Eva estava tirando a lama da segunda bota quando Adam bateu à porta.
— O pai quer você no escritório.
Ela olhou para a bota.
A primeira já estava limpa. A segunda resistia como se tivesse desenvolvido uma ligação pessoal com o chão de Hogsmeade.
— Agora?
— Agora.
— Ele sabe que saí de lá há menos de uma hora?
— Deve ter percebido.
Eva pousou a varinha.
— Disse para quê?
Adam olhou para o vestido que ela havia trocado por cima de uma cadeira.
— Estão voltando.
Ela ergueu o rosto.
— Todos?
— Foi o que ele disse.
Eva pegou a bota e tentou outro movimento da varinha. A lama se soltou de uma vez, bateu no espelho e começou a escorrer.
Adam ficou olhando.
O espelho também.
— Uma escolha interessante — comentou ele.
Eva apontou a varinha para o vidro.
— Mais alguma coisa?
— Lucius mandou avisar que chega em quinze minutos.
Ela limpou o espelho.
— Naturalmente. Não pode deixar uma garrafa vazia sem supervisão.
Adam se afastou da porta.
— Vista alguma coisa que não precise explicar.
Damian estava atrás da mesa, de pé.
Eva parou à entrada.
A varinha de Vane continuava sobre o móvel, agora dentro de uma caixa estreita.
Ela esperava que ele tivesse esquecido onde a deixara.
— Adam disse que estão voltando.
— Estão.
— Aqui?
O pai assentiu.
Eva fechou a porta.
— Quer que prepare alguma coisa?
Damian olhou para ela.
— O que aconteceu?
A pergunta não vinha com espaço para uma piada.
Eva se aproximou da cadeira, mas não se sentou.
— Snape foi descoberto escutando a entrevista.
— Por quem?
— Pelo dono.
— E você?
— Estava no térreo, como havia sido combinado.
— Com Bellatrix?
— Sim.
Damian passou a mão pela borda da mesa.
— Foram vistos juntos?
— Na saída.
Ele ergueu os olhos.
Eva continuou antes que perguntasse:
— O dono estava expulsando Severus. Havia gente olhando, Trelawney apareceu na escada e Dumbledore podia sair do quarto. Eu disse que Severus era um conhecido da família e que tinha ido reclamar da minha consulta.
O pai ficou em silêncio.
Eva ouviu o relógio junto à estante.
— Você deu seu nome?
— Não.
— Usou algum feitiço?
— Não.
Damian olhou brevemente para a caixa.
Eva cruzou os braços.
— Podemos guardar isso em outro lugar?
— Estamos esperando que Vane venha buscar.
— Mande por coruja.
— Ele quer conversar.
— A coruja pode escutar.
O pai não sorriu.
Eva baixou os braços.
— Não usei feitiço algum — repetiu. — Saímos andando. Depois tivemos que passar por um homem que conhecia Bellatrix. Ele não nos seguiu.
Damian se sentou.
— E agora trazem o Mestre à minha casa.
Eva sentiu uma pequena mudança no estômago.
Até aquele momento, “todos” significara Snape, Bellatrix e Lucius.
— Ele vem?
— Bellatrix avisou.
Ela olhou para a porta.
— Adam sabe?
— Está cuidando da entrada.
Eva tornou a atenção para o pai.
Damian a observava com uma expressão que ela conhecia das vezes em que se machucara fazendo alguma coisa que não deveria.
Isso a irritou mais do que uma repreensão.
— Não é por causa da retirada — disse.
— Então por quê?
Eva abriu a boca.
As palavras de Bellatrix voltaram antes das outras.
Não fale com ninguém.
— Severus ouviu alguma coisa importante.
— O quê?
Ela encontrou os olhos do pai.
Damian percebeu a hesitação.
Recostou-se.
— Não lhe disseram que podia me contar.
— Disseram que não contasse a ninguém.
Houve uma pausa.
— E você está cumprindo.
Eva assentiu.
O pai olhou para a caixa sobre a mesa.
Depois se levantou e a guardou numa gaveta.
— Então prepare a sala menor. Não o salão.
Ela se virou para sair.
— Eva.
Parou.
— Só entre se for chamada.
Lucius chegou antes dos outros.
Eva estava junto à porta da sala menor, orientando um elfo que carregava uma bandeja.
