Amor ao Primeiro Tropeço
Amor ao Primeiro Tropeço
Chapter 110 min read

Capítulo Único

Dizem que basta um segundo para se apaixonar…

Para Sasuke, bastou um segundo para tropeçar no próprio pé – e a certeza de uma ida ao hospital para perder o coração.

Isso também conta, não conta?

O primeiro impacto foi o cabelo loiro, bagunçado como se tivesse sido moldado pelo vento. Depois, aquela covinha discreta na bochecha esquerda, capaz de desmontar qualquer defesa. Mas foi o toque – suave, cuidadoso, quase íntimo – que fez Sasuke sentir um arrepio percorrer sua pele enquanto o paramédico examinava seus arranhões.

— Posso saber seu nome, senhor? – a voz dele era firme, mas carregava uma gentileza que fez o peito de Sasuke se apertar.

— Me chame de Sasuke – murmurou, hipnotizado pela presença à sua frente.

— Tudo bem, Sasuke. Meu nome é Naruto. Quão ruim está a dor?

A dor latejava, queimava, mas parecia distante diante da intensidade daquele olhar azul. Ainda assim, Sasuke cerrou os dentes, tentando conter as lágrimas. O tornozelo inchado pulsava, mudando de cor, e o corte profundo denunciava a gravidade.

— Ruim – respondeu, a voz embargada.

Naruto inclinou o rosto, preocupado.

— Em uma escala de um a dez?

— Onze – tentou brincar, mas o sorriso não veio.

O toque de Naruto em sua perna foi como um bálsamo. Sasuke sentiu o coração acelerar, não pela dor, mas pela ternura inesperada.

— Calma, companheiro. Vamos pegar alguns analgésicos antes de qualquer coisa. Depois vou segurar sua perna firme, enquanto minha parceira, Sakura, coloca a tala. Ela parece brava, mas é incrível, você vai ver.

Só então Sasuke percebeu a presença dela. Mais baixa que Naruto, rosto delicado, cabelos rosa que refletiam a luz do sol e olhos verdes intensos. Havia algo severo em sua expressão, e Sasuke pensou que precisaria medir as palavras com ela. Mas nada disso importava. O mundo inteiro parecia se reduzir ao loiro ajoelhado diante dele.

— Você é alérgico a algum medicamento? – Naruto perguntou, e Sasuke quase se esqueceu de responder, perdido na forma como seu nome soava naquela voz.

— Não que eu saiba – murmurou, balançando a cabeça em negação. Seus olhos, porém, fugiram do loiro quando percebeu a preparação da injeção.

— E as agulhas, você está bem com elas? – Naruto perguntou, a voz suave, mas carregada de preocupação.

Sasuke deu de ombros. Queria parecer durão, mas a dor latejante no tornozelo fraturado roubava qualquer força que ainda restava.

— Sou indiferente quanto a isso – disse, tentando soar firme, mas sua voz saiu fraca.

Sakura passou um tubo de borracha para Naruto, e por um instante Sasuke pensou que fosse alguma seringa. O coração acelerou, mas logo o loiro enrolou o tubo em seu braço com uma delicadeza que fez Sasuke sentir-se derreter por dentro.

— Bem, você definitivamente vai precisar de uma agulha no braço antes que possamos movê-lo – explicou Naruto, com um tom tão gentil que quase transformava a ameaça da dor em promessa de cuidado. Sasuke apenas assentiu, desviando o olhar.

— Vai doer só por um instante.

Ele quase desejou que Naruto tivesse usado a palavra “picada”, como nos clichês da televisão, só para arrancar um sorriso e distrair sua mente. Mas sabia que rir só faria o tornozelo protestar ainda mais. Então fechou os olhos, esperando o impacto.

De repente, tudo ficou mais leve. A dor, antes insuportável, recuou como uma onda. O mundo parecia mais brilhante.

— Uau! – exclamou, surpreso, e o riso de Naruto foi como música.

— Sim, os analgésicos fazem isso. Como está seu tornozelo agora, em uma escala de um a onze?

Sasuke pensou por alguns segundos, tentando medir a sensação.

— Três.

Naruto sorriu satisfeito e acenou para Sakura.

