Tic-tac, tic-tac, tic-tac...

Apenas ouvia o som do relógio. Não conseguia prestar atenção em mais nada. Talvez eu tenha ficado ali sentado durante uma hora. No quarto, preso apenas com meus pensamentos. Não eram muito bons para falar a verdade.

Só despertei quando ouvi barulhos vindos do jardim. Ele havia chegado. Olhei para o relógio que marcava onze e meia em ponto. Droga, ele era pontual. Já perdi um motivo para odiá-lo.

Me levantei da poltrona e fui até a janela. Hermione estava dando gargalhadas de algo que ele havia falado. Ótimo, ele havia ganhado a confiança da minha esposa. Uma pessoa a menos para ficar ao meu lado caso eu decidisse estrangulá-lo.

Saí da janela e pude ouvir claramente minha mãe dizendo: “Parece ser um ótimo garoto.”. Mas é claro que parece, é isso que ele tem que fazer, não é? Afinal seria a primeira vez que ele estava sendo apresentado oficialmente à família. E esse era definitivamente o dia que eu nunca esperei chegar.

**************

- Rony, não leia jornal durante o jantar. – Hermione chamou minha atenção. Coloquei o jornal de lado e me concentrei na mesa. Hugo como sempre estava brincando com a comida. Nem parecia que o garoto tinha quatorze anos, mas Hermione sempre diz que ele se parecia comigo. Rose estava inquieta. Logo ela que sempre estava falando pelos cotovelos.

- Algo errado? — Perguntei a ela.

- Não, por que teria? — Ela respondeu um pouco assustada.

- Não sei, você está quieta. — Respondi desconfiado.

- Não, não tem nada. Só não estou a fim de conversar hoje.

- É um milagre. — Hugo murmurou.

- Hugo. Deixe sua irmã em paz.

- Não sei não, pai. Só pode ser um milagre. Rose quieta no jantar?

- Talvez ela não queira conversar, apenas isso. — Hermione disse sentando-se à mesa.

- É exatamente por isso. Não quero conversar.

Ergui as sobrancelhas mas não toquei mais no assunto. Eu nunca entendi as mulheres, mesmo tendo tantos anos de casado com Hermione. E não seria agora que eu gostaria de entender.

Jantamos normalmente, como todas as noites. Tudo estava como de costume, exceto o silêncio de Rose, que bastante me incomodava.

- Tem certeza que não tem nada? — Perguntei enquanto ajudava Hermione a arrumar a mesa.

- Tenho. — Ela respondeu rapidamente, sem olhar para mim.

Eu a conhecia tempo suficiente para saber que estava me escondendo algo.

- Hermione...

- Rony, está tudo ok. É coisa de mulher, você não vai querer saber.

- Bom, tratando-se da minha filha, eu quero saber sim.

- Mas não precisa saber. É conversa de mulheres.

- E desde quando vocês tem que ter segredos comigo? — Perguntei impaciente.

Hermione sabia que uma discussão comigo nunca valia a pena, mas ela também sabia o que me deixava nervoso e irritado, e esconder as coisas de mim era um ótimo motivo para isso.

- Ok, mas você tem que prometer que não vai ficar nervoso, e muito menos sair gritando com ela.

- Assim você já está me deixando nervoso.

Ela olhou para a sala, onde Rose e Hugo assistiam televisão.

- Certo... Bom, Rose já tem 16 anos, e logo mais fará 17...

- Resume, Hermione.

- Bem, ela já é uma moça... E já está na idade para... Bem... Você sabe...

- Não, eu não sei.

- Rose está namorando.

...

...

...

...

...

Foi exatamente assim que ficou minha mente. Parada. Esperando Hermione dizer que estava brincando e que tudo não passava de uma simples TPM. Afinal, não interessava se Rose tinha dezesseis anos, ela era minha garotinha. Minha princesinha. Minha menininha frágil, que eu prometi que ninguém faria mal. Eu não estava preparado para uma notícia dessas. É claro que eu sabia que esse dia ia chegar, mas... Eu não sabia que chegaria tão rápido!

Não pude ter outra reação a não ser ir direto para a sala, a passos firmes, como se eu fosse quebrar tudo o que visse pela frente. Como se eu fosse pegar Rose pelo braço e chacoalhá-la até ela dizer que aquilo era mentira, e que ela não precisava de nenhuma droga de namorado.

