1. Preparativos
— Jess...
Pá!
Era tarde demais para minha mãe tentar avisar a Jessica que ela cairia pela décima quinta vez da escada.
— Mãe, eu estou velha para essas coisas – disse Jessica levantando aos murmúrios.
— Vamos tentar de novo querida? – perguntou a mulher que estava organizando a festa.
— A ultima? – pergunta Jessica subindo as escadas bufando e segurando o longo vestido roxo para não arrastar no chão, o vestido que estava sendo usado como reserva.
Era dia 2 de setembro, aniversário de 18 anos da minha irmã Jessica, outro dia chuvoso e dia de acontecer uma desgraça assim como os últimos dezoito dois de setembro.
Eu chamo isso de carma.
Meu melhor amigo Kin chama isso de macumba.
Minha mãe, Fernanda, Joyce, eu e a equipe que estava organizando a festa estávamos a assistir o desastre que era ver Jessica tentando descer uma escada sem tombar ou sem tropeçar nos próprios pés.
— Vai dar certo dessa vez – disse minha mãe olhando para cima a fim de enxergar Jessica lá encima.
— Tenta manter o foco nos degraus dessa vez – sugeriu a mulher.
— Tia, se eu fosse você eu sairia daí – disse Fernanda querendo que minha mãe se afastasse um pouco do pé das escadas, assim como todos fizeram, tudo bem, eu sei que exagerei nesse aspecto.
O salão era enorme, nos fundos tinha dois lances de escadas pintadas totalmente de branco uma oposta a outra, quando você subia um daqueles lances de escadas daria em um camarim luxuoso. No salão havia bastantes mesas e cadeiras, mesas com panos brancos e azuis, a cor preferida de Jessica, e as cadeiras alternavam em duas brancas e duas azuis e no centro de cada mesa tinha uma lembrancinha, uma diferente da outra.
No meio do salão tinha um grande tapete vermelho, o tapete que Jessica andaria se conseguisse ao menos descer um simples lance de escada para ser homenageada.
— Foco, foco – repetiu a mulher fazendo mimicas como se fosse ela mesma quem descia aquelas escadas, ela era loira e tinha magníficos olhos azul, era branca de tanto se esconder do sol e estava com o anônimo uniforme preto escrito: “organização” atrás.
O engraçado foi que ano passado no meu aniversário de 14 anos foi uma festinha qualquer com um bolinho furreca com cinco convidados que nos quais dois levaram presentes.
— Consegui! – gritou Jessica assim que pisou no tapete vermelho e seu grito ecoou em todo o salão. Jessica era uma branca bem bronzeada, tinha os cabelos negros e longos que combinavam perfeitamente com seus olhos.
— Eu disse que conseguiria, não disse? – disse minha mãe indo até ela com os braços abertos pedindo um abraço.
— Se depois de dezesseis tentativas você não conseguisse... – gritei para Jessica abrindo um sorriso.
— Fala sério, garota. – disse ela me fuzilando com os olhos, ainda bem que estávamos longe uma da outra.
— Você arrasa prima! – disse Joyce se aproximando delas com um sorriso falso estampado no rosto, a falsidade de Joyce me irritava profundamente.
— Então, – disse a mulher – vamos repetir?
— Mais dezesseis vezes para sair um desse – disse – querem apostar?
— Alice... – disse minha mãe me olhando de rabo de olho e eu dei de ombros.
— Vamos, miga-miga – disse Fernanda, a morena que nunca soltava os cabelos, tinha olhos cor de carvão e os dentes separados uns dos outros – A festa é daqui a cinco horas.
Jessica começou a subir novamente as escadas e eu me virei para pegar meu copo de refrigerante.
— Alice! – grita minha mãe saindo do pé da escada e vindo em minha direção, quase deixei meu copo cair.
— Mãe! – dissemos eu e Jessica juntas.
— Eu sempre esqueço... – disse ela sorrindo e coçando a cabeça.
