O céu de Seattle estava azul e límpido,coisa deveras incomum devido ao alto índice pluviométrico pelo qual a cidade era conhecida.Mas não era isso que chamava a atenção de Yuri Liêvin.

O que lhe chamava a atenção eram os pássaros.Dezenas,centenas,milhares voando livres e soltos,sem nada que os pudesse prender ao chão.

Yuri sabia que,infelizmente,não poderia mais ter aquela sensação sempre que a desejasse.

Já faziam dez anos.

E ele se lembrava daquele dia como se fosse ontem.

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(Seattle,dez anos antes)

Yuri estava empoleirado no tronco de uma árvore ao lado de Pavel,seu irmão gêmeo.Desde que haviam se mudado da Rússia há quase um ano,os dois não tiveram muitas oportunidades de ver a cidade com outros olhos que não os de sempre.

-Realmente,é legal mesmo ser um pássaro!Não acha,Yuri?-perguntou Pavel ao irmão,que observava as pessoas passando embaixo da árvore.

-Sim,eu concordo.Assim posso observar tudo e achar alguma inspiração.-Yuri respondeu,tentando manter a concentração.

-Há,há!Deixa só o papai e a mamãe ouvirem isso!!!-falou Pavel,piando alegremente.Yuri simplesmente abanou a cabeça e continuou observando a multidão.

E assim ele ficou por mais alguns minutos.

Até que Yuri a viu.

Era uma menina.parecia ter uns dez anos,no máximo.Entretanto,sua expressão era muito séria para uma criança.

De repente,ela parou,aparentemente sem motivo nenhum.

E,para surpresa de Yuri,a garotinha girou a cabeça até o local onde ele e o irmão estavam.

Ela mal olhou para Pavel.Seusolhos,no entanto,ficaram fixos em Yuri.

E,assim como a garotinha não parava de observá-lo,Yuri não conseguia tirar os olhos dela.

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Assim que chegaram em casa,os irmãos cumprimentaram o pai e foram até a cozinha ajudar a mãe a preparar o jantar.Durante a refeição,Pavel,como sempre,deu um relato completo do dia,enquanto Yuri complementava ou ficava apenas escutando.

-Nossa,que interessante!-comentou a senhora Liêvin enquanto servia a sobremesa.-Pois eu tenho uma novidade para vocês!Eu e seu pai arrumamos empregos!!

-Sério?!Que demais,mamãe!!Que legal,papai!!!-exclamou Pavel,quase pulando da cadeira.-Meus parabéns!!!

-Pavel,assim você vai derrubar a mesa!-disse o pai,rindo da expansividade do filho.-Mesmo assim,agradeço os parabéns.

-E vocês vão trabalhar aonde?-Yuri perguntou.

-Vamos trabalhar na casa de uma família muito importante da cidade!São os Altermann,e eles disseram que podermos até matriculá-los no mesmo colégio que os filhos deles!-a mãe respondeu,começando a cantar em russo.

-É muita generosidade deles...Mas o senhor e a senhora vão fazer o que lá?-Yuri perguntou,franzindo a testa.

-Seu pai vai ser chofer,e eu cozinheira!E não faça essa cara,Yuri,vai dar tudo certo!-disse a senhora Liêvin da cozinha,enquanto lavava os pratos.

-E vamos levar vocês dois lá amanhã,para que as pessoas de lá os conheçam,e assim não sejam barrados caso precisem passar lá para falar conosco.-comlpetou o senhor Liêvin.-Parece que a nossa sorte vai mudar,meninos.E para melhor.-completou,dando um sorriso.

Yuri queria acreditar no pai,mas ao mesmo tempo não deixava de achar estranha aquela oferta que a família Altermann havia feito.

Porém,o destino ainda reservava mais uma surpresa para ele.

Uma que ele sequer imaginava.

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No dia seguinte,Yuri e Pavel adentravam aquela enorme mansão sem acreditar que poderia existir um lugar tão grande.

-Nooooooooossaaaaaaaaa!!-exclamou Pavel ao passarem pelo hall de entrada.-Olha só quanta coisa chique!!

-Não toquem em nada,meninos.-pediu a senhora Liêvin.-Esses objetos são caros e muito valiosos!

Yuri também observava aquelas coisas impressionado,mas sem o entusiasmo do irmão.Até que ele percebeu a presença de uma pessoa observando-os por uma prota entreaberta.

E ele arregalou os olhos ao vê-la.

Era a mesma garotinha com quem trocara olhares no dia anterior.

E ele novamente não conseguia tirar os olhos dela e vice-versa.Pareciam como que ligados um ao outro de uma maneira que nenhum deles sabia explicar.

De repente,alguém-uma voz feminina-falou da sala onde a menina estava:

-Rebecca,venha.E feche a porta.

\"Ela mora aqui!!Será que é filha de algum dos empregados?\",Yuri pensou,ficando animado com a notícia,pois assim teria mais chances de se encontrar com a menina.

E,ao mesmo tempo,um novo sentimento brotava dentro de seu coração.

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Conduzidos à sala de visitas,os Liêvin sentaram-se de frente ao casal Altermann,Christian e lorraine.E ao lado deles estava Rebecca.

