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One Shot 2

LeBr234

One Shot 2
Chapter 152 min read

Capítulo Único

— Veja quem ainda está acordada… Olá, minha menina! Não quer tirar o cochilo desta tarde?

O homem se abaixa num lado do berço e toma o pequeno bebê em seu colo desajeitado. Embora costumasse dormir toda tarde após o horário do almoço, naquele dia a menina estava bem desperta, com seus grandes olhinhos vidrados na direção de onde vinha aquela voz carinhosa.

— Quer que eu lhe conte outra estória para você dormir?

A pequena estendeu uma mãozinha na direção do rosto do homem e sorriu, parecendo entender o que ele dizia.

— Pois muito bem. A de hoje é especial...

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Era um dia especial para o brilhante cientista George Challanger, para a já não tão misteriosa Marguerite Krux e para o famoso caçador Lorde John Roxton. Eles moravam todos numa mesma casa no meio da selva, onde ficaram perdidos durante quatro anos e foram acolhidos pela jovem Veronica Layton. Completava o grupo o jornalista Ned Malone. O botânico Sumerlee também foi com a gente, mas... Infelizmente, faleceu... Conto a você sobre ele em um outro momento; grande homem, o Sumerlee.
Os 3 voltariam para casa, para Londres, finalmente. Haviam conseguido encontrar uma saída. Acredito que não preciso te dizer, neste momento, como eles conseguiram sair; preciso apenas dizer que estavam muito felizes por terem conseguido. Ou melhor, um deles parecia não estar muito certo de que seria a melhor escolha.
Ned escolheu ficar com Verônica no platô; eles haviam ainda muito recentemente admitido que estavam apaixonados e, como ela não queria de jeito nenhum deixar o lugar onde nasceu e onde ainda esperava encontrar os pais, ele decidiu que não havia nada mais para viver em Londres ou nos EUA e que não seria feliz sem aquela mulher ao seu lado. Bem, foi motivo mais que suficiente para que ninguém o contestasse.
Marguerite era quem não parecia estar muito feliz com a volta a Londres. Durante todos os anos os amigos a ouviram praguejar o platô e tudo o mais que havia nele e enumerar as maravilhas da vida nas grandes cidades da Europa. No entanto, quando ela se deparou com a chance real de voltar, as coisas pareceram mudar, embora ela não tivesse qualquer intenção de demonstrar.
Se havia alguém ali que sabia exatamente o que se passava com Marguerite, esse alguém era Roxton. Os dois pareciam ler um ao outro sem a menor dificuldade, cuidavam um do outro, se apaixonaram desde a primeira vez em que se viram, estou certo disso. A ligação entre aqueles dois era muito forte. É bem verdade, minha menina, que no início eles brigassem muito um com o outro; mas é porque eram também teimosos e orgulhosos demais para admitir o que realmente sentiam. Além disso, a fria senhorita Krux não deixava ninguém se aproximar demais para que não descobrissem segredos sobre o seu passado; porém ele era persistente e estava determinado a quebrar barreira por barreira para chegar até ela. Fazia pouco mais de um ano que haviam decidido que era a hora de dividirem suas vidas; estavam agora abertamente envolvidos um com o outro.
Pelo pouco que sempre se pôde saber sobre Marguerite, o que se tinha certeza era de que ela havia tido um passado terrível e havia feito coisas das quais ela se arrependia muito. Ela começou a perceber que não queria mais viver da maneira como vivia antes do platô no momento em que começou a perceber que estava apaixonada por Roxton. Foram pouco mais de três longos anos até que ele finalmente conseguisse quebrar as barreiras que Marguerite erguia em torno de si para que ninguém se aproximasse demais (ou pelo menos a maior parte delas). Ele foi muito paciente, mostrou a ela que seu amor era verdadeiro e que jamais a abandonaria. E eu tempo a ela para que se acostumasse com a ideia. John mostrou a ela o que realmente importava na vida — amigos, família, compartilhar momentos, cuidar uns dos outros — e fê-la acreditar que ela era tão merecedora dessas coisas como qualquer outra pessoa.
Por sua vez, Marguerite ajudou John a enxergar que ele não tinha culpa pela morte do irmão, que se tratava de um acidente, e que ele não tinha que se culpar por tudo de ruim que acontecesse a sua volta.
Apesar de estar feliz em saber que veria sua família, sua mãe, novamente, John estava preocupado em impedir que a mulher que ele amava fugisse e não aceitasse sua ajuda para enfrentar quaisquer que fossem os problemas que viriam. E ele sabia que a reação diante do retorno devia-se ao medo de que tudo que ela havia deixado pra trás quatro anos antes voltasse para pôr a ele mesmo em perigo e a uma possível família que eles viessem a construir.
No entanto, assim que pisaram em Londres pela primeira vez novamente, Marguerite não hesitou em acompanhar John em sua volta para Avebury. “O que a mãe dele diria?”, você pode se perguntar. O que ela pensaria de uma mulher falida e ao ver todos os problemas que ela poria os Roxton envolvidos? Pois muito bem: de início ela achou Marguerite muito bonita, simpática e, para a surpresa do casal, não se importou nem um pouco com o fato de ela não ter um tostão furado que fosse e nem nenhum parente. Acho que esses detalhes ajudaram a criar naquela nobre senhora uma vontade ainda maior de cuidar de Marguerite.
Os dois chegaram na propriedade já ao anoitecer, cansados e com fome. Foram logo instalados e tratados com todo o carinho por Lady Roxton. John chegou a conclusão de que o melhor seria falar sobre os problemas de Marguerite apenas quando e se eles chegassem; já ela, além de estar certa de que eles chegariam, achava melhor abrir tudo de uma vez, mas resolveu respeitar a vontade do homem.
Quanto ao grande cientista George Challenger, permita-me contar o que aconteceu com ele ao chegar em Londres.
Bem, Challenger foi direto para sua casa. Como um homem racional que costumava ser, ele nunca foi de mencionar para os amigos sobre sua mulher, Jessie. Mas o fato, querida, é que ele estava morrendo de saudades dela; todo aquele clima de romance do último ano, os casais se unindo, só o fizeram sentir ainda mais falta dela. Se quer saber, a verdade é que ele temia que ela já tivesse encontrado outro homem para lhe fazer companhia. Alguém mais amável, mais sensível e romântico que ele. Temia que ela pensasse que ele pudesse estar morto! Talvez tivesse sofrido por anos sem notícia alguma! E agora ele reaparecia do nada e poderia atrapalhar a vida que ela reconstruiu. Esses pensamentos o detiveram por alguns instantes. Ao chegar na frente de sua velha casa, Challenger parou e ficou olhando, pensando se deveria bater. Pois bateu. Ouviu uns barulhos vindos lá de dentro, alguém se aproximava. “Quem será? Não estou esperando ninguém a essa hora...”, dizia uma voz conhecida. A porta se abriu; era ela. Era Jessie, ainda a senhora mais linda que ele já havia visto em toda a vida.
Jessie olhou aquele homem ruivo parado a sua frente e imediatamente levou a mão à boca, tamanho o seu susto. Ambos não sabiam o que dizer. Não haviam palavras a serem ditas naquele momento. Eles ficaram lá se olhando, ainda sem acreditar, quando ela fez o primeiro movimento: se atirou nele, enrolando seus braços no pescoço dele, abraçando-o tão forte…
Foi um tanto desconcertante ver que aquele homem da ciência, tão racional, era capaz de chorar. Mas ele estava em casa, afinal de contas; não havia do que se esconder.

— Jessie… meu amor… — dizia George, enquanto se lembrava do cheiro dela.