— Muito melhor. Tudo bem, lembra o que eu disse? Eu vou segurar sua perna. Diga-nos se doer e se quiser que paremos…

— Puxe a franja dele – Sakura provocou, sorrindo descaradamente enquanto preparava o gesso inflado.

Naruto lançou-lhe um olhar exasperado, mas logo voltou a encarar Sasuke. E naquele instante, o olhar do loiro era tão cheio de ternura que Sasuke sentiu como se pudesse simplesmente se desfazer da cadeira e flutuar até o hospital, guiado apenas pela gentileza que emanava dele.

— Ou você pode gritar, berrar ou agarrar meu ombro. Tudo bem? – disse Naruto, com um sorriso tranquilizador.

Sasuke apenas assentiu, tentando se preparar para o que viria. A dor, quando chegou, foi como uma chama que rasgou a névoa dos analgésicos, fazendo manchas brancas explodirem diante de seus olhos. Sem perceber, sua mão se fechou com força sobre o ombro de Naruto, como se fosse a única âncora capaz de mantê-lo consciente.

Ele só abriu os olhos novamente quando sentiu uma mão fria pousar sobre a sua.

— Tudo bem, cara, terminamos, ok? – a voz suave de Naruto o trouxe de volta.

Sasuke respirou fundo, lembrando-se de que aquele loiro estava ali para ajudá-lo. A ideia de puxar a mão dele e socá-lo por infligir tanta dor passou pela sua mente, mas desapareceu rápido. Não havia como ser agressivo com alguém que o olhava daquela forma.

Com a ajuda de Naruto e Sakura, conseguiu se arrastar até a maca. O aperto em sua mão não diminuiu; era como se estivesse agarrado à própria calma que Naruto transmitia. Sakura levantou seu tornozelo e o amarrou com firmeza, mas Sasuke manteve os olhos fixos no loiro.

— Não quero que você ou seu tornozelo se movam enquanto te levamos ao hospital – disse Sakura, com uma gentileza inesperada.

Sasuke começou a reconsiderar sua opinião sobre ela. Talvez não fosse tão ruim assim… mas ainda não era Naruto.

A paramédica sorriu de novo, com aquele jeito tranquilizador que parecia ser parte do treinamento dos socorristas.

— Vou deixar você nas mãos competentes do Naruto. Vou na frente dirigir. Se esse loiro cabeça oca te irritar, é só gritar que trocamos de lugar.

Não é muito provável, Sasuke pensou. Os olhos azuis de Naruto pareciam capazes de curar qualquer ferida. Se fosse verdade, não estaria a caminho do hospital.

Uma lombada o arrancou de seus devaneios, a dor voltando com força ao tornozelo. Ele respirou fundo e observou Naruto pegar uma pasta que Sakura segurava antes. O loiro tirou uma caneta do bolso do uniforme e começou a anotar, fazendo-lhe perguntas simples: data de nascimento, idade, endereço…

— Isso é uma recorrência? – perguntou Naruto, e Sasuke quase se perdeu de novo no som daquela voz, mais preocupado em não se afogar nos olhos azuis do que em responder corretamente

A sensação de algodão em sua cabeça era tão forte que as palavras de Naruto chegavam até ele como se viessem debaixo d’água.

— Uh… em palavras simples? – pediu, confuso.

— Você costuma cair e se machucar? – o loiro traduziu, com um sorriso paciente.

Essas palavras, sim, fizeram sentido. Sasuke não pôde evitar um sorriso tímido e acenou com entusiasmo.

— Ah, sim. Sou mortalmente sujeito a acidentes. Normalmente não acabo no hospital, mas sou muito desastrado. Vivo batendo em coisas… geralmente paredes. Uma vez acordei e esqueci onde estava, tentei sair da cama pelo lado errado e acabei com a rótula machucada.

Ele contou tentando ignorar o desconforto do tornozelo quebrado. Qualquer vergonha por ser um desastre ambulante desapareceu ao ouvir a risada alegre de Naruto. O som era tão leve e contagiante que fez Sasuke sorrir também, encantado com as covinhas que surgiam nas bochechas do loiro.

— Então, o que você gosta de fazer no tempo livre? – Naruto perguntou, provavelmente para distraí-lo da dor.

— Música. Eu toco na banda de um amigo às vezes – respondeu, mas logo grunhiu quando outra lombada fez a dor explodir em seu tornozelo.