\"Por que será que ela está aqui?\",pensou Yuri,tentando não olhar para a menina.No entanto,por mais que tentasse,era praticamente impossível.

-Bem,primeiramente gostaríamos de lhes agradecer por terem atendido ao nosso pedido para virem de manhã cedo.-começou o senhor Altermann.-Sabemos que vocês devem ter seus compromissos,mas gostaríamos de resolver tudo o mais rápido possível.

-Oh,não,imagine,senhor Altermann.Nós é que agradecemos!-disse o senhor Liêvin,abanando a cabeça.-Eu,minha esposa e meus filhos somos gratos por esta oportunidade!

-Fico feliz em ouvir isso.-falou o senhor Altermann.-no entanto...nós os chamamos...por outra razão além desta.

-Hã?-perguntou o senhor Liêvin,ficando surpreso.

-Diga-nos,senhor Liêvin...Por que você e sua família vieram para os Estados Unidos?-perguntou o senhor Altermann,olhando bem nos olhos do pai de Yuri e Pavel.

-Ah...Bem...-disse o senhor Liêvin,ficando nervoso.-Bem,foi por causa da falta de trabalho...O senhor deve saber que...Mesmo após a extinção da União Soviética as coisas não melhoraram muito...

-Mas mesmo assim vocês conseguiram sobreviver,não é mesmo?-questionou a senhora Altermann,entrando na conversa-Afinal,vieram todos os quatro de uma vez....

-Ah...Uh,bem...Tínhamos algumas...economias guardadas,e...-tentou responder o senhor Liêvin,mas sua esposa perdera a paciência.Ela,então,se levantou e disse:

-Senhor!Senhora!!Por favor,parem com isso!!!Nós viemos aqui porque vocês disseram que iam nos dar empregos e uma boa escola para nossos filhos!!!No entanto,percebi que não há nada disso aqui!!Querido,meninos,vamos embora!!!

A senhora já estava saindo porta afora com o marido e Pavel-Yuri ainda não se levantara-quando de repente Rebecca falou,puxando a roupa da mulher:

-Senhora,espere.

Os visitantes ficaram surpresos com a ação da menina,especialmente Yuri.Os pais dela,porém,apenas ficaram observando tudo.

-Peço desculpas pelas perguntas dos meus pais.E peço a vocês que sentem-se para ouvir o que temos a dizer.-continuou a garotinha,puxando a senhora Liêvin de volta para a poltrona.A mulher,então,resolveu ouvir o que eles queriam falar,acompanhada de Pavel e do esposo.

-Na verdade,nós não lhes oferecemos empregos porque vimos seus currículos.Nós os oferecemos por causa dos seus filhos.-começou a senhora Altermann.-A propósito,sou Lorraine Altermann,este é meu marido Christian e esta é nossa filha Rebecca.-continuou,mostrando o mairdo e a filha.

\"Nossa!!!Então ela é filha dos donos da casa!!!\",pensou Yuri,impressionado com a informação.Ele não imaginava que Rebecca fosse filha de uma família tão importante.

-Nossa filha nos disse que viu seus filhos ontem em uma árvore no parque.-Christian falou.-Assim que ela os viu,percebeu que eram humanos.E que...eram como nós.

Dessa vez,todos os Liêvin ficaram espantados.Yuri e Pavel,então,mais ainda.\"Por isso ela não tirava os olhos de mim,ou melhor,de nós!Ela sabe o que nós fazemos!!\"

A senhora Altermann,então,puxou uma pasta que estava escondida do lado do sofá onde ela,Christian e Rebecca estavam sentados.

-Quando Rebecca nos falou dos meninos,nós esolvemos procurar informações sobre vocês.-disse,abrindo a pasta.-E,quando vimos isso-continuou,puxando um recorte de jornal em russo datado de quinze meses antes-,entendemos porque o senhor Liêvin abandonou um cargo tão bom de professor universitário.

O artigo falava de dois ursos que andavam pelas ruas de Moscou,e que,segundo o jornal,atacavam quem encontrassem pela frente.A senhora Liêvin,assim que leu as primeiras linhas,começou a chorar.

-Meu Deus...!-disse ela,em russo.-Tudo porque eles estavam na hora errada e no lugar errado...

-Não é verdade.-disse Rebecca.-Eles só queriam ajudar,não é mesmo?-perguntou,dirigindo-se aos gêmeos,mas sem parar de olhar para Yuri,que estava de cabeça baixa.

-A...Ah...N...Nós...-começou Pavel,mas o irmão o interrompeu.

-Sim.Nós queríamos ajudar.Nós...realmente...queríamos ajudar aquela mulher.-falou Yuri,levantando a cabeça.

-Então...É por isso que nos chamaram?Por que nosssos filhos são...como vocês?-perguntou o senhor Liêvin.

-Sim.E também para oferecer-lhe um emprego,senhor Liêvin...Na Universidade de Nova York.-respondeu Christian,sorrindo.

Os olhos do senhor Liêvin se arregalaram de espanto.Desde que partira da Rússia com a família,ele sequer imaginara que receberia uma proposta daquela.

