Todos os anos, sem exceção, aquela festa adorável acontecia. A decoração era impecável, com luminárias e enfeites dourados que deixavam o ambiente ainda mais glorioso. As pessoas conversavam umas com as outras, esquecendo as intrigas que conservam; como pedido da deusa, qual comemorava seu aniversário mais uma vez. Todas as vezes eram assim. Alegres e lindas. Para todos... Ou quase todos.
O dia seria perfeito para mim, se Odin — mais uma vez — não tivesse me desqualificado na frente da corte inteira, como se fosse seu hobby. "Deveria se esforçar mais, Loki." disse encarando-me, enquanto eu entregava meu presente à Frigga. "Veja seu irmão como exemplo; e traga algo digno para sua mãe." Falou, por mais que a mulher tenha adorado muitas vezes mais o meu presente que o de Thor; que nesse momento encarava o Pai-de-Todos e a mim, sem se intrometer na conversa. O rei bufou cansado. "Não deveria cobrar tanto de você. Esqueço-me que não é do mesmo sangue que nós."
Aquilo me atingiu profundamente, embora já era para ter me acostumado; pois todos os aniversários sem exceção eram assim. Engoli em seco e saí, ignorando os chamados de Frigga e Thor. Poucas palavras de Alfhater doíam mais que os golpes de guerreiros. Qual era o prazer dele nisso? Era por causa de minha verdadeira origem? Se não me quisesse, deixava-me abandonado com os Jotuns, que seria menos vergonhoso. Eu tinha apenas treze anos! Mesmo que todo meu esforço fosse em vão... Não saísse nada agradável, por qual motivo me comparar a Thor? Ele era três anos mais velho. Era ridículo.
Me retirei do palácio e vaguei pela Asgard, silenciosa como nunca. Talvez pela festa que acontecia todos haviam se retirado para comemorar. As ruas estavam escuras e as casas trancadas. Continuei andando enquanto me perdia em pensamentos.
Por que? O que eu tinha feito de errado, para merecer ser tratado deste jeito? Nunca tinha feito algo ruim do tipo. Diferente de Thor... Mas por mais que ele sempre tenha levado a glória e a fama, não tem nem uma culpa sequer. E não importa o quanto eu queira, não posso odiá-lo. Infelizmente. Tento ignorá-lo, mas se ficamos muito tempo sem nos falarmos, ele faz de tudo para voltarmos a conversar, e volta a me tratar como seu irmão casula.
Loiro troglodita. Era isso que ele era! Fora — mesmo tento razão — que ele sempre tenta me defender. Sei o quanto sou indefeso e tudo mais... Mas não é nada divertido viver na sombra dos outros. Ainda mais na do deus do trovão. Provavelmente ele fez algum acordo com o diabo para eu não conseguir odiá-lo.
Quando me deparei estava na parte menos habitada do reino. Era um beco sem saída e no final tinha apenas uma árvore, com uma casa abandonada no lado. Lembrei-me no mesmo instante da primeira vez que passei por aqui. Tinha achado a passagem secreta para o mundo dos Jotuns. Já tinha passado pelo portal, mas nunca dei mais de três passos para longe.
Um pensamento estranho me ocorreu...
Se eu fosse para lá seria bem recebido, por ser filho de Laufey. Me tratariam da mesma forma que qualquer outro gigante. Não receberia os olhares maldosos das pessoas de Asgard, quais desejavam todos os dias que Odin me expulsasse, ou até mesmo me punisse a morte. Por crime qual nem eu sabia se tinha feito. Ou talvez fosse mais um pensamento de criança.
Mas, com a ideia de abandonar Asgard, meu coração se apertou, com o pensamento de magoar Thor.
Dei alguns passos em direção a árvore encantada até parar em frente da mesma e ela abriu-se em dois, exibindo o mundo congelado. Passei ligeiramente a mão. Quando a retirei estava com a cor azulada; como esperado.
Seria mais fácil no meu lugar...
— Quem é você, criança?
Me virei num salto, quando ouvi a voz arrastada e áspera de um bêbado. Encarei o mesmo por alguns instantes. Era obvio que ele não me reconheceria como "filho" do rei, no estado completamente insóbrio que estava. Seu cheiro era forte; parecia ter ido se banhar em vinho. Olhei ao redor rapidamente. Não tinha mais ninguém. Pensei em apagá-lo com magia e sair como se nada tivesse acontecido. Mas para meu total azar, reconheci o homem como um dos guardas pessoais de Odin. Era muito mais treinado. Mesmo nesse estado desprezível me derrubaria sem esforço, por eu ser desse... jeito. Sinceramente, sou a criança mais fraca de Asgard. Acho que o filho de sete anos do padeiro me derrubaria.
