A chuva caía fina sobre Tóquio, como se o céu estivesse a pedir desculpa por algo que não sabia nomear. As lanternas de papel balançavam à entrada da casa Mori, iluminando um caminho que Naomi se recusava a percorrer. Dentro, o cheiro a incenso misturava-se com o murmúrio contido de familiares e com o som distante de risos educados, aqueles que não nascem da alegria, mas da obrigação.
Naomi estava sentada diante do espelho, vestida de branco. O quimono era pesado, bordado com símbolos de felicidade eterna, fidelidade e continuidade. Ironia cruel. O tecido apertava-lhe o peito, não fisicamente, mas como se cada fio estivesse a coser-lhe o destino à pele.
No reflexo, não via uma noiva. Via uma mulher cansada.
Os seus olhos negros estavam fundos, como se já tivesse vivido décadas numa vida que ainda nem começara. As mãos tremiam ligeiramente, não de nervosismo, mas de algo mais profundo: a certeza absoluta de que, se desse aquele passo, nunca mais seria livre.
O nome do noivo ecoava-lhe na cabeça, educado, respeitável, distante. Um homem que nunca lhe perguntou quem ela era, apenas quem ela devia ser.
Quando a porta se abriu para anunciar que estava na hora, Naomi levantou-se… e fez algo que ninguém esperava.
Correu.
O som dos seus passos descalços no chão de madeira foi abafado pelo primeiro trovão da noite. Empurrou a porta, ignorou os gritos atrás de si, e desapareceu na chuva como um fantasma que finalmente se lembrara de como atravessar paredes.
Não levou mala. Não levou dinheiro. Apenas o corpo e uma decisão.
Horas depois, a cidade ficou para trás. As luzes artificiais deram lugar à escuridão viva da floresta. Aokigahara erguia-se diante dela como uma boca aberta, pronta para engolir segredos. As árvores eram altas, antigas, os troncos cobertos de musgo espesso. O ar era pesado, quase húmido demais para respirar.
Diziam que a floresta falava com quem entrava. Diziam que quem escutava, nunca mais saía igual. Diziam muitas coisas.
Naomi entrou.
Cada passo afastava-a do casamento, mas não a aproximava de esperança nenhuma. O frio infiltrava-se-lhe nos ossos. A chuva cessara, mas o silêncio era pior. Não havia pássaros. Não havia vento. Apenas o som da sua respiração irregular e o estalar distante de ramos… que ela não partira.
Parou no meio de uma clareira estreita, cercada por cedros retorcidos. O chão estava coberto de folhas húmidas e raízes que pareciam veias expostas da terra.
Ali, finalmente, sentou-se. Não chorou. Não rezou. Não pediu ajuda. Naomi levantou o rosto para o céu invisível entre os ramos e fechou os olhos.
— Está bem — murmurou, com a voz calma demais para alguém que esperava morrer. — Podes vir. Estou pronta.
Foi então que o ar mudou. Uma pressão subtil, quase imperceptível, fez-lhe os ouvidos zumbirem. A floresta pareceu inclinar-se para dentro, como se algo enorme tivesse acabado de acordar. Naomi abriu os olhos.
Entre as árvores, havia uma figura alta demais, fina demais, imóvel demais para ser humana. O corpo parecia dissolver-se na escuridão, como se a noite o estivesse a aprender a copiar. Onde devia haver um rosto… não havia nada.
Nenhum grito lhe saiu da garganta. Ela apenas ficou sentada, à espera. E, pela primeira vez em séculos, Slender Man não avançou para matar.
Observou. Interessado. E sorriu, não com um rosto, mas com uma intenção.

