Santa Bruma, outubro de 2026.
Helena Montenegro sempre acreditou que algumas pessoas nasciam destinadas à felicidade.
Não porque fossem especiais, mais inteligentes ou merecessem alguma recompensa do universo. Apenas porque, por motivos que ninguém sabia explicar, a vida parecia sorrir para elas com uma generosidade quase injusta.
Durante dezenove anos, Helena estivera convencida de que pertencia a esse grupo.
Tinha uma família que a amava, uma casa confortável, amigos que conhecia desde a infância e um namorado que, mesmo depois de três anos juntos, ainda encontrava maneiras de fazê-la se apaixonar novamente.
Também tinha planos. Muitos planos.
Pretendia concluir a faculdade de Arquitetura, viajar para a Itália, conhecer os lugares que só havia visto em fotografias e, algum dia, morar em uma casa antiga, daquelas com janelas enormes, jardim florido e uma biblioteca particular.
Gabriel costumava brincar que ela já tinha planejado os próximos cinquenta anos dos dois.
Helena sempre respondia que alguém precisava fazer aquilo, já que ele não conseguia organizar nem a própria gaveta de meias.
E então os dois riam.
Era assim que funcionava.
Simples. Previsível. Perfeito.
Naquela sexta-feira, entretanto, Helena acordou com uma sensação estranha.
Não era medo. Também não parecia ansiedade. Tratava-se de algo mais difícil de definir, como a impressão de ter esquecido uma informação importante, embora não conseguisse descobrir qual.
O despertador do celular marcou sete horas e quinze minutos.
Ela permaneceu deitada por alguns instantes, observando as pequenas estrelas luminosas coladas no teto do quarto. Estavam ali desde seus doze anos, quando decidira transformar o cômodo em uma representação improvisada do céu noturno.
Algumas haviam perdido o brilho com o passar do tempo.
Outras continuavam acendendo fracamente na escuridão.
Helena gostava delas.
Acreditava que certas coisas deveriam permanecer exatamente onde sempre estiveram.
Seu celular vibrou sobre o criado-mudo.
Gabriel: Bom dia, futura arquiteta mais famosa do mundo.
Ela sorriu.
Helena: Bom dia, futuro homem que vai gastar todo o dinheiro da esposa famosa.
A resposta veio imediatamente.
Gabriel: Eu prefiro o termo administrador de patrimônio.
Helena: Você perdeu a carteira três vezes este mês.
Gabriel: Detalhes técnicos.
Helena soltou uma gargalhada e se sentou na cama.
Uma nova mensagem apareceu.
Gabriel: Não esquece de hoje à noite.
Helena: Como eu poderia esquecer?
Gabriel: Surpresa importante. Roupa bonita. Oito horas.
Helena: Que tipo de surpresa?
Gabriel: Se eu contar, deixa de ser surpresa.
Helena: Você é insuportável.
Gabriel: Mas você me ama.
Helena ficou alguns segundos olhando para a tela.
Helena: Mais do que você imagina.
Ela enviou a mensagem e se levantou.
Pelo menos naquele momento, o mundo continuava exatamente como deveria.
Santa Bruma era uma cidade de aproximadamente oitenta mil habitantes, localizada entre montanhas cobertas por uma vegetação densa e antigas construções que resistiam ao avanço dos prédios modernos.
Seu centro era formado por avenidas movimentadas, cafeterias, livrarias, lojas de roupas e pequenos restaurantes. Nos bairros mais afastados, entretanto, a cidade preservava ruas de paralelepípedos, casarões centenários e igrejas cujos sinos ainda marcavam as horas.
Havia também a floresta.
A Mata dos Cedros cercava boa parte da região norte e despertava um misto de curiosidade e receio entre os moradores.
Desde pequenas, as crianças ouviam histórias sobre pessoas desaparecidas, animais de tamanho incomum e vultos que caminhavam entre as árvores durante as noites de lua cheia.
Helena nunca dera muita importância àquelas histórias.
Achava que todas as cidades antigas possuíam suas próprias lendas.
Em Santa Bruma, eram os lobos.
Segundo os moradores mais velhos, seus uivos podiam ser ouvidos até mesmo nos bairros próximos ao centro. Os órgãos ambientais, entretanto, afirmavam que não havia registros recentes de lobos selvagens naquela região.
Isso não impedia as pessoas de continuarem contando histórias.
Havia também boatos sobre a Família Valcourt, proprietária de um casarão construído no alto da colina leste. Os Valcourt raramente participavam de eventos públicos, embora controlassem diversos negócios da cidade.
Alguns diziam que eram apenas ricos e reservados.
Outros juravam que seus ancestrais jamais haviam envelhecido.
Helena considerava essa última teoria particularmente absurda.
Naquela manhã, enquanto caminhava até a cozinha, não pensava em lobos, famílias misteriosas ou histórias antigas.
Pensava apenas em café.
— Bom dia, princesa! — anunciou Roberto Montenegro, seu pai, assim que ela apareceu.
Ele estava sentado à mesa, lendo notícias no tablet, enquanto uma xícara fumegante descansava ao lado do prato.
— Bom dia, pai.
Helena beijou seu rosto e pegou uma torrada.
— Dormiu bem? — perguntou Patrícia, sua mãe, preparando uma pequena marmita com frutas.
— Como uma pedra.
— E sonhou com alguma coisa?
A pergunta pareceu casual.
Ainda assim, Helena percebeu que a mãe a observava com atenção.
— Acho que não. Por quê?
Patrícia hesitou.
— Por nada. Você estava falando enquanto dormia.
Helena ergueu as sobrancelhas.
— Falando o quê?
— Não consegui entender.
Roberto abaixou o tablet.
— Talvez estivesse discutindo com o Gabriel até durante o sono.
— Muito engraçado.
O pai riu.
Patrícia, porém, não acompanhou a brincadeira.
— Você acordou alguma vez durante a madrugada?
— Não, mãe. Por quê?
— Só curiosidade.
Helena conhecia a mãe suficientemente bem para perceber quando ela mentia.
Entretanto, antes que pudesse insistir, uma voz surgiu na porta.
— Porque sua mãe anda preocupada demais, como sempre.
Amália Montenegro entrou na cozinha carregando uma pequena bolsa de tecido preto.
