Isso não pode ser coincidência. E o que você está achando? – Indagou ele.

—Bom, hoje é o meu primeiro dia. Mas o Kakashi continua com a mesma cara de sempre. – Gaara deu de ombros, se lembrando do velho mal humor do grisalho que também dera aula para eles no fundamental.

—Você se acostuma. Tem sorte que é a matéria mais fácil. Eu ficaria apavorado se ele lecionasse anatomia. – Lee teve um calafrio e parou o sanduiche no meio do caminho para encara-lo – Você ainda mora com seus pais?

—Não, com a minha irmã mais velha. – Respondeu Gaara rapidamente. — Ela tem um apartamento em Shibuya.

—Isso é ótimo! Eu ainda moro com o meu padrasto em Daikan, se lembra dele? Pois é, acho que não moramos muito longe um do outro.

Os dois conversaram por quase uma hora, durante todo o almoço, até que o moreno se despediu e partiu para sua próxima aula. Mas se disponibilizou a dar uma carona quando seus horários coincidissem e fez Gaara prometer que o procuraria caso precisasse de ajuda com alguma matéria. Os dois trocaram os números de celular e imediatamente ele recebeu uma mensagem de Lee, que havia desaparecido num corredor do segundo andar em direção ao laboratório de bioquímica.

Gaara se sentia agradecido, por que Lee era alguém que gostava mais de falar do que de fazer perguntas. Acontece que Tokyo lhe trazia uma serie de lembranças. Algumas eram boas. Mas haviam aquelas, memorias enterradas no fundo de seu coração a respeito de seu passado, que eram terríveis de se recordar.

A semana passou num piscar de olhos, naquele ritmo de professores se apresentando e lhes introduzindo nas matérias que deveriam começar em breve. O fim de semana chegou mais rápido do que ele havia imaginado. Talvez fosse o fato de que tivesse se acostumado rápido demais ao seu novo quarto e ao apartamento de Temari, ou a quantidade de pesquisas absurdas que os professores passaram logo nas primeiras aulas, que o fizeram ter essa sensação.

Descobrira que ele e Naruto possuíam a grade curricular idêntica, de forma que frequentavam as mesmas aulas nos mesmos horários. Mas o loiro chegava atrasado com uma frequência assustadora e sempre saia correndo no final, por isso os dois ainda não havia se esbarado nenhuma vez. Então houve um momento em que Naruto entrara abruptamente na sala depois do intervalo e os dois finalmente se encararam. Porém, o olhar do loiro passou por ele como se não estivesse vendo coisa alguma e ele imediatamente se sentou. Gaara pensou em aborda-lo, talvez o cumprimentar, mas suas mãos congelavam sempre que a ideia surgia e todas as palavras pareciam virar fumaça em sua mente. Acabou desistindo da ideia.

E em casa, embora não houvesse conseguido ainda conquistar a amizade de Sr. Tibis, já estava completamente habituado à rotina estressante de sua irmã que trabalhava de gerente em uma loja de departamentos. Ela acordava todos os dias muito cedo, preparava o café para os dois, limpava a bagunça do gato e depois saia para o trabalho, voltando muito tarde as vezes. Mas ela sempre garantia que as refeições estivessem preparadas para ele.

E havia algo a respeito da irmã que Gaara gostava ainda mais, uma qualidade que ele sempre apreciara e um dos motivos pelos quais aceitara morar com ela. Temari não fazia perguntas. Não o submetia a interrogatórios, tampouco pressionava-o para saber o detalhe das coisas. Procurava saber apenas o essencial, se estava gostando da faculdade, dos colegas e das aulas.

—Bom dia pra você também Sr. Tibis... – Disse Gaara ao gato que estivera miando em sua porta desde a sete da manhã – Onde está a sua dona?

O felino se limitou a abanar o rabo de espanador e saiu correndo pela casa.

Na mesa, onde o café estava preparado como sempre, havia um bilhete com a letra de Temari dizendo: “Vou a lavanderia, volto logo.”. E enquanto ele comia as torradas com manteiga a loira apareceu pela porta.

—Bom dia! Fui buscar nossas roupas. – Ela sacudiu sorridente uma grande sacola – Que diabos é esse monte de camisas pretas você tem Gaara? Pensei que fosse só uma fase.

Ele riu e engoliu o suco de laranjas.

—Preto é mais prático.

