Daryl estava tremendo. Sabia muito bem o que estava prestes a fazer. Mas não sabia se iria arranjar coragem suficiente para tal ato. Segurar na mão daquela garota e levá-la para a praia com aquele objetivo em mente não parecia tão certo quanto deveria. Ele achava que não seria capaz de lidar com a reação dela, mesmo sem saber qual seria.
De alguma forma, ela estava radiante. Seus cachos loiros voavam para trás mesmo sem ter vento algum batendo contra o seu rosto. Um sorriso enorme estampava-se em seu rosto. Suas covinhas estavam mais visíveis do que o normal, talvez pela luz do sol batendo na sua face. Samie parecia mais viva do que o normal, sem dar-se conta do que estava prestes a lhe ocorrer.
Continuaram caminhando, normalmente, com os dedos entrelaçados forte, dando cada passo com uma harmonia inacreditável. Cada um que os visse imaginaria que eram perfeitos um para o outro. Talvez fossem.
Não foram capazes de falar nada. O ar ao seu redor estava quente e confortável de certa forma, menos para Daryl. Seu coração estava batendo rápido. Seria a primeira vez que acabaria com um relacionamento; eram sempre as outras que lhes davam o fora.
No começo, ele sentia tantas coisas por Samie que não conseguia descrever nem mesmo um terço de tudo. Na época, ela parecia ser a garota perfeita, a que esperava havia tanto tempo, a que poderia mostrá-lo coisas novas. Estava tão apaixonado que podia ver o futuro dos dois unidos, em uma pequena casa azul bagunçada com um garoto de cabelos loiros correndo para todos os cantos. Sim, ele imaginava-se casando com ela, tendo dois filhos, comprando uma casa, construindo a vida inteira lado a lado.
Mas ali, naquele instante, tudo parecia muito vago. Como se eles estivessem distantes um do outro, como se nunca houvesse existido algo de diferente entre os dois. A mão dela não parecia mais se encaixar na dele, os corações dos dois pareciam não poder mais bater juntos com uma melodia. Como se só estivessem juntos para não estarem mais sozinhos, como se seus beijos tivessem perdido a vida e tornado-se mecânicos, como se seus abraços não possuíssem mais uma chama. Daryl sentia que os dois estavam se perdendo muito fácil, se soltando. Sentia que os laços unidos estivessem sendo rasgados com facilidade e rapidez demais para atarem novamente.
Estavam em uma praça à luz do pôr-do-sol. Depois de andarem bastante, sentaram-se em frente a um lago azul com peixes visíveis. Samie mergulhou os pés na água e deitou-se no ombro de Daryl, aconchegando-se ali. Ela pôde ouvir as batidas do coração dele de alguma forma e sentiu a respiração dele sobre sua cabeça. Via na água o reflexo trêmulo dos dois; ela, com uma onda loira caindo sobre o peito dele; ele, mexendo no cabelo castanho com uma expressão cabisbaixa.
- Samie... – sussurrou.
Pelo seu tom de voz, a garota percebeu que alguma coisa estava errada. Saiu de cima dele e puxou seus pés molhados para junto de si.
- Alguma coisa aconteceu, Daryl?
- Eu...
Ele hesitou para respirar fundo. Ergueu o braço e jogou um fio do cabelo dela para trás da orelha. Acariciou a sua bochecha e então abaixou a cabeça devagar, para aspirar um pouco mais de ar.
- Daryl, o que foi? Você tá me preocupando.
A expressão dela era de preocupação, com os olhos arregalados. Aproximou a face da dele, prestes a arrancar-lhe um beijo, mas o garoto não permitiu e a afastou.
- Você não percebeu, Samie? O tempo tem passado, e já não somos mais os mesmos. O que éramos antes já não somos mais, o que víamos antes já não podemos mais ver. Estamos ficando frios, automáticos. Estamos perdendo a paixão.
No fundo, ele esperava que a garota começasse a chorar naquela hora ao perceber suas intenções. Mas ela simplesmente suspirou e mexeu no cabelo. Ela falou:
- Você tem medo.
- Quem tem medo é você.
Samie respirou fundo e olhou nos olhos de Daryl.
