Eu tinha nove anos quando isso aconteceu. Eu estava sentada no chão do meu quarto brincando com uma boneca, minha irmã dormia. De repente escutei uma gritaria, eu sabia o que era, eu tinha certeza que era meu padrasto. Quando bebia, ficava esquentadinho e gostava de dar uns tapas na minha mãe. Levantei-me depressa, fui até a porta do meu quarto e deixei-a entreaberta, fiquei observando o que ele estava fazendo.
— Você está transando com o vizinho! Eu sei que você está! — Ele gritava segurando o braço da minha mãe.
— Não, não estou! Você precisa se acalmar! Você... Só bebeu um pouco. — Minha mãe exclamou, tentando ser apaziguadora de algum jeito.
Eu dava graças á Deus por minha irmã não acordar.
Eu queria ir até lá e tirar ele de perto dela, mas eu não tinha como. Eu acabaria me machucando, como da última vez. Minha mãe me fez prometeu.
— Você está! Você está saindo com o vizinho! Você acha que não sei? — Ele gritava com o dedo na cara dela.
Ele a jogou para trás, ela bateu com as costas na parede e ele deu um soco no nariz dela. Ele começou a bater bastante forte no rosto da minha mãe.
— Vadia! Acha que não sei? — Ele repetia a cada soco.
Minha mãe chorava. Ele largou ela no chão e saiu, batendo a porta atrás dele. Ouvi o barulho do carro dele ligando e saindo. Eu corri até a minha mãe, ela chorava.
— Mãe, mamãe! Tudo bem? O que ele...? — Disse nervosa, eu era só uma criança. Não sabia direito o que eu podia fazer.
— Eu... Meu nariz! Eu acho que quebrou... Eu... — Ela estava atordoada.
Ela simplesmente aceitava, nunca tinha ligado para a polícia, nenhuma vez. Não tinha coragem.
Foi aí que ouvi o barulho do carro dele, inconfundível, voltando. Eu sabia que ele ia voltar e bater mais na minha mãe, eu não poderia ajudar ela. Me lembrei que ele guardava uma arma no criado mudo ao lado da cama, corri até o quarto deles e peguei a arma. Quando ele abriu a porta, eu puxei o gatilho. E puxei de novo.
Eu vejo até hoje o rosto dele que me desafiava á terminar o serviço, a matá-lo.
— Faça. — Ele falou com desgosto. — Atire.
Ouve um longo silêncio, eu achei que podia tomar coragem... Mas não. Eu sabia que não conseguiria, e ele também.
— Você não tem coragem. — Ele cuspiu as palavras com desgosto.
Ele deu ás costas á mim e minha mãe que chorava atrás de mim. Entrou no carro e saiu. Não o vimos por um bom tempo, ele acabou sofrendo um acidente e minha mãe foi avisada, ela foi até o hospital... Como se nada tivesse acontecido. Os médicos achavam que ele não ia sobreviver, mas o maldito se recuperou. E, certa noite, simplesmente sumiu do hospital. E nunca mais o vimos.
Eu ainda me culpo por não ter feito. Deveria ter matado ele! E eu sei que ele não é responsável por todas as coisas do mundo, mas ele é responsável por algumas. E agora todo ano... Ele me envia um cartão de aniversário... Só pra me avisar que ele ainda está por aí. Vivo.