— Desse jeito você vai matar alguém! – disse Fernanda com a mão no coração.
Minha mãe sorriu para as meninas e se virou para mim dizendo:
— Você precisa dar uma passada na Sheila para conferir se está tudo certo com o bolo — Minha mãe tinha os cabelos escuros cacheados até a cintura, tinha a pele branca e olhos claros mel. Estava com uma calça jeans e uma blusa azul clara. Seu nome era Tereza ela parecia estar gravida novamente (sonho do meu padrasto).
— Se eu ao menos soubesse quem é Sheila... – murmurei.
— Você não lembra? A moça baixinha, morena... – tentou ela me explicar, mas quando viu minha cara de “Hã?” desistiu — Joyce irá com você.
— Oque? Por que ela não vai sozinha?
— Porque ela é sua prima...
— Mãe, isso nem é desculpa! – disse cruzando os braços e olhando-a com olhar desafiador.
— Porque eu estou mandando – disse ela, nunca foi a especialidade de minha mãe falar sério com alguém – essa é uma boa desculpa para você?
Joyce, que ótimo..., pensei.
— Ande Alice! – Gritou Joyce da porta dupla do salão — deixa de ser lerda — ela era uma negra de cabelos enrolados de dar inveja, seus olhos eram escuros como os meus, além de chata, gostava de mim...
Terminei de beber meu guaraná enquanto minha mãe voltava ao pé das escadas para continuar a dar força a Jessica que estava no meio delas agora, tentando sorrir e tirar o olhar do chão. Fui em direção a Joyce que sorria, mostre-a os dentes e parei diante do espelho que tinha na porta para ver como estava meu cabelo. Estava prendendo o cabelo quando Joyce falou alto demais para uma pessoa que esta ao seu lado:
— Acho tão lindo esses seus cachinhos negros – ela estendeu a mão para toca-los, mas eu desviei de suas mãos – Ai, porque você nunca deixa tocar neles?
— Ai! – gritou Jessica da escada.
— Lerda! – gritei empurrando Joyce para que saísse antes que Jessica pudesse me dar o troco.
Ficamos embaixo do toldo da entrada do salão, estava chovendo, de novo.
— Fica aqui enquanto eu vou buscar um guarda-chuva.
— Um não, dois. – disse sorrindo para ela rapidamente e depois olhando para os carros que passavam na chuva.
Enquanto esperava ali do lado de fora vi Renan, irmão de Kin passar do outro lado da rua e acenar para mim, eu retribui o aceno e sorri. Acho que ele era o único retardado do bairro todo que estava com short e blusa regata em um frio desse.
Olho para trás quando Joyce sai pelas portas com apenas um guarda-chuva na mão.
— Tenho uma má e uma boa noticia – ela diz me encarando.
Eu coloco a mão no bolso do meu casaco rosa e espero ela dizer quais são.
— Alice, essa é a hora que você pergunta.
— Perguntar oque?
— Qual é a boa ou qual é a ruim – ela diz com um sorriso se divertindo com a brincadeira.
— Tudo bem, qual é a boa? – perguntei.
— Ai, não foi assim que eu planejei!– diz ela batendo os pés e fazendo uma careta estranha enquanto rangia os dentes.
— Tá bom, então, qual é a ruim? – perguntei enquanto aconchegava minhas mãos no bolso do casaco para ficarem mais quente e revirava os olhos.
— Também não foi assim que planejei – diz ela refazendo os movimentos.
Pensei em tomar o guarda-chuva da mão dela e andar logo, mas também me recordei que não sabia onde era a loja de Sheila.
Será que ela não percebe?
— Então foi como que você planejou? – perguntei – vamos, me diga.
— O combinado, – disse ela voltando a me olhar – era você perguntar qual era a ruim primeiro.
— Mas, eu não perguntei qual era a noticia ruim?