— Chá — disse ela. — Café. Água.
O elfo assentiu.
Lucius tirou as luvas.
— Nada de vinho?
Eva olhou para ele.
— Estamos tentando evitar outro incidente.
— Uma pena. Seu pai tem uma adega excelente.
— Estamos começando a desconfiar da idade de parte dela.
Lucius lhe entregou o casaco.
Eva o aceitou por reflexo.
Olhou para a peça.
Depois para ele.
Lucius já estava examinando a sala.
Ela chamou o elfo e passou o casaco adiante.
— Você voltou depressa — disse ele.
— O Cabeça de Javali também pareceu satisfeito com a duração da visita.
Lucius virou-se.
— Severus foi visto?
— Foi descoberto à porta do quarto.
— Dumbledore o viu?
— Viu quando chegou. Não sei se o viu depois.
— E você?
Eva se apoiou no batente.
— O dono já me conhecia de ontem.
Lucius ficou olhando para ela.
— Imagino que tenha sido convincente.
Ela demorou um instante.
— A consulta ou a saída?
— As duas, espero.
Antes que Eva respondesse, Adam apareceu no corredor.
Seu rosto bastou.
Lucius deixou de examinar a sala e foi recebê-los.
Eva se afastou da porta.
O Mestre entrou primeiro.
Snape vinha logo atrás, com Bellatrix ao lado. Não havia nada em sua aparência que anunciasse uma descoberta extraordinária. As vestes eram as mesmas, o cabelo continuava caindo junto ao rosto e ele parecia preferir estar em qualquer lugar onde ninguém lhe perguntasse nada.
Eva se perguntou se Bellatrix já ouvira o relato outra vez.
Se havia feito perguntas.
Se Snape respondera a todas.
Damian se aproximou.
— Meu Lorde.
O Mestre passou os olhos pelo corredor.
Eva inclinou a cabeça.
— A sala está pronta.
Ele olhou para a porta que ela indicava e seguiu.
Bellatrix passou perto dela.
Eva esperou algum gesto.
Recebeu apenas uma pergunta:
— Seu pai sabe?
— Que Severus ouviu uma coisa importante.
Bellatrix assentiu.
Entrou.
Snape foi atrás.
Lucius se deteve junto à porta.
— Eva também deve prestar seu relato.
Ela olhou para ele.
Damian, alguns passos adiante, voltou o rosto.
O Mestre já estava na sala.
— Entre — disse Voldemort.
Eva precisou lembrar de mover os pés.
A sala menor tinha sido escolhida para conversas que não comportavam muita gente. Damian usava-a para negócios, e Lowri a usara, anos antes, para receber visitas de que gostava de verdade.
Eva tinha retirado um vaso da mesa e afastado duas poltronas.
Ainda assim, com todos ali, o espaço parecia diferente.
O Mestre se sentou junto à lareira.
Bellatrix permaneceu de pé ao lado da janela.
Lucius tomou a cadeira mais próxima da porta.
Damian esperou até que o Mestre lhe indicasse um lugar.
Eva ficou junto à mesa de chá.
Snape estava diante da lareira, com as mãos imóveis ao lado do corpo.
— Comece — disse Voldemort.
Snape ergueu o rosto.
— Dumbledore foi ao Cabeça de Javali entrevistar uma candidata ao posto de professora de Adivinhação. Sybill Trelawney.
— Uma candidata a professora.
— Sim, meu Lorde.
Lucius ajeitou um dos punhos.
Eva prestou atenção em Snape.
— A entrevista aconteceu num quarto do andar superior. Eu me aproximei da porta. A conversa parecia comum até a voz dela mudar.
— Mudar como?
— Ficou mais baixa. Mais áspera. As frases vinham sem hesitação.
O Mestre inclinou levemente a cabeça.
— E o que ela disse?
Snape repetiu a primeira parte.
Falou de alguém que se aproximava, capaz de derrotar o Lorde das Trevas. De pais que o haviam desafiado três vezes. De um nascimento quando o sétimo mês chegasse ao fim.
Eva ouviu as palavras de novo e descobriu que não soavam menos absurdas numa sala bem iluminada.
O Mestre não se moveu.
— Depois disso?
— Fui descoberto.
Lucius parou de mexer no punho.
— Você não ouviu o resto — disse Voldemort.
