in your memories
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Kapitel 45 min Lesezeit

Capítulo 4

– É bobeira. — Carlos me repreendeu. — Tudo bem, você era ingênua e as pessoas abusavam disto, mas não quer dizer que você sempre sofrerá se decidir viver com mais pessoas.

Eu olhava para a janela tentando ignorar o falatório dele. Claro que se eu não tivesse presa entre Carlos e a janela do ônibus, eu já teria saltado em algum ponto e corrido daquela conversa chata e persistente.

– Olha para mim. — Ele pediu. — Paula, olha para mim!

Mas eu não queria obedecê-lo.

Há muitos anos eu tinha escutado a mesma ladainha que Carlos acabara de soltar. Há anos, quando eu era apenas uma adolescente recheada de problemas, que os adultos fazem questão de julgar fúteis, eu precisei de alguém para me escutar e tudo o que recebi em troca fora a certeza de que eu era uma idiota. Uma idiota que buscou nas pessoas um apoio.

Mas agora, que eu resolvi dar uma chance para que alguém me conhecesse, eu percebia que era um erro. Um eterno erro.

– Paula!

– Que é? — Meus olhos deviam ter descarregado uma caixa de ferramentas sobre Carlos. — Vai me dizer o que? Que eu devo dar mais uma chance para as pessoas? Que eu não devo me prender ao passado ou... — Fingi pensar — Como é que falam mesmo? — Voltei a olhá-lo — Ah sim! Devo deixar de ser infantil?

Era isto que ele ia falar e eu percebi no exato momento em que os lábios dele se abriram diversas vezes, buscando uma outra frase que não tivesse sido brutalmente arrancada de seus lábios.

– Desculpa Carlos, mas eu sempre serei presa ao meu passado e sou extremamente feliz assim. Até mesmo os psicólogos desistiram de mim. — Encostei a cabeça no vidro do ônibus — Não perca seu tempo com isto.

Ele abaixou a cabeça e suspirou. A dor que eu sentia era massacrante. Meu corpo lutava entre o pedir desculpas e o deixar que tudo acabasse. Eu não queria perdê-lo, mas não sabia como permitir que ele entrasse no meu mundo.

Talvez todo aquele passado, onde eu acreditava cegamente no mundo e não conseguia ver nada de ruim nas pessoas que me cercavam, tivesse me massacrado. Talvez se minha família tivesse percebido o quão ingênua eu era e tivessem, com calma, me ensinado o que era ser enganada... Talvez se eu tivesse sido uma pessoa ruim, que nada dividia, ou se eu...

Sei lá...

Talvez, se não houvessem tantas cicatrizes, eu não estaria tão feliz sozinha. Não teria tanta raiva das pessoas e insegurança. Talvez, eu fosse apenas um ponto perdido no mundo.

– Eu entendo que você esteja magoada. — Carlos pegou minha mão e a beijou. — E espero conseguir fechar suas feridas.

Eu não esperava por aquilo.



Eu tinha seis anos, quando entrei no primário. A vida era fácil e eu descobria, naquele momento, meu maior vício.

Na escola havia o programa de incentivo a leitura, onde todas as semanas tínhamos que pegar um livro na biblioteca. A bibliotecária separava alguns livros fáceis e, todas as semanas, trocávamos nossos livros. Em alguns meses eu já tinha lido todos aqueles livros que ela recomendava e eu passei a relê-los.

Um certo dia, ela olhou para minha ficha de livros pegos e notou que eu estava repetindo os livros.

– Gostaria de ler algo diferente? Mais difícil?

E eu comecei a ler livros maiores.

– Eu lembro que sentava no chão da cozinha e ficava lendo, enquanto minha mãe cozinhava.

– Lembra das coisas de quando tinha seis anos?

– Claro. — Sorri. — Eu amava os livros. Meus amigos eram de outra sala e a minha primeira amiga tinha sumido da escola. Eu tinha colegas, mas amigos...

Torci meus lábios e parei.

– Algum problema? — Carlos me olhou preocupado.

– Não. Só estive pensando em quanto tempo faz que não compro um livro.

Carlos sorriu.

– Continue. Quero saber mais sobre você.

– Ah, sim...

Eu nunca gostei de histórias em quadrinhos. Certo, gostava dos gibis da turma da Mônica, mas isto todo brasileiro gosta. Minha mãe, um dia, enquanto preparava o jantar, percebeu que eu estava lendo e perguntou sobre o que se tratava.

Naquela época eu devia estar com oito anos, provavelmente na terceira série. Eu lhe contei sobre a história e, pouco antes dela terminar o jantar, eu já tinha terminado o livro. Ela nunca demonstrou interesse, mas naquele dia, quando ela percebeu a velocidade com que eu lia, ela me parabenizou.

E eu fui feliz, pois senti que era importante.

– Acaba aí? — Concordei. — Que sem graça.

Eu senti meu corpo se curvando em vergonha.

– Desculpe, minhas histórias não são emocionantes.

Carlos tocou meu rosto e com doçura disse:

– Acho que sem graça que sua mãe só tenha te percebido tão tarde e que não tenha te levado para comprar livros. Se meu filho tiver o mesmo prazer pela leitura, que você tem, eu farei uma biblioteca para ele.

– Não seja bobo!

– Há pessoas que dizem não suportar livros. Outras os rasgam sem pensar duas vezes. Você não, desde pequena cuida deles e os devora com um prazer que muitos nunca sentirão. — Ele encarou os próprios pés e continuou – Eu te admiro por isto. Queria ter a facilidade que tem pra ler, mas demoro duas horas para ler dez linhas.

Eu comecei a gargalhar. Obviamente Carlos estava procurando um assunto que me fizesse bem. Havia demorado, mas ele conseguiu me fazer rir como há muito não tinha feito.

Minha gargalhada perdeu o controle e entrei em uma crise de riso que me fez chorar. Aos poucos contagiei Carlos e demoramos alguns minutos até nos recuperarmos.

– Está melhor? — Ele me questionou enquanto secávamos nossas lágrimas.

– Muito.

– Então, bem-vinda à minha casa.

Eu não tinha percebido que estávamos parados, há muito, em frente ao prédio onde Carlos morava.



Eu passei a desconfiar do destino. Mas confio no passado, pois ele esconde algo bom.