Estamos na primavera, portanto o clima é ameno. Ainda assim, sentia o suor escorrer pelo meu rosto como se fosse um insuportável calor de tarde de verão enquanto minhas pernas tremiam tal como ocorre no inverno.
O coração palpitava descontrolado. O que me esperava atrás dos portões?
Não podia ficar muito tempo ali, tinha que entrar, caso contrário me atrasaria no primeiro dia de aula na escola nova.
Acabei de mudar com os meus pais para esta cidade por causa do trabalho deles.
Mais ou menos uma semana atrás tive que fazer as malas e vir para este lugar.
À medida que minha mãe procurava um colégio, eu buscava por um emprego de meio período. Mas não gosto de falar sobre isto com ninguém...
Enfim... cá estou, frente a Sweet Amoris, cansada por ter coberto o turno no sábado da Cecília, que passou mal devido ao seu péssimo hábito de ficar até tarde limpando os fundos do estabelecimento. Hesitando, entrei pelo pátio e fui até o grêmio, onde soube que estaria minha ficha de inscrição.
Passei por um corredor deserto e cogitei a ideia de ter chegado demasiado cedo. Bati algumas vezes fracamente na porta e, penetrando a sala timidamente, encontrei um jovem rapaz muito bem arrumando a papelada.
– Com licença, você deve ser o diretor... estou procurando a minha documentação...
– Ah! Você é a Mavi, certo? Estava tentando encontrar o seu registro, mas aqui está uma bagunça. A propósito, sou Nathaniel, o representante da sala A, o presidente do conselho estudantil e seu novo colega.
– Desculpe-me! Achei que fosse o... me desculpe!
– Não se preocupe.
– Hã...
– Quanto a sua inscrição... não está completa... falta uma foto de identidade e a taxa de vinte e cinco dólares.
– Eu... espere... tenho o dinheiro no fundo da mochila... só um minuto...
– Acho melhor entregar juntamente à foto para a diretora. Ela tem melhor controle sobre isto.
– Sim, desculpa novamente.
– Não é nada.
– Só é necessário isso mesmo? Eu a preenchi e não sabia bem ao certo como se fazer...
– Sim, de qualquer modo, é bom ver uma aluna responsável aqui.
– ...
– Antes que me esqueça, seja bem-vinda.
–Obrigada.
Voltei para o corredor pensando onde raios encontraria uma foto de identidade.
– Talvez alguém conheça...
Desci as escadarias e vi, de longe, sentado no banco um outro garoto de estilo estranho com olhos castanhos e cabelos vermelhos, ( não eram ruivos, eram VERMELHOS, VER-ME-LHOS!) aparentando estar nervoso.
– Por favor... conheces algum local, no qual posso tirar uma foto de identidade?
– Tenho cara de Google?
– ...
– Aff! Uma novata, né?
– Sim, perdão por tê-lo importunado.
– Desconhece a minha língua?
– Como?
– Fale normalmente.
– Por obséquio, desconsidere qualquer incômodo que te proporcionei.
– Serio?
– Algum problema?
– Você é mais uma nerdzinha... o Nath deve ter adorado...
– E há algo de errado nisso?
– Agora resolve conversar como um ser humano?
– Presumo que você não vá me ajudar... neste caso, tchau.
– Então a senhorita também pode ser respondona...
– Acabou?
– Diga-me você, que veio me encher o saco.
– É sempre tão educado?
–Sim, é um prazer conhecê-la.
– O prazer é meu...
Dei as costas e pude ouvi-lo rir da minha performance mais que ridícula... o que tinha na cabeça? Confrontar um cara como ele... o mais prudente será manter a maior distância dele... eu vou me esforçar para isso...
Retornava para a sala, procurando mais informações quando encontrei um trio de garotas, as quais vieram logo de modo imponente:
– Abra caminho.
– Claro. – saí do percurso.
– Pelo menos é obediente...
– Não abuse da minha paciência...
– Mais uma coisa: não dê em cima do Nathaniel, ouviu bem?
– Não me perturbe com suas asneiras...
– Quem pensa que é?
– Só deixe-me em paz...
– Hump! – empinou o nariz jogando meus livros no chão.
