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Chapter 14 min read

Boneca

Eles a taxam como exemplo. Uma boneca intocada e imune ao mundo.

Uma boneca que não sorrir, que não teme, que consegue tudo.

Eles dizem que você é a calmaria. Aquela que se não conseguir, ninguém mais consegue.

Às vezes se enraivecem com a casca que você aparenta; com a falta de reação ao conseguir algo que tanto almejam e desejam.

Tornam-na o centro das histórias de todos os encontros. Dizem que querem ser como você, enquanto você apenas permanece calada, com um meio sorriso e um olhar desviado, inquieta com a atenção.

Dizem que se você fez, está maravilhoso, enquanto um sorriso forçado e uma marcha mecânica a afasta de tudo.

Eles se esgueiram e se sentam diante de você contando sobre suas vidas sem ao menos dizer um oi ou um tudo bem?, antes de contarem sobre suas próprias vidas, particularidades, dificuldades, almejando e vendo na boneca um escape para desabafar.

Uma boneca. Apenas isso. Uma boneca para sorrir, para admirar. Como uma boneca de uma coleção particular.

E eles se esquecem que você não é uma boneca, mas sim, um ser humano.

Um ser que ama sua família, seus amigos e conhecidos. Uma pessoa que oferta o seu ombro de bom grado para que outros chorem, pois, seu coração aperta quando os ver daquela forma e tudo o que quer é poder sumir com aquela dor que causa lágrimas.

Mas talvez já faça tanto tempo, que o mundo já se esqueceu que a boneca tem vida... que a boneca é humana.

O mundo já se acostumou com a "menina prodígio", "a princesinha", "a garota dos olhos dos garotos", "a filha exemplar", "a neta mais calma do querido avô", "a amiga de todas as horas", "um exemplo a ser seguido"...

O mundo já se acostumou com os rótulos e para ele, agora é difícil ver uma boneca sem taxações.

Eles perderam a capacidade de vê-la por dentro. De compreender que em momentos de dificuldades, quando a boneca pega um livro e aparenta tanta calma, na verdade, ela está estampando ao mundo sua forma de tentar fugir de si. Uma forma de se refugiar em outro mundo, bloqueando a própria liberdade dos pensamentos.

Pois todas as vezes que a boneca se olha no espelho, ela se descobre tão... insegura.

Só ela sabe, só ela consegue ver a casca preenchida por uma revoada instável de insegurança e ansiedade.

Quando todos dizem "ah, ela consegue!", a boneca se pergunta se é realmente capaz, se suas mãos são realmente capazes de alcançar aquilo que estabeleceram como meta.

Só ela é capaz de sentir a ardência das lágrimas reprimidas e de enxugá-las em segredo quando permite que elas vazem durante sua solidão.

Só ela sabe sobre o rebuliço que se forma em seu estômago mesmo diante da mais simples prova e da alegria de conseguir coisas que para outros pode parecer sem importância e ínfimas diante de outras que você é capaz de fazer e já fez.

Talvez seja culpa da boneca por não conseguir expor em palavras e já ter desistido de mudar o mundo pois eles dizem que suas palavras são balelas.

Mas talvez... só talvez... seja porque você já compreendeu que o mundo não precisa de mais um ser humano para ser amparado, para ser escutado, para ter suas lágrimas amparadas por um ombro amigo. Talvez o mundo só precise de uma boneca bonita, calada e cheia de oportunidades para subir cada vez mais, apenas para apontar e ter alguma esperança.

Os mundos contaminam outros mundos, que contaminam outros mundos e mais outros, e mais outros... enquanto a boneca sufoca na sua insegurança em meio a tantos mundos diferentes e ao mesmo tempo, tão parecidos...

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