- Rony! — Hermione veio atrás, esperando que eu fosse explodir a qualquer momento.

Nunca fui nervoso com nenhum dos meus filhos, muito menos com Hermione. Nunca gritei com nenhum deles, nem ao menos levantei a voz. Mas todos eles sabiam que pior seria se eu guardasse tudo para mim, e depois descontasse de algum motivo. Seja fazendo silêncio absoluto, seja dando castigos, ou seja tratando todos com frieza.

- O que foi pai? — Rose perguntou tensa. Quando dei por mim, notei que estava parado em frente a televisão, respirando ofegante parecendo que saía fumaça pelo meu nariz.

Hermione esperou que pela primeira vez eu fosse gritar com Rose. E minha vontade era essa:

- VOCÊ ESTÁ MALUCA? UM NAMORADO? VOCÊ AO MENOS CONHECE ESSE GAROTO TEMPO SUFICIENTE PARA NAMORÁ-LO? VOCÊ CONHECE A FAMÍLIA DELE? VOCÊ SABE SE ELE É UMA BOA PESSOA? VOCÊ NÃO TEM JUÍZO! ONDE FOI QUE ERREI? DURANTE TODA A SUA VIDA ENSINEI QUE VOCÊ NÃO DEVIA CONFIAR EM QUALQUER PESSOA! AGORA ME DIZ, QUAL É O SEU PROBLEMA?

- Pai? — Rose se levantou. — O que foi que aconteceu?

Continuei parado em frente a televisão. Nenhuma palavra saiu da minha boca. Não gritei muito menos reclamei. Por incrível que pareça as palavras que saíram da minha boca foram:

- Quero que ele venha almoçar aqui amanhã.

- Mãe! — Ela exclamou olhando para Hermione.

- Desculpe, filha. Não acho justo esconder isso do seu pai.

- Mas você prometeu! Ah meu Deus! Pai, por favor... Não me mate. E não mate ele.

- Rony, deixe para conversar sobre isso depois e...

- Vocês acham que eu sou o que? — Perguntei irritado. — Ninguém vai morrer nessa casa. Não até eu conhecê-lo.

Os três se entreolharam, e até Hugo que estava praticamente dormindo no sofá se levantou.

- Você... Quer conhecer ele? — Rose perguntou.

- Quero. Amanhã.

- No almoço de família?

- E tem outro dia para isso? Quero que a família inteira o conheça. Coloquei regras nessa casa, e você já perdeu pontos comigo em me esconder isso.

- Mas pai...

- Ia me esconder até quando? Até ele te pedir em casamento e você chegar dizendo que ia se mudar?

- Casamento? Pai o que você...?

- Você precisa da minha aprovação! Eu e sua mãe fomos criados assim e você também será.

Ela apenas respirou fundo e balançou a cabeça concordando.

- Agora vão dormir, está tarde.

Rose abaixou a cabeça e murmurou um "Boa Noite". Hugo fez o mesmo e subiu as escadas atrás dela. Hermione colocou as mãos na cintura com olhar de desaprovação e voltou para a cozinha. Respirei fundo e a segui.

- Por que está com essa cara?

- Você a deixou assustada.

- Não importa. O que ela fez foi errado. Não deveria me esconder nada.

- Ela estava com medo de que sua reação fosse exatamente essa.

- Talvez não seria se ela tivesse me contado antes.

- Ah por favor Ronald. Todos nós conhecemos seu jeito. Você é impaciente, e parece uma bomba relógio prestes a explodir. Ao menos você não começou a gritar dizendo que ela não tinha juízo.

Nesse momento, percebi que a melhor coisa a se fazer em momentos de raiva é pensar cinco vezes antes de fazer algo.

- Eu não estou preparado para isso.

- Isso o que?

- Com Rose namorando... Quero dizer... Hugo tudo bem, ele é homem. Logo vai ter uma namorada também... Mas Rose... É... É diferente.

Hermione sorriu e se aproximou de mim.

- Você sabia que esse dia chegaria. Rose não vai ser sua princesinha para sempre. Ela cresceu.