— Não, você perguntou qual era a boa primeiro, e na televisão eles nunca perguntam a boa primeiro.
— Mas não estamos em uma televisão – disse revirando os olhos e deixando os ombros caírem – nós estamos no meio da rua – disse olhando em volta.
— Você é uma estraga prazeres! – disse ela me mostrando a língua, isso me fez pensar se aos 11 anos de idade eu era insuportável quanto a ela.
— Anda Joyce, vamos.
— Mas, mas eu nem contei quais eram as noticias – disse ela.
— Porque não tem noticia nenhuma para contar...
— Tem sim! – disse ela cruzando os braços e fazendo biquinho, coisa que ela fazia com todo mundo quando queria algo de alguém, bom, ela poderia convencer todo mundo com isso, mas comigo precisaria de mais do que isso.
Olhei para o céu fechado enquanto a chuva caia cada vez mais forte, assim como minha paciência. Eu sempre evitei a Joyce desde que me entendo por gente, e não é só pelo fato dela falar coisas que não devia, ser mal educada, comer de boca aberta, fofocar dos outros pela cara, reclamar de tudo, falar demais ou de ficar relembrando desgraças do dia 2 de setembro. O Kin disse que foi meu santo que não bateu com o dela e minha mãe que eu estou de frescura.
— Não vai dizer oque é? – perguntei incrédula apertando os olhos enquanto a olhava, para ela não notar que estava pensando nas: “dez tentativas de matar a Joyce”.
— A má noticia é que só tem um guarda-chuva – disse ela escondendo o sorriso.
“E a boa noticia é que você vai com ele e eu vou pela chuva”, disse ela em minha mente.
— E a boa é – disse ela já arreganhando seu sorriso largo – vamos juntas embaixo dele.
— E desde quando isso é uma noticia boa? – perguntei e ela voltou a fazer o biquinho – Vamos – disse pegando o guarda-chuva que estava em sua mão e virando-o bruscamente em direção da rua para poder abri-lo sem ter nenhuma dificuldade, mas casualmente o cabo do guarda-chuva pega bem na virilha do homem que estava passando. Também, quem mandou passar logo quando descido abrir meu guarda-chuva?
— Minha Nossa Senhora! – disse ele contorcendo-se com as mãos nas partes pubianas deixando sua sacola cair no chão.
— Você está bem, senhor? – perguntei dando algumas tapinhas em suas costas não sabendo oque fazer em uma situação embaraçosa como essa.
O homem estava vermelho feito uma pimenta, ele parecia estar prendendo a respiração e que iria explodir. Era um senhor de idade, estava todo de preto e suas calças tinham duas listras nas laterais, uma vermelha e outra branca que combinavam com os tênis de corrida.
— Agora nunca mais vou ter filhos! – disse o homem se curvando cada vez mais, enquanto isso Joyce tenta atrapalhar pegando as coisas que o homem deixou cair depois que eu esteirei o homem.
— Joyce, deixe isso ai! – sussurrei para que só ela pudesse ouvir, mas era tarde demais, Joyce estava segurando a sacola com umas das mãos por uma alça só e com a outra segurava uma camisinha enquanto a analisava.
— Alice, — disse ela se aproximando de mim – oque é isso? – perguntou não tirando a atenção da camisinha nem por um segundo, fico vermelha também tomando a camisinha da mão de Joyce e jogando dentro da bolsa do homem, não pude deixar de notar que dentro da sacola havia outros artefatos sexuais, alguns eu não conhecia, mas outros sim.
Quando o homem reparou a expressão de Joyce e a minha, ficou mais vermelho, oque achei que era improvável, tomou a bolsa da minha mão e saiu correndo.
— Alice, – disse Joyce me cutucando querendo que eu pare de olhar para onde o homem havia deixado de ser um borrão preto – você ainda não me disse oque era aquilo.