— Não, meu Lorde.
— Tem certeza de que havia mais?
Snape levou um instante para responder.
— Ela continuava falando quando o dono me afastou da porta. Não consegui distinguir as palavras.
Bellatrix olhava para o Mestre.
Eva olhava para Snape.
Pela primeira vez desde que o conhecera, ele parecia escolher o que dizia com cuidado suficiente para admitir o que não sabia.
— Repita — ordenou Voldemort.
Snape repetiu.
Eva percebeu que Lucius agora escutava sem tentar parecer ocupado.
O Mestre fez Snape repetir uma terceira vez.
Na quarta, interrompeu-o depois da referência aos pais.
— Três vezes.
— Sim, meu Lorde.
— Foi esse o número?
— Foi.
Voldemort passou um dedo pelo braço da poltrona.
Eva sentiu vontade de olhar para o pai.
Não olhou.
— Você o anotou?
— Depois de sair, meu Lorde.
Snape tirou um pergaminho do bolso.
Eva não sabia quando fizera aquilo.
Possivelmente enquanto ela reclamava da missão.
O Mestre estendeu a mão.
Snape se aproximou e entregou a folha.
A letra era pequena, apertada.
Voldemort leu.
— Muito bem, Severus.
O nome ficou na sala.
Eva sentiu uma irritação tão imediata que precisou ocupar as mãos com a alça da própria bolsa.
Tinha conseguido o horário.
Tinha identificado a candidata.
Tinha impedido Bellatrix de se aproximar da escada e inventado uma explicação diante de todos.
Severus.
O Mestre ergueu os olhos do pergaminho.
— Uma informação que pode ser de grande importância.
Snape inclinou a cabeça.
Não sorriu.
Eva decidiu que teria sido pior se sorrisse.
Não ficou menos irritada.
— Como você foi descoberto? — perguntou Voldemort.
Snape endireitou-se.
— O dono subiu levando uma bandeja.
Lucius virou ligeiramente o rosto para Eva.
Ela percebeu.
Bellatrix também.
— Estava na função de ouvir — disse Lucius. — As demais posições deveriam permitir algum aviso.
Eva soltou a alça da bolsa.
— Eu vi quando ele pegou a bandeja.
Todos olharam para ela.
Sua boca secou.
— Tentei atrasá-lo com uma reclamação sobre a bebida. Ele voltou até mim, mas não deixou a bandeja. Subiu logo depois.
Voldemort a observou.
— Você não conseguiu impedi-lo.
Eva ouviu a própria resposta sair sem enfeite.
— Não, meu Lorde.
A expressão dele não mudou.
Ela se arrependeu, por um instante, de não ter encontrado alguma explicação melhor.
Bellatrix falou:
— Impedi-lo à força teria interrompido a entrevista de qualquer maneira.
Lucius olhou para ela.
— Havia outras formas de criar uma distração.
— E chamar a atenção de Dumbledore para o salão?
Ele não respondeu imediatamente.
Eva teve vontade de agradecer.
Não era hora.
— O dono o expulsou? — perguntou Voldemort a Snape.
— Sim, meu Lorde.
— Viu os outros com você?
Eva respirou fundo.
— Viu, meu Lorde. Eu me aproximei para dar uma explicação.
— Qual?
— Disse que Severus era um conhecido da família e que estava insatisfeito com a consulta que eu fizera no dia anterior.
Lucius olhou para Snape.
— Insatisfeito com uma consulta.
Snape não desviou os olhos do Mestre.
— Foi a explicação que ela ofereceu.
Eva sentiu o rosto esquentar.
— Trelawney estava olhando da escada — acrescentou. — Ela me reconheceu. A consulta era real.
Voldemort pousou o pergaminho sobre o joelho.
— Você consultou a mulher?
— Para falar com ela sem fazer perguntas diretamente sobre Dumbledore.
— E o que ela previu para você?
Eva ficou em silêncio.
Bellatrix olhou para ela.
Snape também.
— Que deveria evitar decisões importantes quando estivesse inquieta, meu Lorde.
O Mestre a examinou por um instante.
— Um conselho que não exige grandes dons.
Eva baixou os olhos.
Não soube se podia sorrir.
Preferiu não descobrir.
Bellatrix relatou o encontro na rua.