- Não gosto de pensar nisso. Logo ela vai estar casando, nos deixando, e nos dando netos.

- Pelo amor de Deus Rony, ela só tem dezesseis anos. — Ela riu e me abraçou. — Se você não fosse tão assustador quando tem ciúmes, seria fofo.

- Eu não sou assustador. Não vou sair que nem louco gritando pela casa e quebrando as coisas.

- Eu sei que não. — Ela sorriu. — É por isso que eu te amo.

- Não sei como consegue fazer isso.

- O que?

- Me acalmar em tão pouco tempo. — Eu sorri e a abracei pela cintura.

- É um dom. — Ela me beijou rapidamente. — E não fique tão tenso... Lembre-se de quando você foi se apresentar aos meus pais.

Definitivamente aquele tinha sido o dia mais tenso de toda a minha vida, e uma pontada de felicidade cresceu em mim. Se o garoto ficasse tão tenso quanto eu fiquei, aquilo seria bem divertido.

**********

- Rony. — Hermione abriu a porta. — Ele está la em baixo.

Respirei fundo e andei até ela.

- Amor... — Ela parou em minha frente. — Haja naturalmente, por favor. Não seja tão frio e rigoroso com ele. Ele parece ser uma ótima pessoa.

- Vocês mulheres acham que qualquer um parece ser uma ótima pessoa. Nós veremos se ele é realmente assim.

- Rony...

- Está bem, Hermione. Vou agir naturalmente, está bem?

- Obrigada. E por favor, faça isso por Rose.

Balancei a cabeça afirmando, e nós dois saímos do quarto. Hermione desceu a escada na minha frente, e eu desci logo atrás. Olhei para a sala e lá estava ele, sentado ao lado de Rose, rindo de algo que meu pai falava. Ele parecia bem acomodado na minha casa, não parecia nem um pouco nervoso. Talvez não estava sentindo nem a metade do nervosismo que senti. Rose olhou para mim e se levantou, e logo depois, ele também. Os dois entrelaçaram as mãos e ele sorriu para ela. Meu estômago deu um nó, e senti minhas veias pulsarem. Parei na sala e todos ficaram em silêncio, esperando que eu dissesse algo. Hermione parou do meu lado e colocou a mão no meu ombro, como se me incentivasse.

- Então... — Eu não sabia o que dizer.

- Ah... Muito prazer Senhor Weasley. Meu nome é Erick Sanderson. — Ele disse sorridente. Qual era o problema com a boca daquele menino? Ele só sabia sorrir?

- O prazer é meu. — Respondi sério.

O clima ficou realmente pesado. Harry chegou naquele momento com Gina, para minha sorte eu não precisaria ficar sozinho com o garoto. Gina como sempre chegou falando, acabando com o silêncio perturbador que ficou na sala.

- Então... O que acham de irmos para a cozinha ajudar Hermione com o almoço? — Minha mãe sugeriu olhando para Rose.

- Ótima ideia vovó. — Rose sorriu. — Pai, porque não mostra seus troféus para o Rick?

Rick? Já estavam se chamando por apelidos?

- Claro. — Forcei um sorriso e olhei para Harry.

- Ah, eu vou com vocês. — Harry disse.

As mulheres foram para a cozinha, e nós três ficamos na sala.

- Então... Erick. Você gosta de futebol? — Perguntei indo em direção à prateleira.

- Na verdade, eu prefiro basquete...

Parei de andar e olhei para ele.

- Que também é um ótimo esporte. — Harry disse rapidamente. — Rony foi campeão quatro anos seguidos na época do colégio. É um grande fã de futebol. — Ele enfatizou a última parte.

- Ah... Mas eu também acho futebol fascinante. — Ele disse com a voz trêmula.

Fascinante? Desde quando futebol é fascinante? Que tipo de garoto era aquele?

- Acho melhor não mostrar os troféus, então. — Eu disse me virando. — Então você gosta de basquete...

- Sim Senhor.

- E costuma jogar muito?

- Todos os finais de semana. Gostaria que o Senhor acompanhasse eu e meu pai qualquer dia desses...

- Não sou muito fã de basquete. — Respondi rapidamente. — Não gosto de pegar em bolas e essas coisas.