Aos setenta e três anos, a avó de Helena possuía cabelos completamente brancos, olhos verdes muito claros e uma postura elegante que parecia desafiar a idade.
Morava em uma casa antiga a poucos quilômetros dali, mas aparecia sem avisar pelo menos três vezes por semana.
Helena adorava aquelas visitas.
Amália tinha o hábito de contar histórias sobre a família, preparar chás com combinações improváveis e oferecer conselhos que, por algum motivo, quase sempre acabavam se mostrando corretos.
— Vó!
Helena correu para abraçá-la.
A idosa retribuiu o carinho, mas permaneceu imóvel por um instante depois do abraço.
Sua mão tocou discretamente a nuca da neta.
— Dormiu bem, minha menina?
Helena se afastou.
— Vocês combinaram alguma coisa? Todo mundo está perguntando isso hoje.
— Apenas me preocupo com você.
Amália sorriu.
Mas seu olhar se demorou no pescoço de Helena.
Mais precisamente, na pequena corrente de prata que a jovem usava desde os quinze anos.
O pingente era uma pedra escura, quase negra, presa dentro de um delicado desenho circular.
Helena nunca soubera sua origem.
A avó lhe entregara o colar no aniversário, dizendo que pertencera a uma mulher importante da família.
Desde então, ela praticamente não o tirava.
— Está usando o presente — comentou Amália.
— Sempre uso.
— Que continue assim.
Havia uma firmeza incomum naquelas palavras.
Roberto pigarreou.
— Mãe, precisamos conversar sobre uma coisa.
A expressão de Amália mudou.
— Agora?
— Pode ser depois do café.
Helena alternou o olhar entre os dois.
— Aconteceu alguma coisa?
— Nada que precise preocupar você — respondeu o pai.
Ela fez uma careta.
— Vocês estão muito estranhos hoje.
— Talvez seja o sono — disse Patrícia rapidamente.
Amália colocou a bolsa sobre a cadeira.
— Helena, você vai sair esta noite?
— Vou. O Gabriel preparou alguma surpresa.
A colher que Patrícia segurava caiu dentro da pia.
O som metálico interrompeu a conversa.
— Hoje? — perguntou Amália.
— Sim. Por quê?
A avó observou a janela.
O céu estava claro, embora algumas nuvens escuras se acumulassem perto das montanhas.
— Talvez seja melhor ficar em casa.
Helena riu.
— Vó, nem você consegue me convencer a cancelar um encontro com o Gabriel.
— Helena...
— Prometo voltar cedo.
Amália segurou a mão da neta.
Seus dedos estavam gelados.
— Existem noites em que devemos ouvir os avisos, mesmo quando não entendemos de onde eles vêm.
Helena inclinou a cabeça.
— Isso foi um conselho ou uma frase de algum livro antigo?
A avó não sorriu.
— Um conselho.
O silêncio durou apenas alguns segundos, mas pareceu muito maior.
Então Roberto mudou de assunto, perguntando sobre a faculdade, e a normalidade voltou à cozinha.
Pelo menos aparentemente.
Às dez horas, Helena encontrou suas duas melhores amigas na cafeteria próxima à universidade.
Beatriz Almeida, estudante de Jornalismo, já ocupava a mesa habitual, acompanhada de uma pilha de apostilas e de um copo enorme de café gelado.
Ao seu lado estava Isadora Nunes, colega de Arquitetura de Helena, que tentava equilibrar o celular sobre uma embalagem de guardanapos.
— Finalmente! — exclamou Beatriz. — Estávamos prestes a registrar seu desaparecimento.
— Cheguei três minutos atrasada.
— Três minutos que jamais recuperaremos.
Isadora levantou os olhos do celular.
— O Gabriel já mandou mensagem?
Helena estreitou os olhos.
— Por quê?
As amigas trocaram um olhar.
— Por nada — respondeu Isadora depressa demais.
— Vocês sabem alguma coisa.
— Não sabemos — disse Beatriz.
— Bea.
— Helena.
— Conta.
— Não.
Helena cruzou os braços.
— Eu vou descobrir.
— Espero que não — murmurou Isadora.
Helena abriu a boca, indignada.
— Então existe mesmo alguma surpresa!
Beatriz levou a mão à testa.
— Isadora, você é péssima guardando segredos.
— Eu não contei nada!
— Praticamente anunciou!
As três começaram a rir.
Durante quase uma hora, conversaram sobre professores, avaliações, colegas de turma e os preparativos para uma festa universitária que aconteceria no mês seguinte.
Helena gostava daqueles momentos.
A amizade com Beatriz e Isadora era uma das poucas coisas que permaneciam inalteradas desde o ensino fundamental.
Elas conheciam seus defeitos, suas inseguranças e até algumas vergonhas que Helena preferia esquecer.
Quando o celular de Beatriz tocou, entretanto, a expressão da amiga mudou.
Ela leu a notificação e rapidamente bloqueou a tela.
— Algum problema? — perguntou Helena.
— Não. Só uma mensagem.
— De quem?
— Um colega do jornal.
Isadora ficou séria.
— Outra notícia sobre a floresta?
Beatriz suspirou.
— Encontraram mais um animal morto perto da estrada velha.
Helena fez uma careta.
— Outro?
— O terceiro nesta semana.
— Deve ter algum predador naquela região — comentou Isadora.
Beatriz balançou a cabeça.
— Esse é o problema. Segundo a pessoa que me mandou as fotos, os animais não apresentam ferimentos comuns.
— Como assim?
A amiga diminuiu a voz.
— Parecem ter perdido muito sangue.
Helena arregalou os olhos.
— Isso é horrível.
— E o mais estranho é que quase não existe sangue no chão.
Isadora se inclinou para a frente.
— Você está tentando nos assustar?
— Estou contando o que descobri.
Helena olhou pela janela.
Do outro lado da rua, um homem alto, vestido com um sobretudo escuro, permanecia parado diante de uma banca de jornais.
Embora fosse uma manhã relativamente quente, ele usava luvas.
Havia algo desconfortável em sua imobilidade.
Por um instante, Helena teve a impressão de que o desconhecido olhava diretamente para ela.
— Helena?
A voz de Isadora a fez virar.
— Oi?
— Você ficou branca.
— Não foi nada.
Quando voltou a olhar para a calçada, o homem havia desaparecido.