– Mais uma fútil... – abaixava-me.
– Mavi!!! Precisa de ajuda?!!!
– Hum?!- estranhei a voz familiar.
–Sou eu!
– Kentin?! O que faz aqui?!
– Eu estudo aqui! Transferi-me meses atrás...
– É ótimo vê-lo! No mínimo, não estou sozinha nesta escola...você citou que veio para cá a um tempo atrás?
– Sim, por quê?
– Como conseguiu sua foto de identidade?
– Num mercado aqui perto...
– Que horas são...?
– Seis e quarenta.
– Se eu correr...
– Correr?
– Espere um pouco...
– O que planeja fazer?
– Terminar isto antes da aula iniciar...
– Isto...?
Nem tive tempo de lhe responder. Pulei os degraus da escadaria e atravessei às pressas o pátio, saindo dos limites da academia. Virei a esquina e dei a volta no quarteirão vizinho até encontrar um supermercado de paredes amarelas.
Fui atendida por um simpático vendedor que levou-me para o depósito e tirou uma foto minha, a qual ficou deveras ruim, porém não havia como arranjar outra.
Voltei para o colégio e encontrei o representante, quem me entregou a folha e deu mais algumas instruções.
– A diretora está no andar de baixo...
– Obrigada!
Assim que deparei-me com uma senhora de terno e saia rosa, tentei devolver-lhe os documentos.
– Minha cara, não posso aceitar esta papelada desarrumada! Ache um clips ou grampeie...
– Pois não.
Encontrei um clips numa das mesas e rapidamente, retornei e restituí-lhe tudo.
– Agradecida. Acabou de se tornar uma aluna oficial daqui, bem-vinda.
– Bom dia, diretora.
– Bom dia, Mavi.
O sinal tocou e fui para a classe apressada.
O conteúdo das matérias era complicado, todavia pude acompanhar facilmente. Como de costume, sentei no fundo e na última carteira.
Demoraria para criar amizades...
Ao contrário de confusões...
– Olá! Chamo-me Íris...
– Oi, meu nome é Mavi.
– Mavi?
– Em turco é azul... minha cor favorita.
– Que interessante! Nossa! Quase duas horas! Tenho que ir! Até amanhã!
– Até!
–E então...- aproximava-se Ken- tem algo programado para agora? As aulas já terminaram... e estava pensando que podíamos passear...
– Devo sair às duas em ponto para cumprir com um compromisso, até lá... tenho quinze minutos. Quer caminhar pelo colégio?
– Sim! Aceita?
– Por que não?
Andamos por alguns minutos e me despedi.
– O que vai fazer?
– Ir num lugar...
– Quer que te acompanhe?
– Não!
– ...
– Perdão, é importante... adeus!
–------
Naturalmente, minhas companheiras me aguardavam na porta do café.
– Tudo bem, Mavi? Parece exausta. – perguntou Lila.
– Primeiro dia de aula.
– Sei como é...- concordou Misa.
– Vamos deixar isto de lado...o tempo é precioso!
–Tem razão, descanse e vista-se, ok? Pode vir daqui vinte... – dizia Rose.
– Não é preciso! Vou me trocar agora mesmo!
– Mas...
– Fique tranquila, estou cheia de energia!
– Essa Mavi... sempre animada! – sorriu Rose.
No vestuário, tirei o uniforme branco e preto do armário e ajeitei o penteado na frente da penteadeira. Quando terminei, fui diretamente para o salão.
“Bem-vindo mestre.”.
“Posso ajudar, mestre?”.
“O que gostaria de pedir, mestre?”.
“Boa viagem, mestre.”.
M
E
S
T
R
E
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–Ahhhh... oito e meia... fechemos o café. – optava Misa.
– Hum... tem mais um cliente...? Pode atender, Mavi? Estamos já trocadas... e sabe como o patrão é... “um cliente perdido...”
– É um negócio perdido, eu sei, Rose. Só um segundo... – ia ao encontro da porta de entrada – Seja bem-vindo, mestre.
– Quanta gentileza, Mavi...
– Meu verdadeiro nome...- levantava o rosto inquieta – Cas...Castiel?!