- Erick, acho que você gostaria de jogar um pouco de futebol com os garotos lá fora, não? — Harry rapidamente mudou de assunto.

- Bom, não sou muito bom em futebol, mas posso jogar sim.

- Ótimo... Pode ir para o jardim que eu e Rony já vamos.

Ele sorriu (como sempre) e saiu indo em direção ao jardim.

- É melhor você pegar leve... Se fosse Hermione aqui... — Harry disse.

- Algo nele não me agrada. Eu não sei o que. — Respondi olhando para o jardim, onde ele se enturmava com os outros.

- Talvez o fato de que ele seja completamente normal, e um ótimo namorado para Rose.

- Ninguém vai ser um ótimo namorado para Rose.

- Como padrinho dela, eu acho que ele é sim um ótimo namorado, e ela está muito feliz com ele.

- Você viu só o que ele joga? Basquete, Harry! Basquete! E eu espero que ele não saiba colocar a bola na cesta porque eu juro por Deus Harry...

- Oi! — Hermione apareceu na sala. — Como estão indo? Onde está o Erick?

- Está lá fora se preparando para o futebol. — Harry respondeu.

- Ótimo Ron! Você já o chamou para jogar? — Ela perguntou animada.

- Não fique animada assim, foi ideia do Harry.

Ela parou de sorrir e me encarou.

- Ronald, você não o assustou, não é?

- Por incrível que pareça não. — Harry respondeu rindo. — Ele está indo bem Mione... Só tem que entender que o garoto não é uma má pessoa.

- Eu já disse isso para ele Harry, mas desde quando esse cabeça oca entende alguma coisa? — Ela respondeu nervosa.

- Hey! Estou dando o meu melhor ok? Já fiz demais chamando ele para vir almoçar aqui na minha casa. Não me peça para tratá-lo como um príncipe também.

- Trate ele do jeito que ele merece ser tratado, Ronald Weasley. E é bom que deixe esse mal humor e essa grosseria de lado, antes que Rose fique com raiva de você e pare de contar qualquer coisa para nós! Quer que nossa filha faça as coisas escondidas? Acho que não. Então melhore essa cara fechada sua e vá até lá jogar um futebol civilizado com ele, antes que EU me canse das suas atitudes! — Ela bufou e voltou para a cozinha.

Hermione brava era uma coisa assustadora, e eu não gostaria que sobrasse para mim. O jeito foi fazer o que ela mandou e ir jogar futebol com o garoto. Como se não bastasse esse enorme sacrifício, Hermione insistiu para que ele fosse do meu time. Eu sabia que ela estava me provocando, e principalmente me testando, mas eu não iria ser o vilão daquela história. Jogamos um futebol civilizado, e não é que o filho da mãe sabia jogar futebol? Fez dois gols para o nosso time, e saímos vencedores. O que eu poderia dizer? Talvez Harry tivesse razão, talvez eu estivesse procurando defeitos que ele não tinha.

**************

Na hora do almoço, como sempre a mesa estava cheia. Erick não parecia se incomodar com isso, e participava da conversa tão animado quanto todos os outros. Eu não disse uma palavra. Apenas notava os olhares que os dois trocavam, e as mãos dadas quando um falava algo engraçado. Qual era a necessidade de se tocarem toda hora?

- Rony. — Hermione cochichou ao meu lado.

- Hum?

- É melhor você comer e parar de olhar para ele, antes que pensem que você está querendo matá-lo.

- Então acho que vou ter que devolver a faca que peguei hoje de manhã.

Ela me olhou assustada.

- Brincadeira, Hermione.

- Você está indo bem... Continue assim e no fim é só aprová-lo.

- Eu ainda não fiz o meu questionário.

- Rony, por favor...

- Preciso saber tudo dele antes que eu aprove. Não posso aprovar uma pessoa que não sei se é certo para minha filha.

Hermione virou os olhos e voltou a comer. Eu não consegui tocar na comida em nenhum momento, e aquilo era uma coisa rara. Durante o almoço eu apenas concordava com o que as pessoas me perguntavam, e ria forçadamente quando alguém dizia algo engraçado. Eu não estava nem um pouco no clima de almoço em família. Logo eu que era tão extrovertido e brincalhão durante o almoço. Com certeza Rose notou, por que a todo momento ela olhava para mim com a cara assustada.