— George! Oh George, meu querido! Como eu senti sua falta!

Bem, ao se desgrudarem, Jessie imediatamente puxou Challenger para dentro da casa e começou a fazer milhões de perguntas. “Por que você não voltou antes? O que encontraram por lá? Onde estão os outros?”... Ele respondia que haveria muito tempo para conversarem sobre tudo isso mais tarde. Mas o que ele queria mesmo saber, a única coisa que realmente lhe importava:

— Você se casou de novo? Arranjou uma companhia? — ele perguntou meio sem jeito.

A mulher o olhou e sorriu.

— Sim, arranjei uma companhia. Espere aqui um segundo.

Enquanto ela saía em direção, se ele bem se lembrava onde tudo ficava, a cozinha, o coração de Challenger se apertou ao ver confirmados seus receios.

— Está aqui a minha companhia durante esses quatro anos.

Quando ele olhou para a mulher novamente a viu segurando um gato. Isso mesmo, um gato. Branco, gordo, muito peludo e aparentemente muito dócil. Challenger abriu um sorriso e corou, ainda mais sem jeito.

— Mas… eu pensei…

— Pensou o que, meu querido? Que quando voltasse eu já teria me casado com outro?

— Ora, depois de quatro anos você poderia muito bem ter pensado que eu havia morrido e você poderia não querer passar o resto da sua vida sozinha.

— De alguma forma eu sabia que ainda receberia notícias suas, George. E, além disso, nós vivemos juntos por muitos anos para que eu possa simplesmente esquecer tudo isso em quatro anos.

— Me perdoe, Jessie? Perdoe por ter te abandonado por tanto tempo, por ter colocado um sonho científico na frente, por… — ele foi silenciado por ela.

— E você estava certo? Quanto às suas teorias sobre um mundo perdido?
Challenger sorriu.

— Sim. Estava absolutamente certo. É um mundo impressionante.

— Estou orgulhosa de você, George. Que bom que voltou para casa. Eu o amo muito.

— Eu… Eu sei que nunca disse muito isso antes, mas prometo recompensar de todas as maneiras possíveis daqui para frente. Eu te amo, Jessie.

Oh minha pequena, que dia feliz foi aquele para todos nós… Foi realmente memorável.
Você deve estar se perguntando como foi a convivência na propriedade Roxton. Pois muito bem, estava tudo muito agradável.
Marguerite descobriu que estava grávida. Três meses de gravidez já haviam se passado quando chegaram a Londres. Por ser sempre muito magra, ninguém se deu conta; até mesmo ela custou a perceber.
Mas também, entenda, os primeiros dias foram extremamente corridos. John deu à mulher vários vestidos novos, separou um cômodo na casa para o uso somente dela para quando quisesse ler, dormir ou qualquer outra coisa sem ser incomodada. Só entrava no cômodo quem ela permitisse. Ele sabia que ela rezava muito sua liberdade e independência. Além disso, ele fez questão de mostrar a ela cada canto da propriedade — na medida do possível, é claro, pois na condição em que ela estava não era permitido fazer grandes esforços.
Lady Elizabeth Roxton estava radiante. Não somente teve o filho de volta, mas ganhou uma nora de quem ela gostava e agora um neto! Era bem mais do que ela podia sonhar que ainda viesse a acontecer. Ela fazia questão que seu filho se casasse antes que a barriga de Marguerite começasse a ficar muito visível. Regras de bom comportamento da sociedade… Nenhum dos dois se opôs até para não criar nenhum tipo de briga desnecessária.
E assim, Lorde John Roxton e Lady Marguerite Roxton se casaram na propriedade da família numa cerimônia íntima, um mês depois de terem voltado do platô.
A nova Lady era bastante mimada pela sogra: refeições balanceadas, acompanhamento médico, todos os desejos dela eram prontamente atendidos, ela não precisava fazer qualquer esforço com tarefas domésticas. Tudo como Marguerite sempre sonhou.
O que John havia deixado bem claro era que, apesar de que não estivessem mais no platô, para Marguerite continuaria valendo a regra de não sair sozinha. Ele implorou para que ela obedecesse e explicou que eles não deveriam abusar da sorte quando a notícia do casamento deles tinha apenas acabado de ser amplamente divulgada e eles ainda não tinham como saber se alguém iria aparecer sabendo que eles estavam de volta. Ela prometeu que seguiria os conselhos para tranquilizá-lo, mas se tem uma coisa que a Srta. Krux nunca suportou era seguir ordens.
Três meses se passaram desde que todos chegaram a Londres e tudo corria perfeitamente bem. Os três se viam sempre. Challenger ia várias vezes por semana até a propriedade Roxton e passava tardes, até mesmo dias inteiros, com o casal de amigos. Os dois iam menos à casa do cientista, pois John não queria se arriscar muito expondo Marguerite grávida.
Quanto à herdeira... Bem, como eu já lhe disse ela nunca gostou de obedecer a ordens. Durante esses três meses ela foi a Londres por várias vezes escondida de Roxton, enquanto ele ia a outras cidades próximas para tratar de negócios, e de sua sogra, enquanto ela se trancava no escritório da mansão, já muito acostumada que estava a tocar os negócios da família por si mesma; ia fazer compras, visitar velhas lojas que sempre a encantaram, restaurantes e confeitarias. Sempre sozinha. Também por várias vezes ia visitar George em sua casa entre essas idas a Londres.
Você poderia se perguntar: “mas que mal pode haver em uma mulher sair sozinha para um dia de compras e distração na cidade? Afinal, ela estava grávida e não doente!”. Pois muito bem... Em primeiro lugar, Marguerite poderia passar mal na rua e não ter quem a ajudasse, e isso aconteceu algumas poucas vezes; a sorte dela foi ter conseguido chegar até a casa de Challenger em poucos minutos e lá esperar o mal-estar passar para depois ir para casa. Em segundo lugar, haviam pessoas muito perigosas que tentariam chegar até ela se a vissem totalmente desprotegida por aí. Você verá que todos os cuidados tinham fundamento.
Certa vez, Marguerite estava andando distraída pelas ruas londrinas, entre uma loja e outra, quando se incomodou com um homem que lia jornal num banco próximo da entrada da loja em que ela estava. Ela não se lembrava de já ter visto o tal sujeito alguma vez, mas sua intuição simplesmente lhe dizia que era um tipo nada confiável. Continuou seu passeio fingindo que não tinha percebido nada, mas manteve um olho em cada passo que o homem desse. Onde quer que ela fosse podia observar que o homem estava em seu campo de visão, como quem vigia uma pessoa.
No meio da tarde, Marguerite foi até uma confeitaria, pois já haviam se passado muitas horas desde que ela comeu alguma coisa pela última vez e não lhe faria nenhum bem. Ela se sentou e estudou todo o lugar; era uma das confeitarias mais nobres e famosas de toda a Londres – quiçá da Inglaterra. Mas não foi nesse tipo de detalhe que ela se atentou. Olhou para cada um dos presentes ali e encontrou o mesmo tal sujeito sentado numa das mesas, sozinho, tendo ela sempre em seu campo de visão. Ela começou a ter medo e se viu completamente incapaz de recorrer a nenhum conhecido caso algo acontecesse ali na região onde estava. Chamou o garçom, pagou sua e saiu apressada.
Ela andou o mais rápido que pôde, virou algumas ruas na tentativa de despistar o homem estranho que ela tinha certeza que a estava seguindo. De vez em quando ela olhava para os lados para se certificar se ele estava mesmo por perto; numa dessas vezes ela não o viu e temeu isso ainda mais que vê-lo. Mesmo tomando certos cuidados sentiu duas figuras se aproximando por trás, mas não teve tempo algum de se defender. Colocaram-lhe um saco de pano cobrindo sua cabeça, taparam sua boca para que não gritasse, puxaram-na para trás e a prensaram contra a parede. Tudo tão rápido e tão silencioso que as poucas pessoas que estavam naquela rua não teriam visto a ação, até porque, estavam muito longe.
Pela força com que a seguravam, Marguerite percebeu que eram homens, mas eles não pronunciaram uma única palavra sequer. Um deles levou as mãos por debaixo do pano que cobria a cabeça dela e colou uma fita adesiva em sua boca; outro puxou de suas mãos a pequena bolsa que carregava; enquanto isso, um terceiro a segurava firme. Então, o homem que a segurava soltou os braços dela por um momento e começou a desferir socos e tapas no rosto dela. Por fim, ele a enforcou até que ela desmaiasse.
Quando acordou, confusa e sem saber dizer por quanto tempo tinha ficado desacordada, ela retirou o pano que ainda cobria sua cabeça e a fita que colava sua boca. Com muito custo percebeu que havia sido puxada para um pequenino e escuro beco entre dois prédios na mesma rua pela qual se lembrava de estar passando quando tudo aconteceu. Sua bolsa havia sido devolvida. Ao conseguir recolocar as ideias em ordem Marguerite começou a sentir o gosto de sangue no canto de sua boca e entrou em pânico ao pensar se algo poderia ter acontecido ao bebê em sua barriga; com muito custo e se apoiando na parede ela conseguiu se levantar, ajeitar mais ou menos a roupa (embora soubesse que estaria um pouco suja e cheia de hematomas pelo rosto), pegar a pequena bolsa e começar a caminhar na direção da casa de George Challenger, para onde ela tentava ir antes de tudo.
Por sorte, Challenger estava em casa. A empregada foi chama-lo e ele tomou um susto enorme ao ver o estado da mulher que o esperava recostada no sofá de sua sala.