As horas seguintes transcorreram sem acontecimentos importantes.
Helena assistiu às aulas, almoçou com as amigas e recebeu pelo menos seis mensagens de Gabriel pedindo que não chegasse atrasada ao encontro.
Às quatro da tarde, estava em casa.
Subiu para o quarto, tomou banho e passou quase quarenta minutos tentando escolher uma roupa.
Acabou optando por um vestido azul-escuro, de mangas delicadas, combinado com uma jaqueta clara e sapatos baixos.
Prendeu parte dos cabelos castanhos com uma pequena presilha e deixou o restante cair sobre os ombros.
Quando terminou, observou o próprio reflexo.
Gostou do resultado.
Pegou o celular e tirou uma fotografia.
Helena: Aprovado?
A resposta de Gabriel demorou menos de um minuto.
Gabriel: Você quer que eu sofra um acidente antes de chegar aí?
Helena riu.
Helena: Dramático.
Gabriel: Linda demais. Te busco às oito.
Ela colocou o celular sobre a cama.
Foi então que percebeu uma coisa estranha.
O pingente de sua corrente estava quente.
Não apenas morno pelo contato com a pele.
Quente de verdade.
Helena segurou a pedra entre os dedos e afastou o colar do pescoço.
Durante um segundo, julgou enxergar uma pequena luz avermelhada no centro da superfície escura.
Piscou.
A luz desapareceu.
— Que estranho...
Examinou o pingente diante do espelho.
Nada.
Provavelmente era um reflexo da luminária.
Devolveu a pedra ao lugar e tentou esquecer o episódio.
Quando se virou para pegar a bolsa, porém, todas as lâmpadas do quarto piscaram ao mesmo tempo.
Uma vez.
Duas.
Três.
Depois, tudo voltou ao normal.
Helena permaneceu imóvel.
— Pai? — chamou.
Nenhuma resposta.
Saiu do quarto e caminhou até a escada.
No andar inferior, ouviu vozes.
Reconheceu imediatamente a de sua avó.
— Você prometeu que isso nunca aconteceria!
Helena parou.
A voz de Amália estava alterada.
— Nós fizemos tudo o que você pediu — respondeu Roberto. — Você disse que seria suficiente!
— Eu disse que poderia ser suficiente!
Helena franziu a testa.
Nunca tinha ouvido a avó levantar a voz daquela maneira.
Patrícia parecia estar chorando.
— Ela não sabe de nada, Amália.
— E talvez seja esse o nosso maior erro.
Helena desceu mais dois degraus.
— Sobre o que vocês estão falando?
O silêncio foi imediato.
Amália estava perto da janela da sala, enquanto seus pais permaneciam junto ao sofá.
Os três a encararam.
— Aconteceu alguma coisa? — insistiu Helena.
— Não, querida — respondeu Patrícia, secando discretamente os olhos.
— Então por que você está chorando?
Roberto se aproximou.
— Estamos discutindo alguns problemas antigos de família. Nada relacionado a você.
Helena não acreditou.
Mas, antes que pudesse questioná-lo, a campainha tocou.
Era Gabriel.
O sorriso surgiu naturalmente em seu rosto.
— Conversamos depois.
Ela correu até a porta.
Não percebeu que, atrás dela, Amália fechava os olhos como alguém que acabara de perder a última oportunidade de impedir uma tragédia.
Gabriel Vasconcelos tinha vinte anos, cabelos castanhos ligeiramente ondulados e olhos que pareciam mudar de cor dependendo da iluminação.
Estudava Engenharia Civil e trabalhava algumas tardes no escritório do pai.
Era organizado com os estudos, desorganizado com todo o resto e incapaz de preparar um café que não tivesse gosto de carvão.
Helena o amava por razões que nem sempre conseguia explicar.
Talvez porque ele soubesse reconhecer quando precisava de silêncio.
Talvez porque se lembrasse de pequenos detalhes que outras pessoas esqueciam.
Ou simplesmente porque, ao lado dele, não precisava fingir ser mais forte, inteligente ou corajosa do que realmente era.
Naquela noite, Gabriel estava especialmente bonito.
Usava uma camisa preta, calça escura e o relógio que Helena lhe dera no aniversário anterior.
Trazia também um pequeno buquê de flores brancas.
— Para a mulher mais bonita de Santa Bruma.
Helena aceitou as flores.
— Você está querendo alguma coisa.
— Sua companhia pelo resto da vida, talvez.
Ela sorriu.
— Pretensioso.
Gabriel beijou sua testa.
— Muito.
Roberto apareceu na porta.
— Boa noite, rapaz.
— Boa noite, senhor Montenegro.
O pai de Helena examinou o namorado da filha por alguns segundos.
— Dirija com cuidado.
— Sempre.
— E evite a estrada da mata. Parece que vai chover.
Gabriel assentiu.
— Pode deixar.
Amália surgiu atrás de Roberto.
Seu olhar percorreu o rosto de Gabriel.
Havia algo estranho naquela maneira de observá-lo.
Não parecia desconfiança.
Parecia reconhecimento.
— Gabriel — chamou a idosa.
— Dona Amália.
Ela segurou a mão dele.
— Cuide dela.
— Com a minha vida, se for preciso.
A expressão da avó endureceu.
— Não diga isso.
Gabriel pareceu confuso.
— Desculpe?
Amália soltou sua mão.
— Apenas tenham cuidado.
Helena sentiu um desconforto inesperado.
— Vó, está tudo bem?
— Está, minha menina.
A avó acariciou seu rosto.
— Eu te amo.
— Também te amo.
Helena abraçou os pais, pegou a bolsa e saiu.
Enquanto caminhava até o carro de Gabriel, olhou uma última vez para a casa.
Amália continuava na porta.
Com as mãos unidas diante do peito.
Como se estivesse rezando.
O restaurante escolhido por Gabriel ficava no centro histórico, em um casarão restaurado que oferecia vista para a praça principal.
Pequenas luzes amarelas iluminavam as árvores, enquanto músicos tocavam versões instrumentais de canções conhecidas.
Helena ficou encantada.
— Como você conseguiu reservar uma mesa aqui?
— Tenho meus contatos.
— Gabriel.
— Fiz a reserva há dois meses.
Ela arregalou os olhos.
— Dois meses?
— Algumas coisas merecem planejamento.