Falou do homem que poderia reconhecê-la, da aproximação dele e da discussão inventada por Eva.
Não mencionou o pulso segurado no corredor.
Nem a maneira como Eva lhe tocara o casaco.
— Ele aceitou a explicação? — perguntou Lucius.
— O suficiente para nos deixar passar — respondeu Bellatrix.
— Poderia ter sido confundido.
— Poderia ter lembrado de uma lacuna na conversa e procurado saber por quê.
Lucius se recostou.
Eva percebeu que nenhuma das respostas de Bellatrix era dada com gentileza.
Ainda assim, era a segunda vez que ela a impedia de ficar sozinha diante de uma falha.
O Mestre voltou a atenção para Snape.
— Dumbledore sabe que você ouviu?
— Pode saber que eu estava à porta. Não sabe quanto ouvi.
— Não volte ao Cabeça de Javali.
— Sim, meu Lorde.
Voldemort guardou o pergaminho dentro das vestes.
Eva acompanhou o movimento.
A informação deixara de ser de Snape.
Mas o feito continuava sendo.
— Lucius, reúna o que temos sobre aqueles que nos enfrentaram mais de uma vez.
— Naturalmente, meu Lorde.
— Sem anunciar o motivo.
— Sim.
O Mestre olhou para Bellatrix.
— Você irá comigo.
Ela já estava se afastando da janela.
Damian levantou-se.
Eva deu um passo para liberar o caminho.
Voldemort parou diante de Snape.
— Fez bem em trazer isso imediatamente.
— Estou a seu serviço, meu Lorde.
Eva sentiu o pai aproximar-se ao seu lado.
O Mestre passou por ela.
Não houve outro elogio.
Quando a porta de entrada se fechou, Damian ficou olhando para o corredor.
Lucius ainda estava na sala menor.
Snape também.
Eva teve a impressão de que todos haviam sido deixados com uma tarefa, embora a dela fosse apenas guardar as xícaras.
O pai voltou-se para Lucius.
— Precisa de alguma coisa da nossa parte?
— Talvez mais adiante. Por enquanto, é melhor que esta visita não seja comentada.
Damian assentiu.
Eva pegou uma xícara que ninguém havia usado.
— Vou mandar retirar isto.
— Deixe para os elfos — disse o pai.
Ela pousou a xícara.
Lucius se levantou e olhou para Snape.
— Uma noite proveitosa.
Snape inclinou a cabeça.
— Espero que sim.
— Você terá outras oportunidades de demonstrar sua utilidade.
Eva percebeu que Lucius falava com ele de maneira diferente da usada durante a preparação.
A diferença era pequena.
Não a impedia de ser desagradável.
Um elfo apareceu à porta com uma garrafa.
Eva olhou para o rótulo.
— Quem pediu isso?
— O senhor Malfoy, senhorita.
Lucius se voltou.
— Seu pai insistiu que eu levasse a outra.
Damian olhou para a garrafa.
Depois para a filha.
— Insisti?
Lucius aceitou-a do elfo.
— Foi muito generoso da sua parte.
Eva teve vontade de dizer que poderia fazer a garrafa sair andando.
Em vez disso, foi até a porta.
— Seu casaco está na entrada.
Lucius sorriu.
— Sempre tão atenciosa.
Ela abriu caminho.
Snape saiu da sala alguns minutos depois.
Eva estava no corredor, esperando que um elfo terminasse de recolher as bandejas.
Poderia ter subido.
Sabia disso.
Quando ele apareceu, ela encostou-se à parede.
— Meus parabéns.
Snape parou.
Seu olhar passou pela expressão dela.
— Obrigado.
Eva apertou os lábios. Ele podia ao menos ter parecido satisfeito.
— Imagino que tenha sido uma surpresa agradável.
— Ouvir que alguém poderá derrotar o Lorde das Trevas?
Ela apertou os lábios.
— Ser reconhecido.
Snape olhou para a escada.
— Você estava na sala.
— Estava.
— Então ouviu o que ele disse.
Eva sentiu a irritação subir.
— Também ouvi o que Lucius disse.
— Lucius fala bastante.
— Principalmente quando a tarefa dos outros não sai como ele esperava.
Snape voltou os olhos para ela.
Houve uma pausa.
— Você tentou atrasar o dono.
Eva não respondeu.
