Affectionately, Anthony M.
Affectionately, Anthony M.
Kapitel 28 min Lesezeit

Ora, que queimação é essa?

Capítulo I: Ora, que queimação é essa?

Lord Harry Williams bebericou o chá fumegante com um barulho um tanto quanto asqueroso. Na verdade, tudo naquele homem dava-me asco.

Primeiramente, as unhas sujas das mãos, depois, o tanto que cospia sempre que falava com falso entusiasmo. Além, é claro, das enormes bochechas vermelhas e das vestes que estavam por um fio, na verdade, por alguns botões a estourar em sua barriga proeminente.

Mas, segundo papai e meus irmãos, Lord Williams poderia vir a ser um bom marido para mim. Papai repetia e repetia que só poderia ter sossego em sua velhice quando eu, enfim, casasse com um bom partido. Isso, claro, na concepção dele.

Meu pai, Charlie, era Visconde de Maidstone, e cuidava da província com punhos de ferro. Do seu casamento com minha mãe já falecida, Lady Renée, nasceram quatro filhos: Emmett, Jasper, Bree e eu.

Mamãe falecera de gripe pouco depois de eu ter completado meus 2 anos de idade e, segundo papai, ela havia comprado, em uma de suas muitas viagens, a grinalda que eu usaria quando me casasse.

Não me entendam mal, eu gostaria muito de me casar, mas em todas as 3 temporadas que participei, nenhum dos rapazes fora digno de minha simpatia. Sim, eu me casaria, mas nunca sem amor.

E era injusto que os homens da casa, principalmente meus irmãos ainda solteiros, insistissem tanto que eu me casasse depressa. Ainda mais com um homem deprimente como Lord Williams.

— Adorável poema, não? — perguntou-me com ar de orgulho apontando para o garrancho mal feito no papel — Escrevi para a Lady.

Reprimi uma revirada de olhos e dei-lhe um sorriso amarelo.

— Belo, não é dos piores. O senhor deveria inspirar-se em Anthony M. — provoquei enquanto levava o chá à boca — Ele é o melhor poeta da década! Dizem por aí que ele é o novo Shakespeare!

Mordi o lábio inferior para não rir enquanto Lord Williams ficava vermelho e depois roxo de ira.

— Ora, Lady Isabella! Este trata-se de um libertino qualquer. Um energúmeno! Não é de bom que uma mocinha como tu leia tais obscenidades — rugiu furioso batendo com o punho na mesinha, fazendo com que a xícara de chá vacilasse e caísse no chão, quebrando-se em vários pedacinhos.

Levantei furiosa pela sua ousadia e notei, pelo canto do olho, que Jasper reprimia uma risada.

— Ora digo eu, seu bochechas de buldogue. Como ousas dirigir-se a mim com esse tom de voz? E ainda por cima quebra a lousa de minha casa! — ele olhava para mim estupefato com os olhos esbugalhados — Espero que nunca mais ponha suas patas imundas aqui.

Ouvi passos pesados atrás e fechei com força os olhos esperando o berro que viria a seguir:

— Isabella Swan! Componha-se!

Tampei os ouvidos, ergui a barra de meu vestido e subi as escadas depressa enquanto ouvia meu papai se desculpar com Harry.

Deitei em minha cama e abracei meu travesseiro com força, abafando um grito de raiva.

Inferno!

Tudo isso por culpa de Bree, que havia se casado pouquíssimo depois de completar seus 16 anos com o primeiro rapaz com que havia cruzado os olhos. E agora, mesmo eu sendo mais nova, já tenho 18 anos e estava por um fio de ser considerada solteirona pela sociedade. E, principalmente, por meu pai que morria de desgosto toda vez que eu espantava aos berros os novos pretendentes que ele trazia à casa.

Pedi à Mary que trouxesse água morna para me banhar e, enquanto isso, peguei uma pequena mala de mão e escondi embaixo da cama enquanto ela não chegava.

Sentei-me em minha escrivaninha e suspirei quando peguei o livro de capa vermelha recoberto de veludo. Aquele era o meu livro preferido!

Reprimi mais um suspiro enquanto lia pela terceira vez o capítulo em que Lady Lisa aceitava, finalmente, o pedido de casamento do Duque Edmund. Como eu sabia de cor e salteado todas as passagens do livro, pulei para o final, para quando o mocinho e a mocinha terminavam felizes para sempre, mas claro, não sem antes derramarem muitas lágrimas.

Mordi o lábio quando li, ao final do livro, a dedicatória já tão conhecida por mim:

Carinhosamente,

Anthony M.

Anthony M. era o meu romancista preferido. Eu lia vários e vários títulos assinados por ele. Quando não lia seus folhetins, perdia-me em seus romances. Claro que sempre escondida de meu pai e irmãos. Segundo eles, Anthony M. trata-se de um libertino maquiavélico que pretendia roubar a castidade de todas as mocinhas desavisadas que leem suas histórias de amor.

