“Eu não consigo dormir desde que parei de me importar.” Sam Carter – Early Grave.
Eu só queria uma noite de sono tranquila. Mesmo morando sozinho há alguns anos, não consigo fugir dessa merda de avalanche que vivencio. Toda noite são vizinhos brigando na sacada por qualquer coisa que com certeza não me interessa, são uns imbecis com alto falantes gigantes no carro tocando música eletrônica às quatro da manhã, é o telefone tocando com um amigo meu sem noção me ligando bêbado pra dizer que me ama. Eu não me importo mais com isso, mas tem uma hora que as coisas passam do limite.
Esse meu amigo me ligou esta noite, pela nona vez seguida:
–FALA LOW! SABE QUEM É? – A agoniante voz de um bêbado berrando quase me fez gritar. Eu não sou um cara pavio curto, mas eu tinha muita coisa pra fazer no outro dia, e o fim de semana se encontrava muito distante de mim.
–Sei... É o Tony! Escuta aqui, colega. PARA DE ME LIGAR!
–Relaxa amigo, sabe que eu te amo né?
–Se você me amasse, me deixaria dormir pelo menos um dia na semana. Sério, essa sua rotina tá me enchendo o saco já.
–Ok, dá pra ver que você não está divertido hoje. A gente se fala amanhã. Você vai aparecer no Hangar? – Perguntou ele.
–Acho que vou, já que tem ensaio. Esqueceu que a gente tem um show na sexta?
–Pois é. Adeus. – E desligou na minha cara. Babaca.
O Tony é o baixista da Queen of Clubs. O cara é muito bom no instrumento dele, não sendo só um figurante no palco. As pessoas realmente ouvem o som que ele faz. Além disso, ele tem estilo. Enquanto a maioria dos meus amigos anda com roupa rasgada e essas coisas punks, ele vive com aquele estilo de playboy de Los Angeles, com camisa de marca e a porra toda. Pena que em muitas outras coisas ele seja terrível, como no controle da vergonha. Ele é capaz de fazer qualquer coisa, tudo pelas risadas. Isso faz dele o palhaço da banda.
Depois de mais uma noite mal dormida, pelo menos recebi algum prêmio de consolação por ter aguentado o Tony mais uma vez: O chuveiro voltou a esquentar a água! Só isso já bastou pra me animar. Depois de um banho quente depois de duas semanas, me vesti e fui para o Hangar.
O Hangar era a cafeteria de um amigo nosso, o Brandon. Ele era o nerd da galera e pulou dois anos no colégio, conseguindo entrar na faculdade mais cedo. Além disso, ele é extremamente rico, e por causa disso, abriu um estúdio pra ensaio e gravação nos fundos. O Hangar é o ponto de encontro do pessoal antes de sair pra algum rolê, antes de ir pra alguma festa, antes de qualquer coisa.
A cafeteria em si é bem confortável. Logo na entrada vemos a maioria das mesas, seguindo à direita, temos o bar e a segunda metade do Hangar, onde tem mais mesas e um pequeno palco, onde as bandas que gravaram um álbum tem a oportunidade de expor seu trabalho. Era uma boa pra minha banda, mas tem um problema: A maioria das pessoas não gosta de hardcore.
As paredes eram de tijolo exposto, com várias decorações de rock oitentista, aviação e motociclismo. Na parte de fora, o muro tinha sido grafitado pelo Tony e Chad, outro amigo nosso, companheiro de rolês.
Chegando lá, fui cumprimentar Brandon, que fica de barista durante a semana.
–E aí cara, de boa?
–Fala Low. Chegasse cedo hoje, o ensaio de vocês é só depois do almoço. – Disse ele enquanto dava uma geral na louça. De fato, era meio dia ainda. O pessoal só chegaria em duas horas.
–Tô disposto hoje. Me vê um café bem forte, acabou o meu lá em casa.
–Sem problemas. Vai botar na conta da banda? – Falou ele rindo. É claro que eu ia botar na conta da banda. Se eu pagasse sozinho todos os cafés que tomo ali, estaria fodido.
–Pois é, falando em conta... Não sabes de nenhum lugar que esteja contratando? To meio quebrado esse mês. – Perguntei. Era Brandon que passava as propostas de trabalho para os desempregados frequentadores do Hangar, já que muitas pessoas viviam deixando cartões de empresas no caixa do café. Eu tinha sido demitido do meu último emprego e as coisas tinham começado a complicar pra mim.
–Posso te dar a resposta amanhã? Esse mês tá difícil pra todo mundo. – Disse ele, me entregando o café.
–Claro. Valeu pelo café. Vou lá para o estúdio arrumar as coisas, de boa?
–Vai nessa. Vocês estão gravando ou só ensaiando?
