Capitulo 1
A Chegada de Kelson à Cidade de Reino
Rose chegou, acompanhada de seu namorado e primo Kelson Murilo, ao lugar onde morava: a cidade de Reino. A garota mostrou ao primo o colégio onde estudara quando pequena, onde cursara o Jardim. Diante do colégio, encontraram alguns amigos de Rose e ela prontamente apresentou o primo:
— Esse é Kelson Murilo, meu primo e namorado de Natália.
Natália era uma das amigas de Rose e, como não quisesse assumir que Kelson era, na verdade, seu próprio namorado, Rose combinara com a amiga para que ela se fizesse passar por namorada do rapaz.
Do colégio New Moreira, o casal foi para o prédio onde Rose residia, nas imediações de uma praça. Na parte inferior do edifício, entre os pilotis, estava Geórgia, outra amiga de Rose.
Mais uma vez, Rose apresentou Kelson como seu primo, mas como namorado de Natália. Ficaram conversando, Kelson contando suas aventuras na sua cidade natal até que a própria Natália apareceu e confirmou as afirmações de Rose, apresentando-se como namorada de seu primo.
Ficaram os quatro conversando na parte inferior do prédio, ouvindo as peripécias de Kelson, que tinha muito a contar sobre sua vida: suas aventuras de infância; as paixões de adolescente e outras coisas. Geórgia começava a sentir pelo primo de Rose um sentimento muito forte, que entrava em conflito com o amor que nutria por Renan, um bom rapaz que também fazia parte do grupo de amigos.
Além de achar Kelson muito bonito, Geórgia sentia-se cativada pelo jeito como ele falava, muito hábil com as palavras e muito convincente em suas narrativas. Sentiase encantada com o namorado de Natália, ou antes, o suposto namorado de Natália, já que, em verdade, ele era namorado da prima e isso acabaria se revelando em breve...
No entusiasmo da conversa, empolgada pelas piadas e histórias, Rose acabou falando demais e revelou, sem se dar conta disso, que Kelson não era namorado de
Natália. Naturalmente, a revelação produziu certo impacto, já que Geórgia tinha certeza que o rapaz namorava Natália.
Muito tarde, Rose percebeu a burrada que cometera, mas nada mais havia a fazer.
Um clima de tensão acabou tomando conta do pequeno grupo, culminando em uma séria discussão entre Geórgia e Kelson. Eles se afastaram de Natália e Rose e ficaram batendo boca durante um bom tempo. Durante essa briga, Kelson acabou por demonstrar muito interesse em Geórgia, mais do que se esperaria entre duas pessoas que estão discutindo seriamente. Embora se sentisse feliz, pois Geórgia também gostava de Kelson, ela o ameaçou:
— Vou contar tudo pra Rose! Vou contar que você está dando em cima de mim!
Furioso, o rapaz explode:
— Que se foda!
Rose, que devido à intensidade das palavras e aos gestos dos dois, acompanhara e entendera tudo que estava acontecendo entre Kelson Murilo e Geórgia, ficou muito preocupada. Conhecendo bem o namorado, a garota reconheceu perfeitamente que ele nutria alguma atração por Geórgia, visto que ficara tão nervoso quando a mesma o ameaçara, dizendo que contaria tudo para Rose.
Era sempre assim: quando Kelson sentia-se intimidado pela verdade, recorria sempre à raiva como válvula de escape. Se o acusavam de ter contado uma mentira e ele, realmente, estivesse contando uma grande mentira, ficava furioso. Se diziam que ele fizera uma coisa que, apesar de procurar esconder, Kelson realmente fizera, também ficava enraivecido. Quando diziam que ele gostava de alguma garota e ele, realmente, estava gostando dela, ficava com raiva.
Por causa daquela súbita explosão de raiva de Kelson, Rose percebeu que ele estava alimentando alguma paixão por Geórgia. Isso a entristeceu, pois ficou duvidosa quanto ao futuro de seu namoro já que novos amores implicam, geralmente, em novos relacionamentos.
