Com uma vitória e uma ótima história para contar, Lisye, Julienly e a meia elfa regressavam pela floresta que rodeava o castelo. Deveriam, agora, avisar sobre o ocorrido a população de Draynor, que ficava alguns quilômetros dali. O rapaz que lhes pediu ajuda, em Varock, havia prometido uma boa recompensa se conseguissem derrotar Lorde Lanfour e voltassem com vida. Agora, bastava percorrer uma longa estrada de terra até avistar a entrada da pequena vila. Não tinha como errar.
A floresta não as atacou como da última vez. Tudo agora parecia mais tranquilo. Havia pássaros cantando e outros animais voltaram a sua rotina, mesmo com a chuva fina, que lhes molhavam o rosto dos quais sorriam e demonstravam confiança. Conversaram, alegremente, por todo o percurso.
– Gostaria de saber qual será a recompensa! – Comentou Julienly – Um monumento na praça da cidade? Um pedaço do território? ...Baús de ouro?!
– Frango assado...? – Complementou Libria, sonhadora.
– Draynor é apenas uma pequena vila! – Riu Lisye – O máximo que poderiam fazer é nos conceder algumas moedas ou, quem sabe, medalhas de honra. – Mas não importa. Saberemos quando chegarmos lá.
– Aliás, — Começou Julienly — Lisye, o que você quis dizer quando disse "A espada foi feita especialmente para mim"? Eu tentei pegá-la no bosque e ela soltou eletricidade! — Lisye recordou-se do acontecido. Ela havia deixado sua espada cair no chão quando foi pêga pelas raizes e Julienly tentou pegá-la.
– A minha espada... — Ela tocou o cabo da espada, presa em sua cintura — Eu ganhei ela do meu pai quando completei 16 anos. Meu pai era um dos melhores ferreiros de Guilenor, porém, confeccionava apenas para merecedores. Uma das características das suas armas era que elas funcionavam apenas com o dono e eram a capacidade de funcionar com magia. — Libria desviou o olhar para o cabo da espada de Lisye — Eu não entendo muito bem como isso pode acontecer pois... Meu pai morreu antes de passar o segredo para mim.
– Sinto muito — Jullienly sentiu certo arrependimento por ter perguntado sobre o passado de Lisye — Mas devo dizer que seu pai devia ser brilhante.
– Eu posso ver o cabo da sua espada, Lisye? — Perguntou Libria
– Claro, mas você não vai conseguir segurá-la. Eu seguro para você. Aqui.
– Isso no cabo... — Libria comprimiu os olhos — Isso são escrituras rúnicas. Lisye. Seu pai sabia escrever runas.
Lisye deu de ombros — Ele nunca falou nada sobre para mim.
– Você disse que conhecia um Altar Rúnico nas Terras Selvagens, não é?
– Sim. Meu pai costumava ficar dias fora. Minha mãe dizia que ele estava no Altar Rúnico das Terras Selvagens e havia um mapa. Ela me mostrou uma vez e eu guardei a localização.
– Incrível! — Julienly estava acompanhando tudo, muito interessada.
– Interessante. Nós precisamos saber mais sobre isso! — Decidiu Libria
– Sim. Seria de muita importância para mim conhecer mais sobre essa habilidade que meu pai tinha. Podemos procurar mais sobre isso depois. Primeiro, temos que chegar em Draynor. -
– Certo.
Lisye notou que a chuva cessara quando o jardim do castelo terminou. Agora caminhavam sobre uma estrada estreita, sem asfalto. As nuvens foram substituídas por um lindo céu de alvorada e aquilo pareceu ter concretizado o fim do tormento. Perguntou-se se os moradores de Draynor haviam concluído o mesmo. Ao longe, um belíssimo arco-íris surgiu entre as nuvens. Libria nunca tinha visto algo parecido e tentou correr para tentar alcança-lo. Jullienly riu quando Lisye tentou explicar o que eram os arcos íris, sem sucesso. A meia elfa preferiu acreditar que algo tão belo, só poderia ser feito com magia. O que não era muito diferente, refletiu Lisye.
Não chegaram a caminhar muito. No fim do longo caminho havia um fino arco de madeira que sustentava uma placa com o nome “Draynor”, como em uma saudação. Logo abaixo dele, havia um grupo de pessoas que, curiosas, comprimiam os olhos pequenos para poder enxergar quem estava vindo.
– São elas! – Gritou um deles. — Eu disse que conseguiriam Thomas! Os tempos mudaram, meu caro!
– Eu não acredito! – O outro ergueu a vista para poder ver melhor. – Eu não acredito! – E gritavam tão alto que nossas protagonistas conseguiam ouvi-los daquela distância. Todos pareciam estar esperados pela sua chegada. Um grupo de comerciantes, mulheres, crianças, pescadores e forasteiros estavam lá. Amontoados, como se estivessem esperando por uma grande notícia. E Lisye já sabia que a receberam. Alguns correram ao encontro delas, sorrindo ou chorando e nenhuma delas sabia como reagir em meio a tanta felicidade: Não sabiam se agradeciam ou se apenas um “por nada” bastava. Limitaram-se a rir e acenar para os que continuavam observando um pouco mais distantes, incrédulos. Logo, o rapaz que iniciou aquilo tudo surgiu meio à multidão.
