As ruas de Londres estavam molhadas, a umidade permeava o ar, o céu apresentava uma coloração suave e cinza. Um denso nevoeiro cor de leite escorria do firmamento para tocar as construções e tudo mais que estivesse ao seu alcance. O vento frio fustigava as corajosas pessoas que andavam apressadas, rumando para seus empregos, suas escolas ou o que quer que fizessem, porém apenas uma garota, uma pequena e pálida garota, parecia realmente estar sendo açoitada por aquela frígida movimentação de ar.
Ela encolhia-se contra a parede de um beco, com os olhos fortemente fechados, em sua mente havia apenas lembranças desconexas de eras distantes e em seus lábios jazia uma súplica em forma de tremores.
Há quanto tempo estava ali? – perguntava-se constantemente.
Seus pais haviam lhe dito para permanecer naquele lugar, pois iriam comprar seu presente de Natal e queriam que ela se surpreendesse, portanto não poderia sair para procurá-los. Mas já estava ali há dois dias e nenhum deles havia retornado.
“Será que ainda não conseguiram comprar meu presente?” perguntava-se.
Bem, ela tinha visto várias filas e lojas lotadas de pessoas, isso poderia justificar a demora, mas e se algo houvesse acontecido com eles?
Em um relance viu um homem parado na extremidade distante do beco, ele olhava-a fixamente e a garota percebeu que o homem conversava ao telefone, quando ele se deu conta de que a menina o olhava, aproximou-se, lhe estendeu a mão e disse que a levaria para casa, ela pegou a mão gelada do homem, que se assemelhava a temperatura de seu coração naquele instante, e deixou ser levada por entre ruas brilhantes, com vitrines enfeitadas e coloridas.
Pararam ao chegar a frente a uma enorme casa, uma jovem freira os aguardava no portão, o homem abaixou-se e sussurrou que ela ficaria em segurança ali, ela quis protestar e dizer que aquela casa não era sua, mas tudo o que pode fazer foi chorar. Chorou até mesmo quando foi dormir, mas, sobretudo, chorou quando lhe disseram que havia sido abandonada.
E então, como um cristal que cai, um sonho de natal foi quebrado.