***************************

A tarde demorou passar. Todos mimavam Erick como se ele fosse um novo membro da família, que chegou para a felicidade geral da nação. Até Harry, que era meu único aliado ali, estava passando para o time rival.

Demorou um pouco para que todos fossem embora, e eu tive que aguentar Harry dizendo que eu poderia ser preso se fizesse algo, e Gina me dizendo que nunca tinha me visto tão calado em mais de vinte anos.

Depois que todos foram embora, ajudei Hermione com a cozinha. Quando terminamos fomos até a sala, e os dois estavam abraçados conversando. Parei na porta e os dois se separaram, olhando envergonhados.

- O que achou da nossa família, Erick?

- Maravilhosa, Senhor. O Senhor tem muita sorte.

- É, eu tenho sim. — Sentei na poltrona ao lado do sofá e olhei para os dois.

- Então Erick, como se conheceram?

Os dois se olharam tensos.

- Bem... Nós somos da mesma escola. Temos amigos em comum. Um dia todos fomos em uma festa e eu... bem... Me apaixonei por Rose.

- Apaixonou? Não acha que está muito rápido para isso?

- Com todo o respeito, Senhor, não acho que três meses seja tão rápido.

- Três meses? — Perguntei assustado.

Rose olhou para Hermione como se pedisse ajuda.

- Rony... Você não acha que eles iam começar a namorar assim de uma hora para outra não é?

- Não, claro que não. Então, acha que em três meses você conseguiu conhecer Rose o suficiente para saber que quer ficar realmente com ela?

- Claro que sim. Cada dia que passa Rose me encanta ainda mais.

- E você acha que pode fazê-la feliz?

- Pai!

- Claro que sim, Senhor. Farei o possível.

- O possível? Então se você tivesse que passar fome para alimentá-la, você faria?

- Sim Senhor.

- Se tivesse que abrir mão de tudo que você mais gosta só para ficar com ela, você faria?

- Com certeza.

- E você respeita a zona proibida?

- PAI! — Rose exclamou colocando a mão no rosto.

- Senhor, não se preocupe. Tive uma ótima criação, e meus pais são como vocês, me ensinaram acima de tudo a respeitar as mulheres.

- Assim espero. É difícil confiar em um jogador de basquete.

- Senhor?

- Nada. Deixa pra lá. — Hermione disse. — Acho que já chega de perguntas por hoje, não é Rony? — Ela olhou para mim. — Temos muito tempo para fazer isso.

- Claro... — Eu disse.

- Agora vamos até a cozinha me ajudar com as vasilhas e deixar os dois sozinhos.

Me levantei ainda encarando os dois e fui para a cozinha. Hermione jogou o pano de prato em cima da mesa e cruzou os braços me olhando.

- Que-idéia-foi-essa? — Ela cochichava nervosa.

- Precisava fazer essas perguntas, Hermione.

- Ah é? E o que acha que ele vai pensar agora? Vai ter medo de se aproximar dela por sua causa!

- Não acho que ele vá pensar assim. Se ele quiser ficar com ela vai ter que gostar de mim também, é a lei.

- Que lei? Uma lei estúpida que você criou? Francamente, Ronald, eu espero que você não tenha assustado o garoto. Rose nunca mais vai nos perdoar e...

- Eu acho que ele é um bom rapaz.

Hermione parou de falar e me olhou assustada.

- O que?

- Sei reconhecer quando as pessoas mentem ou estão com segundas intenções. Acredite, já passei muito por isso na minha adolescência. Por mais que eu quisesse achar um defeito nele ou um modo de expulsá-lo daqui a pontapés, eu sei reconhecer quando uma causa está perdida.

Ela abriu um lindo sorriso para mim e então pulou em meu pescoço, me abraçando. Eu não sabia o que tinha feito exatamente para a raiva dela passar tão rápido e ela me abraçar daquele jeito, mas não importava... Pela primeira vez naquele dia eu estava me sentindo leve.

- Estou tão feliz, amor! — Ela exclamou animada. — Rose vai adorar!

- Não quero dizer isso na frente dele... Sabe...

