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Butterfly
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Miiou
Passei os dedos sobre os cabelos novamente. Um formigamento familiar acontecia toda vez que o fazia. Sentia cada fio se separando e se encontrando por entre os dedos finos e por um momento insano tive vontade de arrancá-los fora de minha cabeça.
A outra mão estava no bolso, o desconforto pairava em quilos sobre o ar que eu respirava. Olhei para a esquerda em sinal de reflexão, meus olhos saíram de foco, deixando de ver o campo amarelo.
Não conseguia pensar direito.
Ouvi uma risada. Voltei o olhar ansioso para a pequena borboleta que se encontrava em minha frente. Garota bizarra se quer saber. O tipo que ninguém entende como foi se meter em sua vida, uma vez, simplesmente, suas asas cor de fogo banharam o meu céu e fizeram-me ter a vontade de seguir seu curso.
Cravei suas iris de encontro com as minhas. A capacidade de olhar para ambos os olhos não foi uma característica para o qual nasci inapto. Eu sabia o efeito que causava, sabia que se existisse qualquer resquício de sujeira sobre seus olhos, eu seria aquele que os lavaria com um olhar.
Ela ainda sorria quando voltou a falar.
— É... As vezes não se tem mais o que fazer. – Abaixou a cabeça de encontro aos joelhos e respirou profundamente.
Era uma linda borboleta. Saiu do casulo tão cedo e mesmo assim conseguiu ser uma das mais bem formadas já vistas... Pelo menos por minha opinião.
A pequena ficou limpando o rosto como se houvesse lágrimas, uma mania que desde que a conheço vem mostrando ter. Sempre fazia caretas desnecessárias, sempre falava a verdade em um tom quase inocente.
Quase.
— Não diga besteiras, sempre há o que fazer. – Meus dedos teimosos se estenderam enquanto o resto de meu corpo trabalhava em se agachar para tocar os cabelos vermelhos. Coloquei-os atrás da orelhas.
Ela olhou para mim. O que eu via sempre me deixava triste.
Era uma confusão sobre seu interior que se refletia em suas palavras e se mostrava em seus olhos. Seria bonito vê-la voar novamente, seria um sonho acompanhá-la no vôo, mas eu sabia que para isso seria um trabalho enorme e estava demasiado acomodado em minhas admirações do que um dia foi aquela que me dava seus restos hoje.
Um dia, alguém ou algo a viu e por alguma razão que nunca vou conseguir entender, quebrou suas asas.
Frida Kahlo foi uma bela borboleta, uma borboleta que lutou a vida toda para recuperar suas asas, mas desde o momento que ela sentiu a dor do acidente, não deve ter sido a mesma.
O ferro passou pelos genitais e perfurou a alma da pobre garotinha. Agora ela não tem mais as belas asas que antes tinha e se tem, não mostra coragem para tentar usá-las.
— Como o quê, por exemplo? – Perguntou a borboleta sem asas. – Pensa que é isso? Apenas a convicção de que se pode existir um fruto novo para se plantar? Esqueceu algumas coisas...
— O que eu esqueci?
— Não é apenas a semente que importa para conseguir-se o que tu queres. – A formalidade batia em suas palavras, ela estava revoltada. – Existem todos os quesitos necessários para a germinação. Precisa de terra boa, luz, água e outras coisas para causar fertilidade no ambiente!
— Pois...
— Eu posso ter a melhor das sementes! Mas nada disso é relevante se não tenho o resto, pois nunca minha semente vai germinar! – Ela levantava os braços em desespero, o teatro da auto-piedade que sempre gostava de fazer.
— Não seja prepotente... Claro que tu consegues. Afinal, já ti vi fazer coisas incríveis. Já ti vi realizar trabalhos incríveis também. É inteligente, meiga, linda...
— Para! – De súbito ela se levantou, fazendo meu coração subir até a boca e ser engolido de volta. – Olha pra mim! – Ergueu os braços, como se fosse abrir vôo. – OLHA PARA MIM!
— Estou olhando. – Meu tom era tão casual que chegava a ser irônico.
— O que tu vê? – Era uma pergunta tão franca e merecia uma resposta mais franca ainda.
— Eu vejo... – Apoiei-me em uma mão e dei um empurrão para subir ao seu nível. Com ela era assim, tive que aprender a acompanhar seus passos e meu orgulho chegou a tal ponto que em comparação nem um grão de mostarda chegaria. – Asas.