— Marguerite! O que aconteceu?

— George, por favor, tem que me ajudar a saber se está tudo bem com o meu bebê! Por favor.

— Você precisa ver um médico e rápido!

— Não! Um médico não! Não podemos fazer alarde. Você já nos examinou tantas vezes, pode fazer mais uma vez, não é mesmo?

— É a vida de uma criança em jogo, Marguerite. E a sua própria, é claro. Eu conheço um médico, meu amigo há muitos anos, em quem podemos confiar. Ele manterá sigilo.

— Tudo bem. Se você diz...

— E depois você vai me contar tudo o que aconteceu, todos os detalhes. E não me olhe com esta cara. John vai perder a cabeça, você sabe.

— Com John eu me entendo.

— Hum. E você veio para cá a pé? – continuou o cientista, considerando a possibilidade de pedir um táxi logo após o médico examinar Marguerite.

— Sim, mas o motorista da família me trouxe à cidade e eu sei onde ele está estacionado me esperando voltar.

— Tudo bem. Vou ligar para o meu amigo, o Doutor Stephen, e logo depois mando chamar seu motorista até aqui. Isso considerando que você estará em condições de enfrentar a viagem de volta a Avebury ainda hoje.

O Doutor Stephen não era um médico jovem, mas bastante cuidadoso e experiente; não demorou muito até ele constatar que não havia acontecido nada com o bebê e recomendar que Marguerite repousasse até o fim da gravidez, pois sua pressão tinha aumentado consideravelmente e seria muito arriscado passar por mais stress.
Antes de saírem de Londres, o cientista ligou para John, explicou parte da situação, tratou de tranquiliza-lo de que não havia mais com o que se preocupar e avisou que eles estariam indo para a propriedade Roxton. Então, Challenger levou Marguerite de volta a Avebury e no caminho conseguiu que ela contasse detalhadamente o que havia acontecido. Assim que chegaram à mansão, o próprio cientista ajudou-a a ir para o quarto, se certificou de que ela estava bem e foi passar para a cozinheira algumas recomendações que o médico havia passado e pedir para que ela preparasse um chá calmante.
Poucos minutos depois John chegou, desesperado, se dirigindo ao quarto que dividia com a esposa. Ao entrar, a viu dormindo com Challenger assentado em uma poltrona que ficava sempre ao lado da cama. O cientista viu o amigo entrar bruscamente já pronto para iniciar uma frase e apressou-se em fazer sinal para que ele não fizesse barulho.

— Shhhhh! Ela está descansando agora, John. Eu pedi a uma das empregadas que preparasse um chá para que ela pudesse dormir um pouco após todo o stress que viveu – sussurrou Challenger.

— O que exatamente aconteceu, George?! – John sussurrou de volta.

— Ela me contou que havia um homem a perseguindo hoje pelas ruas de Londres. Quando ela tentava chegar à minha casa o mais rápido possível três homens pegaram-na, cobriram sua cabeça para que não pudesse ver nada e deram tapas e um soco em seu rosto.

John engoliu em seco.

— Por isso todas essas marcas... E o que o médico recomendou?

— Repouso absoluto e boa alimentação para fortalecer os dois. Eu acrescentei o chá para os momentos em que ela se sentisse muito nervosa por algum motivo.

— Ela disse se conhece o homem que a perseguia?

— Não se lembra de já tê-lo visto alguma vez.

— Eu pedi tanto a ela que não saísse sozinha, George... Recomendei tanto.

— E essa não foi a primeira e nem a segunda vez. Marguerite já havia ido outras tantas vezes a Londres sozinha. Desculpe não ter te contado, amigo, mas ela me pediu muito que mantivesse isso em segredo, disse que estava com saudades de andar pelas ruas movimentadas de Londres, mas que você quase nunca tinha tempo para leva-la. Ela me prometeu que tomaria todos os cuidados e eu a fiz prometer que ela iria sempre até a minha casa para descansar um pouco antes de voltar a Avebury, eu também poderia ter certeza de que ela estaria mesmo bem para fazer a viagem de volta. Agora vejo que não foi o suficiente. Antes tivesse te contado. Se alguma coisa acontecesse a ela e ao bebê...

— Mas está tudo bem agora não é mesmo, George? Vamos pensar em tomar as devidas precauções daqui para a frente. Marguerite tem razão em um ponto: eu a deixei de lado para me pôr a par de pelo menos parte dos negócios de minha família, negligenciei as necessidades dela e faltei em fazer companhia a ela por mais tempo. Posso imaginar que ela deve mesmo ter se sentido muito sozinha.

— Vamos deixa-la descansar e conversar lá fora.

— Sim. É melhor mesmo.

No momento em que os dois amigos se viraram para sair do quarto, Marguerite despertou e chamou por John, mesmo que ainda sonolenta. Ele imediatamente se virou e foi para o lado dela.

— Querida, como você está se sentindo hum?

— Agora estou bem. Com um pouco de dor nas costas e em partes do meu rosto, mas acredito que estou bem.

— Eu vou estar aqui com você o tempo todo, cuidando para que faça o repouso direitinho, para que você tenha tudo que precisa, meu amor.

Marguerite sorriu e puxou John pedindo para que ele a envolvesse em seus braços enquanto ela aninhava sua cabeça no peito dele.

—Só preciso que fique aqui comigo. Apenas isso. Eu... Eu tive tanto medo, John, tanto medo de ter perdido nosso bebê – choramingava ela ainda o abraçando.

— Está tudo bem agora. O bebê não corre perigo e nem você. Eu estou aqui para vocês, ok?

Ela assentiu.