—Pratico? Parece que você está sempre de luto, isso sim. – Ela resmungou – Inclusive, estou curiosa já faz alguns dias. O que fez com o seu violão, não o vi em lugar algum com a bagagem que você mandou.

—Eu me desfiz dele. – Respondeu Gaara.

Temari deu de ombros e alcançou o gato que se esfregava em suas pernas, deixando um monte de pelos em sua calça branca.

—Pensei que fosse querer se enturmar com alguém que também toca. – Disse ela baixinho, quase como se estivesse fingindo dizer algo despropositado — Você poderia formar uma nova banda.

Gaara franziu o cenho enquanto fitava o fundo do copo com total desinteresse na ideia.

—Eu não sei se quero fazer isso.

—É uma pena, você era mesmo muito bom no que fazia. – Ela repetiu o mesmo gesto com os ombros e abandonou o assunto — O Shikamaru nos convidou para almoçar na casa dele. Você vem?

—Eu tenho escolha? – Ele simulou uma cara rabugenta.

—Ah, por favor, Gaara. Hoje é domingo! Vem? – Temari choramingou, depois deu alguns pulinhos para alcança-lo e bagunçou seus cabelos com uma mão, enquanto o gato se debatia na outra.

—Ta bom, ta bom... – Gaara se deu por vencido e afastou a irmã sorridente.

Shikamaru morava em Shinjuku, bem próximo da faculdade de Gaara. E ao chegar na residência dos Nara, uma casa totalmente no estilo de arquitetura antiga, parecendo um museu de história japonesa, de madeira lustrosa, telhas vermelhas e estatuas de samurais, ele ficou horrorizado com o poder aquisitivo do namorado de Temari.

Shikaku, o pai de Shikamaru, e sua esposa eram diretores administrativos de uma importante empresa de engenharia, informação que Gaara havia se esquecido. Mas também, naquela época ele era uma criança e não se apegava a esses detalhes. E depois do verdadeiro banquete que fora o almoço, Temari desapareceu com a sogra pela casa com as duas tendo uma conversa muito animada sobre as cortinas, enquanto Shikaku se desculpou ao se retirar para tratar de um assunto importante.

Gaara resolveu esticar as pernas para aliviar a tensão no estomago cheio e encontrou Shikamaru estirado no jardim observando o movimento entediante das nuvens. O moreno levantou a cabeça e o encarou de soslaio, depois apalpou a grama ao seu lado sinalizando para ele se sentar também.

Ficaram muitos minutos em silencio, com as copas de duas grandes arvores lançando silhuetas que dançavam ao redor e fazendo um som relaxante cada vez que o vento agitava suas folhas.

—Se enturmando na faculdade? – Indagou Shikamaru repentinamente.

Gaara pensou por alguns instantes, fitando seus próprios dedos entrelaçados sobre os joelhos.

—Eu não sou do tipo que se enturma.

O moreno voltou a fitar as nuvens e por um instante Gaara achou que a conversa morreria ali. Afinal, os dois nunca tiveram uma conversa exatamente longa. Mas logo em seguida Shikamaru voltou a falar, enquanto mantinha o olhar concentradíssimo num desenho em especifico que se formava numa nuvem.

—Vai encontrar muitos conhecidos nos próximos dias, metade do pessoal de Konoha estuda lá agora.

—É, eu já encontrei alguns deles. – Gaara pensou em Lee, Kakashi e... em Naruto. — Na verdade, meio que o Lee me encontrou...

Shikamaru sorriu e se sentou limpando as costas da camisa.

—Ele continua o mesmo de sempre, não acha? Nos encontramos algumas vezes num bar que fica aqui perto. O Lee adora dançar.

—Mas ele não mora em Daikan-yama? – Perguntou Gaara confuso, afinal de contas o bairro de Lee deveria ficar no lado contrário.

—É, mas tem muitos amigos aqui. Olha...- Shikamaru apontou para um telhado alto no meio de um monte de arvores verdes não muito distante dali – Aquela é a mansão dos Hyuuga. Se lembra do Neji? É o melhor amigo dele agora, embora os dois brigassem como cão e gato no fundamental. E ali... – Agora ele apontava para outro telhado, a esquerda e um pouco mais distante – Os Uchiha... – Shikamaru franziu o cenho e imediatamente Gaara se lembrou de Sasuke Uchiha. Eles nunca haviam se dado bem na escola. – Metidos como sempre. – Disse o moreno, como se estivesse lendo seus pensamentos – E daquele lado... – Ele apontou para um telhado que ficava bem próximo dos Uchihas – Ali fica a casa do Naruto. Se lembra dele, né?