— Olha só! Você aprendendo comigo.
Ele puxou a cadeira para ela.
— Não se acostume.
Durante o jantar, conversaram sobre a universidade, sobre uma viagem que pretendiam fazer nas férias e sobre o apartamento que Gabriel sonhava comprar depois de formado.
Helena comentou que gostaria de reformá-lo.
Ele respondeu que provavelmente não teria escolha.
Tudo parecia perfeito.
Até Gabriel ficar sério.
— Lena, posso te perguntar uma coisa?
Ela deixou os talheres sobre o prato.
— Claro.
— Você acredita que algumas coisas estão destinadas a acontecer?
Helena pensou por um instante.
— Tipo destino?
— É.
— Não sei. Acho que nossas escolhas determinam boa parte do futuro.
Gabriel observou a vela sobre a mesa.
— E se alguma coisa tivesse sido decidida muito antes de a gente nascer?
Helena riu discretamente.
— Você está filosófico hoje.
Ele não sorriu.
— Estou falando sério.
Ela percebeu.
— Aconteceu alguma coisa?
Gabriel passou a mão pelos cabelos.
— Não exatamente.
— Você está me preocupando.
Ele segurou sua mão.
— Você sabe que eu te amo, não sabe?
— Sei.
— Independentemente do que acontecer.
Helena sentiu o coração acelerar.
— Gabriel, que conversa é essa?
Ele pareceu procurar as palavras.
— Às vezes, as pessoas escondem coisas porque têm medo de perder quem amam.
Ela ficou em silêncio.
— Você está escondendo alguma coisa de mim?
Gabriel abriu a boca.
Fechou novamente.
Por um segundo, Helena julgou enxergar culpa em seus olhos.
— Estou tentando encontrar uma maneira de te contar uma coisa — respondeu finalmente.
O estômago dela se contraiu.
— Que coisa?
Antes que ele respondesse, um garçom se aproximou com a sobremesa.
Gabriel soltou sua mão.
— Podemos conversar sobre isso depois?
Helena não gostou da resposta.
Entretanto, decidiu não transformar aquela noite em uma discussão.
— Tudo bem.
Gabriel pareceu aliviado.
Mas não completamente.
Quando o garçom se afastou, ele olhou rapidamente para a entrada do restaurante.
Helena acompanhou seu olhar.
Um homem estava parado perto da porta.
Vestia um sobretudo escuro.
Luvas pretas.
E parecia observar a mesa dos dois.
Era o mesmo desconhecido que Helena vira pela manhã.
— Gabriel...
— O quê?
— Você conhece aquele homem?
O namorado se virou.
Assim que o viu, ficou pálido.
— Não.
A resposta veio depressa demais.
— Tem certeza?
— Tenho.
O homem saiu do restaurante.
Gabriel pegou o celular e verificou alguma coisa na tela.
— Acho melhor irmos embora.
Helena franziu a testa.
— Mas acabamos de pedir sobremesa.
— Não estou me sentindo muito bem.
Ela observou o rosto dele.
Havia suor próximo às têmporas.
— Você está passando mal?
— Só um pouco de dor de cabeça.
Helena concordou em sair.
Não percebeu que, antes de acompanhá-la, Gabriel enviou uma mensagem.
E também não viu a resposta que apareceu segundos depois.
NÃO PASSE PELA ESTRADA NORTE. ELA NÃO ESTÁ SEGURA.
Eram aproximadamente dez e quarenta quando deixaram o centro histórico.
Uma chuva fina começava a cair.
Helena estava no banco do passageiro, observando as gotas deslizarem pelo vidro, enquanto Gabriel dirigia em silêncio.
O rádio tocava uma canção antiga.
Normalmente, eles cantariam juntos.
Naquela noite, entretanto, a música parecia existir apenas para preencher o espaço entre os dois.
— Você quer conversar? — perguntou Helena.
Gabriel apertou o volante.
— Sobre o quê?
— Sobre aquilo que estava tentando me contar.
Ele respirou fundo.
— Lena, existem coisas que você não sabe sobre esta cidade.
Ela virou o rosto.
— Como assim?
— Coisas antigas. Histórias que as pessoas acham que são apenas lendas.
Helena riu nervosamente.
— Você está falando dos lobos da floresta?
Gabriel não respondeu.
— Gabriel?
— Sua avó já te contou alguma coisa sobre a família dela?
A pergunta a surpreendeu.
— Muitas coisas. Por quê?
— Sobre sua bisavó? Ou alguém que viveu há muito tempo?
Helena sentiu a estranha sensação daquela manhã retornar.
— O que minha família tem a ver com isso?
Gabriel olhou rapidamente pelo retrovisor.
— Eu precisava conversar com você antes que alguém...
Ele interrompeu a frase.
— Antes que alguém o quê?
O namorado acelerou discretamente.
Helena percebeu.
— Gabriel, diminua.
— Tem um carro atrás de nós.
Ela olhou pelo vidro traseiro.
Dois faróis iluminavam a estrada.
— E daí?
— Está nos seguindo desde o restaurante.
Helena sentiu um arrepio.
— Pode ser só alguém voltando para casa.
Gabriel não respondeu.
Mais adiante, uma placa indicava a bifurcação entre a avenida principal e a Estrada dos Cedros.
O caminho da avenida era mais longo, porém iluminado e movimentado.
A estrada da mata cortava uma região isolada, reduzindo a viagem em quase quinze minutos.
Helena apontou para a esquerda.
— Vamos pela avenida.
Gabriel manteve os olhos na estrada.
— Não podemos.
— Por quê?
— Tem alguém esperando lá.
Ela sentiu o sangue gelar.
— Quem?
— Lena, preciso que você confie em mim.
O veículo atrás deles se aproximou.
Gabriel virou bruscamente à direita.
Entraram na Estrada dos Cedros.
— Gabriel! Meu pai pediu para você não vir por aqui!
— Eu sei.
— Então por que estamos aqui?
— Porque é o único lugar onde talvez eu consiga...
Ele parou de falar.
Seu celular começou a tocar dentro do console.
Na tela, apareceu apenas uma palavra.
LUCIAN.
Gabriel ignorou a chamada.
O aparelho voltou a tocar.
E outra vez.
Helena estendeu a mão.
— Quer que eu atenda?