— Agora volte a dormir. Você precisa descansar de todo o stress por que passou e ficar calma. Nada vai acontecer, eu vou proteger vocês. Tente dormir, meu amor. Estarei bem aqui quando acordar.

John ficou alguns minutos passando as mãos pelos cabelos da mulher até que sentiu pelo ritmo da respiração dela que ela havia dormido novamente. Ele a deitou de volta na cama confortavelmente e então se retirou do quarto com Challenger, que ainda estava por ali assistindo a cena.
Os dois desceram para a sala principal da mansão. John estava muito preocupado e Challenger procurava tentar acalmá-lo e era o único que conseguia pensar em possibilidades ali, visto a situação do amigo.

— Era para eu estar com ela, George. Eu devia estar com Marguerite todo o tempo, cuidar dela e do bebê, dar todo o apoio.
— Dizia John, passando as mãos pelos cabelos como sempre fazia quando estava à beira de um ataque de nervos.

— Acalme-se, homem. Você estava trabalhando e confiou que ela não se exporia...

— Pfff, trabalhando. Todos os dias o dia inteiro? Que tipo de vida, que tipo de proteção eu prometi a ela dessa maneira?

— Eu estou certo de que Marguerite não o culpa por nada.

— Eu a submeti a um lugar ao qual ela não está acostumada, a companhia de pessoas em quem ela não confia e enfrentar uma gravidez praticamente sozinha. Além de isso tudo se dar em uma cidade onde há um monte de gente perigosa querendo a cabeça dela ou... sei lá. Marguerite dizia que nem mesmo queria ser mãe, posso imaginar o quanto ela não deve estar assustada.

— Já que comentou sobre essas “pessoas em quem ela não confia”, John, e sua mãe? Ela não fica em casa?

— Não tem ficado tanto porque ainda há coisas sobre as quais preciso tomar conhecimento para tocar sozinho, e ela me põe a par, e outros negócios em que ela já havia tomado a frente então é melhor que ela mesma vá até o fim deles.

— Hummm... Entendo. Ela vai querer saber o que houve com a nora...

— Você tem razão... Talvez eu diga a ela que Marguerite foi vítima de um assalto ou algo do tipo.

— Ou talvez fosse melhor contar a verdade de uma vez, meu caro.
— O que eu faço, Challenger? – John estava desnorteado e o amigo logo entendeu que ele pedia sua ajuda.

— Bem, eu sugiro que, pelo menos por esses dias, fique com Marguerite. Ela precisa de você aqui.

— Quanto a isso não tenha dúvidas, meu amigo. Ela é a prioridade. Mas e quanto a esses sujeitos que a atacaram?

— Estou pensando exatamente sobre isso. Vou arrumar algum informante em Londres e tentar descobrir alguma coisa, alguém que possa estar atrás dela.

— Devem haver muitos...

— Tente não perder a cabeça, John. Você precisa estar calmo para passar segurança a Marguerite e para pensarmos em uma boa solução. O que acha de vocês fazerem uma viagem? Se afastarem um pouco e esperar a poeira abaixar.

— Minha mãe não permitiria que o bebê nasça longe dos olhos dela.

— Então, neste caso, vamos em busca de informações. Mas agora eu preciso ir, meu amigo. Jessie deve estar preocupada e daqui a pouco vai estar tarde demais para sair; é um bom pedaço até Londres.

— Claro, George, tem toda razão. Qualquer novidade que conseguir me avise, por favor.

— Farei. E você procure ficar calmo. Até mais.

Naquela noite, minha querida pequena, Lady Roxton, a mãe de John, ficou sabendo pelos empregados o que havia se passado durante o dia e ela, é claro, quis logo saber o que houve. John acabou optando por contar a ela que Marguerite foi assaltada. Você pode imaginar que Marguerite não ficou nada feliz com a escolha do marido em continuar com mais segredos, mas nada podia fazer pois achou não podia simplesmente desmenti-lo depois que a história já havia sido toda contada. Apesar disso, antes de dizer que o que sabia era que a nora havia sido assaltada, Lady Roxton entrou no quarto em que ela dormia perguntando o que lhe haviam roubado; Marguerite respondeu prontamente: “nada”. “Ora, mas um assalto em que não roubaram nada? Como pode ser?”, foi a resposta da senhora. Neste momento, John entrou no quarto, já tendo escutado a conversa, e lançou um olhar significativo para a esposa, ao que ela captou perfeitamente a mensagem. “Foi... Apenas uma tentativa, Lady Roxton. Eu fiquei inconsciente por alguns minutos, mas acredito que algo aconteceu que os fizesse correr sem nem ter tempo de procurar nada para roubar”, foi a explicação insegura que Marguerite conseguiu pensar de momento. Sua sogra aceitou sem dizer uma palavra e deu todo o apoio que o casal precisava para a recuperação daquilo pelo qual haviam passado.
O problema, você talvez se espante em saber, é que Lady Roxton, uma mulher vivida, experiente, acostumada a lidar com pessoas que lhe contavam as mais diversas histórias para conseguir negócios mais favoráveis, também era uma especialista em detectar quando mentiam para ela. Assim como a nora. Logo no dia seguinte, Lady Roxton procurou um detetive de confiança e recomendou que ele descobrisse quantas informações fossem possíveis sobre o passado de Marguerite Krux, ou Lady Marguerite Roxton, como passou a se chamar após a oficialização do casamento. E, sabe, não era preciso muito esforço para levantar essas informações...
Cerca de uma semana depois do acontecido, estavam o casal Challenger em visita aos amigos em Avebury. John estava bem mais calmo, havia se distanciado do trabalho por um tempo e para isso estava contando com a mãe de volta ao comando, agora passava a maior parte do tempo em casa mimando a esposa. Marguerite também já havia se recuperado do stress, estava mais corada, mais forte, os hematomas sumiram; ela parecia muito feliz a não ser por uma expressão de preocupação e uma tensão que não lhe saíam dos modos, mas quando perguntada ela sempre dizia que não era nada.

— John, o que acha sobre Marguerite estar agindo de uma maneira um tanto estranha? – perguntou o cientista quase num sussurro enquanto as mulheres conversavam assentadas na cama.

— Bem, ela me disse que está constantemente preocupada quanto ao futuro, Challenger. Preocupada com não poder sair de casa, com como vai ser para o bebê que está para chegar. Ela se preocupa com o fato de se um dia conseguirá deixar de ser procurada.

— É perfeitamente compreensível.

A porta do quarto se abre de repente e bruscamente. Por ela entra Lady Roxton com cara de poucos amigos e segurando uma pasta com muitas folhas que ela joga com força sobre a cama e encara a nora.

— Marguerite Krux. Ninguém sabe onde nasceu e nem de que família veio. Passou a juventude se apresentando em clubes de caráter duvidoso em Paris; morou em vários países da Europa e Ásia, até onde tenho conhecimento; andou pelo submundo londrino, onde apenas os mais frios e maus sobrevivem e eu me perguntou como? Casou-se com, pelo menos, quatro homens; todos ricos, nem todos corretos, mas todos morreram e as heranças, é claro, ficavam sempre para ela. Não à toa recebeu a adorável alcunha de “Viúva Negra de Viena”. Manteve negócios com o criminoso mais perigoso de toda a Ásia, quiçá do mundo. É procurada por roubo de joias, por negócios ligados aos exércitos de vários países durante a Grande Guerra sobre os quais, por serem sigilosos, não pude ter acesso. Deixe ver se estou me esquecendo de algo... Ah sim, como não... É suspeita pela morte de mais um monte de pessoas, um monte de soldados e suspeita-se que tenha parte na expulsão do MEU FILHO do exército britânico.