E claro, eles atribuíam a minha repulsa total aos meus pretendentes às ideias de amor verdadeiro contidas nos livros.

Enfim, espalhava-se o burburinho de que Anthony M. participaria de um sarau em Londres. Aquela, talvez, seria a minha única e última chance de conhecê-lo .

E eu não perderia essa oportunidade.

Pulei de susto quando ouvi Mary chegar com o balde e escondi depressa meu livro. Ela era muito sorrateira!

Também, pudera, para manter encontros às escondidas com Peter toda noite, deveria ser mesmo bem silenciosa.

Digamos que talvez eu soubesse o que acontecia entre um homem e uma mulher em sua alcova. Tudo bem, não tanto assim porque o Anthony M. nunca chegara a descrever exatamente o que ocorria, só mencionava uma pequena morte entre o casal. Eu gostaria muito de entender como essa pequena morte acontecia e, principalmente, qual seria a sensação de tê-la.

— Mary? — perguntei enquanto ela escovava meus cabelos que iam até um pouco abaixo das minhas nádegas — Tu e o Peter já …?

Ela ofegou, corando.

— Claro que não, Lady Bella! O que pensas de mim? — olhava-me de olhos arregalados — Esse tipo de intimidade só teremos depois de desposados.

Revirei os olhos e assenti.

— Sim, Mary. Eu sei — virei-me e a olhei com curiosidade — Mas conte-me, por favor. Vocês já se beijaram? Como é um beijo?

Ela balançou a cabeça, ainda corada, e correu até a porta para conferir se estava mesmo fechada. Pegou um banquinho e se sentou ao meu lado na penteadeira.

— O Peter me beijou nos lábios ontem, Lady — ela suspirava de olhos fechados tocando a própria boca com os dedos — É tão doce, Lady! Mas depois, quando ele tocou em minha cintura e aproximou mais o corpo do meu, eu comecei a sentir um calor.

Abri a boca surpresa e me aproximei mais dela, curiosa:

— Um calor?

Ela mordeu os lábios e assentiu.

— Sim, uma queimação que começou nos meus lábios e que foi descendo, descendo e descendo. Até bem … — envergonhada, ela parou de descrever.

— Até onde, Mary! Conte-me!

Ela hesitou, mordendo o polegar, mas se rendeu.

— Bom, até debaixo de minhas anáguas.

Olhei para ela confusa.

— Nos tornozelos?

Ela negou.

— Nos joelhos?

Ela negou novamente.

— Não, Lady. Mais para cima — suas bochechas pegavam fogo.

— Oh! Nas coxas? — olhava para ela ainda sem entender.

— Não, Lady, entre elas. Lá — ela me olhava com medo de minha reação, mas eu só conseguia manter meus lábios abertos em choque. Uma queimação lá … ?

— E dói, Mary?

Ela riu.

— Dói, na verdade não sei, não é bem uma dor. É mais um anseio, como se eu precisasse de algo, mas não exatamente o quê …

Fiquei ainda mais intrigada.

Anseio? Queimação? Calor, hum, lá? Eu queria sentir também!

— Mary, você viu o que o Peter tem entre as pernas? — indaguei. Será que era muito diferente do que nós mulheres tínhamos?

Ela me olhou escandalizada.

— Lady, não! Nunca vi as vergonhas de um homem — ela se aproximou e cochichou — Mas uma vez ouvi, escondida, minha prima dizendo que era como um pavão. Porque, quando vê uma pavoa, ele se apruma todo.

Ri baixinho tapando a boca com as mãos.

— Um pavão?

Ela assentiu segurando o riso.

— Sim! E eu juro, juro minha lady, que eu senti ontem algo crescendo nas calças de Peter quando ele me segurou mais de perto — ela confessou.

Eu só conseguia olhá-la atônita. Bom, eu também queria como era o pavão de um homem, ou seja lá o que fosse. E queria saber como era essa pequena morte que Anthony M. tanto descrevia. Queria também saber se ela tinha alguma relação com a queimação que Mary sentia entre as pernas.

— Mary, sabe o meu vestido amarelo que comprei para o piquenique de Lady Susan? Pode pegá-lo para ti. Ficarás linda com ele quando for novamente ao encontro de Peter.

Mary me olhava com os olhos azuis em lágrimas.

— Oh, Lady! Muito obrigada!

Eu sorri e abracei apertado, mas logo a olhei no fundo dos olhos.

— Mary, preciso que me ajude com algo.

Agora, mais do que nunca, eu precisava ir àquele sarau.

Ninguém além de Anthony M. seria mais indicado para me explicar o que era a pequena morte, o que era essa queimação que Mary sentia entre as pernas quanto Peter chegava mais perto e, também, talvez pudesse mostrar-me o que havia por debaixo das calças de um homem.

Como seria o pavão?

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