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Tough boy

Crazy

Tough boy
Chapter 112 min read

Capítulo único - Tough boy

A galáxia estava deserta. O que, em partes, até era estranho, pois tudo estava na maior calmaria dentro da nave espacial conhecida como o castelo de Altea. Entediada, portanto, você caminhava vagarosamente pelos corredores, prestando atenção a cada mínimo detalhe que a tecnologia expunha. Não era a primeira vez que o fazia, mas a capacidade alienígena, de alguma forma, sempre a cativara.

— Hey, (s/n)! – uma voz distinta a chamou ao longe, e você subitamente cessou os passos a fim de suspirar, exaurida. Não era preciso pensar muito para saber que se tratava de Lance, o paladino azul, e aquilo já a estava deixando nervosa. – Espera!

Virou-se.

— Ah... Oi, Lance. – apesar de já estar irritada com tamanha insistência, cumprimentou-o por pura e imaculada educação. – O que foi?

Ele sorriu. Não que você já não soubesse que se tratava de um convite para um encontro, mas, mesmo assim, relevou. Não que Lance a incomodasse ou algo assim, mas suas falhas tentativas de seduzi-la deixavam-na um pouco desconcertada. Por vezes já o respondera com grosseria, mas as recusas nunca eram o suficiente para fazê-lo considerar uma desistência.

Era por outro paladino que estava interessada, afinal.

— Sabe, eu estava pensando... – ele começou, e então você se rendeu e bufou em tom de reprovação. – Eu e o meu leão vamos...

Censurou-o com um manejar de mãos. Como o previsto, era mais um convite para um passeio em seu leão azul, coisa que – por lógica – não tinha sentido, uma vez que você fora agregada ao grupo há pouco tempo e também tinha seu próprio leão, cuja cor era roxa.

— Lance, eu...

— Você já não percebeu que ela não está a fim? – uma terceira pessoa se fez ouvir, e você se encolheu ao som daquele timbre de voz autoritário.

Lance, por sua vez, fez careta.

— Qual é, Kogane! – rebateu em um quase grito, encarando o paladino vermelho com um ódio mortal. E foi só então, quando seguiu o olhar do paladino azul, que você se deu conta de que Keith estava parado ao seu lado, impassível.

Retraiu-se, sem saber o que fazer.

— Você com esses nhenhenhéns! – Lance deu continuidade, apesar de já ter dado um passo para trás a fim de se ausentar. Para seu alívio, foi o que ele fez, mas não sem antes lhe lançar a típica expressão sedutora: — (s/n), a gente se vê mais tarde, então, quando um certo idiota metido a bonzão não estiver perto para interromper! – e então desapareceu corredor adentro.

Silêncio. Você baixou a cabeça por alguns segundos e suspirou, um pouco mais aliviada pelo fato de ter se livrado de Lance sem ter tido de apelar para a grosseria. Quando, entretanto, fez menção de olhar para cima a fim de agradecer Keith pelo que fizera...

— Kei... – nada. Duvidosa, você olhou ao redor para ver se o encontrava, e por fim o avistou bem a tempo de vê-lo virar em direção à sala de treinamento.

Seguiu-o.

Ele era bem mais alto que você, e isso lhe proporcionou um panorama completo de todo o corpo do paladino. Quando ele andava a passos mais rápidos – da forma como fazia naquele instante – suas costas demarcavam cada músculo, tornando-os visíveis por baixo da jaqueta vermelha. Aquilo a fez corar por um instante quando se deu conta de que se abstraíra de seu intuito principal, e só então você tomou coragem o suficiente para chamá-lo.

— A- ahn... K- Keith! – por lógica, você gaguejou, e a pressão só pareceu aumentar quando o garoto parou a fim de fitá-la, os olhos azuis analisando cada mínimo centímetro de seu corpo.

— O que foi, (s/n)? – inquiriu, enfim. Você baixou a cabeça por algum tempo e fitou os próprios pés. – Algum problema?

Vamos lá, repetia incessantemente em pensamento. É só agradecer!

Em tese, aquilo era bem fácil, mas bastava relancear uma olhadela para o Kogane e BUM! Sua coragem se esvaía sem deixar nenhum resquício, fazendo-a se passar por uma tonta. As palavras se retraíam no âmago de sua garganta, afinal, e tudo – até mesmo respirar — parecia exigir uma dose extra de esforço.

— (s/n)?

— A- ahn... – sua voz, enfim, pareceu voltar, e então você arriscou uma aproximação. – E- eu só q- queria dizer que... K – Keith, eu... – ele franziu o cenho por uma leve fração de tempo. Você se adiantou: — O – obrigada!

Silêncio.

— Ah. – ele respondeu com certa frieza e embrenhou os dedos nos cabelos escuros. Você permaneceu estática, os olhos grudados ao paladino. – Por causa do Lance? De nada...