— Para que lado mesmo? – pego o guarda-chuva que estava no chão, mas antes de abrir me certifico de que dessa vez não acertaria mais ninguém.
— Para lá – disse ela apontando para o lado oposto ao que o homem havia corrido, suspiro aliviada e pego seu pulso arrastando-a para de baixo do guarda-chuva junto comigo.
— Oque era aquilo? – perguntei tentando fazer aquela pergunta soar o mais natural possível – era, hm, me deixe ver... Era um... era um...
— Parecia goma de mascar... – disse ela tentando desviar de uma poça e eu fiz o mesmo.
— É, era goma de mascar – disse automaticamente enquanto olhava para Tyler, o menino mai... Oque? Goma de mascar? – Não! Não! Que goma de mascar oque – disse tentando retomar o ritmo que a conversa estava perdendo – aquilo era saquinho de... De... De sacolé! Isso mesmo, saquinho de sacolé.
— Mas era, sei lá, escorregadio – disse ela fazendo uma careta e uns movimentos com os dedos imaginando que ali estava a camisinha.
— Sabe oque é, menina? Aquele é um saco de sacolé importado – olhei para ela e ela parecia acreditar, ao menos parecia – Como vem muito em um só, eles colocam um gel para que não grudem, sabe?
— Eu quase pensei que aquilo fosse uma camisinha – disse ela com a maior naturalidade do mundo sem nem me olhar e mantendo o mesmo ritmo na qual andávamos.
— Q-Que? – perguntei alarmada – camisinha, aquilo? – soprei entre os lábios e dei soco de leve em seu braço – você tem cada uma – tentei rir da maneira mais convincente que consegui — camisinha, agora você vê.
— Eu devia estar louca – disse ela mergulhando de cabeça na mentirada mal contada que contei.
— Qual é a cor do seu vestido? – tentei trocar o assunto, mas também não queria entrar em outro.
— Amarelo – paramos e esperamos o sinal indicar vermelho para que pudéssemos atravessar a rua – amarelo sol, sabe?
— Estávamos mesmo precisando de um.
— E a cor do seu?
— Rosa, claro.
— Vamos tomar banho de chuva? – perguntou ela olhando para mim com um brilho nos olhos – você sabe esta na chuva não é pra se secar.
— Está na chuva é para se molhar – corrigi-a, mas não retribui o olhar, fingi esta focada nas poças que tinham na calçada.
— Legal néah?
— Legal oque? – perguntei olhando para ela enquanto ela me olhava com um sorriso meio sem graça.
— Sua mãe ter feito a festa da sua irmã de quinze anos aos quando ela fez dezoito.
— Não muito – disse acenando para meu vizinho que estava passando correndo para poder sair da chuva – acho que perde a tradição.
— Eu no lugar da sua mãe, — disse ela enquanto nos desviávamos de um poste – faria o mesmo se meu marido tivesse morrido nessa data especial para minha filha.
— Eu também – disse colocando um ponto final na conversa, não queria relembrar daquele dia nunca mais, o dia que meu chão faltou e meu mundo caiu como essa chuva que cai, cai e cai e parece que nunca vai parar.
— E no ano seguinte sua avó – diz ela balançando a cabeça negativamente, inclinei o guarda-chuva um pouco mais para o meu lado para que ela se molhasse e parasse de relembrar tragédias de dois de setembro. – Alice! – reclama ela se encolhendo mais para meu lado querendo se proteger da chuva.
— Ah, desculpa.
— E depois desse ano, ainda...
— Vamos jogar um jogo? – na verdade, não queria jogar jogo algum com Joyce apenas queria que ela parasse com as recordações.
— Qual jogo? – pude notar animação em sua voz e eu tentei me animar com o tal joguinho também.
— É de quem fala primeiro. – Disse – Quem falar primeiro, hãn... Vai ter de dar um beijo no meu cachorrinho Bob – inventei. Claro que eu sabia que minha mãe odiava criar animais, mas ela não.
