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Capítulo 1 - a decisão

Capitulo1 – A decisão

Eu olhei pro relógio, o relógio olhou pra mim… eu olhei pro relógio, o relógio olhou pra mim... Quando me dei conta, percebi que já estava tarde. Mas eu não tinha pressa, era como se eu apenas esperasse que alguém chegasse... Que alguém me impedisse de fazer isso. Mas os minutos passavam sem que ninguém viesse.

Então eu percebi que não adiantava mais tentar fingir que ainda dava tempo de tentar mudar as coisas. O tempo estava definitivamente contra mim. Cada segundo que passava, ficava cada vez mais difícil abandonar tudo. Mais difícil de me convencer de que eu não precisava realmente fazer isso.

Eu sei que muitos acham que eu sou forte, mas... Eu devo dizer que eu tento fingir que tudo esta tudo bem, que por dentro eu estou bem que eu não estou em pedaços, que eu sou... Feliz. Apenas quem sabe da verdade sou eu.

Às vezes eu chego a pensar que talvez as coisas fossem diferentes se eu apenas conseguisse chorar, mas eu não consigo. Eu simplesmente não consigo! E como se um enorme caroço estivesse entalado em minha garganta me impedindo de por pra fora tudo o que esta me machucando.

Então, numa tentativa de me acalmar, peguei uma folha de papel e comecei a escrever. Não que eu realmente achasse que um dia alguém leria essas letras marcadas no papel, mas como uma forma de... Expressar o que eu estava sentindo, desabafar. O papel não iria me julgar ou me acusar de estar fingindo, de estar assim por minha vontade.

“Oi, sou eu – de novo! Sinto que só venho aqui pra falar sobre minhas tristezas, minhas insanidades, minha necessidade de... Mas o que eu posso fazer? Ultimamente minhas únicas companhias são as minhas ‘crianças’ e essa... Angustia que tem me invadido.

Apesar de tudo, eu tomei uma decisão que tenho certeza que não afetará muito as pessoas que convivem comigo. É uma decisão difícil, mas eu não posso voltar atrás! Mas eu sei que você me entende, afinal você me vê reclamar da minha vida lastimável há muito tempo – tanto tempo que eu já nem me lembro mais. Eu só sei que toda vez que conversamos, eu me sinto um pouquinho melhor. Nossas conversas – apesar de serem sempre monólogos – são sempre muito agradáveis. Me deixa com uma falsa sensação de felicidade por ter desabafado, mas como tudo dura pouco, eu sempre me sinto mais sozinha depois. E foi por esse motivo, que eu tomei essa decisão.

Quem sabe assim eu posso ter um pouco de alivio para minha dor.

Sabe, cada dia que passa eu sinto que eu afundo mais um pouco. Apesar de ter apenas 16 anos, eu já ouvi muita gente falar que chegou ao fim do poço. Só que na verdade, eles nunca chegaram ao fundo do poço verdadeiramente como eu. O fundo do poço eu já vi há muito tempo e onde eu me encontro agora é um buraco sem saída, que cada vez que eu penso estar saindo de lá, eu acabo indo cada vez mais fundo. O ar parece que está escasso e eu não estou conseguindo mais respirar, de tanto que o meu peito dói e o nó em minha garganta aumenta cada vez mais. E a única coisa que me da força para agüentar mais um único dia, é ver o sangue escorrer por meus braços.

Muitos que um dia descobriram as marcas me disseram que isso é loucura, que eu devo parar de fazer a única coisa que me um pouco de alivio.

Será que eles não entendem que eu preciso sentir o frio da lamina em meus braços, o calor escorrendo pelos meus braços, o sangue escorrendo me provando que eu ainda estou viva e que eu ainda estou aqui...”

Parei por um instante e me perguntei se eu deveria manter minha decisão, se eu conseguiria ter coragem de ir em frente. Apenas por um momento eu desejei que não fosse necessário fazer isso, mas foi apenas por um momento.

Olhei para o céu pela janela, hoje era um desses dias em que tudo parece estar fora do lugar – está fio e as ruas estão molhadas por causa da chuva de agora a pouco, o sol esta tentando aparecer, mas talvez tenha uma tempestade enfim, as ruas estão vazias. Assim como eu estou por dentro.

— Caaarooooliiiiinn... – Droga! Já começou! Mal são seis horas da tarde, meu pai ainda não chegou e minha mãe já esta me enchendo a paciência!

— Que foi? – respira fundo Carol... Respira muito fundo e tenha calma! Isso logo vai acabar...

— Eu to precisando de ajuda aquiiiii! – ela poderia falar perto da escada, mas não! Ela tem que gritar da cozinha.

— Eu já to descendo! Eu só estou tentando terminar a minha tarefa de casa. – berrei de volta.

— Não demora muito que o seu pai e o Paul já estão chegando!

— Mas mãe, e o Jacob? Por que ele não pode te ajudar?

— Eu estou chamando você! Me obedeça menina! Eu ainda sou sua mãe!

Como eu sei que ela vai ficar falando e falando e falando, peguei meu mp4 e desci as escadas. Uma das musicas que eu mais tinha ouvido esses últimos dias era essa.

# # LINK # #

http://www.youtube.com/watch?v=wfitdSdp6gw

# # # #

“Quem um dia se atreveu a olhar pro alto
tinha um céu, mas não era azul
no cansaço de tentar quis desistir
se é coragem eu não sei”

- Caaarooooool – do nada minha mãe aparece berrando no meu ouvido.

- Não precisa gritar no meu ouvido!

- Estou te chamando faz um tempo e seu pai avisou que teremos visitas.

- Ótimo! — resmunguei


“Tenta achar que não é assim tão mal
exercita a paciência
guarda os pulsos pro final
saída de emergência
Tenta achar que não é assim tão mal
exercita a paciência
guarda os pulsos pro final
saída de emergência
”


Eu não sei explicar o porquê, mas ela me emociona e me... Motivava a continuar lutando dia após dia, mas também me inspirava a ter uma saída de emergência (como o próprio refrão diz).

“Quem um dia decidiu, quis terminar
só mais um gole e duas linhas horizontais
sem a menor pressa, calculadamente
depois do erro a redenção”


“Tenta achar que não é assim tão mal
exercita a paciência
guarda os pulsos pro final
saída de emergência
Tenta achar que não é assim tão mal
exercita a paciência
guarda os pulsos pro final
saída de emergência
”

Continua...