a lonely september
I’m sitting here all by myself
Just trying to think of something to do
Trying to think something
Anything just to keep me from thinking of you
But you know it’s not working out
Cause you’re all that’s on my mind
One thought of you is all it takes to leave the rest of the world behind
Um
Davi
Era uma linda manhã de sol, quente e alegre, na Gambiarra de sempre. Na rua, Luene conversava em voz alta com uma vizinha, falando empolgada sobre alguma novidade que devia ter sobre sua carreira. Em casa, Rita cantarolava bem-humorada um dos sambas de Dante, que tocava no rádio, enquanto o próprio Dante assistia aos melhores momentos do jogo do Flamengo da véspera e reclamava contra ‘a roubalheira do juiz’. O Natal se aproximava e o Rio ganhava contornos cada vez mais calorosos, no auge do verão, com o maremoto de turistas que inundavam a cidade à espera do Réveillon mais famoso do mundo.
Porém, uma pessoa destoava daquele clima de euforia. Davi Reis encontrava-se recolhido a seu quarto, jogado na cama, olhando para o teto. Há três meses via-se preso num círculo vicioso do qual não encontrava forças para sair. Todos tentavam ajudá-lo, preocupados com a súbita mudança do rapaz, mas sem sucesso: Davi mudara, profundamente abalado por um evento que ele não pudera evitar, que, se fosse sincero com ele mesmo, não quisera mudar.
Por que fora tão cego? Por que a deixara partir, longe de seu alcance, de volta a uma vida que, ele sabia, não a fazia feliz? Se tivesse sido menos inocente, mais desapegado de seu passado, tudo seria tão diferente agora... Ela estaria ali, ao seu lado, invadindo todos os segundos de seu dia como um furacão de energia, sacudindo-o da sensação de marasmo que o invadira desde que soubera, por Jonas, que ela partira de volta à terra de tio Sam, junto com a mãe e Arthur.
Ele sabia que ela não mais voltaria ao Brasil. Por mais que tivesse feito as pazes com o pai, por mais que estivesse encantada com os irmãos gêmeos e desejasse ser parte da vida deles, ela sofrera muito em terras brasilis para ansiar retornar para lá. Sim, no Brasil ela se humanizara... Sofrera e sentira como nunca antes em sua vida. Os problemas familiares, as questões jurídicas de Jonas e as mágoas que ele, Davi, causara, tinham sido traumáticos demais para ela, que partira discretamente, escoltada pelas pessoas em quem mais confiava.
Nem mesmo dele se despedira, o que não o surpreendeu. Entre eles havia sentimento demais, dor demais, mágoa demais, mentira demais. Ele a magoara e mentira para ela ao lhe esconder o romance clandestino de Jonas e Verônica, a investigação do FBI sobre Jonas e o próprio envolvimento amoroso com Manuela. Ela, em contrapartida, mentira e o magoara ao fingir-se de cega depois do acidente.
“Não pode me culpar por isso,” dissera-lhe com voz dura, os olhos secos e frios a encará-lo na última vez em que se falaram. “If I lied, you’re to blame. Você ia me deixar pela nerdestina – não tente me dizer que não ia. Eu te amava, Davi. Pode me culpar por usar o que eu podia para te manter do meu lado?”
No momento ele não percebera, mas os olhos dela imploravam compreensão. Estavam duros, sim, mas não de raiva. Não de indiferença. Estavam duros de mágoa, de desespero. Ela o amava, e ele amava outra. Outra que, aos olhos dela (ele sabia), não o merecia, enganara-o, iludira-o naquilo que ele tinha de mais caro e precioso: a ética profissional. Ela estava à frente dele, frágil, sensível, como uma flor diante de um furacão. Mas ele, cego, estúpido, bruto, não percebera. Reagira com raiva, com ódio, descontando nela todas as frustrações daquele ano desatinado.
Ele a viu engolir em seco diante da dureza com que falara com ela. Viu o brilho magoado de uma lágrima que ela sufocou ao desviar os olhos, olhando para outro lado, para longe dele. Viu quando ela empinou o queixo orgulhoso, aprumou os ombros e virou-se novamente para ele, não mais a menina frágil que baixara todas as suas barreiras para ele e sim a pop princess do Vale do Silício.
