Rodrigo tinha muito apreço por sua barba.
Fora algo que adquirira na adolescência, fruto da perda de uma aposta, acaso favorável. Tinha lhe amadurecido o rosto e era algo de que conseguia cuidar com facilidade. Gostava mais dela ainda quando começou a apará-la com cuidado, valorizando ainda mais seu rosto.
Agora, a sensação da pele do seu queixo parecia algo extraterrestre. Estava acostumado com a massa de cachos escuros e não com a pele lisa. Mal se lembrava de como ele era ligeiramente pontudo no final.
Estava acariciando o lugar com receio, praticamente mapeando novamente o caminho de seus ossos, quando sentiu uma mão lhe puxar o cotovelo.
― Bem melhor! ― exclamou seu namorado, Arthur, olhos dourados brilhando contra a luz do espelho no banheiro. Rodrigo, sendo o pintor que era, não podia deixar de olhar aquilo e imaginar que cor exatamente usaria para representá-los. Algo perto de Ouro do Egito? Ou seria mais Girassol? Talvez Mel, já que era tão doce e denso quanto ele?
Rodrigo inclinou-se um pouquinho mais, desviando os olhos para sua garganta. Sempre estivera tão magro assim?
― Como está se sentindo sem a barba? ― Arthur perguntou, animado. Falava disso com o namorado praticamente desde o começo, sem nunca nem ser ouvido. Finalmente, tinha conseguido o que queria.
― Algo como um leão sem sua juba ― Rodrigo resmungou, não se conformando com a fragilidade que seu rosto mostrava agora.
Seu orgulho estava praticamente ferido. Onde estava a imagem de fortão que gostava de passar? Sem a barba, parecia ter dezenove de novo; parecia inocente, ingênuo e fraco.
― Se você se arrepender, pode sempre deixar crescer de novo. ― A mão que subiu pelo seu braço estava longe de inocente, mas Arthur também estava longe de sê-lo. Afastou-se da pia para deixá-lo deslizar para a sua frente. Ele acariciou a pele com curiosidade. ― Você tá com cara de inocente, sabia? Puro.
― Por isso que eu uso barba. ― A camiseta de Arthur foi casualmente descartada, direto para o cesto em um arremesso perfeito a que não tinha prestado atenção. Ele era tão magro, mas tão magro, que parecia mais feito de pele se esticando sobre tendões e ossos que de músculos. Os ossos de seu quadril roçaram contra a sua barriga.
― Acho engraçado ― brincou, as pontas dos dedos dedilhando a cordilheira de ossos que formava a sua coluna vertebral. ― Principalmente com tudo que já fizemos
Rodrigo não chegou a responder, mas acreditou que seu revirar de olhos tinha sido o suficiente, pois a próxima coisa de que sabia era que o peito contra o seu tremia com risada e um par de lábios se prensava contra os seus gentilmente.
Era em momentos como este que o mundo parecia explodir em cor de trás de suas pálpebras. Tons ricos como rubra, púrpura e âmbar se entremeando em sua mente e criando uma pintura abstrata de amor, luxúria e felicidade.
Talvez ele pudesse conviver com a falta de barba se fosse assim que seria recompensado.
Talvez.