E mais uma vez uma atmosfera crítica recaiu sobre vocês dois. Era sempre assim, afinal; em partes você até já estava habituada. Mas dizer que aquilo não a incomodava, entretanto, seria mentira.

Vamos lá, você mais uma vez se repreendeu em pensamento, e então – com uma dose extra de atrevimento – se fez ouvir novamente.

— A- ah! – exclamou. Keith, que já estava se virando para rumar à sala de treinamento, voltou a olhá-la. – V- você vai... Vai treinar?

Ele assentiu.

— É, vou... – disse, dando de ombros. Como sempre, um rapaz de poucas palavras, o que, para sua total desgraça, só a atrasava.

Desta vez, porém, seria diferente. E foi com essa ideia em mente que você se projetou para frente em um solavanco, tão afobada a ponto de quase não conseguir respirar.

— A- ah! E- eu poderia... – mais uma pausa para adquirir coragem. Keith, por sua vez, franziu o cenho e cruzou os braços à espera de sua pergunta. E foi assim que você se retraiu, o timbre de voz quase que inaudível: — Eu poderia acompanhá-lo? É q- que... S- sabe? C- como a pilota d- de um novo leão, e- eu achei interessante a ideia de s- saber me defender de...

— Ok, venha. – ele a cortou, e a resposta só fez com que você piscasse em descrença. Você esperava ter de choramingar um pouco para conseguir um saldo positivo na requisição, afinal, e vê-lo aceitar com tanta facilidade a surpreendeu um pouco.

Ficou estática.

— (s/n)? – chamou-a já em frente à porta da sala. – Você não vem?

— A- ah. Certo! – e então ambos rumaram para a sala de treinamento.

{#}~{#}

Algumas horas já haviam se passado e você continuava empoleirada em um canto da sala, os olhos atentos a todo e qualquer movimento que Keith executava no campo de batalha virtual. Pelas suas contas, ele já estava em seu 65º adversário, que – a julgar pelas manobras impecáveis do paladino — não tardaria a se tornar o 66º. Era inegável: o garoto era simplesmente incrível ao empunhar uma espada.

Ele parou para tomar fôlego quando o sistema operacional pausou a fim de codificar o novo inimigo que o atacaria. Nesse meio tempo, entretanto, você aproveitou a chance para fitá-lo com mais atenção, maravilhada. Tudo nele, afinal, parecia atraí-la, e isso desde os movimentos descompassados que seu peito executava ao piscar de olhos para recobrar as forças. Retraiu-se ao perceber o que fazia.

Pare com isso, idiota. E se ele acabar notando?

— (s/n)? – você pulou feito gato escaldado sob a menção ao próprio nome, e então virou bruscamente a fim de dar de cara com Shiro. – Você está bem?

Você assentiu com pressa e ele abriu um sorriso. Minutos depois, sentou-se ao seu lado em um movimento ao qual você não atribuiu muita atenção. Ao contrário dos demais, o piloto do leão negro – ao qual os outros atribuíam o título de líder – nunca a fizera se sentir desconfortável, e , em partes, até cumpria o papel de um irmão mais velho. Você podia sempre contar com ele, afinal, e ele sempre a instruía da melhor forma possível.

— Ele está melhorando, não é? – perguntou-lhe, referindo-se ao garoto no campo de batalha. Como se quisesse frisar o que fora dito a seu respeito, Keith desferiu um golpe certeiro na cabeça do holograma, que logo se desfez em milhões de partículas virtuais.

Você fez que sim evasivamente bem a tempo de perceber que o paladino vermelho se encaminhava para vocês.

— Oi, Shiro. – ele cumprimentou o líder, abrindo um sorriso mínimo que lhe deu um pouco de ciúme. Por que só para o Shiro?! – O que estava fazendo?

— Reunião com a Allura e o Coran. – Shiro deu de ombros, parecendo subitamente cansado. Ele se jogou para trás em um movimento brusco, mas logo tratou de olhar em sua direção, um meio sorriso amansando sua expressão. – Discutíamos a respeito de uma nova estratégia para acabar com Zarkon. Com a (s/n) pilotando o novo canhão do Voltron, em uma estratégia surpresa, acredito que tenhamos chance de vencer a batalha.

Empertigou-se. Eles haviam depositado as chances de vitória em si?! Claro, não que você não se considerasse autossuficiente na batalha, mas algo em seu âmago pareceu gritar para que corresse. E a situação só pareceu se agravar quando viu o Kogane a fitando de cima a baixo, pensativo. A atenção com a qual ele a observava não deixava dúvida: ele também confiava em você.

Abriu um meio sorriso e se ergueu em um movimento rápido para se dirigir à saída.

