Eu a havia deixado em Forks para seu bem. O ato mais altruísta que já executei em vida, ou não-vida como costumo dizer. Tive de deixar Isabella Swan, a coisa mais importante para mim, para mante-la viva e bem. As cenas do ataque de meu irmão Jasper a Bella não saiam de minha mente, um pesadelo que nunca iria esquecer.
Já estava a mais de um mês longe de Bella, caminhando sem rumo pelos estados à procura de Victoria, vampira que ameaçou Bella no passado. Este era o único objetivo que tinha, que me mantinha afastado de tudo e de todos. Pensei no que poderia acontecer quando encontrasse e fizesse Victoria pagar por ter ajudado James a quase ter matado Bella. O que eu faria após cumprir esse dever? Conseguiria eu ficar longe de minha família e de Bella? Eu não era mais o Edward Cullen de outrora, era uma figura decadente, uma sombra do que um dia eu fui. E mesmo assim, mesmo sofrendo como nunca sofri antes, eu jamais me arrependeria de tudo o que vivi em Forks. Eu sempre me julguei um condenado desmerecedor da misericórdia divina, mas quando Bella entrou em minha vida, preenchendo as lacunas de minha existência com amor, comecei a cogitar a possibilidade de que Deus me amasse. Eu deveria ser grato pelo que ganhei, pelos momentos com Bella. Guardar tudo na memória e seguir em frente, ou melhor, deixá-la seguir em frente. Era isso o que faria, seria a nova missão de minha vida: garantir que Bella ficasse bem e isso significava ficar longe de mim.
Sentei-me no gramado do campo em que estava. Olhei a paisagem campestre sem ver a beleza ali. Nem mesmo o belo pôr do Sol diante de mim, um espetáculo perpetuadamente belo, conseguia retirar a melancolia, a tristeza. Pensei em Bella como sempre fazia. Tenho feito muito isso desde que terminei nosso relacionamento deixando-a em Forks. Ao fechar os olhos poderia ver com absoluta clareza seu rosto, a pele alva e convidativa ao toque, os cabelos volumosos, ondulados, cor de mogno... Aquele sorriso que tanto amava brincando no canto de seus lábios. Ah, como tinha saudades dela! Uma saudade tão doida que nem mesmo a morte poderia aliviar. Por algum motivo lembrei-me de um episodio distante, algo que Bella nunca soube. Lembrei da única vez desde que a encontrei que pensei na possibilidade de transformá-la em uma vampira, após Bella ter se recuperado do incidente com James.
Lá estava Bella em sua cama, dormia. Seu corpo seguido de pequenos espasmos pela febre. Bella havia ficado doente, Alice prefira antes mesmo de o fato acontecer. Não pude evitar sua doença, mesmo com as profilaxias que Bella seguiu, e me senti mal por isso. Procurei ficar o tempo todo ao seu lado, cuidando de sua convalescência. Carlisle a havia medicado, logo ela estaria bem, mas isso não diminuía a aflição que grasnava em mim. Procurei cobri-la melhor com uma manta grossa, mantinha meu corpo próximo para equilibrar sua temperatura corpórea. Às vezes Bella despertava, tinha crises de tosse, e voltava a dormir. Era apenas uma gripe, todos me asseguravam, porém isso em nada diminuía minha dor. Para mim aquele era o prelúdio para o fim. Um dia Bella ficaria gravemente doente, algo que eu não poderia combater e eu seria mero espectador de sua dor. Ela iria deixar este mundo um dia, poderia ser hoje, amanhã, ano que vem... Quem sabe? Só havia uma forma e impedir, de garantir que Bella nunca sofresse por culpa de uma doença, acidente. Eu poderia salva-la e manter Bella para sempre junto de mim.
Sem perceber de imediato minha cabeça inclinou-se até a jugular de Bella, rocei meus caninos ali. Seria tão fácil livrá-la da morte, mante-la viva e saudável ao meu lado...
-NÃO! –Gritei e minhas costas encontraram com a parede do outro lado do quarto, bem afastado de Bella. “Eu sou um mostro egoísta! Eu não sou confiável!” –Pensei enquanto o remorso me atingia com força incapacitante.
Sai de seu quarto naquela mesma noite, cheio de culpa e tristeza.
Uma vez hesitei, uma vez quase a trouxe para meu mundo por livre e espontânea vontade. A razão conseguiu impedir a tragédia naquela noite e novamente era a razão que me erguia e fazia meus pés correrem pelo campo não a procura de Victoria, mas para mostrar a Bella o quanto eu a amava. Cada passo que me afastava dela era uma prova incontestável do meu amor. E experimentei com satisfação aquele sentimento de certeza apagando as hesitações que ainda me tomavam; quem sabe o único momento em que eu não me arrependerei da decisão de deixar Bella?
Bella ficaria bem sem mim. Ela teria sua vida humana normal e feliz. Era só disso que eu precisava.