–A gente gravou umas cinco músicas pra servir de EP pra qualquer um interessado. Quer distribuir aqui?
–Metade do lucro das vendas e a gente fecha hahaha.
Só respondi com um sorriso e fui para o estúdio, que ficava no andar de cima do prédio. O estúdio tem quatro salas de ensaio e uma de mixing, além da famosa sala de estar com um sofá de couro quase todo rasgado, uma TV com vídeo games, uma mesinha de centro com um cofrinho pra quem quiser contribuir com um sofá novo e uma geladeira com comida e bebida para o pessoal que ensaia de madruga (só a galera mais chegada, já que para ir até o estúdio, tem que passar pela cafeteria, que fica trancada depois das onze).
Cheguei lá e cumprimentei Jared, o profissional do lugar. É ele que faz a mágica acontecer pra todo mundo. Podem ter quatro bandas no lugar, ele consegue cuidar de tudo ao mesmo tempo.
–Fala Low, a sala três já tá arrumada pra hoje. – Disse ele. A sala três é a nossa preferida, porque deixamos um grafite com as iniciais da banda e o naipe de paus, então a consideramos nossa.
–Beleza. Eu só vou deixar minha mochila aqui e vou descer então.
–Mal subiu e já vai descer?
–É, eu pensei que eu ia ter que arrumar as coisas antes do pessoal chegar, mas já que tá tudo pronto, vou ficar lá com o Brandon mesmo.
–Tá, então só me tira uma dúvida. – Disse ele. Parecia que não havia dormido há dias, assim como eu. Ele estava com olheiras e o cabelo comprido completamente bagunçado, como se não tivesse parado de correr. – Esse EP de vocês já tá fechado?
–Acho que sim, só falta uma capa e um nome.
–Beleza, a gente resolve isso na hora do ensaio de vocês. Até mais tarde, vou tirar um cochilo enquanto ninguém chega.
Desci e sentei na bancada do bar, pegando meu caderno de letras para ver se a inspiração voltaria para acabar a música dona do trecho citado na introdução.
“Como se as palavras flutuassem em volta de uma coroa vazia, o peso da escuridão desaba em todos ecoando no universo. O mundo nunca foi mais o mesmo desde que você se foi. Este universo conspirou contra todos, enquanto a chuva desabava em nosso antigo refúgio... Eu preciso te encontrar, nem que seja uma única vez, mas o tempo não é nosso amigo. Estaria você no interior, só esperando pra ser encontrada?”.
Foi o que consegui escrever. O sentido da música começava a clarear pra mim, mas eu ainda sentia uma névoa me perseguindo. Quem sabe depois de um tempo eu consiga descobrir o que anda me assombrando. Foi aí que giraram o banco onde eu estava sentado, me dando um susto. Mas quando reparei quem tinha feito isso, fiquei tranquilo.
–E aí cara. Desculpa por ter te ligado ontem de noite. Eu te prometo que vou parar de fazer isso. – Falou Tony se desculpando. Apenas sorri. Eu não conseguia ficar realmente puto com esse cara. Nunca consegui, desde a nossa infância.
–Tranquilo. Só tenta se controlar, porque isso pode te ferrar também.
–É. Eu sei. Bora almoçar com o pessoal no Subway? Daí a gente já volta aqui e ensaia.
–Vamos nessa. Falou Brandon, daqui a pouco a gente volta.
–Voltem logo, sem vocês esse lugar é um tédio... – Disse ele, debruçado no balcão. Me pergunto por quê ele não contrata alguém pra ficar lá de manhã. Podia até ser eu!
Saímos do Hangar e atravessamos a rua. Seria torturante ir até o Subway debaixo de um sol desses, mesmo este sendo perto do Hangar. Mal podia esperar pelo inverno.
–Então cara, como tá indo a faculdade? – Perguntou Tony, abaixando os óculos escuros.
–Se você me deixasse dormir direito, provavelmente eu saberia, seu babaca! – Zoei com ele.
–Então eu tenho uma notícia animadora. Eu consegui contato com uma gravadora, eles querem o nosso EP até amanhã pra analisarem. Pode ser que a gente tenha uma chance, cara!
–Hahaha vai nessa, campeão. A gente vai ter que discutir sobre isso na hora do ensaio, o Jared já queria saber se a gente tinha terminado as gravações.
–Tá, sério que você não tá animado? – Ele fez uma expressão de desânimo. Eu de fato não estava muito animado, pois já tínhamos tentado contato com algumas outras gravadoras antes.
–Eu não tô muito otimista não. Por que esses caras nos dariam atenção? O nosso estilo não tá fazendo sucesso atualmente.