- Sim, é claro! Você pode dizer a ela quando ele for embora. Ah Ron... Estou tão orgulhosa!

Novamente ela me abraçou. Infelizmente eu ainda não podia compartilhar da mesma felicidade que ela, já que mesmo aceitando aquele garoto em minha casa, eu preferia que Rose continuasse solteira até os seus quarenta anos, ou mais.

********

Deitei em minha cama e foi como se um caminhão tivesse passado por cima de mim. Percebi que meu corpo estava pesado o dia inteiro, e só quando coloquei a cabeça no travesseiro pude sentir o alívio percorrer. Hermione sentou-se ao meu lado e me olhava sorrindo.

- O que foi? — Perguntei olhando para ela.

- Viu a felicidade que ela ficou quando contou a ela?

- Sim, eu vi.

- Fico tão satisfeita em ver os dois felizes! Depois de tanto tempo com medo do que você ia falar, ela finalmente está aliviada.

- É...

- O que foi?

- Nada. — Me virei para ela. — Acha que isso vai durar?

- Eu espero que sim.

- Namoros de escola não costumam durar...

Ela cruzou os braços me olhando.

- Claro que tem exceções...

- Acho bom. Dezoito anos de casados, dois anos e meio de namoro e...

- E nós continuamos juntos. — Puxei ela pra perto de mim e ela riu. — Odeio quando você faz com que eu admita que estou errado.

- Você sabe que eu sempre estarei certa e você errado. Bom... Na maioria das vezes. — Ela sorriu.

- Quem mandou eu me apaixonar por uma sabe tudo. — Eu a beijei.

Percebi que talvez eu estivesse me preocupando demais com isso. O pai de Hermione provavelmente passou pelas mesmas coisas que eu estou passando agora. Ele também não havia deixado barato para mim, sempre me fazendo perguntas sobre o futuro que eu pretendia ter com Hermione, e sobre como eu sustentaria uma família. E nisso eu tinha apenas dezessete anos. Aos poucos Henry e eu fomos aprendendo a conviver um com o outro, e hoje em dia nos damos muito bem. Nos fins de semana jogamos futebol juntos, e nos jantares de família passamos horas conversando. Talvez com Erick pudesse ser assim... Talvez em alguns anos nós lembraríamos desse momento e íamos rir juntos.

- Vai dormir melhor hoje? — Ela sorriu maliciosa.

- Hum... Talvez. Pode me ajudar com isso?

- Acho que você merece. — Ela sorriu e apagou o abajur, me puxando para mais perto.

*********

E lá estavam os dois, abraçados no jardim conversando com os outros. Erick tinha se dado bem com toda a família, e havia conquistado o carinho de todas as mulheres. Minha mãe não parava de bajulá-lo com comida, Gina não parava de dizer o quanto ele era bonito e charmoso, e Hermione estava sempre elogiando o modo como ele tratava Rose. Eu não podia negar, ele a tratava com muito respeito. E não era para menos. Eu e Harry sempre tratamos Gina e Hermione com todo o respeito, e com meus irmãos não foi diferente. Sempre soubemos a hora certa de ter certas atitudes e...

- Ron... Meus pais estão lá em baixo. — Hermione disse ajeitando a alça de sua blusa.

- Ah...

- Mas... Podemos aproveitar um pouco, se você quiser. — Ela sorriu maliciosa.

- Não sei... Agora que você me lembrou dos seus pais eu perdi a excitação, Hermione.

- Ah qual é Ron, até parece que nunca fizemos isso antes.

- Mas me sinto mal em pensar que estou decepcionando seu pai. Ele me fez prometer que ia te respeitar.

- Você não está me desrespeitando... Já fizemos isso.

- Mas não assim...

- Está bem. Vamos pensar assim, então... Nós não somos mais virgens, e já fizemos isso várias vezes aqui quando meus pais não estavam... Por que não finge que eles não estão?

- Não é fácil assim, Hermione. Não vou me concentrar! — Disse indignado. — Sempre vou pensar em seu pai na minha frente dizendo: “Eu confiei em você, Ronald Weasley!”

Hermione deu uma gargalhada e então colocou as pernas em meu colo.

- Você é um bobo!

- Desculpe... É que... Você sabe...

- Eu sei... Fico feliz por você pensar assim.

