É um dia típico em Londres, o Fog está denso, a iluminação pública é responsável pela visibilidade do horizonte, o Big Ban e o parlamento se impõe imponentes, rasgando a neblina.
É nesse cenário que encontramos Helena, nossa protagonista, bela mas tímida estudante universitária: cabelos curtos, no estilo joãozinho, e um casaco longo e bege (um pouco desbotado) tentativas inconscientes de esconder sua feminilidade.
Helena caminha apressada para a universidade, em seu caminho três homens andam conversando, Helena inclina seu corpo a direção oposta, escondendo o rosto nos livros que carrega, mais um movimento inconsciente.
Helena finalmente chega na sala de aula, um pouco atrasada, senta-se ao lado de sua colega de quarto, outra estrangeira, a japonesa Kaho, que sorri de forma simpática.
A professora Ashley, percebe que Helena chegou atrasada, mas ignora, dando continuidade a sua aula:
— Acreditava-se que a histeria era oriunda de um trauma, aprofundando em seus estudos Freud criou a teoria da sedução, suas pacientes teriam sido seduzidas e violentadas por alguém em quem confiavam, para lidar com o trauma essas crianças teriam esquecido sua lembrança traumática, que não desapareceram, mas retornariam como sintoma.
O sinal do fim da aula tocou, Ahley dá seu último aviso: “quero um trabalho explicando o motivo de Freud ter abandonado a teoria da sedução.
Helena levanta-se depressa, querendo sair, mas Ashley aproxima-se dela.
— Desculpe professora.
— Eu sei que você não gosta de psicanálise, mas é uma matéria importante.
— Eu não concordo com essa importância toda que Freud dá para a sexualidade, é só uma parte da vida.
Duas garota que ouvem o comentário passam rindo, Helena tenta ignorar.
— Tudo bem?
— Tudo professora, estou acostumada.
— Se você precisar conversar.
— Obrigada… preciso ir…
Helena estava saindo da sala quando para e se volta para Ashley, que parecia analisar a linguagem corporal de sua aluna.
— Professora.
— Sim.
— Admiro muito a senhora.
— Sou onze anos mais velha do que você, nada de senhora.
— Desculpe.
— Não se desculpe.
— Obrigada
— Pelo que?
— Desculpe.
Helena sai da sala apressada e envergonhada, sem entender porque fez o que fez, ela esbarra em um rapaz e passa reto.
Tom não entendeu o que aconteceu, ele olha para o chão, onde vê um livro de psicologia, na primeira página lê: Helena Casillas, seguido do endereço.
Helena entra no bar e restaurante mais próximo da faculdade (na verdade é o mais barato), Kaho se encontra sozinha em uma mesa, ela acena para sua amiga.
Em outra mesa Minerva, uma colega de classe menos tímida, declamava a plenos pulmões, para quem quisesse ouvir:
— Repressão sexual é coisa do século XX!
Helena se senta na frente de Kaho, encarando sua amiga, que brinca:
— Acho que Freud chamaria Minerva de histérica.
As duas dão risada, mas Helena fica séria.
— Onde você estava?
— Lembra daquele carinha que eu vinha conversando?
— Ronald? O Irlandês?
— Então…
— Vocês…
— Não me olhe assim, estava muito a fim dele.
— Desculpe.
— Não foi nada.
— Não Kaho, desculpe. Como foi?
— Ele foi um fofo, se esforçou bastante para me deixar a vontade.
— O que?
Kaho começa a rir, o que aumenta a confusão de sua amiga.
— Ele foi muito educado e atencioso, descobriu minha comida preferida e ne levou para jantar, depois um passei no parque. Ele se esforçou tanto que achei que valia a pena.
— Foi só pelo esforço?
— Tá bom, ele é muito gostoso. Fizemos a noite toda, estou toda dolorida. Hoje a noite vamos sair de novo, portanto coloque o despertador, não vou estar lá para te acordar.
— Divirta-se.
Helena abre o cardápio, subitamente ela se percebe faminta.
— Com fome?
— Bastante — diz helena sem retirar os olhos do cardápio.
— Quem come muito quer ser comida.
— O QUE...!?
— Acho que é isso que chamam de análise selvagem.
— Sabe Kaho, Freud falava muito de sexo porque fazia pouco.
— Essa é uma teoria bastante popular.
Ao final do dia as duas amigas voltam para o dormitório, na verdade é prédio antigo, com apartamentos baratos, onde duas ou mais alunos alugam. Fica relativamente perto do centro de Londres e da universidade.
As garotas param de conversar e diminuem o passo, o motivo é tom, parado ao lado da porta do dormitório, o rapaz olha para elas e sorri, se aproximando.
As meninas ficam receosas, não é todo o dia que um estranho as espera na frente de sua casa.
— Estive te procurando — ele olha para helena — você deixou isso cair.
Ele entrega o livro de psicologia para a garota, que fica surpresa.
Obrigada.
— Sou Tom Dursley, a professora Ashley é minha professora de mestrado.
— Sou Kaho, essa é Helena, estamos no terceiro ano.
— Helena, a mulher cuja beleza provocou uma guerra.
Kaho entende e se afasta, deixando os dois a sós.
Helena olha assustada para sua amiga, em seguida para tom, ficando chocada.
— Meu pai gosta de mitologia.
— Gostaria de tomar um café ou…
— Desculpe, mas está tarde, tenho que fazer um trabalho e amanhã tenho aula.
— Pode ser no final de semana.
— Desculpe… pode ser.
— Sábado?
— Não sei… melhor não, desculpe.
— Ela entra em seu apartamento, encarando sua amiga irritada.
— “Melhor não”?
— Me deixa.
— Ele atravessou a cidade só para devolver o seu livro, o que custa tomar um café? Só para agradecer.
— Não sou obrigada.
— Não, ele esperou porque quis, você não tem nada a ver com isso. Só responda uma coisa: quando foi a última vez que um gatinho te convidou para sair?
— Eu vim para Londres estudar, gata. É isso que vou fazer.
De fato ela estudou, Helena passou a noite escrevendo o trabalho da matéria que mais detesta, de sua professora preferida.
“(...) Freud começou a desconfiar de suas pacientes, todas relatando abusos sexuais de seus pais, questionando suas percepções ele questionou uma jovem sobre o ocorrido…”
Helena reflete no que iria escrever: “Eu disse o que você queria ouvir, dr. Freud”.
Helena segue escrevendo seu trabalho, Tom caminha pela margem do tamisa, tentando tirar aquela garota estranha de sua cabeça, Kaho beija Ronald.