– Eu não posso acreditar... – O viajante, morador de Draynor que procurava por Dr. Harlow em Varrock, tinha os olhos brilhantes — Por favor! Digam-me! Vocês conseguiram exterminar o vampiro!? – E Lisye o contou tudo. Toda a história e seus pequenos detalhes, observando atentamente as expressões da plateia. Alguns pareciam chocados, outros ouviam atentamente, porém ansiosos pelo término. Mas nenhum deles estava infeliz. Todos esboçavam uma expressão de tranquilidade e certeza de que agora estava tudo bem. E isso, de certa forma, bastou para recompensar Lisye.
Jullienly acompanhava a história sempre completando com os detalhes, como se ela mesma não pudesse acreditar no ocorrido. Libria apenas acenava com a cabeça, concordando. Quando Lisye terminou, a multidão aplaudiu e comemorou.
– A propósito, meu nome é Morgan! – E o homem que lhes entregou a missão se apresentou – É uma grande honra recebe-las de volta. Por favor, em nome dos moradores de Draynor, fiquem esta noite para festejar e... Vocês estão encharcadas! Precisam de um lugar para passar a noite, certo?
– Eu preciso de um banho. – Jullienly referiu-se ao seu cabelo, sujo de cinzas e com cheiro forte de fumaça.
– Agradeço a hospitalidade de vocês. – Lisye curvou-se.
– Estejam à vontade! A vila de Draynor será eternamente grata. E como forma de gratidão, sempre que necessitarem, terão nossa hospitalidade. É o que podemos oferecer. E ficarão para as festividades?
– Festa!? – Animou-se Libria – Com certeza, senhor Morango!
– Morgan.
– Estaremos aqui. – Concordou Lisye, com um sorriso.
Morgan as levou até uma pequena hospedaria que não parecia ter mais do que dois quartos. O dono da estalagem era um senhor idoso e baixo, com óculos tão grossos que faziam seus olhos ficarem gigantes. Depois de agradecer em nome de sua vila, entregou a chave de um dos quartos nas mãos de Libria. O quarto ficava no segundo andar, havia apenas uma janela, ao norte que mostrava a praça: Os preparativos para a festa estavam sendo concluídos. Doces crianças dançavam ao centro, felizes como Lisye nunca tinha visto antes. Suas mães preparavam a mesa do banquete enquanto os comerciantes desfaziam as tendas para as substituírem por um pequeno palco e espaço para dança.
– São muito acolhedores. – Comentou Lisye.
– Eu estou tão animada! Eu nunca participei de um festival antes! – Libria olhava pela janela, acenando algumas vezes para os moradores que as notavam – Em Isafdar eu podia ouvir as músicas, mas minha mãe nunca me deixava sair. Era agonizante. – Ela franziu as sobrancelhas.
– Também mal posso esperar. Há muito tempo não participo de festas. – Disse Jullienly. – Preciso me aprontar. Banho, banho, banho, banho... – E cantarolou a palavra enquanto se lavava. Lisye e Libria continuaram á janela vendo o movimento ficar cada vez maiores à medida que os moradores chegavam para festejar.
O céu já estava escuro quando as três saíram. As luzes, de diferentes cores, brilhavam tanto que iluminou toda a praça como se fosse manhã. Bem no centro, estava posta a mesa de banquete e havia de tudo: Tortas de diferentes sabores, aves, porcos e peixes assados, ensopados, pequenos doces e frutas. Vinho, sucos e garapa, para beber. Cada cidadão pareceu ter contribuído para aquela mesa, todos estavam realmente agradecidos. Havia música. Uma animada canção sobre aventureiros e heroísmo que enchia os corações dos jovens meninos, dos quais brincavam de lutar com espadas de madeira, próximos ao rio. Lisye os observava, sorridente, e de vez enquanto recebia palavras de gratidão dos moradores. Libria atacou um pedaço de frango antes que pudessem percebê-la na festa. Já era de se esperar. Jullienly juntou-se a ela e deliciaram-se com uma torta tão saborosa que se podiam comer trezentos pedaços antes de enjoar.
– July, prove carne de porco com mel! – Disse Libria – É bom.
– ... – Jullienly apenas ignorou a oferta e voltou ao seu pedaço de torta — Você tem um gosto estranho, Libria. —
– Mas você nunca saberá se não provar! – franziu as sobrancelhas – Aposto que iria gostar da comida de Isafdar.
– Pelo o que observo. Eu acho que não.
– Bem... Sobra mais para mim – Respondeu rindo. – Lisye! Você já provou carne com mel?
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