Quando chegamos, eu ainda estava em um estado deplorável, por dentro e por fora. Eu ainda podia sentir meus olhos inchados e quentes, podia sentir meu cabelo com nós e minhas mãos ainda tremiam levemente, pude sentir meus pés formigando e minhas pernas recusando-se a se mexer.
Olho para fora, e tudo o que vejo não me anima. É apenas uma cidade, uma cidade na qual, a partir de agora, irei viver.
Vejo os prédios, as ruas, as plantas, os poucos carros, mas nada me interessa. Esqueço de tudo o que vi assim que tudo fica para trás, com a velocidade do carro isso não demora a acontecer.
Mas, de repente, toda a monotonia e todo o torpor são interrompidos quando o carro passa por uma casa. Meu coração dá a impressão de querer sair do peito com a visão que desapareceu assim que pisquei. Tinha certeza que havia visto o homem, aquele homem, o causador de minhas noites insones e de todo o meu sofrimento.
Com o coração ainda aos saltos, examino a janela em que estava minha visão, tento focalizá-la, mas não consigo, ela já está longe. Longe também estão meus pensamentos.
Assusto-me ao ouvir uma voz distante, mas o dono da voz está bem ao meu lado, falando comigo sem se importar se escuto ou não, fala somente pelo prazer de ouvir sua própria voz.
Desligo-me por completo, sem me importar com as palavras que estão sendo soltas ao vento pelo homem que era o mais próximo que eu teria de uma família.
Quando dou por mim, novamente, estou deitada em meu novo quarto, deixando meus pensamentos voarem. Não tento pensar em alguma coisa por mais que alguns segundos, não me restam forças para isso.
Sinto minhas pálpebras pesadas, insistindo em se fechar, mas tenho medo de dormir, tenho medo dos sonhos.
De minha cama, olho pela janela aberta o céu estrelado de uma noite de luar, finalmente consigo me fixar em um pensamento: minha chegada até aquele fim de mundo.
Uma cidadezinha com cinco mil habitantes, como conseguem viver aqui?
Eu vinha de uma cidade com cerca de cem mil habitantes, eu gostava de morar lá. Não era cidade grande, nem cidade pequena, era simplesmente uma cidade. E eu tinha mamãe, mas ter esse pensamento não me ajudou em nada. Desviei-me dele.
E, agora, tenho meu pai, mas de grande ajuda isso será para mim! Sim, com certeza, grande ajuda! Não havia falado com ele pessoalmente fazia um tempo considerável, só cartões e presentes nas datas comemorativas e, é claro, ligações. Só. Às vezes, nem isso.
“Não quero morar aqui! Quero minha mãe perto de mim!”. Sinto um aperto no peito, as lágrimas começam a fluir e eu me sinto mais só que nunca. Mais só do que quando minha avó morreu, mais só que quando me perdi no centro de minha antiga cidade, mais só que quando mamãe ficou doente e foi parar no hospital. “Mamãe!”, suspiro.
Não consigo pensar em nada mais, estou sucumbindo ao sono. Sinto meus olhos fecharem-se e o sono profundo aproximar-se, depois, nada. Adormeço e, como eu temia, sonho.

