— Chegamos ao Rio de Janeiro, senhor Albuquerque. — disse o piloto do jatinho
— Muito obrigada por me avisar — João Roberto Albuquerque estava com a mente completamente em branco.
Ele se sentia muito assim ultimamente. Johnny (seu apelido de adolescente) desembarcou no Rio de Janeiro. Olhou o mar que inundava a vista atrás dele. "Bem, — ele pensou — Vai ser aqui que eu vou morar...Nunca morei em uma cidade com praia."
Ele acenou para um táxi. O taxista o cumprimentou e eles começaram a conversar.
— O senhor é daqui? — disse o motorista com forte sotaque carioca.
— Não, senhor — Johnny olhou a orla pela janela — Sou natural de Brasília.
— Brasília é?Onde tão todos os ratos e corruptos do nosso pais?
— Essa mesma — afirmou ele, jovialmente.
— O sr. não é por um acaso político não é? — o motorista parecia apreensivo
— Não pode ficar tranquilo. Eu sou administrador, acho que posso dizer assim. Johnny esperava que nenhuma outra pergunta sobre a sua profissão surgisse.
— Ah,bom. Então porque o senhor está aqui?
— Eu vim morar com a minha noiva — Johnny falou com pouquíssima emoção na sua voz — E preparar o casamento.
O taxista achou melhor ligar o rádio.
"Como homenagem a recente morte do cantor Renato Russo, estaremos transmitindo todos os seus maiores sucessos com a banda Legião Urbana, que recentemente declarou que encerrou suas atividades..."
— Triste não é? Morrer assim tão jovem... — disse o taxista
— É, eu gostava de Legião. Minha namorada é doente por Legião Urbana, deve estar completamente arrasada.
— Você quer dizer sua noiva
Johnny afundou no banco, mas tentou se recuperar:
— Desculpa, ex-namorada. Sempre que falam de Legião, eu penso nela. Foi ela que me fez gostar...
— Ah.
Johnny olhou pela janela. Sua ex-namorada era Maria Lúcia. Só de pensar nesse nome lhe dava caláfrios. Eles terminaram há quase 4 anos. Sentia saudades dela, de seus olhos gentis. Nunca mais encontrou alguém com quem se sentisse tão vulnerável, tão disposto a afogar suas crenças. Ele sempre pensou que ela era a mulher de sua vida. E agora ele ia casar com outra mulher.
Agora a música Ainda É Cedo, do primeiro disco da banda, o politizado Legião Urbana.
Quando a música começou, parecia que a chuva que cai lá fora estava dentro, gelando os seus ossos.
Mas, egoísta que eu sou,
Me esqueci de ajudar
A ela como ela me ajudou
E não quis me separar
Ela também estava perdida
E por isso se agarrava a mim também
E eu me agarrava a ela
Porque eu não tinha mais ninguém
E eu dizia: — Ainda é cedo
cedo, cedo, cedo, cedo (3x)
E eu dizia ainda é cedo.
Johnny estava deprimido. Quando reconheceu a rua da casa de Mariane, ele deu o dinheiro pro taxista, pegou sua mala e quase pulou do táxi.