— Mãe...

— Você sabia disso, John? Sabia de alguma dessas coisas? Algum de vocês sabia? Ou eu estou errada em algo que disse aqui?

Como ninguém respondeu e todos baixaram os olhos, Lady Roxton pôde inferir que ela era a única que não estava a par dos fatos. E que nada daquilo que havia descoberto era mentira, claro.

— Eu quero esta mulher fora da minha casa neste momento. – Ela completou, encarando Marguerite que não ousou dizer nada.

— Esta mulher é minha esposa e espera o meu filho.

— Eu me pergunto o que será que viu nesta mulher, John. O que será que ela fez para que você ficasse tão depende da presença dela.

— Vamos conversar, mãe, e eu garanto que podemos explicar tudo para a senhora. Tudo pode ser resolvido.

— EU JÁ ESTOU RESOLVIDA, JOHN. ESTA MULHER SAI!

— Eu vou com ela. E tenho tanto direito sobre as propriedades da família quanto a senhora. Eu não vou abandonar a minha família.

Lady Roxton fuzilou o filho com o olhar.

— Família... – ela riu – Pois muito bem. Se é assim que escolhe... Eu exijo que esta criminosa esteja fora da minha casa até a noite. E nem um minuto mais.

— Lady Roxton, a senhora sabe de apenas um lado de toda a história. Eu estou certo de que quando ouvir o que Marguerite tem a dizer entenderá suas razões. – tentouChallenger.

— Não vou ouvir nada, Professor. Já sei o suficiente. O que me admira é uma pessoa com a inteligência do senhor também se deixar levar por qualquer coisa que essa daí tenha dito.

A senhora deu meia volta e saiu do quarto; porém, retornou e completou olhando diretamente para o filho:

— Se você sair dessa casa ao lado dessa... mulher, não precisa mais se referir a mim como sua mãe. Também espero não receber nenhum tipo de notícia sobre a criança.

— Não há opção a ser escolhida. O meu lugar é ao lado da mulher que eu amo.

— Saiba que está cometendo o maior erro de sua vida.

Ela, então, saiu batendo a porta.

Os outros ficaram totalmente sem reação; se olhavam sem saber o que dizer. Mas não havia nenhuma opção possível. Lady Roxton foi muito incisiva quanto a expulsão de Marguerite, e por consequência de John, de Avebury. Só lhes restava juntar o quanto conseguissem e ir para a mansão da família que ficava em Londres; justamente o último lugar onde Marguerite poderia estar.
Durante todo o trajeto até Londres, Marguerite praticamente não disse uma palavra, não esboçou uma reação; estava séria, distante e arredia aos cuidados do marido.
Apenas quando chegou em casa e estavam os dois sozinhos foi que ela desistiu de sustentar aquela pose. John entrou no quarto e a viu guardar rapidamente algo na bolsa, a mesma que ela usava no dia do ataque que havia sofrido. Ela começou a chorar histericamente e dizia a John para voltar para a casa, dizia que ele não deveria ter desistido daquela maneira de toda a sua família para acompanha-la. Foi só com muito custo que o homem conseguiu envolve-la em um abraço, depois de várias tentativas frustradas de se aproximar dela, e lembra-la de que ela e o bebê que esperavam eram a sua família e que era deles que ele não desistiria de maneira nenhuma; ele reafirmou sua confiança na esposa, na pessoa em quem ela havia se transformado e renovou todas as promessas que ele já fazia desde os anos no platô.
As palavras de John e os carinhos que ele lhe fazia foram gradativamente acalmando Marguerite, até que ela conseguisse dormir. Era o momento que ele precisava para deixa-la cautelosamente na cama e ir até a bolsa para descobrir o que ela estava escondendo dele. Encontrou algum dinheiro, um par de brincos, um batom e um pequeno papel dobrado. Pegou o papel, abriu e leu a seguinte mensagem que estava escrita à mão:

“Nós saberemos quando a criança nascer, Srta. Smith. Deixaremos que você a conheça, mas logo teremos que acertar nossas contas. Entraremos em contato”.

John engoliu em seco. Os perigos que Marguerite corria eram mais reais do que podia imaginar e ele acabou descobrindo que ela pretendia resolver tudo sozinha, que não confiaria nada a ele. Apesar do avançado da hora, ele sentiu que tinha que falar sobre sua descoberta com seu fiel amigo. Guardou o papel de volta na bolsa e foi para o telefone.

— Alô? Challenger?

— Sim. John? Aconteceu alguma coisa?

— Mais ou menos, George. Hoje, quando voltei para o quarto depois que você e Jessie saíram, vi Marguerite esconder rapidamente algo dentro de uma das bolsas dela, a mesma que ela usava no dia em que foi atacada, lembra-se?

— Como é que eu poderia me esquecer daquele dia... – John pôde ouvir o longo suspiro de Challenger do outro lado da linha.

— Bom, ela estava muitíssimo descontrolada, como eu nunca tinha visto Marguerite reagir antes. Depois de conseguir fazer com que ela dormisse, eu fui até a bolsa e descobri um bilhete que dizia...

Bem, a conversa ainda durou por algum tempo noite adentro, eles conversaram sobre a reação de Marguerite após o casal ficar sozinho na nova casa, conversaram sobre os cuidados para depois que o bebê nascer, sobre como agir dali para frente... mas eu não vou me alongar muito nos detalhes. O que você precisa saber é que George Challenger sugeriu ao amigo que não dissesse a Marguerite que sabia sobre o bilhete. Ela estava passando por um período muito difícil, estava grávida e bastava que ele a vigiasse para ficar sabendo de algum outro possível contato que fosse feito com ela e então tomar alguma providência mais concreta. Do que ela realmente precisava naquele momento era saber que John estaria sempre ao seu lado e que zelaria por sua segurança e a do bebê.
Nos meses que se seguiram não aconteceu nada de muito relevante que eu deva pontuar para você, a não ser por duas coisas que eu já vou lhe contar quais são.
A primeira delas é que Lady Roxton estava transformando a vida do filho nos negócios da família em um inferno. Ela sabia que não tinha o direito de impedi-lo de assumir o posto de liderança em pelo menos metade de tudo que a família possuía, mas tratou de espalhar a “história” de Marguerite por entre os círculos mais frequentados por eles e, desse modo, manchar a imagem de John e fazendo com que muitos sócios exigissem tratar de negócios diretamente com ela. Isso e mais todos os outros problemas que você já sabe estava consumindo John psicológica e fisicamente, mas ele mantinha-se forte para dar suporte a sua esposa.
A outra coisa da qual eu deveria lhe falar, querida, é um suspiro de alívio em meio a todo esse caos: o bebê de Marguerite e John, finalmente, nasceu. Era uma menina linda e perfeitamente saudável. Os dois estavam exultantes de alegria, já eram pais babões em cima de sua primeira herdeira. Marguerite logo de início se mostrou uma mãe muito cuidadosa e carinhosa, algo que quando a conhecemos nunca pensaríamos que fôssemos ver – ela também era um tanto ciumenta e não gostava que tirassem seu bebê do seu colo por muito tempo. John também não deixava por menos; quis aprender tudo sobre os cuidados com a menina para que pudesse dividir todas as tarefas possíveis com a esposa, como deveria ser – e devo dizer que ele se saiu muito bem.
Oh, pequena, se todos os momentos pudessem ser como aquele! Até os dois primeiros meses da menina tudo correu na mais perfeita paz e felicidade.
Antes que eu continue com a história, permita-me fazer uma pequena observação que será importante para que você entenda o que vem a seguir. Pois bem, é costume na Inglaterra que os filhos das famílias nobres tenham seus nascimentos anunciados no jornal de maior circulação de Londres e em alguma ou outra cidade mais importante do país. O pedido do anúncio é feito pela própria família ou diretamente pelo hospital, a não ser que os pais da criança peçam para que o nascimento seja mantido em sigilo – o que quase não acontecia.
Pois nem John e nem Marguerite se lembraram desse pequeno grande detalhe e o hospital mandou que se anunciasse a chegada da primeira herdeira da Família Roxton. Saiu na terceira página do jornal no dia seguinte ao nascimento, com uma foto dos novos pais acompanhando. Foi o estopim de que precisavam os autores do primeiro bilhete deixado para Marguerite. Challenger, sempre atento, foi quem alertou ao amigo para ter atenção redobrada aos passos da mulher, pois um novo contato deveria ser feito.
O segundo bilhete chegou exatamente uma semana após a menina completar dois meses de vida. Os filhos da mãe estavam vigilantes. Er... Me desculpe o modo de dizer. Continuando... A campainha tocou à tarde pegando Marguerite de surpresa, pois eles raramente recebiam visita – a não ser dos Challanger, é claro. Ao atender viu que era um menino, um mensageiro; ele lhe entregou um pequeno papel e saiu correndo, sem dizer nenhuma palavra e sem dar tempo para que ela o agarrasse.
A mulher estava tremendo ao abrir o papel. Ela agradeceu mentalmente pelo marido estar tirando um cochilo no quarto e então leu o que estava escrito:

"17, Old St., Shoreditch..07:00 pm. Segundo andar.
Em dois dias. Esteja sozinha."

“No bairro onde o temível Jack, O Estripador, fez sua última vítima... Que sugestivo...”, zombou ela. Então, guardou o bilhete dentro de um dos muitos livros da estante que ficava na sala e saiu apressada para o quarto do bebê.
O que ela não contava era que o toque da campainha havia acordado John e quando ela atendeu, recebeu o bilhete, leu e guardou-o dentro do livro, ele estava parado no alto da escada atrás dela observando tudo. Assim que ela saiu, ele desceu, silenciosamente, e foi até um dos livros que ficava mais ou menos no local que ele marcou quando a viu mexer ali. Nada encontrou dentro daquele livro; tirou mais alguns até encontrar o bilhete em um deles e o leu. Sentiu-se gelar, sentiu como se o coração falhasse uma batida. Ele também entendeu a referência a Jack, O Estripador, na escolha do local. Decidiu, então, ir até a mulher e avisar que estava saindo para falar com Challenger. Saiu antes que ela pudesse fazer qualquer pergunta.
Na casa do cientista, os dois começaram a debater sobre os próximos e decisivos passos que teriam de dar, pois tinham pouco tempo para agir.

— Dois dias, John?! Foi isso que eles deram?

— Sim, George. É só o que temos para agir, meu amigo. Eu estou cada vez mais desesperado.

— Você tem que impedi-la de ir até esse lugar, John.

— Mas aí essas pessoas vão continuar nos ameaçando. Podem invadir a minha casa, tentar algo contra a minha filha! Não posso permitir isso também, Challenger! De jeito nenhum!

— Sim, é verdade. Eu não tinha pensado por esse ângulo. Acho que o desespero está me afetando também. Marguerite não se mostra nem um pouquinho atordoada com isso tudo? Não faz nenhuma menção em querer dividir sobre essas ameaças com você?

— Não, George. Eu percebo que ela está preocupada, mas apenas porque a conheço muito bem e aprendi a driblar as barreiras dela. Mesmo assim me espanta a frieza e a força que ela vem tendo para aguentar isso sozinha.

— Eu não entendo... Não entendo o porquê de ela não compartilhar isso com você, não procurar nem um tipo de ajuda... Tudo bem que ela ache que pode cuidar de si mesma, disso já sabemos, mas para tudo há um limite!

— Não é assim que Marguerite pensa, Challenger. Ela tem muito medo de que alguém possa se ferir ou até morrer por se envolver demais com essas pessoas com as quais ela tem dívidas grandes. No caso, ela tem medo que eu morra. Por isso demorou tanto tempo em permitir que eu entrasse definitivamente em sua vida. E agora temos nossa filha também. Marguerite é capaz de fazer qualquer coisa para nos manter, a mim e a nossa menina, afastados de qualquer problema que seja “dela”.

— Bem, então porque você não conversa com ela e tenta faze-la entender que nós dois estamos aqui para ajudá-la e vamos conseguir pensar em uma saída para essas ameaças?

— Acha mesmo que pode ser o melhor caminho?

— Acho. Eu acho sim, meu amigo. Seremos três pensando juntos no que fazer. Podemos ir até a sua casa agora mesmo e é até bom que eu esteja do lado quando você falar com ela para que ela veja que não é você quem está assumindo esse risco por mim.

— Está certo. Vamos indo, então.

Bem... Ainda bem que aquela menininha linda estava dormindo tranquilamente, pois assim pudemos trazer a mãe dela para a sala e conversarmos mais calmamente. Ela logo percebeu as caras de preocupação dos dois homens.

— Ei, vamos direto ao ponto, por favor. Eu não gosto de rodeios. Por que essas caras?

— Tudo bem, meu amor, eu serei bastante direto. Eu sei das ameaças que você recebeu através de bilhetes; um foi colocado na bolsa que você usava no momento em que foi atacada na rua quando saía de uma confeitaria e o segundo veio entregue por um mensageiro hoje algumas horas atrás.

— Mas... Como? Como você sabe?

— Eu vi que você estava escondendo alguma coisa na bolsa quando entrei no quarto logo no dia em que nos mudamos para cá. Desde então, em conversa com Challenger, decidi que ficaria de olho em você, pois tinha certeza de que você não me contaria nada sobre essas ameaças. Hoje eu estava no alto da escada observando você atender a porta e vi onde guardou o segundo bilhete para que, quando você saísse, eu pudesse lê-lo.

Marguerite estava boquiaberta olhando para os dois homens.

— Qual o sentido disso, Roxton? Se eu não te disse nada é porque não tem importância.

— Não tem importância, Marguerite? Acha mesmo que não tem importância? Essas pessoas, seja lá quem forem, marcaram um encontro com você, num sugestivo endereço e pediram para que estivesse sozinha. Acha que eles querem o que? Fazer um acordo amigável?
Para a surpresa de ambos os homens, a mulher não disse nada, apenas abaixou a cabeça e algumas lágrimas começaram a escorrer.

— Eles vão me matar. Eu sei que vão. – ela sussurra, finalmente.

John, que até então estava assentado numa poltrona a frente dela, se levanta e vai para o seu lado abraçando-a e tentando conforta-la.

— Não, meu amor, ninguém vai matá-la. Não enquanto eu viver. É por isso que eu e Challenger estamos aqui conversando com você, porque queremos pensar todos juntos em uma solução para isso.

— Não podemos deixá-los sair ilesos dessa porque senão eles voltarão e com certeza farão alguma coisa contra você ou contra o bebê.

— Nós não vamos permitir que isso aconteça, Marguerite. Está me ouvindo? Temos que conseguir pensar no que quer que seja.

— Eu tenho uma ideia. – Disse Challenger, se manifestando pela primeira vez até então.

O casal voltou toda a sua atenção para o amigo nesse momento.

— Venho formulando algumas ideias há alguns meses; penso que pode ser que dê certo.

E assim, eles ouviram atentamente ao plano do cientista, mais uma das muitas ideias que ele sempre tinha, debateram por um longo tempo, fizeram alguns ajustes e então decidiram prosseguir com aquele combinado. Apesar disso, Marguerite ainda estava relutante.