— Hã... E- então! E- eu acho que já vou... – parou em um solavanco ao sentir a mão forte de alguém envolver seu pulso. Virou-se, e então petrificou ao perceber que o responsável por isso fora Keith.

— Hey, (s/n), vem aqui! – ordenou, e você se viu olhando na direção de Shiro para lhe pedir uma opinião. O líder, entretanto, apenas fez que sim, em um incentivo para que seguisse o moreno. Então você o fez.

Ele a posicionou no meio do campo holográfico, e você o fitou com desdém quando ele lhe entregou sua faca galra. Estranhou, pois – por não obter sangue galra fluindo por suas veias – você não seria capaz de manuseá-la, e o fato de Keith tê-la confiado a você só a deixou com mais medo ainda.

Olhou-o por sobre os ombros quando ele desapareceu de vista.

— K- Keith, o que... – começou, mas seus questionamentos não foram rápidos o suficiente. Deu um pulo ao perceber que um holograma se projetava à sua frente, tomando a aparência de um soldado galra. – A- ah!

Encolheu-se e berrou mais alto ainda. Por lógica, a arma continuava intacta em suas mãos, e você se pegou sacudindo-a com toda veemência ao visualizar o inimigo virtual vindo em sua direção. Nada.

— Keith! O q- que eu f- fa... – e novamente você foi interrompida, apesar de a intervenção tê-la agradado desta vez. Em uma fração de segundos, o paladino vermelho se postou atrás de você e a liderou para um ataque de defesa. A faca finalmente tomou seu comprimento verdadeiro; o galra vacilou e deu um passo para trás.

— Mantenha-se firme. – ele a instruiu com um sussurro em seus ouvidos, e você o obedeceu sem pestanejar. Coraria em outra ocasião, mas a criticidade do momento era tanta que, por fim, não se deixou abalar.

Keith brandiu a espada em direção ao holograma, e então você se pegou acompanhando-o nos movimentos. Ele entrelaçou os dedos nos seus a fim de segurar melhor a arma, ao que desferiu um ataque certeiro na cabeça do oponente. Ele, que também estava prestes a atacá-los (ou melhor: atacá-la), caiu no chão e desapareceu, dando lugar a outro soldado.

— K- Keith, e- eu não... – e lá iam vocês dois em direção ao próximo holograma. Você se empertigou e, por uma fração de tempo, permitiu-se fechar os olhos, aterrorizada com a possibilidade de se ferir.

Não que o ataque proporcionado pelos hologramas pudesse acarretar um ferimento grave, mas – mesmo assim – você preferia não se arriscar. E foi exatamente por isso que se permitiu gritar mais uma vez, os pés se arrastando com força para que a correria fosse cessada. Para sua total desgraça, aquilo não parou Keith.

— Foque na cabeça dele, (s/n)! – disse-lhe segundos antes de atacar novamente. Desta vez, porém, permitiu que o movimento ficasse à sua mercê, forçando-a a desferir o golpe por conta própria.

Pararam, e o segundo holograma, enfim, também desapareceu. Para seu total e puro alívio, mais nenhum deles se fez presente após alguns minutos de silêncio, e o Kogane finalmente se afastou. Contraditório a você, que estava toda esbaforida com aqueles reles minutos de treinamento, ele mal estava suado.

Fitou-o, e Shiro veio até vocês a fim de parabenizá-los.

— Muito bem, vocês dois. É assim que os paladinos devem trabalhar em grupo, afinal. – bateu palmas e, antes de dar continuidade ao que falava, fitou-a: — (s/n), você devia ter mais aulas com o Keith. Assim, vai aprimorar seus conhecimentos.

Uma onda de vergonha tomou seu corpo, fazendo-a se empertigar. Ter aulas com Keith?! Claro que a proposta, em tese, a interessava, mas o fato era que o paladino era muito recluso aos próprios pensamentos e parecia não gostar muito de companhia durante seus treinos. Com certeza não aprovaria a ideia.

Curvou a cabeça, os olhos fixos aos próprios pés.

— E- eu... M- muito obrigada, K- Keith. E- eu... – por mais que soubesse que a ideia dos treinos não seguiria adiante, de qualquer forma resolveu agradecê-lo. Ele se aproximou e pousou os dedos sob seu queixo, levantando-o para que seu olhar encontrasse o dele. – Hã...

— Todos os dias, no mesmo horário. – disse em um tom de voz quase que inaudível. Você, por sua vez, arqueou as sobrancelhas em sinal de dúvida e quase beirou a um infarto quando o Kogane lhe sorriu minimamente, os olhos esbanjando certa ternura. – Isto é, quando não tivermos uma briga para enfrentar, é claro...

— Hããã...

— E tente não se atrasar, está bem? – e foi assim que rumou para a saída, sem mais nada a proferir.

Sorriu.

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