O sol nascente os encontrou deitados na cama muito juntos, o mais velho encostado na parede com os braços do moreno passados gentilmente em sua cintura. A brisa da manhã invadiu o quarto fazendo os corpos desprotegidos estremecerem e buscarem ainda mais um pelo outro. E, embora o tempo fosse passando e tornando-se mais e mais quente, eles não se importavam, os corpos continuavam juntos e se possível ainda buscando um pelo outro, partilhavam daquela necessidade sem fim um do outro. E assim seria, até o fim de seus dias.
Olhavam-se incansavelmente, perscrutando os olhos alheios, lendo nos orbes límpidos de cada um a história dos dois, relembrando e revivendo juntos aquela loucura que tinham chamado de amor. E fora uma coisa bonita, no fim das contas. Viveram juntos tudo o que tiveram que viver. Jamais perderam tempo com hesitações, amaram-se desde a primeira vez, viveram intensamente cada momento que tiveram, era quase como se soubesse, quase como se pudessem adivinhar.
E foi quando Sungmin caiu pela primeira vez que eles souberam que estiveram certos todo o tempo. Quando passaram a primeira noite em claro com o mais velho sendo açoitado por uma febre inexplicável que se recusava a ir embora, mesmo antes de consultar qualquer médico, eles souberam. Estiveram certos em sua pressa de viver, sua pressa de sentir e de se amar tão intensamente, pois cada momento seria único, e eles não teriam tempo de vivê-los novamente.
Mas Kyuhyun estava lá, sempre estivera e jurou que para sempre estaria. Ficaria mesmo, vendo seu amor ir embora aos poucos, a cada noite perdia uma parte de Sungmin que sabia que não teria de volta. As idas e voltas de hospitais, especialistas e toda a sorte de curandeiros apenas enfadava ainda mais o mais velho que parecia cada vez mais cansado. Iam em busca de uma cura e voltavam apenas mais desesperançosos.
Então um dia Sungmin se recusou a ir, não havia mais nada a se fazer e ele sabia disso. Kyuhyun, de certa forma também sabia, apenas recusava-se a aceitar. Gritou, berrou, ofendeu, mas nada demoveu Sungmin de sua decisão. Decidira viver o tempo que ainda tinha da mesma forma que vivera toda sua vida: Vivendo. Definhar em hospital não estava entre suas opções.
Kyuhyun sentou-se ao lado da porta e chorou, chorou como uma criança desmamada. Não era como se não soubesse, mas ver Sungmin desistir doía. Muito... O mais velho veio sentar-se ao seu lado quando conseguira se acalmar um tantinho. Tinha os olhos vermelhos, mas não chorava. Apenas puxou o garoto para o seu colo e o acalentou até que sua respiração não passasse de um suspiro magoado.
Foram para quarto depois disso, deitaram-se juntos e, por aquela noite, dormiram. A febre lhes deu um dia de descanso e eles aproveitaram da melhor forma que puderam.
Logo ela voltaria, e as noites seguintes seriam tão agoniantes como as primeiras tinham sido. Não havia como dizer quem sentia mais dor ali, mas, de alguma forma, confortavam-se em seu amor incondicional, e com a certeza que o dia seguinte viria e então levaria tudo embora.
Por vezes a febre levava a lucidez de Sungmin embora, e ele passava suas noites delirantes agitando-se na cama temendo coisas que não estavam lá. Quando sentia os indícios de sua consciência o abandonando, Sungmin indagava se Kyuhyun ainda estaria lá no dia seguinte, e Kyuhyun engolia as lágrimas e abraçava seu amor com força enquanto murmurava que sim, ainda estaria lá quando o dia amanhecesse.
E, ainda assim, era espantosa a vontade que Sungmin tinha de viver, a alegria estampada em suas feições quando o dia amanhecia e ele se dava conta de que sim, ainda estava vivo, de que teria mais um dia... A primeira coisa que ele fazia era sorrir, a segunda era beijar os lábios de Kyuhyun para logo dizer que o amava.
Viviam uns dias milagrosamente felizes e então, juntos, esperavam a noite passar para então nascer outro dia.
Mas naquela noite Sungmin soube que não haveria outro dia, pelo menos não para ele. Moveu-se lentamente ignorando as dores no corpo e sorriu gentilmente para o amante deitado ao seu lado, e este percebeu em seu olhar o que o mais velho sentia e chorou baixinho. Mas Sungmin apenas sorriu abraçando-lhe com força. ‘Faça amor comigo’ pediu.
E foi prontamente atendido. Quando se olharam nos olhos, os dois tinham plena consciência do que estava para acontecer e, principalmente, certeza do que queriam. Passariam os últimos momentos de suas vidas vivendo, como tinha que ser. Kyuhyun tomou-lhe o corpo febril e o fez seu mais uma vez, amaram-se noite adentro, fizeram juras, promessas e, acima de tudo, conquistas. Tocaram a alma um do outro e as fizeram uma. Era lindo, perfeito. Era tudo o que eles podiam querer.
E foi assim que o dia lhes encontrou, exaustos de amar e exultantes de amor. A brisa vinda da janela anunciou que era a hora. Sungmin suspirou, confortado; estava pronto.
“Não dorme, não” Kyuhyun pediu, manhoso, queria que ele pudesse ficar mais um pouco.
Sungmin sorriu, sonolento. “Cumpra sua promessa”, murmurou com a voz fraquinha.
“Não vai, por favor...”
“Você prometeu”
“Fica...”
“Por favor”
Kyuhyun tomou os lábios de Sungmin num beijo doce, e sentiu o ultimo suspiro do amado escapar-lhe ainda entre seus lábios. Fitou o rosto feliz do mais velho e abraçou uma última vez o corpo inerte. E lhe sorriu.
Cumprira sua promessa, fora o último a beijar os lábios de Sungmin. Agora cumpriria sua sina, foi só o tempo de ir ao banheiro e engolir todo o frasco de remédios que estava ali. Voltou para o lado do amado e esperou. Estava pronto para encontrá-lo onde quer que fosse, porque era assim que tinha que ser.