— Roxton e Challenger, escutem bem, vocês dois. Não é justo que eu permita que vocês se envolvam nesse tipo de coisa que diz respeito somente a mim.

— Marguerite, me escute você: nós somos uma família. Sempre resolvemos nossos problemas no platô todos juntos e agora aqui não vai ser diferente. – Respondeu o cientista.

— Eu sei que está com medo, Marguerite. É natural que esteja. Eu sei também que você teme que qualquer um de nós se machuque, mas nós vamos assumir o risco mesmo assim. Injusto é deixa-la sozinha para enfrentar tudo sendo que agora você não está mais sozinha, você tem em quem confiar, tem quem te proteja. – Completou John.

— Eu não posso perder você, John. Não posso deixar que algo te aconteça, eu não sei mais viver sem você ao meu lado! Você me acostumou muito mal em todas aquelas vezes em que pôs sua vida em risco para me ajudar. – Ela recomeçava um choro silencioso.

Ele sorriu ternamente para ela.

— Eu falo sério, John! Os riscos agora são muito maiores! Estamos lidando com humanos e poderosos!

— Eu sei, eu sei, meu amor. Eu sei. Mas você não vai me perder, ok? Nós vamos viver por muitos anos juntos, envelhecer juntos. Só não me peça para deixar de protege-la. Isso é impossível.

Marguerite abraçou forte o marido e ele retribuiu o aperto de forma protetora. Escondendo seu rosto na curva do pescoço dele, ela implorou:

— Prometa, John. Me prometa que vai tomar o máximo de cuidado daqui para frente ao lidar com essas pessoas? Me prometa que vai ficar vivo e ao meu lado? Eu preciso ouvir você me prometer isso.

— Eu prometo, querida. Prometo que vou ser cauteloso e que vou ficar vivo e ao seu lado por muitos e muitos e muitos anos ainda. Tem a minha palavra.

Challenger ficou observando aquela cena entre o casal. Ele jamais conheceu duas pessoas que se amassem tanto e rezou para que tudo desse certo. Marguerite estava se mostrando visivelmente frágil e ele suspeitava que ela temia menos por sua própria vida que pela de John. Já o amigo tentava parecer forte e confiante, mas a verdade é que no fundo ele também estava com muito medo. Todos estavam.
Se antes eu lhe disse que vivemos dois meses muito felizes, agora devo dizer que vivemos os dois dias mais tensos de nossas vidas. Não conseguimos dormir e nem comer direito, repassamos os planos uma e outra vez. Jessie se juntou a nós para dar todo apoio que precisássemos, ela e George estavam dormindo na casa dos Roxton. Marguerite e John estavam mais próximos do que nunca um do outro, se é que era possível uma proximidade maior do que a que já tinham, e não largavam seu bebê.
Quando o dia marcado para o encontro finalmente chegou, todos estavam em um nível absurdo de tensão, eles pouco conversavam. Marguerite não saiu do quarto de sua filha até ter que ir para o seu próprio para se trocar e se preparar para a noite. O casal Challenger e John permaneceram um tempo no escritório no final da tarde.

— Deveríamos ter voltado para o platô. – comentou Roxton, olhando o gelo circular em seu copo de whisky.

— Uma viagem dessa demora meses desde a preparação até a chegada ao destino, John, você sabe disso.

— E o que é que tem?

— Poderíamos não conseguir manter tudo em sigilo e então viriam atrás de nós, havia o nascimento de sua filha, sua mãe poderia nos impedir, até que arrumássemos tudo que fosse necessário, principalmente para dar conforto a uma mulher grávida... Não é uma opção muito tranquila também.

— Por que vocês não fugiram do país? – perguntou Jessie.

— Essas pessoas estariam atrás de nós em qualquer lugar, pelo resto de nossas vidas. – respondeu tristemente John.

— Bem... Meu amigo, faltam cerca de quarenta minutos para às 19:00 e o bairro não é muito próximo. Creio que seja melhor irmos andando.

— Você tem razão, George. Eu vou buscar Marguerite e chamamos o motorista.

— John? – o cientista o chamou de volta antes que ele saísse do escritório — Vamos agir com calma, vai dar tudo certo. – disse pondo a mão no ombro do amigo.

John acenou que sim, a sombra de um sorriso surgiu em seu rosto e então ele se retirou para o andar de cima da mansão. Minutos depois ouve-se sua voz desesperada:

— OH MEU DEUS! MARGUERITE NÃO PODE... ESSA MULHER VAI ME LEVAR A LOUCURA!

Ele vem descendo apressado as escadas e para na frente de Challenger, segurando o amigo pelos ombros.

— Marguerite já foi, Challenger! Foi sozinha!

— Tem certeza disso, Roxton? Olhou em todos os cômodos? Ela não está em nenhum lugar?

— Ora, mas é claro que eu olhei! Ela não está em nenhum lugar!

— Ela pode não ter ido diretamente para lá, então. Pode ter fugido.

— Marguerite não faria isso, Challenger, porque ela tem medo que aquelas pessoas venham atrás de nós se ela sumir.

— Bem, então vamos indo depressa porque ela deve ter ido a pé, o motorista está bem ali.

— Certo. Vamos tentar chegar lá junto com ela.

— Jessie, você avise a polícia, por favor. Diga que já estamos indo para o local marcado. – o cientista recomendou para a esposa.

— Está certo. Tome cuidado, sim, querido?

— Eu tomarei. Estaremos de volta em algumas horas, eu espero.

E então eles saíram, entregaram o endereço ao motorista e pediram a ele que pegasse o caminho mais curto até lá e que fosse rápido.
O local marcado para o tal encontro era assustador, eu me arrepio só de lembrar. Era uma casa de dois andares abandonada, a única nessas condições da Old St. Parecia um cenário típico de filmes de terror. Nós só não sabíamos naquele momento, mas terror era o que estávamos prestes a viver naquele lugar. Estava tudo aparentemente muito silencioso e calmo para quem observava de fora a casa, portanto, eles logo deduziram que Marguerite ainda não tinha chegado. Mas também, ninguém teria pressa em chegar naquele lugar. A polícia também ainda não estava lá; lentos, como sempre.

— Challenger, eu vou entrar.

— O que?! Ficou maluco, Roxton? O combinado era esperarmos a polícia chegar. Eu não posso permitir que você entre sozinho.

— Mas...

— Olhe lá! A polícia, finalmente.

Dois carros da Scotland Yard vinham chegando sem fazer nenhum tipo de barulho que os denunciasse. Cinco homens saltaram de cada carro e se aproximaram.

— Vamos entrar cinco de nós na frente enquanto os outros seguem atrás nos dando cobertura. Vocês dois esperem aqui, certo?

— Não, eu vou entrar com vocês!

— Roxton, deixe que a polícia faça o trabalho dela!

— Não, Challenger. Você fica aqui e não deixe Marguerite entrar de jeito nenhum. Eu vou acompanhar o grupo que dará cobertura.

— Estamos perdendo tempo! Seremos descobertos dessa maneira. Vamos logo!

Os policiais começaram a entrar na casa. Roxton lançou um último olhar ao amigo e então partiu acompanhando o segundo grupo.