— Eu ouvi — acrescentou ele.
Ela franziu a testa.
— Minha reclamação sobre a cerveja?
— Era difícil não ouvir.
— Não serviu de muita coisa.
— Serviu por alguns instantes.
Eva olhou para o rosto dele.
— Você estava à porta antes de ele subir?
— Estava.
— Então ouviu—
Snape a interrompeu.
— Não sei se teria ouvido o mesmo sem a interrupção. Ela poderia ter começado a falar antes. Poderia ter começado depois.
Eva ficou em silêncio.
— A explicação na saída foi desnecessária — disse ele.
Eva soltou o ar.
— Estava esperando por essa parte.
— Mas o dono parou de olhar para a outra mesa.
Ela ergueu os olhos.
Snape ajeitou o colarinho.
— Bellatrix não chegou a ser vista por Dumbledore.
Eva demorou um instante para responder.
— Era a intenção.
Ele assentiu.
Começou a se afastar.
— Severus.
Parou.
Era a primeira vez que ela o chamava pelo nome sem precisar fingir alguma coisa diante de terceiros.
Eva não sabia o que dizer em seguida.
Escolheu o mais simples.
— Você está preocupado?
Snape olhou para ela.
A pergunta pareceu surpreendê-lo.
— Com o quê?
Eva pensou na profecia.
Na maneira como Voldemort perguntara sobre o número.
— Com o que isso significa.
Snape demorou um pouco.
— Preocupo-me em não repetir errado.
Ela assentiu.
Ele seguiu até a entrada.
Eva ficou no corredor enquanto o elfo passava com a última bandeja.
No desjejum seguinte, Adam olhou para ela por cima da xícara.
— Dormiu?
— Sim.
— Muito?
— O suficiente para responder a perguntas melhores.
Ele empurrou um prato de pão em sua direção.
— O pai quer que escreva seu relato.
Eva puxou o prato.
— Já contei.
— Ele quer por escrito.
— Foi Lucius quem pediu?
Adam hesitou.
Eva fechou os olhos por um instante.
— Naturalmente.
— Disse que seria útil para futuras operações.
— Espero que a próxima envolva uma hospedaria com cerveja limpa.
O irmão sorriu.
Depois olhou para a cadeira vazia de Damian.
— Foi importante?
Eva cortou um pedaço de pão.
— Foi.
— O que Snape ouviu?
Ela pousou a faca.
Adam entendeu antes que respondesse.
— Certo.
Eva passou manteiga no pão com mais cuidado do que precisava.
— Todos receberam alguma coisa para fazer — disse.
— E você recebeu o relatório.
Ela olhou para ele.
— Não é a mesma coisa.
Adam recostou-se.
— Você queria o quê?
Eva tinha respostas prontas.
Queria que Lucius parasse de tratá-la como uma aposta que ainda precisava ser avaliada.
Queria que o Mestre lembrasse de seu nome.
Queria que Bellatrix tivesse ficado.
Nenhuma delas parecia boa para dizer em voz alta.
— Não sei — respondeu.
Adam a observou por um instante.
— Você sempre sabe.
— Talvez seja um defeito.
Ele sorriu.
— Não vou discutir uma descoberta tão recente.
Eva escreveu o relatório depois do almoço.
Começou pela consulta e chegou à retirada.
Riscou “Snape foi descoberto apesar de”.
Escreveu “Snape foi descoberto quando”.
Ficou olhando para a diferença.
Depois terminou.
Não incluiu a profecia.
Não a ouvira na hospedaria. Não podia registrar como observação uma coisa que lhe haviam contado depois.
Quando dobrou o pergaminho, um elfo apareceu à porta.
— A senhorita Black está esperando na sala menor.
Eva levantou-se tão depressa que a cadeira bateu na parede.
O elfo olhou para ela.
Eva alisou a frente do vestido.
— Diga que já vou.
Esperou que ele desaparecesse.
Contou até dez.
Achou uma estupidez.
Desceu.
Bellatrix estava diante da lareira apagada.
Não havia bebida alguma sobre a mesa.
Eva parou à porta.
— Veio buscar um relatório?
Bellatrix olhou para o pergaminho em sua mão.
— Você escreveu um?
— Recebi instruções.
— De Lucius?
Eva assentiu.
Bellatrix estendeu a mão.