— Não!
A intensidade da resposta a fez recuar.
Gabriel respirou fundo.
— Desculpa. Só... não atende.
As árvores se tornavam mais altas conforme avançavam pela estrada.
A iluminação pública desaparecera alguns quilômetros antes.
O mundo além dos faróis parecia formado apenas por chuva, troncos escuros e neblina.
Helena segurou o pingente.
Ele estava quente novamente.
Dessa vez, muito quente.
— Gabriel, tem alguma coisa errada.
— Eu sei.
— Não. Comigo.
Uma dor aguda atravessou seu peito.
Helena levou a mão ao colar.
A pedra parecia queimar sua pele.
— Ai!
Gabriel olhou para ela.
— O que foi?
— Meu colar!
Assim que ele viu o pingente, sua expressão mudou completamente.
Não parecia surpreso.
Parecia aterrorizado.
— Helena, tira isso.
Ela tentou abrir o fecho.
Os dedos tremiam.
— Não consigo!
— Tira agora!
Uma luz avermelhada começou a pulsar dentro da pedra.
O rádio desligou sozinho.
O painel do carro piscou.
Uma rajada de vento atingiu a lateral do veículo.
Então Helena ouviu uma voz.
Não vinha do rádio.
Não vinha de Gabriel.
Parecia surgir diretamente dentro de sua cabeça.
Finalmente.
Ela congelou.
— Você ouviu isso?
Gabriel olhou novamente pelo retrovisor.
— Ouviu o quê?
O sangue desperta.
Helena levou as mãos aos ouvidos.
— Para!
— Helena?
O que foi enterrado precisa retornar.
A dor aumentou.
Lágrimas escorreram por seu rosto.
— Gabriel, tem alguém falando comigo!
Ele pareceu perder toda a cor do rosto.
— Não escuta!
— Como assim?
— Seja o que for que esteja dizendo, não escuta!
Os faróis do veículo que os seguia desapareceram repentinamente.
Helena olhou para trás.
Não havia nada.
A estrada estava vazia.
Então alguma coisa se moveu entre as árvores.
Uma sombra enorme atravessou a vegetação à direita.
Helena viu apenas por um segundo.
Mas foi suficiente.
Parecia um animal.
Um animal grande demais para ser um cão.
Seus olhos refletiam uma luz amarelada.
— Gabriel!
Ele acompanhou seu olhar.
— Não olha para isso!
O animal correu paralelamente ao carro.
Rápido.
Impossivelmente rápido.
Helena apertou o cinto de segurança.
— O que é aquilo?
Gabriel acelerou.
O velocímetro passou dos noventa quilômetros por hora.
— Segura firme!
Uma curva apareceu adiante.
Foi quando o animal saltou.
Helena jamais esqueceria aquele instante.
O corpo enorme emergiu da escuridão, atravessando a frente dos faróis. Ela viu pelos negros, dentes longos e um par de olhos quase humanos.
Gabriel girou o volante.
Os pneus perderam contato com o asfalto molhado.
O carro atravessou a pista.
Helena gritou.
O mundo pareceu desacelerar.
Ela viu Gabriel tentando recuperar o controle.
Viu as árvores se aproximando.
Viu o guard-rail surgir diante do para-brisa.
E sentiu uma certeza terrível.
Vamos morrer.
Foi nesse instante que algo despertou dentro dela.
Não houve palavras mágicas.
Nenhum gesto ensaiado.
Nenhuma decisão consciente.
Apenas medo.
Um medo tão absoluto que parecia maior do que seu próprio corpo.
O pingente explodiu em luz.
Helena sentiu o ar desaparecer de seus pulmões.
E uma voz feminina, antiga e desconhecida, sussurrou:
Você viverá.
O carro atingiu o guard-rail.
O metal se contorceu.
O vidro dianteiro explodiu.
E tudo ficou branco.
Quando Helena abriu os olhos, a primeira coisa que percebeu foi o silêncio.
Não o silêncio comum de uma noite tranquila.
Era uma ausência completa de sons.
Nenhuma chuva.
Nenhum motor.
Nenhum vento.
Apenas o próprio coração batendo lentamente.
Por alguns segundos, não conseguiu compreender onde estava.
Então sentiu o cheiro de gasolina.
Olhou ao redor.
O carro permanecia destruído contra uma árvore, alguns metros abaixo da estrada.
O para-brisa tinha desaparecido.
O painel estava esmagado.
A porta do passageiro havia sido arrancada.
Mas Helena continuava sentada.
Inteira.
Sem sangue.
Sem dor.
Sua roupa nem sequer estava rasgada.
Ela ergueu as mãos, examinando os dedos.
Não havia ferimentos.
— Gabriel?
Nenhuma resposta.
Virou o rosto.
O namorado estava inclinado sobre o volante.
Seu rosto permanecia estranhamente tranquilo.
Não havia cortes visíveis.
Nenhum sinal de que tivesse sofrido o impacto devastador que destruíra o automóvel.
— Gabriel?
Helena tocou seu braço.
Ele estava frio.
— Amor?
Sacudiu seu ombro.
— Gabriel, acorda.
Nada.
Uma sensação desesperadora começou a crescer em seu peito.
— Gabriel, por favor...
Ela soltou o cinto de segurança e se inclinou sobre ele.
Tentou levantar seu rosto.
Os olhos estavam fechados.
Os lábios, ligeiramente azulados.
Helena encostou os dedos em seu pescoço.
Procurou uma pulsação.
Não encontrou.
Tentou novamente.
— Não...
Sua própria respiração começou a falhar.
— Não, não, não...
Pegou o celular, que estava caído perto de seus pés.
A tela havia rachado.
Mesmo assim, conseguiu ligar para a emergência.
Informou a localização entre soluços, seguindo as instruções da atendente, que lhe pediu para verificar a respiração de Gabriel.
Ele não respirava normalmente.
Helena iniciou as compressões torácicas orientadas pela atendente, contando em voz alta, interrompendo a contagem para implorar que Gabriel voltasse.
Mas ele não reagiu.
O tempo perdeu qualquer significado.
Ela não sabia se haviam passado dois minutos ou vinte.
Apenas continuava tentando.
— Você prometeu! — gritou, entre uma sequência de compressões e outra. — Você prometeu que ia ficar comigo!
Nada.