Os olhos de Gaara se fixaram neste ponto.

Como poderia se esquecer do loiro de olhos azuis e personalidade flamejante?

—O Chouji e a Ino também moram aqui perto. Você ainda se lembra deles? Eles não mudaram nada também, com exceção do Chouji que cresceu um tanto para os lados. – Falava Shikamaru, mas Gaara não estava mais ouvindo e ele percebeu. – Gaara?... Gaara?

Então Gaara saiu de seu transe momentâneo para responder:

—Ele não se lembra de mim. – Concluiu, ao pensar no momento em que ele e Naruto se encararam.

—O que disse? – Perguntou Shikamaru ligeiramente confuso, então seu rosto tomou ares de entendimento e ele exclamou: – Ah! Isso...

Os dois ficaram mudos observando o telhado da casa de Naruto.

—Bem, já faz bastante tempo. – Disse Shikamaru – E você mudou bastante também. Não que existam muitos japoneses ruivos, é claro... – Então ele se calou.

Garra riu.

—Você acabou de rir? – O moreno estava com os olhos arregalados.

—É o que a gente faz quando acha graça de alguma coisa, certo? – Perguntou Gaara ironicamente, recebendo um barulho de impaciência como resposta.

—Você não é de rir muito. – Disse Shikamaru voltando a postura entediada de antes.

—É que eu odeio essa cidade.

Shikamaru o fitou com curiosidade.

—Então por que voltou? — Perguntou ele.

Gaara ficou em silencio pensando numa resposta e depois de muito tempo disse:

—Temari... eu acho.

—Bom... – Shikamaru ponderou o que estava prestes a dizer enquanto fitava os telhados das casas de seus amigos – Meu pai sempre me diz que devemos fazer as coisas por nós mesmos, não importa o quê.

Então o moreno voltou a se deitar e contemplar as nuvens.

O assunto sobre a escola não foi retomado.

No trem Temari lhe perguntou por que estava tão calado e Gaara mentiu dizendo que estava com dor de cabeça, embora estive refletindo as palavras de Shikamaru.

Em seu íntimo a pergunta se repetia em loop: “Então por que você voltou?”

—Você tem tomado seu remédio direitinho, não tem? – Perguntou ela ligeiramente aflita quando desembarcaram.

Gaara aquiesceu.

—Todos os dias. – Respondeu ele, secamente.

Depois do banho não demorou a cair em sono profundo, devido o efeito do remédio para dormir que tomava diariamente. Mas foi obrigado a acordar as três da manhã pois seus pesadelos estavam determinados a não deixa-lo dormir muito mais.

Chovia terrivelmente lá fora, pingos colossais batiam no vidro da janela como se quisessem desesperadamente entrar. Mas ainda sim fazia muito calor e, cansado de se virar de um lado para o outro nos lençóis, Gaara foi para a sala. Sr. Tibis, que estava se lambendo quando ele chegou o encarou desconfiado, mas permitiu que ele sentasse no sofá ao seu lado.

Um trovão ruidoso explodiu no céu lá fora e instantaneamente Gaara puxou as pernas para cima e passou os braços ao redor se abraçando.

—Eu odeio essa cidade... – Murmurou para si mesmo, quando outros estalos irromperam lá fora.

De repente seu corpo inteiro começara a tremer.

E, pela primeira vez desde que chegara na casa, Sr.Tibis se aproximou. Primeiro o gato esfregou a cabeçona no seu braço, o que quase o fez dar um pulo de susto, depois começou a arranha-lo para subir em seu colo. Muito desconfiado, Gaara permitiu que ele assim o fizesse e imediatamente começou a receber uma massagem muito estranha na barriga enquanto gato se ajeitava para ali deitar.

—Você também odeia isso? – Perguntou Gaara, fazendo uma careta quando outro relâmpago estalou no céu lá fora e iluminou as janelas.

Sr. Tibis o encarou com os grandes olhos amarelos cheios de compreensão. Ou, pelo menos, Gaara pensou que era isso. E os dois fizeram companhia um para o outro enquanto a chuva caia e uma nova segunda feira nascia com a aurora lá fora.

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