“Okay, then. If that’s what you think of me, então não se preocupe. Nunca mais vai me ver de novo, Davi. As soon as I’m able eu vou partir do Brasil.” Sua boca se abriu num sorriso que, agora, ele sabia que era falso e cheio de amargura. “E não planejo voltar.”
Três semanas depois ela cumprira sua palavra: partira como um cometa, deixando para trás uma Luene arrasada e deprimida, chorando copiosamente ao chegar do aeroporto, abraçada a um Ernesto também de olhos vermelhos e a Vander, que os seguia sem saber o que fazer para consolar ambos. Os três ficaram no Bar do Bira, bebendo à saúde de Megan, Luene tecendo elogios infinitos à ‘best’ que voltava ‘aos Esteite’, Ernesto lamentando a partida da sócia e incentivadora e Vander ordenando rodada após rodada de cerveja, ajudando como podia aos dois amigos de Megan.
E começara seu calvário. Para esquecer tudo aquilo, esquecer a ela, enterrara-se no trabalho, na Brasuca e no Junior. Quando isso não funcionou e ele continuou vendo Megan em todos os cantos, atirara-se em Manuela. Saía, dormia, acordava, transava, falava com ela praticamente vinte e quatro horas do dia. Quando não estava com ela em pessoa estava com ela pelo whatsapp, pelo Skype, pelo viber. Se a princípio ela aceitara, radiante por tê-lo de volta depois que o considerara perdido para sempre, um mês mais tarde impusera o fim daquilo, justificando que tanto ‘grude’ estava sendo prejudicial a seu trabalho. Davi concordara, aturdido, mas depois desesperara-se.
O trabalho não estava ajudando. Manuela, ainda menos – cada vez que a via lembrava-se que por ela perdera Megan.
Foi quando afundara na mais negra depressão.
Foi quando caiu a ficha do quanto era louco pela linda, indomável, corajosa e frágil Megan Lily Parker-Marra.
Foi quando percebeu a besteira que tinha feito de sua vida.
. . . .
Megan
Los Angeles, Califórnia.
Como no Rio, o sol brilhava constantemente na Califórnia. Mesmo em pleno dezembro, quando no resto dos Estados Unidos a neve caía pesadamente tingindo tudo de branco, em Los Angeles era praticamente impossível ter um ‘white Christmas’. Na mansão dos Parker, porém, isso não era empecilho para Pamela decorar a casa toda como se fosse uma casinha dentro de um globo de neve, com música de Natal tocando a todo vapor praticamente durante 24 horas do dia.
Pamela adorava o Natal, adorara desde que era uma menininha. Mas naquele ano, por mais que tentasse, o Natal em sua casa não seria tão feliz quanto o fora um dia. Seu adorado pai não estava mais entre eles, ela era uma mulher sem marido (seu coração apertou-se ao se lembrar de seu Marra-Man, tão longe, no Brasil) e, para piorar, a pessoa mais importante de sua vida não mais brilhava como um sol.
Megan Lily, sua preciosa filha, afundara numa depressão amarga, emagrecera e, embora ela tivesse transformado a casa numa filial da casa de Papai Noel na Lapônia, o quarto da filha continuava tão sombrio e negro quanto o buraco que se fizera em sua alma há três meses, quando ela perdera o amor de sua vida, o único homem que amara com todo o vigor de seus 19 anos.
Pamela suspirou, triste. Como esquecer a figura de Megan, chorando baixinho, abraçada aos poucos amigos da Gambiarra que tinham ido se despedir dela no aeroporto? E dela depois, pálida, cansada, olhando para ela com aqueles olhos castanhos vazios, vermelhos, inchados, plenos de um desespero de poço sem fundo, encolhidinha na poltrona da primeira classe da American Airlines, olhando sem ver pela janelinha do avião?
Sua filha sofria o pão que o diabo amassara por amor. E, como ela, Megan também era mulher de um homem só. Enquanto ela era Marra-Woman, mesmo divorciada de seu Marra-Man, Megan era a loirinha de um hacker idealista, íntegro e idiota que jogara o amor sincero de sua filha na lata de lixo por causa de uma pernambucana duas caras.