— Gabriel, por favor!
O choro dificultava sua respiração.
— Eu não consigo sem você!
Foi então que aconteceu.
Uma luz vermelha surgiu sob sua pele.
Começou no pulso direito, formando linhas delicadas que avançaram lentamente em direção à mão de Gabriel.
Helena recuou, aterrorizada.
As linhas desapareceram.
E, por um instante, o corpo dele se moveu.
Não como alguém tentando respirar.
Parecia ter sido puxado por uma força invisível.
Helena gritou.
— Gabriel?
Os olhos do namorado se abriram.
Por menos de um segundo.
E ele pronunciou uma única palavra.
— Bruxa...
Então ficou imóvel novamente.
Helena levou as mãos à boca.
Antes que conseguisse compreender o que havia acontecido, ouviu as sirenes.
No Hospital Municipal de Santa Bruma, tudo parecia iluminado demais.
As paredes brancas.
Os corredores.
As luzes fluorescentes.
Até os rostos dos funcionários pareciam perder a cor sob aquela iluminação.
Helena estava sentada sobre uma maca, envolvida por um cobertor, enquanto uma médica examinava seus braços.
— Nenhuma fratura — comentou a profissional.
Helena não respondeu.
— Nenhum corte significativo. Nem sinais de traumatismo craniano.
A médica trocou um olhar com o enfermeiro.
— Você tem muita sorte, Helena.
A jovem virou lentamente o rosto.
— Sorte?
A médica hesitou.
— Considerando a gravidade do acidente...
— Meu namorado morreu.
O silêncio se instalou.
— Eu sinto muito.
Helena olhou para as próprias mãos.
Ainda podia sentir a pressão das compressões que fizera no peito de Gabriel.
O cheiro da chuva.
O frio da pele dele.
E aquela palavra.
Bruxa.
A médica se aproximou.
— Você sofreu uma experiência muito traumática. Precisamos observar seu estado por mais algumas horas.
Helena ergueu os olhos.
— Ele morreu por causa do acidente?
A profissional pareceu surpresa.
— Ainda precisamos avaliar alguns detalhes.
— Mas ele estava bem antes.
— Helena...
— Ele estava conversando comigo. Estava dirigindo.
A voz começou a falhar.
— Como alguém simplesmente morre assim?
A médica não encontrou uma resposta imediata.
— A equipe vai esclarecer o que for possível.
Helena fechou os olhos.
Naquele momento, a porta do consultório se abriu.
Patrícia entrou primeiro.
Estava pálida, com os olhos inchados.
Roberto vinha logo atrás.
— Minha filha!
A mãe correu até ela e a abraçou.
Helena finalmente desabou.
Chorou como nunca havia chorado.
Agarrou-se à mãe, repetindo o nome de Gabriel e perguntando por que ele não tinha sobrevivido.
Roberto permaneceu ao lado delas, acariciando os cabelos da filha.
Durante vários minutos, ninguém tentou oferecer explicações.
Não havia explicação capaz de tornar aquela noite menos cruel.
Quando Helena conseguiu se acalmar, percebeu que a avó também estava no corredor.
Amália não chorava.
Permanecia parada diante da porta.
Seus olhos estavam fixos no pescoço da neta.
No pingente.
A pedra, antes negra, agora apresentava uma rachadura fina em sua superfície.
Amália levou a mão à boca.
Como se tivesse acabado de confirmar seu pior medo.
A notícia da morte de Gabriel se espalhou rapidamente pela cidade.
Na manhã seguinte, os jornais locais informavam que um jovem universitário havia perdido a vida em um acidente automobilístico na Estrada dos Cedros.
A sobrevivência inexplicável da namorada também se tornou assunto.
Alguns chamavam de milagre.
Outros falavam em sorte extraordinária.
Helena odiava as duas expressões.
Seu namorado estava morto.
Não existia nada milagroso nisso.
Durante os dois dias seguintes, recebeu mensagens de amigos, colegas e pessoas que mal conhecia.
Todos queriam oferecer apoio.
Todos diziam sentir muito.
Todos perguntavam se ela precisava de alguma coisa.
Mas ninguém podia devolver Gabriel.
Beatriz e Isadora permaneceram ao seu lado durante quase todo o tempo.
Ajudaram a organizar as mensagens, conversaram com professores e tentaram convencê-la a comer.
Helena aceitava pequenos pedaços de pão apenas para que parassem de insistir.
Dormir era ainda pior.
Sempre que fechava os olhos, revivia o acidente.
O animal na estrada.
A luz vermelha.
O carro contra a árvore.
E Gabriel sussurrando aquela palavra impossível.
Bruxa.
Na segunda noite, sonhou com uma mulher.
Estava em uma floresta coberta por névoa.
À sua frente, uma desconhecida vestia um longo vestido negro.
Tinha cabelos escuros que desciam até a cintura e olhos verdes quase idênticos aos de Amália.
Atrás dela, uma casa ardia em chamas.
Helena tentou se aproximar.
— Quem é você?
A mulher não respondeu.
Ergueu uma das mãos.
Em sua palma havia uma pequena chama vermelha.
— Quem é você? — Helena repetiu.
A desconhecida finalmente falou.
— O sangue sempre encontra o caminho de volta.
Helena tentou correr.
Mas raízes surgiram do chão, prendendo seus tornozelos.
A mulher se aproximou.
Seu rosto estava coberto por lágrimas negras.
— Você não deveria ter despertado tão cedo.
Helena acordou gritando.
O relógio marcava três horas e dezessete minutos.
Seu quarto estava escuro.
Uma corrente fria atravessava o ambiente, embora todas as janelas permanecessem fechadas.
E, sobre a mesa de estudos, uma fotografia de Gabriel estava virada para baixo.
Helena tinha certeza de que a deixara em pé.
Levantou-se lentamente.
Quando tocou a moldura, a lâmpada do quarto acendeu sozinha.
Ela recuou.
O coração disparou.
— Tem alguém aí?
Nenhuma resposta.
A lâmpada apagou.
Depois acendeu novamente.
Helena segurou o pingente.
A pedra estava quente.
Muito quente.
Ela começou a chorar.
— Para...
A luz piscou.
— Por favor, para...
A lâmpada explodiu.
O som fez Helena gritar.
Fragmentos de vidro caíram no chão.