(Silêncio)

Me desculpe a pausa, menininha, mas eu... Eu preciso me recompor um pouco para terminar de contar tudo. Bem, o caso é que tudo dentro daquela casa abandonada tratava-se de armadilha. E tudo aconteceu muito rápido.
Cinco policiais passaram a frente junto com mais dois encarregados de dar cobertura rapidamente para o segundo andar, local exato que estava marcado no bilhete. Três outros policiais ficaram vasculhando o primeiro andar. E Roxton estava entre o segundo grupo. O ataque estava armado no primeiro andar.
Do lado de fora, Marguerite chegou em frente à casa cerca de cinco minutos após a chegada de Challenger e John. Ela sentiu-se gelar ao ver apenas o cientista.

— Challenger? O que está fazendo aqui? Onde está o John?

— Nós percebemos que você tinha saído sozinha e sem o carro e então viemos rápido e conseguimos chegar antes. John... Ele entrou com os policiais há uns três minutos, mais ou menos.

— O que???? Como puderam permitir que ele entrasse? Isso não é trabalho dele!

— Eu sei Marguerite, mas você conhece John quando mete alguma
ideia na cabeça. É exatamente como você mesma.

— Preciso entrar, Challenger. Preciso fazer alguma coisa.

— Não, Marguerite, não faça nada. Já tem gente demais lá dentro. John me pediu para ficar aqui e segurá-la.
Neste momento...

(Silêncio)

(Pigarro)

Neste momento... Tudo o que se pôde ouvir foram tiros. Muitos tiros.
Marguerite e Challenger ficaram paralisados por alguns segundos e então correram para dentro da casa também. Você não tem que saber exatamente qual o cenário podia ser visto dentro do lugar. Pela janela se podia ver homens fugindo pelos fundos da casa; a alguns metros começava um bosque com árvores altas e fechadas. Os policiais já estavam indo atrás dos fugitivos, mas naquele momento isso pouco importava. Haviam três policiais mortos dentro da casa. E John.
Marguerite correu para o lado do marido, pegou-o em seus braços e começou a pedir para que ele acordasse, para que dissesse alguma coisa, qualquer coisa. Challenger se aproximou e tocou o pescoço de John. Nada. Apertou o pulso. Nada. Ele baixou a cabeça e começou a chorar. Vários tiros; morte instantânea.

— O que? O que foi, Challenger? Não fique aí parado, faça alguma coisa! Ele está sangrando muito!

— Não... Não há o que fazer, Marguerite.

— Como assim “não há o que fazer”? Claro que há. Sempre há.

— Desta vez não há nada que qualquer um de nós possa fazer. John... Oh meu Deus!

Marguerite olhou para o rosto do homem em seus braços. Ela estava sem reação, em estado de choque.

— John está morto. – Completou Challenger, quase como que sussurrando.

— Não. Não, ele não pode estar.

— Marguerite...

— Ele me prometeu, Challenger. ELE ME PROMETEU!

— Eu sei que ele prometeu, Marguerite, mas ele caiu em uma armadilha.

— NÃO!!!! EU NÃO ACEITO!!! ERA PARA MIM ESSA ARMADILHA! – a mulher gritava em desespero, apertava o corpo de John contra o seu e lhe beijava a testa.

O policial que comandava aquela operação se aproximou dos dois e pediu para que se afastassem, pois eles precisariam fazer algumas buscas no local, uma perícia. Ele precisou ajudar Challenger a carregar Marguerite à força para fora, pois ela se recusava a deixar o corpo do marido. Uma vez do lado de fora, Challenger a segurava firmemente em um abraço enquanto ela chorava copiosamente. Aqueles estavam longe de serem os braços que ela precisava sentir em volta de si; e doía como nunca pensar que ela nunca mais teria a mesma sensação protetora novamente.

— Por que eles deixaram que John entrasse, Challenger? Isso não era trabalho dele. Por Deus, que dor! Como é que se faz parar essa dor tamanha? Você prometeu, John, que nunca me deixaria sozinha... – era o que ela ficava repetindo e repetindo abraçada ao cientista.

— Você não está sozinha, Marguerite. Eu estou aqui com você para sempre.

— Não me faça promessas que não vai cumprir, Challenger.

Marguerite dormiu naquela noite apenas sob efeito de calmantes que ela tomou misturado a uma xícara de chá. Ela se recusou a beber café.
Os dias que se seguiram não foram nada fáceis também. Houve o funeral, no qual Marguerite não apareceu, pois ainda estava em estado de choque e só conseguia chorar.
Lady Roxton também estava inconsolável e até esteve em Londres, na mansão, tentando entrar para atacar Marguerite e culpa-la pela morte do filho, mas impediram-na de entrar, ainda bem.
Uma notificação da Scotland Yard chegou solicitando a Marguerite que ela não saísse da cidade e que seria chamada a prestar esclarecimentos tão logo estivesse em condições para tal.

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— George, querido, pare de remoer isso... Só vai te fazer mais mal. Bote a menina para dormir, sim?

Jessie chegou na porta do quarto de bebê que o casal providenciou em sua casa e viu o marido assentado na poltrona com um pequeno embrulhinho adormecido no colo. Lágrimas silenciosas escorriam pelo rosto dele.

— Eu jamais vou me conformar, Jessie. De todos os casais do mundo isso não podia ter acontecido justamente com eles. Com meus amigos.

— Eu sei, meu querido. Dói em mim também. É... Talvez seja mesmo melhor que você bote para fora tudo o que está sentindo. Eu vou lá para baixo preparar algo para comermos. Bote a menina no berço e desça. – ela se despediu com um beijo rápido no marido e saiu.

O cientista se levantou para colocar o bebê em seu colo de volta no berço e, enquanto isso continuou conversando com ela.

— Para finalizar, pequena, quero que saiba de algumas coisas. Uma semana após a morte de John, seu pai, Marguerite te trouxe até aqui na minha casa; uma das empregadas te pegou e sua mãe saiu sem dizer uma palavra. Ninguém nunca mais a viu desde então. Hoje fazem oito meses que seu pai se foi.
Quando voltamos na mansão Roxton em Londres só haviam pertences de John esquecidos por lá. O anel que ele costumava usar, seu inseparável chapéu dos anos de platô e seu rifle sumiram; estou certo de que Marguerite os levou com ela.
Na carta que sua mãe deixou para mim junto com você, dentre outras coisas, dizia que ela sumiria por uns tempos para descobrir quem foi que preparou a armadilha que matou John e que ela iria se vingar de um por um. Não que isso diminuísse a dor que ela sentia, mas achava que precisava ser feito. Ela também iria atrás de outras pessoas com quem tinha dívidas, acertaria tantos problemas quanto fossem possíveis e conseguiria provas que a inocentassem de outros tantos, pois ela sabia que se continuasse aqui os problemas viriam atrás dela e, principalmente, atrás de você. E ela não poderia permitir outra morte por culpa dela. Além disso, a polícia poderia achar que ela era culpada pela morte de John e Lady Roxton faria de tudo para que isso acontecesse. Marguerite se culpa pela morte de John.
Ela me pediu, na carta, para que cuidasse de você até ela voltar. Ela jamais quis te abandonar, minha menina. Jamais. Ela também me pediu para que contasse sempre a você quem são seus pais, o quanto eles se amavam e o quanto sempre amaram e desejaram você. Marguerite não conheceu os pais dela, teve uma infância e uma juventude muito difíceis e ela nunca quis nada disso para você também. E eu farei de tudo para que você se sinta muito amada, embora nunca tenha vivido a experiência de ser pai antes.
Nós vamos esperar, menininha. Vamos esperar pelo dia em que Marguerite volte para nós. Vamos estar bem aqui esperando por ela e você vai adorar conhece-la, porque Marguerite Krux é uma das pessoas mais fortes e ao mesmo tempo mais sensíveis que eu já conheci na minha vida.
E você durma bem. Amanhã eu te conto uma nova história.

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