Eva entregou.
Enquanto ela lia, Eva se sentou no braço de uma poltrona.
Era melhor do que ficar de pé esperando.
Bellatrix virou a folha.
— Você não mencionou o que Severus ouviu.
— Não ouvi pessoalmente.
Ela ergueu os olhos.
Eva sustentou o olhar.
Bellatrix tornou ao texto.
O silêncio demorou.
Eva começou a examinar a costura da manga.
— Lucius deve ficar satisfeito — disse. — Há duas oportunidades de apontar que eu não consegui impedir o dono.
— Há uma.
Eva olhou para ela.
— A segunda é uma retirada que funcionou.
Bellatrix dobrou o pergaminho.
— Não inteiramente discreta — acrescentou.
Eva soltou uma risada sem muita alegria.
— Agora reconheço a avaliação.
Bellatrix colocou o relatório sobre a mesa.
— Você estava zangada ontem.
Eva se endireitou.
— Estava?
— Está me perguntando?
Ela ficou quieta.
Bellatrix deu alguns passos pela sala.
— Severus ouviu a profecia.
— Eu sei.
— Então pare de agir como se ele tivesse tirado alguma coisa sua.
Eva olhou para o pergaminho.
— Ele não foi sozinho.
— Ninguém disse que foi.
— Lucius pareceu muito interessado em explicar por que ele quase não conseguiu.
Bellatrix parou diante dela.
— Lucius queria que a missão parecesse bem conduzida.
Eva ergueu os olhos.
— Por ele.
Bellatrix não respondeu.
Não precisava.
Eva desceu do braço da poltrona.
— Eu consegui o horário. Identifiquei Trelawney. Dei uma explicação quando o dono o arrastou para o salão. Tirei vocês da rua.
— Sim.
— E no fim—
— No fim, Severus tinha uma informação que você não tinha.
Eva fechou a boca.
Bellatrix continuou olhando para ela.
Não parecia querer magoá-la.
Isso tornava mais difícil decidir como responder.
— Eu poderia ter ouvido — disse Eva.
Bellatrix inclinou levemente a cabeça.
— Mas não ouviu.
Eva desviou os olhos.
A janela estava fechada. No jardim, um homem recolhia galhos quebrados perto do caminho.
Ela se lembrou do frio.
Do vestido branco.
Da própria certeza, deitada na cama.
— Não gosto de ser tratada como alguém que estava sobrando — disse.
Bellatrix ficou em silêncio por um instante.
Depois apontou para o relatório.
— Então escreva melhor. Não vou disputar o elogio dele por você.
Eva tornou a olhar para ela.
Bellatrix pegou o pergaminho.
— Lucius terá o horário confirmado, a descrição da candidata, a exposição de Severus e a explicação que usamos para sair. Se tentar omitir a última parte, vou fazê-lo ouvir de novo.
— Você vai entregar?
— Vou.
Eva sentiu uma pequena satisfação.
Tentou não deixá-la aparecer cedo demais.
— E a avaliação?
Bellatrix se aproximou da porta.
— Você demorou a sair depois de pagar.
Eva a acompanhou.
— O dono estava fazendo perguntas.
— Não precisava responder a todas.
— Se eu tivesse saído correndo, seria pior.
Bellatrix parou no corredor.
Eva quase esbarrou nela.
— Não disse para correr.
A proximidade a fez perder por um instante o resto do argumento.
Bellatrix olhou para sua boca.
Ou para a palavra que não saía dela.
Eva não conseguiu decidir.
— E na rua? — perguntou.
Bellatrix ergueu os olhos.
— Na rua, foi útil.
— Só útil?
Um canto da boca dela se moveu.
— Está negociando o adjetivo?
Eva sorriu.
— Gosto de avaliações completas.
Bellatrix deu um passo para trás.
— Então aprenda a reconhecer a parte que lhe cabe.
O sorriso de Eva diminuiu.
Bellatrix ergueu o pergaminho.
— Esta parte foi sua.
Eva ficou no corredor depois que Bellatrix saiu. Pela primeira vez desde Hogsmeade, não tentou imaginar como teria sido a missão se estivesse à porta do quarto.
Subiu para guardar a cópia do relatório. Na margem da última página, acrescentou a avaliação da retirada.
Não precisou inventar o adjetivo.