Kelson se reaproximou das garotas, um pouco receoso das reações de Rose e da própria Geórgia.
— Afinal, por que você queria esconder que Kelson era seu namorado? – quis saber Geórgia.
— Não sei... – respondeu Rose – Não queria que soubessem... Não queria que soubessem que eu namorava meu primo...
— E eu acabei ajudando... – completou Natália.
— Que besteira, gente! – replicou Geórgia – Coisa de gente boba! Esconder o namorado, a namorada – pra quê isso?
— Ora, mas qual o problema? – retrucou Kelson – Se a Rose preferia assim, o que é que tem?
— A pergunta é se você gosta mesmo da Rose, não é? – falou Geórgia.
— Claro que gosto! – respondeu firme o rapaz, para admiração da própria Rose.
Furiosos, ele e Géorgia recomeçaram a discussão: uma acusando o outro de dar em cima das garotas da cidade, de ser um “galinha”; o outro acusando a jovem de estar se atirando sobre o namorado da colega, de querer trair Rose apesar de se fazer passar por uma boa amiga.
A pobre Natália não entendia bem o porquê de toda aquela confusão, não achando suficiente que eles estivem brigando tanto somente por causa de uma “mentirinha”... Bem, não era, de fato, só uma “mentirinha”, já que acabava envolvendo outras pessoas – inclusive ela mesma, que participara da farsa.
“No final das contas, não existe nenhuma razão para Rose ocultar que Kelson é seu namorado!”, pensou Natália. “E menos razão ainda há para eu participar de toda essa mentira!”.
Enquanto Natália pensava, Kelson e Geórgia continuavam sua discussão até que, em certo momento, uma partiu para cima do outro. Rose, prontamente, interviu, apartando os dois.
— Que é isso, gente? – pergunta ela, assombrada – Vocês perderam o juízo? Precisam brigar desse jeito? Vão trocar tapas agora?
— Deviam ter vergonha de fazer isso! – falou Natália.
— Duas pessoas grandes agindo que nem criancinhas! – disse Rose.
— Pior que criancinhas! – completou Natália.
— Vocês devem pedir desculpas um ao outro, vamos! – decidiu Rose.
Kelson fez menção de se afastar, mas a prima agarrou seu braço, mantendo-o no mesmo lugar. Geórgia também quis afastar-se, mas Natalia impediu. Assim, os dois permaneceram ali, uma diante do outro, de cabeça baixa, procurando controlar a raiva que sentiam. E acabou dando certo.
Geórgia e Kelson acabaram se desculpando entre si, prometendo que aquilo não aconteceria mais. Apertaram-se as mãos com um sorriso. Rose e Natália ficaram felizes com o resultado de toda aquela confusão. Finalmente, todos poderiam curtir melhor aquele belo dia, sem problemas, nem dores de cabeça.
Rose, de mãos dadas com Kelson, foi à frente do grupinho, andando pelos terrenos do prédio, até que alcançaram uma área interditada para todos os moradores do lugar. Tratava-se de um antigo parquinho, agora completamente desativado.
— Essa área é antiga e ninguém pode entrar aqui! – explicou Rose, apontando o parquinho isolado por uma comprida cerca de metal.
Fascinados pela cena do parque proibido, todos já nem lembravam mais o incidente acontecido momentos atrás. Sentiam-se tentados a romper aquelas barreiras e penetrar no lugar, desvendar seus segredos, desafiando as leis de interdição.
Enquanto caminhavam, encontraram uma parte da cerca que estava completamente deteriorada e apresentava uma grande passagem para dentro do parquinho. Os quatro se olharam e começaram a rir, sabendo o que cada um sentia e os desejos secretos que alimentavam.
Sem dizer uma só palavra, eles passaram pela abertura, penetrando no parquinho.