Ela se encolheu ao lado da cama, protegendo a cabeça.
Segundos depois, a porta se abriu.
Amália entrou carregando uma pequena vela.
A chama permanecia perfeitamente imóvel, apesar da corrente de ar que atravessava o quarto.
A avó observou os cacos espalhados.
Depois olhou para a neta.
Não pareceu surpresa.
— Venha comigo, Helena.
A jovem tremia.
— Vó, o que está acontecendo?
Amália estendeu a mão.
— Está na hora de você conhecer a verdade.
A casa de Amália ficava no bairro mais antigo de Santa Bruma.
Era uma construção de dois andares, cercada por árvores enormes e um jardim repleto de flores que, segundo a avó, exigiam cuidados especiais.
Helena sempre gostara daquele lugar.
Na infância, passava horas explorando os corredores, observando fotografias antigas e tentando descobrir o conteúdo das gavetas trancadas.
Havia também uma porta no final do corredor superior.
Uma porta de madeira escura, sem fechadura aparente.
Amália nunca permitira que ela se aproximasse.
Naquela madrugada, entretanto, foi justamente até lá que a conduziu.
Helena caminhava em silêncio.
Seus pais haviam concordado em deixá-la sair com a avó depois de uma conversa que ela não conseguira ouvir.
Roberto parecia arrasado.
Patrícia chorara novamente.
Nenhum dos dois tentou impedi-las.
Agora, diante da porta proibida, Helena sentia que estava prestes a atravessar uma fronteira invisível.
— Vó, você está me assustando.
Amália tirou do bolso uma pequena chave de prata.
— Eu sei, querida.
— O que tem aí dentro?
— Respostas.
A avó encostou a chave na madeira.
Não havia fechadura.
Mesmo assim, um som metálico ecoou pelo corredor.
A porta se abriu lentamente.
Helena recuou.
— Como você fez isso?
— Entre.
O cômodo era maior do que deveria ser.
Muito maior.
Helena conhecia a parte externa da casa e sabia que aquele espaço não caberia na estrutura do segundo andar.
Prateleiras de madeira cobriam as paredes, carregadas de livros antigos, recipientes de vidro e pequenos objetos que não conseguiu identificar.
Havia mapas, velas, caixas de metal e quadros.
No centro, uma mesa circular apresentava símbolos desenhados em sua superfície.
Mas nada chamou tanto sua atenção quanto o retrato pendurado na parede principal.
Era a pintura de uma mulher jovem.
Cabelos escuros.
Olhos verdes.
Vestido negro.
Helena parou de respirar por um instante.
Conhecia aquele rosto.
— É ela...
Amália fechou a porta.
— Quem?
Helena apontou para o quadro.
— A mulher do meu sonho.
A avó pareceu envelhecer vários anos naquele instante.
Aproximou-se da pintura e passou os dedos pela moldura.
— Serafina Montenegro — respondeu.
Helena engoliu em seco.
— Quem foi ela?
— Sua ancestral.
— Minha tataravó?
— Muito mais antiga do que isso.
Helena se aproximou.
Uma pequena placa de metal abaixo da moldura apresentava um nome e uma data.
SERAFINA MONTENEGRO — 1691.
Ela sentiu um arrepio.
— Isso é impossível.
Amália se virou.
— Muitas coisas que você considera impossíveis existem, Helena.
A jovem soltou uma risada nervosa.
— Vó, por favor. Eu não estou em condições de ouvir histórias estranhas.
— Não são histórias.
Amália caminhou até a mesa.
Sobre ela havia três objetos: uma taça de prata, um livro de capa vermelha e uma pequena adaga.
Helena olhou para a arma.
— O que está acontecendo?
A avó respirou fundo.
— Durante séculos, nossa família protegeu um segredo.
— Que segredo?
— Existem pessoas neste mundo que não são exatamente humanas.
Helena ficou imóvel.
— Como assim?
— Algumas nascem com dons que a ciência não consegue explicar. Outras carregam maldições antigas. Há também aquelas que precisam se alimentar da vida dos outros para continuar existindo.
Helena olhou novamente para a pintura.
— Você está falando de quê? Fantasmas?
— Bruxas. Vampiros. Lobisomens.
A resposta caiu entre elas como uma sentença.
Helena piscou.
Uma vez.
Duas.
Então começou a rir.
Não porque achasse engraçado.
Mas porque aquela era a única reação que seu corpo parecia capaz de produzir.
— Vó, você está brincando.
Amália permaneceu séria.
— Não.
— Vampiros? Lobisomens?
— Sim.
Helena levou as mãos à cabeça.
— Eu perdi o Gabriel há dois dias. Estou tendo pesadelos, não consigo dormir e agora você está me dizendo que monstros existem?
— Não são todos monstros.
— Isso não melhora a situação!
A avó suspirou.
— Sei que parece absurdo.
— Parece loucura!
Helena caminhou até a porta.
— Eu quero ir embora.
A maçaneta não se moveu.
Ela tentou novamente.
Nada.
— Abre essa porta.
Amália não se aproximou.
— Helena, por favor...
— Abre!
As velas sobre as prateleiras acenderam simultaneamente.
Helena congelou.
Não havia ninguém perto delas.
Pequenas chamas surgiram uma após a outra, iluminando o cômodo.
A jovem soltou a maçaneta.
Virou-se devagar.
— Como...
Amália estendeu a mão.
Uma das velas se ergueu da prateleira.
Flutuou lentamente pelo ar.
E pousou no centro da mesa.
Helena recuou até bater contra a parede.
— Não...
A avó fechou os dedos.
A chama se apagou.
— Isso é magia — explicou.
Helena balançou a cabeça.
— Não pode ser.
— Mas é.
— Você colocou algum mecanismo aqui.
Amália ergueu a mão novamente.
Um dos livros se abriu sozinho.
As páginas começaram a virar, cada vez mais depressa, até pararem em uma ilustração de três círculos entrelaçados.
— Nossa família pertence à linhagem das bruxas de sangue — continuou a idosa. — Mulheres e homens que herdam a capacidade de manipular forças que existem muito além do mundo visível.
Helena sentiu as pernas enfraquecerem.
Apoiou-se em uma cadeira.
— Eu não tenho poderes.
Amália olhou para o pingente.
— Tem, sim.
— Não!
