A floresta ficava para trás, mas o frio da noite ainda parecia grudar na pele de Leonardo. Cada passo em direção à casa pesava como se carregasse consigo não apenas o cansaço, mas também a lembrança da criatura que vira — a loba de duas cabeças, agora mulher — e o mistério que queimava dentro dele. Nada mais seria igual.
A porta rangeu quando ele a empurrou, e o silĂŞncio da casa o envolveu como um manto opressor. A luz fraca do lampiĂŁo mal iluminava o corredor estreito, e cada sombra parecia se mover com vida prĂłpria. Leonardo sentiu uma estranha compulsĂŁo de vasculhar o quarto, como se algo estivesse esperando para ser descoberto.
Entre livros e velhos documentos, seus dedos tocaram um envelope escondido atrás de uma pilha de papéis empoeirados, como se tivesse sido enterrado ali de propósito. A tinta amarelada e a borda gasta denunciavam o tempo esquecido. Um arrepio percorreu sua espinha ao segurá-lo, como se aquele pedaço de papel tivesse um peso maior do que aparentava.
O conteĂşdo era desconexo, perturbador. Linhas riscadas com violĂŞncia, trechos arrancados, palavras soltas:
"...Ayla Braverd..."
"...aliança selada sob a lua negra..."
"...sangue oferecido... descendĂŞncia marcada..."
Entre as frases truncadas, havia sĂmbolos rabiscados nas margens — cĂrculos entrelaçados, garras desenhadas, uma lua cortada ao meio. Nada fazia sentido por completo, mas cada fragmento carregava um eco de ameaça.
Leonardo sentiu o coração acelerar. Não havia explicação clara, mas o suficiente para despertar um medo visceral. Aquilo não era apenas um acordo entre clãs... havia algo oculto, algo que envolvia sua mãe, e que parecia conectado a ele de uma forma que não ousava compreender.
O som de passos firmes no corredor o fez enrijecer. Ele escondeu o envelope às pressas, tentando acalmar a respiração.
EntĂŁo a porta se abriu.
Kael Bravard surgiu. A luz do lampiĂŁo recortava sua figura alta e rĂgida, projetando uma sombra que parecia maior do que o prĂłprio corpo. Seus olhos eram profundos, duros, e havia algo de insondável neles — como se sempre soubessem mais do que estavam dispostos a revelar. A presença dele enchia o quarto como uma pressĂŁo invisĂvel, um peso no ar.
- Leonardo... ainda acordado? — A voz era grave, imponente, com um tom que nĂŁo admitia fraqueza. — Temos uma reuniĂŁo importante amanhĂŁ. Os lĂderes nĂŁo aceitam deslizes.
Leonardo ergueu o olhar, forçando-se a parecer tranquilo.
- Sim, pai... estava apenas organizando algumas coisas.
Kael se aproximou, e seus olhos o examinaram com atenção silenciosa. O ar entre eles parecia carregado de algo que não era dito, mas que vibrava como uma ameaça constante.
- Descanse — disse, enfim, o tom firme, quase como uma ordem. — Precisamos estar preparados para o que está por vir.
Ele se virou e deixou o quarto, mas a sombra de sua presença permaneceu, impregnada nas paredes, no chão, no próprio peito de Leonardo.
Sozinho novamente, Leonardo tocou o bolso onde escondera o envelope. NĂŁo compreendia tudo o que estava escrito, mas sabia: aquela verdade fragmentada, oculta em sĂmbolos e palavras quebradas, era um veneno pronto para mudar sua vida para sempre.