— Você tem um cachorro? – perguntou ela com as sobrancelhas arqueadas enquanto me encavara.
— E o jogo começa... Agora – disse assim que ela aponta para uma lojinha em que os letreiros estão escrito: SHEI LA.
Abro a porta e escuto um sinal de que o bolo já estava no ponto ressonar dentro da loja e todos que estavam olhando os bolos nos balcões ou nas prateleiras voltaram sua atenção para nós, principalmente para a mulher que estava do nosso lado direito atrás de uma caixa registradora.
Abro a porta deixando Joyce passar primeiro e fechado ela atrás de mim, vou até a moça no balcão deduzindo que fosse Sheila.
— É... Bom dia – disse.
— Ará! – gritou Joyce com um dedo enorme apontando para mim – Você falou, eu ganhei! – e começou a dançar comemorando a vitória.
— Joyce, – disse segurando-a para que parasse com o chilique – se lembra de onde estamos?
— Isso não é desculpa – diz ela desvencilhando-se dos meus braços – Eu ganhei, você perdeu, eu ganhei, você perde... – tapei sua boca com a mão e ela começou a tentar se livrar dela, ignorei-a e voltei minha atenção para a balconista que nos olhava por cima dos óculos com uma das sobrancelhas levantada.
— Posso ajudar? – perguntou ela.
— Eu sou Ali... – sacudi Joyce para que ficasse quieta e as mulheres que estavam na loja nos olhavam com reprovação – Alice, filha de Tereza, eu vim aqui chegar se está tudo certo com o bolo.
Ela pega em uma gaveta que tinha atrás do balcão uma lista e começa a procurar algo, provavelmente estava checando o nome que citei. Vez ela olhava para a lista, vez olhava para Joyce que ainda lutava contra minha mão em sua boca.
— Esqueci o remédio dela – disse em uma das vezes em que a mulher de óculos olhou-nos e sorri.
— Lhe entendo perfeitamente – diz ela suspirando enquanto ajeitava os óculos – qual o nome mesmo?
— Joyce! – urrei em seu ouvido e ela parou – qual oque? – perguntei à mulher olhando-a com as sobrancelhas arqueadas.
— Qual seu nome? – repetiu ela – Alyssa?
— Alice – a corrigi.
Soltei Joyce e ela começou a fazer cara de choro, revirei os olhos e me apoiei no balcão.
— Ah, sim, Alice, aqui – diz ela marcando algo na folha com a caneta que estava na mão – vai levar o bolo?
— Não, eu vim só olha-lo.
— Ah sim – diz a mulher estreitando os olhos.
A mulher alternava o olhar entre mim e Joyce e depois a algo acima de nós. Olhei para Joyce e ela estava distraída com o bolo que estava desenhado no balcão, voltei minha atenção para a mulher que ainda tinha os olhos estreitos atrás dos óculos verdes que combinavam com o vestido e com os olhos. Seus cabelos loiros estavam presos em um coque e tinha uma espécie de teia nele.
— Rapazes, – disse ela enquanto tirava os óculos e os colocavam encima do balcão e eu arqueava as sobrancelhas para ela – podem leva-las.
Ela abriu um grande sorriso para mim e eu continuei com a mesma expressão enquanto nos entreolhávamos, em seguida duas mãos me envolveram e me suspenderam do chão, comecei a me debater e gritar, assim como Joyce também fazia.
— Me solta! – gritei para o homem – Tá me machucando!
— Socorro! – gritou Joyce e eu fiz o mesmo.
Todos da loja pararam para contemplar a cena que estava se passando dentro de uma pacifica confeitaria que tinha um estranho formato redondo, parecia mais um bolo ao que uma loja. Os confeiteiros saíram de algumas portas que nunca saberia que eram portas e também ficaram apenas olhando.
— Levem essas ladras daqui – disse a mulher do balcão para os homens que estavam nos segurando.