— Sua magia estava adormecida.
Helena segurou a corrente.
— Isso tem alguma coisa a ver com o meu colar?
— Ele foi criado para esconder sua presença. Enquanto estivesse intacto, outras criaturas teriam dificuldade para reconhecer o sangue que você carrega.
A jovem examinou a rachadura.
— E agora?
Amália não respondeu imediatamente.
Foi até um armário antigo e retirou uma pequena caixa.
Dentro havia uma fotografia em preto e branco.
Mostrava três mulheres diante da mesma casa.
Helena reconheceu Amália muito mais jovem.
Ao lado dela estava outra mulher, de cabelos longos e escuros.
A terceira tinha o mesmo rosto de Serafina.
Exatamente o mesmo.
Helena apontou para a fotografia.
— Quem é essa?
A avó fechou a caixa rapidamente.
— Alguém que deveria continuar esquecida.
— Vó...
Amália segurou suas mãos.
— Preciso que me escute com atenção.
Helena percebeu que a voz da avó tremia.
Era a primeira vez, em toda a sua vida, que a via verdadeiramente apavorada.
— A magia de nossa família possui uma característica muito rara. Ela protege seus herdeiros quando suas vidas estão ameaçadas.
A jovem sentiu o coração apertar.
— Protege como?
— Às vezes, criando barreiras. Às vezes, desviando ataques. Mas existem manifestações mais perigosas.
Helena lembrou do carro destruído.
Do próprio corpo sem ferimentos.
Da luz vermelha.
— O acidente...
Amália abaixou o olhar.
— Sim.
— Foi por isso que eu sobrevivi?
— Foi.
Helena se afastou.
As mãos começaram a tremer.
— E o Gabriel?
A avó permaneceu imóvel.
— O que aconteceu com ele, vó?
Amália fechou os olhos.
Por alguns segundos, parecia incapaz de responder.
Quando finalmente falou, sua voz saiu quase como um sussurro.
— A magia despertou para impedir sua morte.
Helena sentiu uma náusea violenta.
— Eu sei. Mas o Gabriel...
— Ela precisava de energia para criar a proteção.
A jovem encarou a avó.
— Que energia?
Uma lágrima escorreu pelo rosto de Amália.
— Energia vital.
O silêncio pareceu engolir o cômodo.
Helena deu um passo para trás.
— Não.
— Minha menina...
— Não!
As velas estremeceram.
— Você está dizendo que...
Sua voz falhou.
Amália tentou se aproximar.
Helena recuou.
— Não encosta em mim.
A avó parou.
Helena levou a mão ao peito.
Lembrou-se da última conversa dentro do carro.
Do sorriso de Gabriel.
Do medo em seus olhos.
Lembrou-se dele prometendo protegê-la.
Com a minha vida, se for preciso.
Uma dor insuportável atravessou seu corpo.
— Foi o acidente que matou o Gabriel — afirmou, desesperadamente. — O carro bateu. Ele estava dirigindo. Foi isso.
Amália chorava em silêncio.
— Helena...
— Fala que foi isso!
A voz da jovem ecoou pelas paredes.
Vários livros caíram das prateleiras.
Amália ergueu os braços, protegendo o rosto.
Helena nem percebeu.
— Fala!
A avó finalmente respondeu.
— O impacto não foi o que tirou a vida dele.
Helena parou.
Por um instante, não ouviu nada além da própria respiração.
— O quê?
Amália parecia ter dificuldade para encontrar as palavras.
— Os primeiros sinais que conseguimos confirmar indicam que a força despertada em você retirou a energia vital de Gabriel.
Helena cobriu a boca.
— Não...
— Você não escolheu fazer isso.
— Não...
— A magia agiu sozinha.
As lágrimas começaram a cair sem controle.
— Eu matei ele?
Amália tentou segurar sua mão.
Helena se afastou violentamente.
— EU MATEI O GABRIEL?
Todas as velas se apagaram.
O cômodo mergulhou na escuridão.
Um vento furioso atravessou as prateleiras, derrubando objetos e espalhando páginas pelo chão.
O pingente de Helena começou a brilhar.
A luz vermelha iluminou seu rosto coberto de lágrimas.
Amália gritou seu nome.
Mas Helena só conseguia pensar em Gabriel.
No restaurante.
Nas flores.
Nos planos que jamais realizariam.
E no fato de que ele poderia estar vivo.
Se não estivesse ao lado dela.
A madeira da mesa começou a rachar.
Os vidros vibraram.
A pintura de Serafina caiu da parede.
Helena apertou os olhos.
— Eu não quero isso!
Uma onda de energia atravessou o cômodo.
Amália foi lançada contra uma estante.
O livro vermelho se abriu no chão.
E, de suas páginas, surgiu uma fumaça escura.
Helena recuou, aterrorizada.
A fumaça tomou a forma de uma mulher.
Alta.
Elegante.
Com cabelos compridos e olhos verdes.
A mesma mulher do quadro.
A mesma mulher do sonho.
Serafina Montenegro.
A aparição ergueu lentamente o rosto.
E sorriu.
— Finalmente — sussurrou.
Helena sentiu o sangue congelar.
— Quem... quem é você?
A mulher se aproximou.
Sua imagem oscilava como uma sombra projetada pelas chamas.
— Aquela que você jamais deveria esquecer.
Amália conseguiu se levantar.
Quando viu a aparição, soltou um grito de puro terror.
— Helena, saia de perto dela!
Mas era tarde.
A mulher estendeu uma das mãos na direção da jovem.
E pronunciou palavras que transformariam sua vida para sempre.
— Uma vida foi entregue para preservar a sua. Mas a dívida do sangue ainda não foi paga.
A luz do pingente se tornou insuportável.
Helena gritou.
E, muito além das paredes daquela casa, alguma coisa respondeu.
Um uivo atravessou a floresta.
No alto da colina leste, as janelas do casarão dos Valcourt se iluminaram pela primeira vez em décadas.
Enquanto isso, nas profundezas de Santa Bruma, três sinos antigos começaram a tocar, embora ninguém estivesse próximo deles.
A magia havia despertado.
O pacto estava ameaçado.
E, naquela madrugada, todas as criaturas que viviam escondidas na cidade descobriram a mesma coisa.
A última herdeira de Serafina Montenegro estava viva.