- Mesmo?

- Claro. Quer dizer que você respeita o meu pai, e isso é importante para mim.

- É... Mas isso não quer dizer que não podemos fazer quando eles não tiverem aqui... — Sorri para ela.

- Hum... Que tal amanhã as três?

- Perfeito!

Um nó se formou em meu estômago. Eu respeitava o pai de Hermione, mas não cumpri a promessa que fiz a ele. Hermione perdeu sua virgindade comigo, e antes do nosso casamento! Como eu poderia confiar que Erick não faria o mesmo com Rose? A minha Rose!

- Hey! — Harry bateu em meu ombro e eu me assustei. — Calma aí! O que foi? Que cara é essa?

- Harry... Lembra quando você me contou que você e Gina fizeram... É... Você sabe... E eu quis te matar durante um mês?

- E como vou me esquecer? Tive que parar de ir na sua casa por um bom tempo...

- E o que foi que eu te disse quando pedi desculpas?

- Disse que foi errado da sua parte ficar daquele jeito, já que você e Hermione tinham feito o mesmo.

- E o que foi que você me disse sobre o meu pai?

- Falei que seria mais fácil dizer isso a ele do que a você. Seu pai não tentaria me matar... Pelo menos eu acho. Mas por que está me perguntando isso?

- Acho que estou prestes a cometer um homicídio!

- O que quer dizer com isso? — Ele perguntou assustado. — Está falando do...?

- E se ele estiver fazendo como nós dois fizemos? E se estiver conquistando a minha confiança, mas pelas minhas costas ele não irá cumprir o que prometeu? E se ele ultrapassar a zona de perigo, Harry?

- Zona de perigo? Mas que ideia é essa Rony? Percebe que está ficando louco?

- Eu não consigo pensar na possibilidade dele fazer isso com Rose. Harry, acho que estou tendo um ataque cardíaco!

- Não está tendo nada, Rony! Senta aí! — Ele me empurro para a cadeira e eu me sentei. — Você precisa se acalmar... Está comparando coisas que não tem nada a ver! Veja bem... Nós tínhamos dezessete anos quando fizemos isso. Já sabíamos exatamente o que queríamos, e tínhamos certeza de que passaríamos o resto da vida com elas. Você mesmo me disse que só fez isso porque tinha certeza de que queria se casar com Hermione, do contrário você não teria tido coragem de passar por cima da palavra do pai dela.

- É... Eu disse...

- Hoje os dois já sabem que... Elas não são mais... É... Você sabe. E isso é óbvio! Mas você acha que eles ficaram surtando por aí imaginando quando isso tinha acontecido? Claro que não! Eles não ligam! Hoje elas estão casadas e constituindo uma família. Você já viu seu pai tão feliz?

Olhamos para o jardim e ele abraçava minha mãe, enquanto ria de alguma coisa que Fred e Jorge contavam. Realmente, meu pai estava muito feliz. Adorava passar os fins de semana com a família reunida, e amava todos os seus netos. Com certeza ele não ficava perdendo o seu tempo se perguntando quando Harry desvirtuou Gina. E o pai de Hermione não devia ser diferente.

- Tem razão... Estou perdendo o juízo.

- Que bom que percebeu.

- Acho melhor parar de pensar essas coisas antes que eu estrague tudo.

- É melhor mesmo...

Me levantei e bati no ombro dele.

- Você está com essa calma toda porque ainda não chegou a vez de Lily. — Sorri satisfeito e saí de perto dele, deixando-o completamente paralisado.

Fui até o jardim e abracei Hermione. Ela estava feliz e satisfeita, como sempre ficava nos encontros de família.

- Olha como os dois são lindos juntos. — Ela sorriu olhando para Rose e Erick.

- É...

- Você realmente gosta dele, não é?

- Ainda não descobri um defeito nele. — Respondi divertido e ela riu. — Mas estou satisfeito por ela estar feliz.

- Eu também.

Ficamos abraçados olhando para os dois. Até que faziam realmente um casal bonito.

- Com toda essa dificuldade... Vamos ter que te preparar bem para daqui uns anos.

- Como assim?

- Quando eles se casarem e nos derem netos!

- O QUE? ROSEEEEE!

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