— Nós não somos ladras! – gritei para ela – nós não roubamos nada!
— Mas pensaram!
— Me soltaaa! – disse Joyce fazendo força para desvencilhar-se dos braços do homem.
— Não vão conseguir dessa...
— Que algazarra está acontecendo aqui? – perguntou uma voz vinda do fundo da loja e interrompendo a mulher de óculos, ela engoliu em seco e ficou ereta no momento imediato que distinguiu a voz.
Assim como todos que estavam presentes na loja, procurei de quem era àquela voz, e um: “QUEM DISSE ISSO?” Começou a ecoar pela loja inteira.
Uma anã abre caminho na multidão e para perante a nós cruzando os braços e olhando para cada um de nós. No mesmo momento reconheci essa mulher, a mulher com quem vim me encontrar, a mesma mulher que fez o bolo de Jessica.
Isabela.
Digo, Sheila.
Ela estava com calça social preta com uma blusa também social azul clara com seu nome escrito no peito esquerdo, estava usando um sapato social salto alto, o modelo mais brega possível.
— Ainda estou esperando alguém me dar explicações do que está acontecendo aqui – diz ela com a cara mais amarrada do mundo, diferente da Sheila que conheço – soltem-nas.
— Obrigada – disse a Sheila quando os seguranças nos largaram e ela abriu um sorriso de trinta e cinco milésimos.
— Senhora, essas menin...
— Senhoritas – corrigiu Sheila.
— Essas senhoritas – disse ela engolindo em seco – estavam querendo levar algo que não é delas.
— Mentira! – intrometeu-se Joyce e eu fiz um sinal para que ficasse na dela.
— Tem provas? – perguntou Sheila.
— Sim, Senhora – disse a mulher pondo rapidamente os óculos e pegando os papeis que estavam sobre a mesa – aqui consta que existe uma Alyssa – diz ela olhando para Sheila que assentiu, ela continuou: — Ai aquela menina – ela aponta para mim com o queixo – tentou se passar por ela.
— Mas eu disse que meu nome era Alice!
— Disse Alyssa, duas vezes primeiro, depois disse Alice. Senhora – diz ela voltando sua atenção para Sheila – claro que ela queria me dar um golpe e levar o pacote Premium.
— Gente, desculpem-me o transtorno – diz Sheila se virando para a multidão – de volta ao trabalho pessoal – os confeiteiros voltaram de cabeça baixa, decepcionados por o barraco ter sido pior a ponto de a loja fechar – Ruan, Luan – disse ela voltando-se para os seguranças agora – obrigado rapazes, vocês fizeram um belo trabalho. – os meninos se curvaram e voltaram para a porta da loja.
— Ei! E quanto a essa dai? – perguntou Joyce apontando de cara feia para a mulher-verde.
— Pode tirar o dia de folga querida – disse Sheila dando umas tapinhas nas costas da mulher do balcão que depois de Sheila dizer isso pegou sua bolsa atrás do balcão e saiu correndo.
— Obrigado, Senhora! – disse ela antes de bater a porta atrás dela.
— Só isso? – perguntou Joyce enquanto nos aproximávamos do balcão.
— Como? – perguntou Sheila.
— Só isso? Ela nos humilha publicamente, nos chama de ladra, chama os seguranças para que nos segurem e depois nos levem para cativeiros onde vão arrancar nossas roupas, e nos dá chicotadas para que falemos a verdade, e se caso isso não funcionar, colocaria um cano goela abaixo e nos entupiria de água até a morte, e você só faz isso? – perguntei quase em ar algum.
— Calma! – disse Sheila recuando um pouco na cadeira – Querem um cupcake?
— Eu quero! – disse Joyce levantando a mão, também era a única coisa que talvez ela conseguisse ver de Joyce atrás do balcão.
— Não se venda Joyce! – disse abaixando sua mão – Eu vou ligar para a policia! – disse tateando o bolso da minha calça e notando que esqueci o telefone em casa – Pode me emprestar seu telefone?