Não aproximou-se mais. Não deu indício algum de que ia chorar. Não demonstrou fraqueza. Nem mesmo desviou o olhar. Ficou encarando-o, fazendo-o sentir-se envergonhado e sem palavras. Daryl não sabia mais o que falar, não tinha mais motivos para que eles terminassem naquele momento. Mas permaneceu firme, como se realmente desejasse aquele final.
- Daryl, se eu tivesse medo mesmo, não estaria aqui. Se eu realmente tivesse medo, já teria desistido há muito tempo. Não foi ontem que tudo isso começou a acontecer. Venho percebido sim, mas acho que podemos continuar. Claro que já pareceu mais forte e belo, mas aquilo ainda era paixão. Não sei se você notou, mas estamos amadurecendo.
Amadurecendo.
Essa palavra ecoou na mente dele.
Daryl estava se perdendo das suas razões. A lógica estava morrendo. Aquilo voltava a ser sentimental. Já não lembrava mais da outra garota ruiva com quem conversava todas as noites antes de dormir, que o fazia esquecer do seu verdadeiro amor por alguns minutos apenas. Naquele instante, ela já não parecia mais tudo o que acreditava ser.
- Samie, eu...
- Não, Daryl. Você tá com medo. Com medo de não sabermos mais continuar. Com medo dos planos que havíamos feito não darem mais certo. Relaxa, okay?
Ele lembrou-se de quando se conheceram. E ela tantas coisas lhe havia dito, o fazendo pensar e entender cada uma de suas palavras. Da maneira tão especial que ela resolvera começar a tratá-lo antes mesmo de começarem a namorar. De todos os sonhos que vinha tendo para os dois, mesmo que ele achasse que estivesse ali simplesmente por não saber onde mais poderia estar.
E de como os dois estavam tão sozinhos e solitários que começaram a apegar-se. E então perceberam que poderiam tentar alguma coisa juntos, e deu tão certo que não imaginavam nenhum final.
Lembrou-se do começo, quando ela mostrava os sonhos mais impossíveis e desejáveis para eles no fundo, em que Daryl dizia para que não se preocupasse porque ainda era cedo.
Não era mais cedo. Parecia já ser tarde demais. Estavam se perdendo.
Ela continuou:
- Mas, se você quiser mesmo terminar, está tudo bem. Só te peço para não me deixar aqui sozinha. Poderia pelo menos me ajudar a desembarcar dessa viagem que nos metemos. Achei que ela fosse nos levar a algum lugar, mas parece que só nos fez andar um pouco pelo ar, né? Contudo, isso só vai acontecer se você realmente quiser desistir. Acho que seria muito mais divertido se tentássemos permanecer aqui juntos. Não quero terminar o que você não começou, mas estaria disposta a isso. Mesmo que você queira sair, eu insisto que continue. Mas olha, só se realmente quiser. Seria chato ficar aqui sozinha, carregando esse fardo sobre nós dois. Não pense que vou tentar ir mais além do que seria capaz, porque não sou.
- Samie, eu...
Daryl já não sabia mais o que fazer. Samie, mesmo começando a ficar para baixo, ainda estava linda. Não apenas linda, parecia perfeita. E isso já era demais.
Ela lhe apagava qualquer preocupação. Ela era a garota mais sonhadora que ele já conhecera, e lhe seria eternamente grato por isso. Percebeu que não deveria jogá-la fora desse jeito.
- Você disse que estamos amadurecendo? – ele perguntou.
- Sim. Todos os relacionamentos têm fases. Não estamos mais no começo. As coisas estão ficando bem mais complicadas para nós, mas isso significa que tudo o que sonhávamos podem se tornar realidade. Não é mais uma paixão, Daryl. Eu te amo.
Essa frase o tocou de um jeito que nada nunca lhe havia tocado antes. Ele percebeu que não era aquela a hora, que podiam continuar pelo menos um pouco mais. Não era o momento do avião desembarcar.
Daryl também amava Samie. De um jeito que nunca havia amado ninguém antes, e nunca amará outra pessoa. A ruiva já não existia mais. Ele só tinha olhos para Samie, e mais nenhuma outra existia.
Ele disse, como sempre dizia:
- Ainda é cedo.
E a beijou.

