Quando eu despertei, a luz que penetrava pela janela deixara de ser amarelada, assumindo um pálido tom azulado. Eu havia dormido até o anoitecer; eu podia ver pela janela a lua já alta no céu. Me sentei no sofá e olhei em volta.Tudo estava exatamente no mesmo lugar desde que eu adormecera. As mesmas paredes descascadas, os mesmos móveis empoeirados. O cheiro de poeira e mofo invadiu minhas narinas, um pouco mais intenso do que eu me lembrava. Meus olhos aos poucos se acostumavam com o negrume noturno. Logo, eu já via tudo claramente, como se fosse dia. Estranho.
Eu não tinha a menor idéia de como fora parar ali. Mas também tinha a sensação de que não fora levado por alguém. Minhas memórias da noite anterior continuavam meio vagas; não conseguia me lembrar do que acontecera comigo, ou com aquelas pessoas estranhas. Me levantei lentamente e cruzei o quarto tentando não fazer barulho. Mesmo que aquela casa fosse de fato desabitada, acho que não seria uma boa idéia sair me arriscando. O assoalho desgastado e apodrecido não rangeu sob meus pés, como que pensei que fosse acontecer. Novamente, era como se eu não tivesse peso.
A primeira coisa que senti ao pisar fora da casa foi a suave e fresca brisa da noite. Não estava frio, nem calor. Observei as redondezas. Tudo era muito similar ao que eu me lembrava de quando vivo, porém aquelas casas pareciam ter perdido uma luta contra o mais formidável oponente: o Tempo. O que me fazia pensar: onde estou? E mais importante: QUANDO? Aquela sensação de que muitos anos haviam se passado voltava a me incomodar.
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