— Quem é voc...
— Sou Loki. — Respondi, antes que continuasse a pergunta. Percebi não ter reconhecido meu nome. Deveria estar pensando que eu era mais um pirralho perdido... Achei ter visto um brilho em seus olhos. Senti um arrepio congelar meu corpo. Me encaminhei a entrada do beco. — Eu já estou indo senhor, minha família chama-me novamente ao palácio e...
— Não tem ninguém te chamando. — Disse de maneira grossa e fria, segurando em meu braço com força. Arregalei meus olhos de uma maneira, pensando até que fossem sair da orbita. Tentei me soltar, mas isso o fez ficar com raiva. Me socou forte no rosto e vi o mundo escurecer. O homem se virou e olhou a casa abandonada, me arrastando em direção a ela. — Não preocupe-se criança... — Disse em um tom sarcástico, com seu bafo. — Vai ser só por essa noite. — Senti minha espinha gelar.
Abriu a porta com um chute e me jogou sem cerimonias no chão. Sabia que estava tão branco como papel. Mesmo sabendo o risco, fiz a primeira coisa qual me passou pela cabeça. Gritei por ajuda na esperança de alguém me ouvir. O que pareceu enfurece-lo. Me chutou na altura do tórax e se ajoelhou na minha frente. Segurou meus pulsos quando comecei a tentar me livrar dele. Gritei novamente, pedindo ajuda. Não era tolo ao ponto de não saber coisas quais passavam em sua cabeça. Senti mais um soco em meu rosto, vendo o mundo escurecer novamente.
— Cale a boca, pirralho. — Falou cerrando os dentes, enquanto a raiva o consumia. Quando senti o homem tentando rasgar minha roupa gritei de novo, ignorando os socos. Tentava a todo custo me soltar, não importando-me com o resto, mesmo sabendo: ele era muito mais forte e naquele instante me arrependi de ter saído do palácio. Gritei novamente, enquanto minha visão embaçava por causa de lágrimas quais surgiam sem minha permissão. Fechei os olhos como última opção...
Ouvi alguém derrubar a porta, sentindo o homem ser jogado longe. O local estava escuro, mas consegui enxergar o mesmo qual derrubou a porta socar o outro várias vezes, até seu rosto ficar coberto de sangue e olho totalmente inchado, o impossibilitando de abri-lo. A tontura veio a minha cabeça por causa dos socos e chutes que levei, e novamente minha visão embaçou. Encostei-me na parede até o homem qual tinha tirado o guerreiro de cima de mim, parou ao meu lado e se agachou, puxando com delicadeza meu rosto, mesmo eu não abrindo meus olhos. Ainda estava em choque e por algum motivo, o homem estava preocupado com isso. Ele me abraçou na esperança de passar certa tranquilidade, e só após eu voltar a respirar normalmente ele cessou o contato.
— Você está bem? Ele te machucou?
Nunca pensei como ficaria grato por ouvir aquela voz. Abracei Thor e o agradeci baixinho. Deveria estar a minha procura quando ouviu meus pedidos de socorro. Não devia ter ido tão longe do palácio. Se não fosse o loiro passando no momento exato... Thor se levantou junto comigo e saiu da casa, deixando o Mjönir em cima do homem, até mandar alguém o prender.
— Obrigado. — Repeti enquanto o mesmo me ajuda a acompanha-lo.
— Irmão. — Me chamou fazendo com que eu o olhasse. — Eu não devia ter deixado você sair sem mim, depois das coisas quais Alfhater disse. — Falou fitando-me, sentindo culpa das coisas que quase aconteceram. — Mas peço que as ignore. Ignore as coisas lhe ditas, pois sabe a é verdade. Eles estão errados. — Disse, sorrindo para mim. — E sempre que quiser conversar ou precisar de ajuda, pode contar comigo. — Esperou um pouco e o sorriso sumiu. — Mas prometo. Não vou deixar aquele homem sair impune. — Deu uma breve pausa e bagunçou meus cabelos. — Vamos.
Saímos em direção ao palácio, em silêncio.
Pode não ser perfeito, mas o considero o melhor irmão do mundo, Thor.