-U...Um emprego...?Em...Em uma univer...-perguntou,tão surpreso que misturava o russo com o inglês.

-Isso mesmo.Mas temos uma condição.-disse o senhor Altermann,levantando um dedo.-Seus filhos devem ficar aqui,na nossa casa.

O sorriso do senhor Liêvin desapareceu.Sua esposa ficou apreensiva.os irmãos se entreolharam,sem acreditar no que ouviam.

Então Yuri olhou mais uma vez para Rebecca.

Seus olhos se encontraram.

E o que ele viu no olhar dquela menina o surpreendeu.

Havia esperança.Mas não uma esperança qualquer.E sim um sentimento tão forte que foi possível a Yuri ouvir o que Rebecca estava pensando.

\"Por favor!Fique!!Por favor!!!\"

\"Ela...quer que eu fique?Mas...Por que...?\",Yuri pensou.Então ele criou coragem para perguntar:

-Quem...Teve a ideia de fazer essa proposta?

A senhora Altermann sorriu e respondeu,olhando para Rebecca.

-Foi Rebecca quem fez o PEDIDO,jovem senhor Liêvin.Ela adoraria que você e seu irmão morassem aqui,pois ela não tem muitos amigos da mesma idade.

-Por que?-Pavel perguntou.

-Pavel!Não seja indiscreto!!-replicou a senhora Liêvin.

-Bem...Por causa de um...incidente...parecido...com o de vocês...-disse Rebecca,baixando a cabeça-as pessoas da vizinhança...têm medo de mim...

Ao ouvirem isso,a família ficou em silêncio.E foi a própria Rebecca quem o quebrou:

-Então...Se não for pedir muito...Vocês poderiam ficar?

Yuri e Pavel,então,olharam para os pais em busca de uma resposta.

-A decisão é de vocês,meninos.-respondeu o senhor Liêvin,sorrindo para os filhos.Sua mulher fez o mesmo.

-Está bem!Eu aceito!!-Pavel respondeu,virando-se para o irmão gêmeo.-E você,Yuri?

Yuri sabia que sua decisão ia mudar completamente sua vida.E seria uma escolha sem volta.

Mas ele não podia deixar de lembrar das esperanças que a menininha à sua frente nutria ansiosamente.

Yuri Andreevitch Liêvin tomou sua decisão.

E jamais se arrependeu dela.

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Observando o céu azul,Yuri relembrava o fim daquele dia enquanto Rebecca fazia compras na loja ao lado.

-Mas que dia,hein,Yuri?-disse Pavel em inglês para os pais não entenderem.-Papai ganhou um emprego...

-E nós também,de certa forma.Acredita mesmo que toda a família seja como nós?-perguntou Yuri ao irmão gêmeo.

-Bem,ela descobriu que podemos nos transformar em animais,não é?E eu percebi que aquela menina não parava de olhar para você.Desde ontem!-respondeu Pavel.Em seguida baixou o tom de voz e disse:-Não se esqueça de que você é o empregado,e ela a patroa!

-Tá bom,tá bom!Não vou me esquecer!-falou Yuri,achando o comentário do irmão muito engraçado.Nenhum dos dois,porém,sabia o quanto aquilo seria definitivo em suas vidas.

-Ei,vocês,estão conversando o que?-perguntou a mãe dos garotos,que não entenidia inglês tão bem.

-Nada não,mãe!-gritou Pavel em resposta.Yuri,no entanto,virou-se e olhou para trás.

E,na janela do cômodo normalmente destinado ao sótaõ,uma garotinha de dez anos sorria como se tivesse ganho o melhor presente da sua vida.

E seu sorriso se alargou quando um rapaz russo de quatorze anos retribuiu o cumprimento da mesma forma.

E Yuri estava vendo o mesmo sorriso quando Rebecca Josephine Altermann apareceu na sua frente com uma sacola de loja de grife masculina na mão esquerda.

-Para você.-disse a jovem,agora com vinte anos e passando o braço direito pelas costas do namorado.

-Nossa,quantas roupas!Não precisava ter gasto tanto!-Yuri falou,examinando o conteúdo da sacola.

-Você merece.Por tudo.-Rebecca argumentou.-Estava observando os pássaros?

-Sim,há muitos voando hoje.-Yuri respondeu.-Mas você sabe que naõ vou voar para lugar nenhum.A menos que VOCÊ me autorize!

-E quem disse que eu devo lhe dar autorização?-Rebecca perguntou,incrédula.

-Porque você me deu a felicidade,Rebecca.E nem com toda a liberdade do mundo eu me sinto feliz se você não estiver por perto.-Yuri respondeu,dando um beijo de leve nos lábios de Rebecca.-Eu te amo,minha pequena dama.

-Eu também te amo,meu pássaro.-disse Rebecca de volta,recostando sua cabeça no ombro de yuri.

E os dois caminharam de volta para casa seguidos por um céu azul e uma revoada de pássaros.

Que não eram mais livres que o pássaro que caminhava com sua pequena dama.

Pois com ela ele tinha a maior liberdade do mundo.

A liberdade de amar.

+FIM+

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