— Claro – respondeu Sheila pegando o telefone no bolso – espera – disse ela parando e pondo o telefone no bolso de novo – para que quer o telefone?
— Para ligar?
— Tia, ainda quero o cupcake... – disse Joyce e eu a belisquei.
— Tudo isso não passou de um mal entendido – disse Sheila vindo para o nosso lado do balcão – explico tudo a festa, vamos ver o bolo?
— Você vai à festa?
— Claro que vou – ela foi até a vitrine de cupcake e pegou um – aqui está, filha.
— Obrigada – disse Joyce dando a primeira mordida em seu cupcake.
Ela começou a andar para mais adentro da loja e eu e Joyce a seguimos, chegamos mais no interior da loja, Sheila nos disse que os bolos da vitrine são apenas esboços de massinha, nenhum deles é real, quer dizer, só os que estavam no refrigerador, que era mais adentro ainda da loja, onde estava o bolo de Jessica.
— O de vocês é esse – disse ela apontando para um grande bolo branco e azul.
— Alguém está surpreso por esse bolo ser grande e azul? – perguntou Joyce com a boca cheia de cupcake.
O som de bolo no ponto ressonou e por instinto olhei para a porta, assim como todo mundo fez, entrou um casal.
— Volto em um segundo – disse Sheila olhando para nós e depois olhando para o casal que se aproximava do balcão – não saião daqui!
Ela andou o mais rápido que suas perninhas puderam para chegar até o casal, dei mais uma grande olhada no bolo de Jessica e depois olhei para Joyce que jogava o copo de seu cupcake no lixo e voltando ao meu lado.
— Vamos Joyce – disse puxando ela pelo braço – eu tenho de denunciar esse pessoal ainda hoje.
— Como está seu coração, Alice? – perguntou Joyce enquanto voltávamos para o salão, tinha parado de chover, ainda bem, isso me poupava sentir o cheiro de Joyce.
— Oque?
— Pros gatões...
Joyce falando de gatões, só me faltava essa.
— Não Joyce, não. – Disse. — Não estou tá legal? — Não gostava do assunto, quando o assunto era amor, não era comigo.
— Ah, Alice. — protestou Joyce — Deixe de ser encalhada. Só vai ter gatões na festa da sua irmã hoje e você em vez de aproveitar e...
— Não se meta na minha vida! Tá legal assim? — Não sei por que disse aquilo.
— Tá, desculpa ó menina solteira — disse Joyce entre uma risadinha.
— Desculpa...
— Q-que? – perguntou ela olhando para mim.
— Vamos ver quem ganha agora! – disse, não daria ela o mesmo gostinho duas vezes.
— Você não aguenta ficar sem falar, Alice.
Tentei sorrir, não sei como consigo não gostar dela, se parar para pensar ela é até legal, mas só se parar.
Entramos no salão, Jessica estava descendo as escadas, ainda.
— Por favor, só não me diz que está ai desde a hora que sai – disse tirando meu casaco e pondo no balcão da recepção de presentes que ficava ao lado da porta dupla.
— Venci, de novo – disse Joyce atrás de mim.
— Olha aqui garota! – disse Jessica descendo as escadas normalmente.
— Finalmente! – disse Fernanda quando ela chegou ao tapete vermelho.
— Obrigada, Alice – disse a loira – Não, não, fique onde está! – disse a organizadora a Jessica – agora você caminha, com passos curtos e lentos até lá – disse ela apontando para frente à mesa do bolo e a do bufê.
— A parte mais fácil – diz Jessica sorrindo e começando a andar, o tapete formou uma dobradura e ela tropeçou nela caindo de cara no chão, todos começaram a rir – não teve graça! – disse ela levantando com a ajuda de minha mãe.
— Teve sim miga-miga – disse Fernanda entre uma gargalhada.
