Quando ouvi o teu nome naquele corredor da escola, logo de cara já sabia que ia te amar. De início podia estar meio incerta, um pouco insegura e talvez ansiosa, mas uma coisa era certa: eu amaria essa garota com todo o meu coração.
E não foi isso mesmo o que aconteceu? Eu me apaixonei por ti, moça. Em silêncio, com as mãos nervosas escondidas nos bolsos para controlar a vontade de segurar as tuas e a cabeça abaixada para não me distrair nas constelações que tinham nos teus olhos. Digamos que te amar nunca foi fácil, e duvido que algum dia chegue a ser, então fiquei na minha, tentando ignorar os cenários em que eu beijava a tua boca e usava o teu casaco que era duas vezes maior que eu.
Mas olha só, eu continuei te amando. Acho que o tempo foi meu acalmando. O coração já não batia mais tão rápido, eu já não queria chorar de noite pensando em como você é linda e a respiração já não era tão acelerada. Não significa que eu tenha passado a te amar menos, devo ter apenas aprendido a me acostumar a te ouvir falando o meu nome. Tu já era rotina, diária, bem presente na minha vida, e o desespero já não era mais necessário. Você sempre me escutava tagarelando sobre nilismo e existencialidade enquanto eu te ouvia falar sobre motoristas estressados que buzinavam alto demais e mapas astrais na calçada daquele café em frente à tua casa. Era bom, não o suficiente, mas bom. Eu continuava te amando, do meu jeitinho meio desesperançoso e pessimista, tentando sempre me enquadrar na nossa realidade mesmo que rodeada por círculos.
Teve um tempinho que tu sumistes e eu fiquei carente, então tentei me transformar numa esfera para tornar as coisas mas fáceis. Não te culpo por isso, também não me fez deixar de te amar, você passou por uns problemas ruins com a família e não tinha muito que eu podia fazer no meu mundinho cheio de colisões. Enfim, nesse meio tempo conheci um cara num bar escuro ao lado da faculdade, mas não foi a mesma coisa, sabe? Ele tinha um casaco grande demais, olhos muito acima dos meus, mãos imensas e um sorriso alcançável e fácil demais. Não tinha o mesmo mistério que tu tinhas, e ele parecia entediado sempre que eu citava alguma coisa de Nietzsche. Ele parecia querer passar tempo comigo só quando eu estava quieta, então acabei pegando a mania de calar a boca. Tu não estavas perto pra me ouvir, e ele preferia usar a minha boca para outras coisas. Acabou que quando me afastei dele já não tinha certeza se a minha cabeça estava vazia demais ou se era eu quem não tinha mais tanta vontade de pensar em alguma coisa.
Nesse meio-tempo acreditei que tinha parado de te amar — de amar qualquer pessoa na forma romântica, na verdade —, mas foi só você aparecer com aquele casaco jeans surrado meio anos oitenta que minhas mãos tremeram e eu abaixei a cabeça de novo. Vai se repetir tudo mais uma vez, eu pensei. Mas você se jogou nos meus braços e falou tanto sobre universo, tristezas e decepções que eu só consegui pensar mais uma vez como te amava. Foi quase como um choque, porque eu não lembrava direitinho como era te amar. Era como se um caminhão estivesse passando por cima de mim enquanto ficava na ponta dos pés para conseguir te acolher direito já que a nossa diferença de altura era no mínimo uns quinze centímetros. Não era algo ruim, mas era muito forte, muito intenso, e doía enquanto ao mesmo tempo me aliviava.
E então você voltou de vez pra mim, reconstruiu o meu mundinho quieto e vazio e jogou todas as contas de luz para o ar. Eu usei o teu casaco, você pegou os meus pijamas escondido, e parecia tudo bem enquanto eu segurava a tua mão com força. Eu continuava falando sobre nilismo, mas agora que já estava formada em filosofia e tinha diversos filósofos para te contar sobre. Você ainda reclamava de motoristas estressados, mas agora também me contava sobre o efeito estufa e sobre como passou a ser vegetariana, sempre reclamando do meu amor incontestável por fast food. Às vezes tinham umas briguinhas, você ia dormir no sofá e eu ficava sozinha na cama, mas estava tudo bem, depois de um tempo adotamos um gatinho e ele parecia nos juntar de novo sempre que aparecia uma discussão — o que com o tempo passou a ser raridade, e nós admitíamos uma pra outra como os motivos eram idiotas.
Eu me afoguei no teu sorriso e no teu beijo, me viciei no cheirinho de mel que tinha o teu cabelo, me abriguei nos teus braços e nos teus cafunés, me deliciei com o gostinho de moradia e de família que tinha o teu corpo e morri tendo aquela certeza boa que te amei com tudo que tinha em mim.