A atriz fechou os olhos e respirou fundo. Em todos os dias daquele três meses prometia a si mesma ao acordar que não ia xingar Davi ou Manuela pelo sofrimento que tinham imputado à sua filha. E todos os dias burlava essa promessa, furiosa como uma leoa caçando uma presa pelo abatimento que via em cada molécula da filha que ela sempre chamara carinhosamente (e às vezes não tão carinhosamente assim) de Hurricane.
Mas nada havia de furacão na Megan que ela via agora, sentada no peitoril de sua janela, olhando para o sol que brilhava lá fora como se ele fosse um amigo que a traíra imperdoavelmente. Os cabelos loiros da filha estavam presos num rabo de cavalo despenteado, e nada restara da jovem esguia e atlética, uma das mais estilosas do mundo, na figurinha frágil e quebrável, vestindo moletom, que Pamela tinha diante dos olhos.
Suspirando inaudivelmente, a intérprete da Princesa Shelda bateu com delicadeza na porta do quarto da filha. Megan pareceu não dar acordo da presença da mãe. Ergueu a mão fina e frágil até o rosto, enxugando debilmente as faces encharcadas de pranto. Sem dizer uma só palavra, Pamela dirigiu-se até sua herdeira e a envolveu nos braços, pressionando seu rosto contra os cabelos cor de ouro da jovem.
“I wonder... Will it ever stop hurting, mommy?” A voz de Megan parecia a de uma criança perdida. “Eu não aguento mais... Não consigo parar de pensar nele... I hate that...”
Pamela mordeu o lábio inferior e limitou-se a alisar os cabelos da filha. Não tinha a resposta para aquela pergunta, porque ela mesma não sabia se um dia sua dor ia parar. Maldita maldição das mulheres da família Parker, pensou com uma ponta de raiva, esta a de ser fiel até a maridos imprestáveis e namorados calhordas como Jonas e Davi.
Megan chorava, chorava, chorava. Não aguentava mais viver naquele mundo de dor e de lágrimas, naquele sufocamento ocasionado pela ausência de uma parte de sua essência. Havia voltado para os Estados Unidos, sim, e retomara contato com Kim, Khloé e Kourtney, com Ariana, com Selena. Mas não vivia mais em baladas, ou spas, ou em shopping sprees pela Rodeo Drive, fofocando alegremente. Apenas Khloé, passando pelo abalo de sua separação, conseguia entender o estado de espírito de Megan.
Não tinha forças para mais nada, a não ser para ficar trancada em seu refúgio, chorando seu amor desprezado. Como Davi tivera coragem de fazer o que ela tantas vezes lhe implorara para não fazer? Como pudera beijá-la, abraçá-la, seduzi-la, sabendo que violava o que Megan tinha como mais precioso, a confiança?
Como ela podia ter se enganado tanto com alguém?
Para completar a desolação de Megan, dias depois de chegar à Califórnia ela passara mal, com cólicas fortíssimas, e fora levada às pressas pela mãe a um hospital. Internada, ao acordar achou que seu desmaio se dera por estar sem comer direito há dias. O rosto pálido e os olhos inchados de Pamela, sua expressão de consternação, porém, lhe disseram que não era só isso.
A bomba atirada pelo médico em seu colo agravara seu estado depressivo. Megan estava grávida, porém, era uma gravidez ectópica que se rompera, o que a levara a desmaiar. Por milagre haviam conseguido salvar o ovário de Megan, onde o embrião se alojara, mas o bebê se fora. Foi uma Megan entorpecida de choque e inundada de um pesar novo e exótico que ouviu, de mãos dadas a Pamela, as explicações graves do médico sobre como seria impossível salvar um bebê ectópico.
Ela só conseguia pensar que havia uma parte minúscula de Davi crescendo dentro dela, e essa parte se fora. Nada mais a prendia a Davi. Nada, a não ser aquele amor enorme, embriagante e intenso que ela não conseguia arrancar de seu coração. Stupid, stupid heart.
E foi assim, com Megan aninhada nos braços da mãe e vivendo o luto da morte de seu filho, do fim de seus sonhos de amor e, mais do que isso, chorando a sua completa incapacidade de apagar de seu ser aquele amor impossível, que começou aquele lindo dia na Califórnia.