–Pras grandes gravadoras, não mesmo. Mas essa é uma nova, independente e especializada em hardcore. Daí sim a gente tem uma chance. Vamos ser a primeira tacada deles no mercado!
–Qual o nome da gravadora?
–Broken Cross. – Respondeu ele. Claro, nome genérico pra algo relacionado à hardcore.
–Então tá, vamos ver no que isso vai dar. Mas não garanto que a gente consiga mandar alguma coisa até amanhã não.
–A gente dá um jeito. – Disse ele, me abraçando de lado.
Chegamos ao Subway e nos encontramos com o pessoal, que estavam sentados ao lado da entrada. Kurtz estava virada pra nós e sentada ao lado do Lee, nosso baterista tranquilão. Junto com eles estava Chad, o artista da galera.
–Demoramos muito? – Perguntou Tony.
–Nem. A gente só pegou a mesa. Querem já pegar os lanches? – Falou Lee.
–Bora. – Falei, e foi o que fizemos. Em cinco minutos já estávamos novamente reunidos na mesa. Ah, a maravilha do fast food...
Lee estava com seu estilo de sempre, com o cabelo castanho curto sempre escondido debaixo de um chapéu fedora, uma camiseta raglan do Suicide Silence, e os óculos retangulares que sempre usou. Já Chad estava com as roupas de grafite: uma camiseta genérica azul, bermudas jeans e um boné aba reta que usava de vez em quando. Esse boné não cobria metade do cabelo encaracolado gigante dele.
–Esse sol ainda vai carbonizar todo mundo, me aguardem. – Falou Chad de boca cheia.
–Você não pode falar nada, já que é o menos afetado daqui. – Falou Kurtz, a mais pálida da mesa, logo, a mais afetada pelo sol. Chad era negro, então ela estava certa.
–Tá, enfim... Qual a boa de hoje? – Chad tentou reiniciar o papo.
–A gente tem ensaio, como toda segunda... – Disse Lee.
–Vou assistir vocês. Eu sou o fã mais fiel que vocês vão ter, com certeza. – Falou Chad, rindo. De fato, ele nunca perdia um ensaio nosso, mesmo preferindo música mais suave. Isso que é amigo, suporta o que não gosta pra nos aturar, hahaha.
–Bom... Banda toda reunida agora. Dá pra fazer o comunicado oficial. – Disse Tony. — Eu consegui contato com uma gravadora nova especializada em bandas do nosso tipo e eles pediram o nosso EP para amanhã.
–Ei, vai com calma cara. — Disse Kurtz. – De onde surgiu essa gravadora? Como você simplesmente conseguiu contato com eles? E como assim eles já querem o nosso EP?
Esqueci-me de mencionar anteriormente. Nossa guitarrista é a Kurtz. Eu a ensinei a tocar violão quando estávamos no segundo ano do ensino médio. Desde então ela evoluiu bastante e passou a tocar com a gente. Ela é muito boa até.
–Tenho um amigo que trabalha pra eles, e me arranjou um tempo pra falar com os responsáveis pra novos lançamentos. Eles eram uma divisão da EMI que se separou. Já que é nova, eles querem alguém realmente bom pra colocar eles no cenário.
–E você não mostrou nenhum material pra eles?
–Não né. Por isso eles querem o EP. Se gostarem, eles arranjam um contrato. Mas além das músicas, eles querem ver como a gente é no palco. – Explicou ele. – Por isso eu tava pensando em arranjar um show logo.
–Tá, que tal a gente ver isso com o Jared? – Falou Lee, que parecia estar viajando no assunto. – Se ele disser que tá bom pra mostrar pra alguém, a gente manda.
–Eu falei com ele antes de vir pra cá. A gente ainda precisa de uma capa e um nome. – Falei. – Então eu pensei que o Chad poderia nos ajudar com isso.
–Eu topo, se receber uma parte dos lucros depois hahaha.
–O EP não vai ser vendido, vai ser distribuído, e mesmo asism, a gente só precisa dele pra mostrar pra gravadora. – Falei. Eu não curtia a ideia de vender o EP. Se as pessoas não conheciam o nosso trabalho, como iam saber se estavam comprando algo bom? Por isso preferia a distribuição.
–Então que tal a gente já ir pro Hangar? Já acabamos de comer mesmo. – Sugeriu Lee.
Quando estávamos indo embora, Tony ficou entre a entrada e a rua, no meio da porta.
–Esperem... O ar condicionado é tão bom... Sigam sem mim, amigos... – Falou ele, imitando um personagem que fica para trás no clímax do filme.
–Vem logo, sua bicha! – Falou Chad, puxando ele. – É a porra da sua banda que importa agora!
E assim, rumamos ao Hangar, com o sol sendo nosso torturador e a leve brisa sendo nosso traço de esperança.