Ela me encarou atônita.
— O quê? O que tu vê? – Repetiu a pergunta, como se não tivesse escutado a resposta.
— Vejo asas... Lindas asas. – Aproximei-me da pequena. – Por que tu não tens coragem de mostrar coisas tão lindas? – Afaguei seu rosto ternamente.
Ela acompanhou o percurso das minhas mãos. Não com os olhos, pois esses estavam cravados em algo além de minha compreensão tridimensional, mas com o sistema nervoso, que se arrepiava e ingeria com feracidade cada toque que eu ousava fazer.
— Por que não tenho asas. – Nesse ponto seus braços já tinham se abaixado novamente.
— Claro que tem! – Encarei-a com uma expressão incrédula.
— Não, não tenho. – Respondeu metódica.
Afastei-me um pouco para revistar seu corpo, ela estava tão desconfortável enquanto eu averiguava todas as brechas que soltei uma risada inconscientemente.
— O que, por Deus, você está fazendo? – Perguntou a pequena.
Parei por um minuto, depois virei para ela e falei simplesmente:
— Procurando suas asas, não é obvio?
Não sei qual foi a expressão que ela fez, pois logo depois voltei ao trabalho árduo de encontrar aqueles laços de fogo, mas apostaria um milhão que sua expressão era de extrema incredulidade... Ouso dizer até de insanidade.
— Nunca vai encontrar o que não existe. – Sua voz saiu triste.
— A-Ha! – Exclamei.
— O que? O que foi? – Perguntou incrédula.
— Achei. – Aproximei-me de suas costas.
— Mas...
— Psiu! – Chiei em seu ouvido.
Ela pareceu se arrepiar bastante com isso.
Peguei cada uma de suas mãos delicadamente, passando o polegar pelas costas das mesmas. Além disso, não existia mais nenhum contato entre eu e a pequena.
Digo eu e a pequena, pois não me sinto no direito em classificar “nós” nessa relação. “Nós” é uma palavra sagrada, voltada para o verdadeiro amor que um dia queria saber compreender.
— Posso te ajudar a voar? – Sussurrei sobre sua juba ruiva. O contraste do meu loiro seco e sem vida com seus lindos cabelos de fogo e as sardas era de sentir vergonha.
Ela assentiu, não sei se para prolongar o momento ou por que estava muito curiosa para ver o que eu ia fazer.
Vagarosamente, ergui cada um de seus braços, abrindo-os ao máximo para os lados. Seus braços eram menores que os meus, o que deixava os meus em uma contração, enquanto os dela padeciam completamente esticados.
Beijei seu ombro e coloquei meu queixo no mesmo lugar. O vento passou forte, todas as plantas seguindo o curso de seus cabelos.
Vi seus olhos se fechando e tive uma sensação quase incomum de paz.
— Sabe... Sinto um Déjà Vu grande com esse momento. – Isso foi dito pelos lábios avermelhados. No momento estavam secos pelo vento e rachados pela teimosia.
— Titanic? – Soltei uma risada nasal e feia, mas o que posso fazer? Tudo comparado a ela se torna pequeno e irrelevante.
Isso pareceu uma citação bem apaixonada, mas era um fato que se impregnou como uma bactéria, a diferença é que não existiam antibióticos para as minhas idéias, apenas níveis e convicções.
— Touché. – O riso que ela soltou, comparado ao meu, era como sinos tilintando sobre o ouvido.
Foi um momento delicioso, compartilhar de seu vôo. Por um momento sentir que a pequena borboleta estava voltando ao seu trabalho de polinizar as flores do mundo.
Como ela foi parar em uma planta tão feia como a minha nunca vou entender.
A única coisa que era diferente de uma verdadeira borboleta, de uma verdadeira flor, era seu cheiro. Ela tinha cheiro de talco. Dizem que quarenta por cento da atração exercida de uma pessoa para a outra, vem do cheiro.
Considerando isso, podemos dizer que a tática de atração é uma coisa terrivelmente instintiva, como para existir de algum modo o acasalamento.
Pergunto-me como devia ser antigamente, quando as pessoas nem ao menos se lavavam.
Coloquei o nariz na curva de seu pescoço e respirei profundamente. O cheiro dela era delicioso, meu cheiro favorito.
Sorri inconscientemente.
Por um momento, podia ter certeza que a realidade era formada de fatos...
Então eu acordei.