— Eu também! – Naruto disse, com entusiasmo genuíno.

Sasuke teve certeza: eram almas gêmeas. Um casal feito no céu.

— O que você toca?

— Guitarra. E você?

— Baixo, bateria e também piano. O que meu amigo precisar, na verdade.

— Caramba! Então é um pouco de tudo? – Naruto exclamou, impressionado.

O olhar admirado do paramédico fez Sasuke esquecer a dor por um instante.

— Praticamente – respondeu, sorrindo.

Naruto acenou com a cabeça, ainda sorrindo.

— Eeeee esta é a nossa parada.

Eles diminuíram a velocidade e pararam na entrada da ambulância do hospital. Sakura saiu do volante, abriu as portas traseiras e sorriu para Sasuke. Os dois paramédicos se moveram com rapidez e delicadeza, tentando não lhe causar mais dor – e ele agradeceu em silêncio por isso.

Colocado em um canto do corredor, longe da agitação de médicos e enfermeiras, Sasuke observou Naruto entregar a papelada para Sakura.

— Meu parceiro vai ficar com você enquanto eu consigo uma sala de trauma e alguém para te atender, certo?

Sasuke apenas assentiu. Se não fosse pela dor pulsante em seu tornozelo, juraria que estava no céu. Naruto parecia um anjo.

Mas a internação aconteceu rápido demais para seu gosto. De repente, seus cuidados foram transferidos para a equipe do hospital. Ele percebeu os dois paramédicos do lado de fora da cortina enquanto as enfermeiras o ajudavam a subir na cama.

Quando elas se afastaram, Naruto entrou no cubículo. Sakura ficou parada à entrada, observando.

— Bem, companheiro, foi muito bom conhecê-lo. Espero que você se recupere logo.

Sasuke congelou. Não queria que Naruto fosse embora. Não agora.

— Obrigado por me trazer até aqui – disse, a voz mais fina do que gostaria. Teve certeza de que Sakura bufou, mas não conseguiu confirmar.

— Não foi problema. Espero vê-lo de novo algum dia… só que sem o tornozelo quebrado, ok? — Naruto sorriu, e o coração de Sasuke disparou.

Ele vasculhou o cérebro em busca de uma forma suave de convidar o loiro para sair. Mas as drogas embaralhavam seus pensamentos, e mesmo sóbrio não tinha certeza se conseguiria ser sutil. Então, antes que pudesse se conter, as palavras escaparam:

— Eu quero sair com você.

O silêncio que se seguiu pareceu eterno. O rosto de Sasuke queimava, cada segundo era uma tortura. Era a verdade, nua e crua, dita no pior momento possível… ou talvez no melhor.

Naruto piscou, surpreso, e Sasuke sentiu o arrependimento esmagá-lo. Ele nem sabia se o paramédico era gay. Talvez estivesse namorando alguém. Talvez fosse hétero. Talvez fosse tudo ao mesmo tempo, a combinação brutal que sempre arruinava suas esperanças.

— Sinto muito, Sasquê… – começou Naruto.

Sasuke já se preparava para ouvir a rejeição, mas as palavras seguintes não vieram como um golpe.

— Não tenho permissão para sair com pacientes. Seria antiético.

O coração de Sasuke deu um salto. Não era um “não”. Não ainda.

— E se você fosse a um show onde eu toco, e eu te convidasse para sair? – arriscou, agarrando-se à brecha.

Mesmo sob a influência dos analgésicos, achava que estava indo bem. Ou talvez fosse justamente por causa deles. Tentou mexer o pé para se distrair e se arrependeu imediatamente, a dor o lembrando da realidade.

Naruto pensou por um instante, depois sorriu.

— Acho que… seríamos apenas duas pessoas se encontrando em um show.

— Então é um encontro? – Sasuke insistiu, acenando com a cabeça, como se quisesse selar o destino.

— Sim. Eu acho que é.

— Tudo bem então. Nag’s Head, próxima sexta, às 20h. Nós somos os Bolton Bulldogs. – disse, estranhamente confiante.

Naruto estendeu a mão.

— Bom nome de banda. Estarei lá.

— Bom.

Sasuke apertou a mão dele com entusiasmo, sentindo o coração disparar. Se isso não era amor à primeira vista, então ele não sabia o que era.

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